Comentário sobre O Desejado de Todas as Nações, cap. 66-67

“Jesus ressaltou às pessoas que elas não deveriam dar a nenhum homem um título de honra indicando o controle deles sobre sua consciência ou fé”.

Os debates existentes em nossa igreja e a promoção da autoridade por alguns líderes pesam muito sobre meu coração. Eu desejo estar correta com Deus e com os líderes da minha igreja. Eu creio que Jesus também teve os mesmos anseios.

As pessoas eram escravizadas pela reverência à tradição e sua fé cega em um sacerdócio corrupto. Há quem controle a minha consciência, se for dada a oportunidade, negando o trabalho do Espírito Santo em minha vida. Há alguns cujo objetivo principal é controlar os outros e elevar-se. Jesus viu isso e foi direto aos assuntos do coração. Ele não tinha importância naquela sociedade, assim como eu não tenho importância na sociedade em que vivo. Mas Jesus se conduziu com uma dignidade real, porque Ele é o rei. E eu sou filha do rei. Não tenho nada a temer.

Jesus tinha antipatia pelo pecado, mas não pelo pecador. Manter a calma e o recolhimento quando em meio a conflitos e em momentos de estresse é possível quando entendemos a influência de Lúcifer no coração. Nem sempre é fácil amar aqueles que procuram nos controlar ou nos ferir, mas Jesus, o Amante de nossas almas, nos mostrou como fazer isso.

Jennifer Howland
Coordenadora de música e diaconisa
Igreja Adventista de North Anderson
Anderson, Carolina do Sul

Texto original: https://www.revivalandreformation.org/bhp/en/sop/da/66-67   
Tradução: Jobson Santos, Jeferson Quimelli e Gisele Quimelli

 

O DESEJADO DE TODAS AS NAÇÕES, cap. 66-67

CAPÍTULO 66
Conflito

DTN – Pag. 601 Os sacerdotes e príncipes ouviram em silêncio as incisivas repreensões de Cristo. Não Lhe podiam refutar as acusações. Mas só ficaram ainda mais decididos a armar-Lhe ciladas; e com esse desígnio, enviaram-Lhe espias, “que se fingissem justos, para O apanharem nalguma palavra, e O entregarem à jurisdição e poder do presidente”. Luc. 20:20. Não mandaram os velhos fariseus a quem Jesus encontrara muitas vezes, mas jovens, que eram ardentes e zelosos, e os quais, pensavam, Cristo não conhecia. Estes foram acompanhados por certos herodianos, que deviam ouvir as palavras de Cristo, a fim de poderem testificar contra Ele em julgamento. Os fariseus e os herodianos haviam sido acérrimos inimigos, mas estavam agora unidos na inimizade para com Cristo.
Os fariseus sempre se tinham sentido irritados com a cobrança do tributo por parte dos romanos. Sustentavam que o pagamento do tributo era contrário à lei divina. Viram então ensejo de armar uma cilada a Jesus. Os espias foram ter com Ele e, com aparente sinceridade, como desejando conhecer seu dever, disseram: “Mestre, nós sabemos que falas e ensinas bem e retamente, e que não consideras a aparência da pessoa, mas ensinas com verdade o caminho de Deus. É-nos lícito dar tributo a César ou não?” Luc. 20:21 e 22.
DTN – Pag. 602 Houvessem sido sinceras as palavras: “Nós sabemos que falas e ensinas bem e retamente”, e teriam sido uma confissão admirável. Mas foram ditas para enganar; não obstante, seu testemunho era verdadeiro. Os fariseus sabiam que Cristo dizia e falava o que era reto, e por seu próprio testemunho serão eles julgados.
Os que propunham a pergunta a Cristo, julgavam haver disfarçado suficientemente seu desígnio; mas Jesus leu-lhes o coração como um livro aberto, e sondou-lhes a hipocrisia. “Por que Me tentais?” disse Ele; dando-lhes assim, por mostrar que lhes lia o oculto intento, um sinal que não tinham pedido. Mais confusos ainda ficaram quando acrescentou: “Mostrai-Me uma moeda.” Trouxeram-Lha, e Ele lhes perguntou: “De quem tem a imagem e a inscrição? E, respondendo eles, disseram: De César.” Apontando a inscrição na moeda, disse Jesus: “Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” Luc. 20:23-25.
Os espias haviam esperado que Jesus respondesse diretamente à pergunta, de uma ou de outra maneira. Se Ele dissesse: Não é lícito dar tributo a César, seria levado às autoridades romanas, e preso por incitar rebelião. No caso de declarar lícito pagar o tributo, porém, intentavam acusá-Lo perante o povo como contrário à lei divina. Sentiram-se então confusos e derrotados. Frustraram-se-lhes os planos. A maneira sumária por que fora assentada a questão por eles proposta, deixou-os sem ter que dizer.
A resposta de Cristo não foi uma evasiva, mas uma réplica sincera. Segurando a moeda romana sobre que se achavam inscritos o nome e a imagem de César, declarou que, uma vez que estavam vivendo sob a proteção do poder romano, deviam prestar àquele poder o apoio que lhes exigia, enquanto isso não estivesse em oposição a um mais elevado dever. Mas, conquanto pacificamente sujeitos às leis da Terra, deviam em todos os tempos manter primeiramente lealdade para com Deus.
As palavras do Salvador: “Dai … a Deus o que é de Deus” (Luc. 20:25), foram uma severa repreensão aos intrigantes judeus. Houvessem cumprido fielmente suas obrigações para com Deus, e não teriam chegado a ser uma nação falida, subjugada a uma potência estrangeira. Nenhuma insígnia romana haveria tremulado sobre Jerusalém, nenhuma sentinela romana lhe jazeria às portas, nem romano governo teria reinado dentro de seus muros. A nação judaica estava então pagando a pena de sua apostasia de Deus.
Ao ouvirem os fariseus a resposta de Cristo, “maravilharam-se e, deixando-O, se retiraram”. Mat. 22:22. Ele lhes censurara a hipocrisia e presunção e, assim fazendo, expressara um grande princípio,
DTN – Pag. 603 princípio que define claramente os limites do dever do homem para com o governo civil, e seu dever para com Deus. Para muitos espíritos, ficara assentada uma aflitiva questão. Depois disso, apegaram-se para sempre ao justo princípio. E conquanto muitos se retirassem mal-satisfeitos, viram que o princípio fundamental da questão fora claramente apresentado, e maravilharam-se do vasto alcance do discernimento de Cristo.
Tão logo os fariseus se calaram, os saduceus surgiram com suas astutas interrogações. Os dois partidos achavam-se em oposição amarga. Os fariseus eram rígidos adeptos da tradição. Meticulosos nas cerimônias exteriores, diligentes em abluções, jejuns e longas orações, exibiam-se no dar esmolas. Mas Cristo declarou que eles tornavam vã a lei divina, pelo ensino de mandamentos de homens como doutrinas. Como classe, eram fanáticos e hipócritas; havia, no entanto, entre eles pessoas de genuína piedade, que aceitaram os ensinos de Cristo e se tornaram discípulos Seus. Os saduceus rejeitavam as tradições dos fariseus. Professavam crer a maior parte das Escrituras, e considerá-las como regra de conduta; eram, por assim dizer, cépticos e materialistas.
Os saduceus negavam a existência dos anjos, a ressurreição dos mortos e a doutrina da vida futura, com suas recompensas e castigos. Em tudo isso, diferiam dos fariseus. A ressurreição, especialmente, constituía assunto de debates entre esses dois partidos. Os fariseus haviam sido firmes adeptos da ressurreição, mas nessas discussões seus pontos de vista a respeito da vida futura
DTN – Pag. 604 tornaram-se confusos. A morte viera a ser para eles inexplicável mistério. Sua incapacidade para enfrentar os argumentos dos saduceus dava lugar a contínua irritação. Das discussões entre as duas facções resultavam de ordinário zangadas disputas, deixando-os mais distanciados que antes.
Os saduceus ficavam, em número, muito abaixo de seus oponentes, e não mantinham tão forte domínio sobre o povo comum; mas muitos deles eram ricos e possuíam a influência proporcionada pela fortuna. Em suas fileiras achavam-se incluídos os sacerdotes na sua maior parte, e dentre eles era em geral escolhido o sumo sacerdote. Isso acontecia, entretanto, com a expressa estipulação de não salientarem suas cépticas opiniões. Em razão do número e da popularidade dos fariseus, era necessário aos saduceus condescender exteriormente com suas doutrinas ao exercerem qualquer ofício sacerdotal; mas o próprio fato de serem elegíveis para esses cargos emprestava força a seus erros.
Os saduceus rejeitaram os ensinos de Jesus; Ele era animado por um espírito que não queriam reconhecer tal como se manifestava; e Seus ensinos quanto a Deus e à vida futura contradiziam-lhes as teorias. Acreditavam em Deus como o único ser superior ao homem; mas argumentavam que uma providência que tudo rege e uma previsão divina privariam o homem da liberdade moral, degradando-o à posição de um escravo. Era crença deles que, criando o homem, Deus o deixara livre para dirigir sua própria vida e moldar os acontecimentos do mundo; que o destino deles estava em suas próprias mãos. Negavam que o Espírito de Deus opera por meio dos esforços humanos ou de meios naturais. Todavia, mantinham ainda a opinião de que, pelo devido emprego das faculdades naturais, podia o homem elevar-se e esclarecer-se; que, por meio de rigorosas e austeras exações, sua vida se podia purificar.
Suas idéias de Deus moldavam-lhes o caráter. Como, segundo seu ponto de vista, Ele não Se interessava no homem, tinham pouca consideração uns para com os outros; pouca também era a união entre eles. Recusando-se a aceitar a influência do Espírito Santo sobre a conduta humana, faltava-lhes na vida Seu poder. Como o restante dos judeus, vangloriavam-se muito de seu direito de nascimento como filhos de Abraão e de sua estrita aderência às reivindicações da lei; mas do verdadeiro espírito da lei, da fé e da benevolência de Abraão, eram destituídos. Suas simpatias naturais estavam encerradas num estreito âmbito. Acreditavam possível a todo homem adquirir os confortos e bênçãos
DTN – Pag. 605 da vida; e o coração não se lhes comovia diante das necessidades e sofrimentos dos outros. Viviam para si mesmos.
Por Suas palavras e ações, testificava Cristo de um poder divino que produz resultados sobrenaturais, de uma vida futura além do presente, de Deus como Pai dos filhos dos homens, sempre cuidadoso por seus interesses reais. Revelava a operação do poder divino numa beneficência e compaixão que repreendiam a exclusividade egoísta dos saduceus. Ensinava que, tanto para o bem temporal do homem como para o eterno, Deus opera no coração pelo Espírito Santo. Mostrava o erro de confiar no poder humano para aquela transformação de caráter que só pode ser operada pelo Espírito de Deus.
Esse ensino estavam os saduceus dispostos a desacreditar. Procurando entrar em debate com Jesus, estavam confiantes de Lhe prejudicar o crédito, ainda que não pudessem conseguir Sua condenação. Foi a ressurreição o assunto sobre que preferiram interrogá-Lo. Concordasse Jesus com eles, e isso daria ainda mais motivo de escândalo aos fariseus. Diferisse Ele, e ridicularizar-Lhe-iam os ensinos.
Os saduceus arrazoavam que, se o corpo havia de compor-se, em seu estado imortal, das mesmas partículas de matéria que no estado mortal, então ao ressuscitar devia possuir carne e sangue, e retomar no mundo eterno a vida interrompida aqui na Terra. Nesse caso, concluíam, as relações terrenas continuariam, marido e mulher estariam juntos, realizar-se-iam casamentos, e todas as coisas prosseguiriam da mesma maneira que antes da morte, sendo as fraquezas e paixões desta vida perpetuadas na vida por vir.
Em resposta a suas perguntas, Jesus ergueu o véu da vida futura. “Na ressurreição”, disse Ele, “nem casam nem são dados em casamento; mas serão como os anjos de Deus no Céu.” Mat. 22:30. Mostrou que os saduceus estavam errados em sua crença. Eram falsas suas premissas. “Errais”, acrescentou, “não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus.” Mat. 22:29. Não os acusou, como fizera aos fariseus, de hipocrisia, mas de erro de crença.
Os saduceus haviam-se lisonjeado de seguirem as Escrituras mais estritamente que todos os outros homens. Mas Jesus mostrou que não lhe haviam compreendido o verdadeiro sentido. Esse conhecimento devia penetrar na alma, mediante a iluminação do Espírito Santo. Sua ignorância das Escrituras e do poder de Deus, declarou Ele ser a causa da confusão de sua fé e das trevas de sua mente. Estavam procurando pôr os mistérios de Deus
DTN – Pag. 606 no âmbito de seu limitado raciocínio. Cristo os chamou a abrir a mente às sagradas verdades que dilatariam e robusteceriam o entendimento. Milhares de criaturas se tornam incrédulas, porque sua mente finita não pode compreender os mistérios divinos. Não podem explicar a maravilhosa manifestação do poder divino em Suas providências, portanto rejeitam as demonstrações desse poder, atribuindo-o a agentes naturais que menos ainda podem compreender. A única chave para os mistérios que nos circundam, é reconhecer em todos eles a presença e o poder divinos. Os homens necessitam reconhecer a Deus como Criador do Universo. Alguém que tudo ordena e executa tudo. Necessitam de mais larga visão de Seu caráter, e do mistério de Suas instrumentalidades.
Cristo declarou a Seus ouvintes que, se não houvesse ressurreição de mortos, as Escrituras em que professavam crer de nenhum proveito seriam. Disse: “E, acerca da ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus vos declarou, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó? Ora, Deus não é Deus de mortos, mas de vivos.” Mat. 22:31 e 32. Deus reputa as coisas que não são como se fossem. Vê o fim desde o começo, e contempla o resultado de Sua obra como se ela já estivesse acabada. Os preciosos mortos, desde Adão aos últimos santos que morrerem, hão de ouvir a voz do Filho de Deus, e sairão dos sepulcros para a vida imortal. Deus será o seu Deus, e eles serão o Seu povo. Haverá íntima e terna relação entre Deus e os santos ressuscitados. Essa condição, antecipada em Seu desígnio, contempla como se já existisse. Os mortos vivem para Ele.
Os saduceus foram reduzidos ao silêncio pelas palavras de Cristo. Não Lhe podiam responder. Nem uma palavra fora proferida de que se pudessem aproveitar no mínimo que fosse para Sua condenação. Seus adversários não haviam conseguido nada senão o desprezo do povo.
Os fariseus, entretanto, não desistiram de O forçar a dizer qualquer coisa que pudessem empregar contra Ele. Influenciaram certo escriba instruído para perguntar a Jesus qual dos dez mandamentos da lei era de maior importância.
Haviam os fariseus exaltado os primeiros quatro preceitos, que indicam o dever do homem para com o Criador, como sendo de muito mais conseqüências que os outros seis, que definem o dever do homem para com seus semelhantes. Em resultado, falharam
DTN – Pag. 607 grandemente em matéria de piedade prática. Jesus mostrara ao povo sua grande deficiência e ensinara a necessidade de boas obras, declarando que a árvore se conhece por seus frutos. Por esse motivo fora acusado de exaltar os últimos seis mandamentos acima dos quatro primeiros.
O doutor da lei aproximou-se de Jesus com uma pergunta franca: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?” A resposta de Cristo é positiva e vigorosa: “O primeiro de todos os mandamentos, é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás pois ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças: este é o primeiro mandamento.” O segundo é semelhante ao primeiro, disse Cristo; pois emana dele: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.” “Desses dois mandamentos depende toda a lei e os profetas.” Mar. 12;28-30.
Os primeiros quatro dos dez mandamentos resumem-se num grande preceito: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração.” Os últimos seis estão incluídos no outro: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Mat. 12:31. Ambos estes mandamentos são uma expressão do princípio do amor. Não se pode guardar o primeiro e violar o segundo, nem se pode observar o segundo enquanto se transgride o primeiro. Quando Deus ocupa o lugar que Lhe é devido no trono do coração, será dado ao próximo o lugar que lhe pertence. Amá-lo-emos como a nós mesmos. E só quando amamos a Deus de maneira suprema, é possível amar o nosso semelhante com imparcialidade.
E uma vez que todos os mandamentos se resumem no amor a Deus e ao homem, segue-se que nenhum preceito pode ser violado sem se transgredir este princípio. Assim ensinou Cristo a Seus ouvintes que a lei divina não se constitui de muitos preceitos separados, alguns dos quais são de grande importância ao passo que outros são menos importantes, podendo ser impunemente passados por alto. Nosso Senhor apresenta os primeiros quatro e os últimos seis mandamentos como um todo divino, e ensina que o amor a Deus se revelará pela obediência a todos os Seus mandamentos.
O escriba que interrogara Jesus era bem versado na lei, e admirou-se de Suas palavras. Não esperava que Ele manifestasse tão profundo e completo conhecimento das Escrituras. Obtivera uma visão mais ampla dos princípios básicos dos sagrados preceitos. Em presença dos sacerdotes e principais congregados, reconheceu sinceramente haver Cristo dado à lei a justa interpretação, dizendo:
“Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que há um só Deus, e que não há outro além dEle; e que amá-Lo de todo o
DTN – Pag. 608 coração, e de todo o entendimento, e de toda a alma, e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios.” Mar. 12:32 e 33.
A sabedoria da resposta de Cristo convencera o escriba. Sabia consistir a religião judaica mais em cerimônias exteriores que em piedade interior. Sentia de certo modo a inutilidade de ofertas meramente cerimoniais e do derramamento de sangue para expiação do pecado, quando destituído de fé. Amor e obediência para com Deus, e desinteressada consideração para com o homem, pareciam-lhe de mais valor que todos esses ritos. A prontidão desse homem para reconhecer a exatidão do raciocínio de Cristo, e sua decidida e imediata resposta perante o povo, manifestavam um espírito inteiramente diferente do dos sacerdotes e príncipes. O coração de Jesus moveu-se de piedade para com o sincero escriba que ousara enfrentar os sobrecenhos dos sacerdotes e as ameaças dos príncipes, para declarar as convicções de seu coração. “E Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-lhe: Não estás longe do reino de Deus.” Mar. 12:34.
O escriba estava próximo do reino de Deus, porque reconhecia que atos de justiça Lhe são mais aceitáveis do que holocaustos e sacrifícios. Mas devia reconhecer o divino caráter de Cristo e, mediante a fé nEle, receber o poder para realizar as obras de justiça. O serviço ritual não era de nenhum valor, a menos que fosse ligado a Cristo por uma fé viva. Mesmo a lei moral falha em seu desígnio, a menos que seja entendida em sua relação para com o Salvador. Cristo mostrara repetidamente que a lei de Seu Pai encerrava alguma coisa mais profunda que simples dogmáticos mandamentos. Acha-se encarnado na lei o mesmo princípio revelado no evangelho. A lei indica o dever do homem e mostra-lhe sua culpa. A Cristo deve ele olhar, em busca de perdão e poder para cumprir o que a lei ordena.
Os fariseus haviam-se reunido mais próximo de Jesus, ao responder à indagação do escriba. Voltando-Se então, dirigiu-lhes Ele uma pergunta: “Que pensais vós de Cristo? De quem é Filho?” Essa interrogação destinava-se a provar sua crença no Messias – mostrar se O consideravam simplesmente um homem ou Filho de Deus. Um coro de vozes respondeu: “De Davi.” Mat. 22:42.
Era esse o título que a profecia dera ao Messias. Ao revelar Jesus Sua divindade mediante os poderosos milagres que operava, curando os doentes e ressuscitando os mortos, o povo indagava entre si: “Não é este o Filho de Davi?” A mulher siro-fenícia, o cego Bartimeu e muitos outros a Ele haviam clamado por socorro: “Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” Mat. 15:22. Quando cavalgava para entrar em Jerusalém, fora saudado com a jubilosa
DTN – Pag. 609 aclamação: “Hosana ao Filho de Davi; bendito o que vem em nome do Senhor.” Mat. 21:9. E as criancinhas, no templo, fizeram ecoar naquele dia o alegre tributo. Mas muitos dos que chamavam Jesus Filho de Davi não reconheciam Sua divindade. Não compreendiam que o Filho de Davi era também o Filho de Deus.

Em resposta à declaração de que Cristo era o Filho de Davi, disse Jesus: “Como é então que Davi, em Espírito [o Espírito de inspiração de Deus] Lhe chama Senhor, dizendo: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-Te à Minha direita, até que Eu ponha os Teus inimigos por escabelo de Teus pés? Se Davi pois Lhe chama Senhor, como é seu filho? E ninguém podia responder-Lhe uma palavra: nem desde aquele dia ousou mais alguém interrogá-Lo.” Mat. 22:43-46.​

CAPÍTULO 67
Ais Sobre os Fariseus

DTN – Pag. 610 Era o derradeiro dia em que Cristo ensinava no templo. Das vastas multidões que se reuniam em Jerusalém, a atenção toda era atraída para Ele; o povo que se apinhara nos pátios do templo, acompanhara o debate que se verificara, apanhando cada palavra que Lhe caíra dos lábios. Nunca dantes fora testemunhada uma cena igual. Ali Se achava o jovem Galileu, não ostentando nenhuma honra terrena nem nenhuma insígnia real. Ao redor dEle achavam-se sacerdotes em seus ricos paramentos, príncipes com as vestes e insígnias indicadoras de sua alta posição, e escribas segurando rolos, aos quais faziam freqüentes referências. Jesus permanecia entre eles sereno, com a dignidade de um rei. Como alguém que se acha revestido de celeste autoridade, olhava imperturbável Seus adversários, os quais Lhe haviam rejeitado e desprezado os ensinos, e tinham-Lhe sede à vida. Haviam-nO assaltado em grande número, mas foram vãos seus planos para O enredarem e condenarem. Repto após repto tivera Ele de enfrentar, apresentando a pura, luminosa verdade em contraste com as trevas e os erros dos sacerdotes e fariseus. Expusera perante esses guias seu verdadeiro estado, e a retribuição que se seguiria infalivelmente à persistência em suas más ações. A advertência
DTN – Pag. 611 fora dada fielmente. Contudo, outra obra restava a Cristo. Outro desígnio se devia ainda cumprir.
O interesse do povo em Cristo e Sua obra crescera constantemente. Estavam encantados com Seus ensinos, mas, por outro lado, grandemente perplexos. Haviam respeitado os sacerdotes e rabis por sua inteligência e aparente piedade. Em todos os assuntos religiosos, sempre tinham rendido implícita obediência à autoridade deles. Todavia, agora viam esses homens procurando desacreditar Jesus, Mestre cuja virtude e conhecimento brilhavam mais a cada novo assalto. Olhando para as abaixadas frontes dos sacerdotes e anciãos, aí viam derrota e confusão. Admiravam-se de que os principais não cressem em Jesus, quando Seus ensinos eram tão claros e simples. E não sabiam que direção haviam eles próprios de tomar. Com viva ansiedade, observavam os movimentos daqueles cujos conselhos sempre tinham seguido.
Nas parábolas ditas por Cristo, era Seu desígnio tanto advertir os guias, como instruir o povo que desejava ser ensinado. Havia, porém, necessidade de falar ainda mais claramente. Devido a sua reverência pela tradição e sua fé cega num sacerdócio corrompido, achava-se o povo escravizado. Essas cadeias, devia Cristo
DTN – Pag. 612 quebrar. Era preciso expor mais plenamente o caráter dos sacerdotes, principais e fariseus.
“Na cadeira de Moisés”, disse ele, “estão assentados os escribas e fariseus. Observai, pois, e praticai tudo o que vos disserem; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não praticam.” Mat. 23:2 e 3. Os escribas e fariseus pretendiam achar-se investidos de divina autoridade idêntica à de Moisés. Arrogavam-se seu lugar como expositores da lei e juízes do povo. Como tais, exigiam do mesmo a mais completa deferência e submissão. Jesus mandou que Seus ouvintes fizessem aquilo que os rabis ensinassem de acordo com a lei, mas não lhes seguissem o exemplo. Eles próprios não praticavam o que ensinavam.
E ensinavam muito que era contrário às Escrituras. Disse Jesus: “Atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-los.” Mat. 23:4. Os fariseus impunham uma multidão de regulamentos, com base na tradição, os quais restringiam irrazoavelmente a liberdade pessoal. E certas porções da lei explicavam de maneira a impor ao povo observância que eles próprios, secretamente, passavam por alto, e das quais, quando convinha aos seus desígnios, pretendiam na verdade estar isentos.
Fazer ostentação de sua piedade, eis seu constante objetivo. Coisa alguma era considerada demasiado sagrada para servir a esse fim. Deus dissera a Moisés com referência a Suas ordenanças: “Também as atarás por sinal na tua mão e te serão por testeira entre os teus olhos.” Deut. 6:8. Essas palavras têm profunda significação. À medida que a Palavra de Deus é meditada e posta em prática, o homem todo é enobrecido. Num trato justo e misericordioso, as mãos revelarão, como um selo, os princípios da lei divina. Conservar-se-ão limpas de suborno, e de tudo quanto é corrompido e enganoso. Serão ativas em obras de amor e compaixão. Os olhos, dirigidos para um nobre fito, serão limpos e leais. O semblante expressivo, o eloqüente olhar, testificarão do irrepreensível caráter daquele que ama e honra a Palavra divina. Pelos judeus dos dias de Cristo, porém, todas estas coisas não eram discernidas. O mandamento dado a Moisés fora interpretado no sentido de que os preceitos da Escritura deviam ser usados sobre o corpo. Eram, portanto, escritos em tiras de pergaminho e presos, muito ostensivamente, em torno da cabeça e dos pulsos. Isso, porém, não fazia com que a lei de Deus se firmasse mais na mente e no coração. Esses pergaminhos eram usados meramente como insígnias, para chamar a atenção. Supunha-se que
DTN – Pag. 613 davam aos que os usavam um ar de devoção que imporia reverência ao povo. Jesus desferiu um golpe nessa vã pretensão:
“Fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens; pois trazem largos filactérios, e alargam as franjas de seus vestidos, e amam os primeiros lugares nas ceias, e as primeiras cadeiras nas sinagogas, e as saudações nas praças, e o serem chamados pelos homens – Rabi, Rabi. Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi, porque um só é o vosso Mestre, a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos. E a ninguém na Terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos Céus. Nem vos chameis mestres, porque só um é o vosso Mestre, que é o Cristo.” Mat. 23:5-10. Em palavras assim positivas revelou o Salvador as ambições egoístas que sempre buscavam lugar e poder, exibindo uma fictícia humildade, enquanto o coração estava cheio de avareza e inveja. Ao serem as pessoas convidadas a um banquete, colocavam-se os convivas segundo sua posição, e aqueles a quem se concedia o mais honroso lugar, eram objeto de maiores atenções e favores especiais. Os fariseus sempre estavam manejando para assegurar-se essas honras. Esse costume Jesus censurou.
Reprovou também a vaidosa ostentação de cobiçar o título de rabi, ou de mestre. Esse título, declarou, não pertencia a homens, mas ao Cristo. Sacerdotes, escribas e príncipes, expositores e ministradores da lei, eram todos irmãos, filhos do mesmo Pai. Jesus ensinou positivamente o povo a não dar a nenhum homem um título de honra que indicasse possuir ele domínio sobre sua consciência ou sua fé.
Se Cristo Se encontrasse hoje na Terra, rodeado pelos que usam o título de “Reverendo”, “Reverendíssimo”, não repetiria Suas palavras: “Nem vos chameis, mestres, porque um só é o vosso Mestre, que é o Cristo”? Mat. 23:10. A Escritura declara a respeito de Deus: “Santo e tremendo [“reverendo” dizem outras versões] é o Seu nome.” Sal. 111:9. A que ser humano cabe esse título? Quão pouco revela o homem da sabedoria e da justiça que o mesmo indica! Quantos dos que aceitam esse título estão representando mal o nome e o caráter de Deus! Ai, quantas vezes se têm a ambição mundana, o despotismo e os mais baixos pecados escondido sob as bordadas vestes de um elevado e santo cargo! O Salvador continuou:
“Porém o maior dentre vós será vosso servo. E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado.” Mat. 23:11 e 12. Repetidamente ensinara Cristo que a verdadeira grandeza se mede pelo valor moral. Na estimativa celeste, a grandeza de caráter consiste em viver para o bem-estar de
DTN – Pag. 614 nossos semelhantes, em praticar obras de amor e de misericórdia. Cristo, o Rei da Glória, foi servo do homem caído.
“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas!” disse Jesus, “pois que fechais aos homens o reino dos Céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando.” Mat. 23:13. Pervertendo as Escrituras, os sacerdotes e doutores da lei cegavam o espírito dos que, de outro modo, teriam recebido conhecimento do reino de Cristo, e aquela vida interior, divina, essencial à verdadeira santidade.
“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! pois que devorais as casas das viúvas, sob pretexto de prolongadas orações; por isso sofrereis mais rigoroso juízo.” Mat. 23:14. Os fariseus tinham grande influência sobre o povo, e disso se aproveitavam para servir os próprios interesses. Conquistavam a confiança de piedosas viúvas, e então lhes apresentavam, como seu dever, consagrar sua propriedade a fins religiosos. Havendo conseguido domínio sobre seus bens, os astutos calculistas empregavam-nos para seu próprio benefício. Para encobrir sua desonestidade, faziam longas orações em público, e grande ostentação de piedade. Essa hipocrisia Cristo declarou que lhes traria maior condenação. A mesma repreensão recai hoje sobre muitos que fazem grande profissão de piedade. Sua vida é manchada de avareza e egoísmo, e todavia lançam sobre tudo isso um manto de aparente pureza, e assim por algum tempo enganam os semelhantes. Mas não podem enganar a Deus. Ele lê todo desígnio do coração, e julgará todo homem segundo as suas ações.
Cristo condenou fartamente os abusos, mas teve cuidado de não diminuir a obrigação. Repreendeu o egoísmo que extorquia e dava má aplicação às dádivas da viúva. Ao mesmo tempo louvou a viúva que trouxe sua oferta para o tesouro do Senhor. O abuso que praticava o homem com a dádiva, não podia desviar da doadora a bênção divina.
Jesus estava no pátio onde se achava a arca do tesouro, e observava os que ali iam depositar as ofertas. Muitos dos ricos levavam grandes somas, que apresentavam com grande ostentação. Jesus os contemplava tristemente, mas não fez comentário algum acerca de suas liberais ofertas. Num momento, Sua fisionomia iluminou-se ao ver uma pobre viúva aproximar-se hesitante, como receosa de ser observada. Enquanto os ricos e altivos se apressavam para depor suas dádivas, ela se retraía, como se mal ousasse adiantar-se. Todavia, anelava fazer qualquer coisa, por pequenina que fosse, pela causa que amava. Contemplou a dádiva que tinha na mão. Era demasiado pequena em comparação com as ofertas dos que a rodeavam; ali estava, no entanto, tudo quanto
DTN – Pag. 615 possuía. Espreitando o ensejo, deitou apressadamente suas duas moedinhas, e virou-se para se afastar, ligeira. Ao fazê-lo, porém, encontrou o olhar de Jesus, cravado nela.
O Salvador chamou a Si os discípulos, e convidou-os a notar a pobreza da viúva. Então soaram aos ouvidos dela Suas palavras de louvor: “Em verdade vos digo que lançou mais do que todos, esta pobre viúva.” Luc. 21:3. Lágrimas de alegria lhe encheram os olhos, ao ver que seu ato era compreendido e apreciado. Muitos tê-la-iam aconselhado a guardar seu escasso recurso para o próprio uso; dado às mãos dos bem nutridos sacerdotes, perder-se-ia de vista entre os muitos custosos dons levados ao tesouro. Mas Jesus entendeu-lhe o motivo. Ela cria que o serviço do templo era indicado por Deus, e estava ansiosa por fazer tudo que lhe era possível para sua manutenção. Fez o que pôde e sua ação serviria de monumento a sua memória, através dos tempos, e alegria na eternidade. O coração acompanhou-lhe a dádiva; seu valor foi estimado, não pela importância da moeda, mas pelo amor para com Deus e o interesse para com Sua obra, que a motivaram.
Jesus disse da viúva pobre: Ela “lançou mais do que todos”. Os ricos deram de sua abundância, muitos deles para serem vistos e honrados pelos homens. Seus grandes donativos não os privaram de nenhum conforto, nem mesmo do luxo; não tinham exigido nenhum sacrifício que pudesse ser comparado, em valor, com as moedas da viúva.
É o motivo que imprime cunho às nossas ações, assinalando-as com ignomínia ou elevado valor moral. Não são as grandes coisas que todos os olhos vêem e toda língua louva, que Deus reputa mais preciosas. Os pequenos deveres cumpridos com contentamento, as pequeninas dádivas que não fazem vista, e podem parecer destituídas de valor aos olhos humanos, ocupam muitas vezes diante de Deus o mais alto lugar. Um coração de fé e amor é mais precioso para Deus que os mais custosos dons. A viúva pobre deu sua subsistência para fazer o pouco que fez. Privou-se de alimento para oferecer aquelas duas moedinhas à causa que amava. E fê-lo com fé, sabendo que seu Pai Celestial não passaria por alto sua grande necessidade. Foi esse espírito abnegado e essa infantil fé que atraiu o louvor do Senhor.
Existem entre os pobres muitos que anelam manifestar gratidão para com Deus por Sua graça e verdade. Desejam ardentemente tomar parte, com seus irmãos mais prósperos, na manutenção de Seu serviço. Essas almas não devem ser repelidas. Permita-se-lhes pôr suas moedas no banco do Céu. Dadas com o coração cheio de amor para com Deus, essas ninharias aparentes tornam-se dádivas consagradas, inapreciáveis ofertas que Deus aprova e abençoa.
DTN – Pag. 616 Quando Jesus disse da viúva que ela “lançou mais do que todos”, Suas palavras eram verdadeiras, não somente quanto ao motivo, mas no que respeita aos resultados da oferta. As “duas pequenas moedas correspondentes a um quadrante” têm trazido ao tesouro do Senhor uma quantia muito superior às contribuições daqueles ricos judeus. A influência daquela pequenina oferta tem sido como um rio, pequeno ao começo, mas que se amplia e aprofunda à medida que corre através dos séculos. Tem contribuído por mil maneiras para alívio dos pobres e disseminação do evangelho. Seu exemplo de sacrifício tem agido e tornado a agir sobre milhares de corações em todas as terras e em todos os séculos. Tem sido como um apelo dirigido a ricos e pobres, e as dádivas destes avolumaram o valor da oferta da viúva. A bênção divina sobre as suas moedas, tem feito delas fonte de grandes resultados. Assim quanto a todo dom oferecido e todo ato realizado com sincero desejo de promover a glória de Deus. Liga-se aos desígnios do Onipotente. Seus resultados para o bem não podem ser calculados por homem algum.
O Salvador continuou Suas acusações aos escribas e fariseus: “Ai de vós, condutores cegos! pois que dizeis: qualquer que jurar pelo templo, isso nada é; mas o que jurar pelo ouro do templo, esse é devedor. Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro, ou o templo, que santifica o ouro? E aquele que jurar pelo altar, isso nada é; mas aquele que jurar pela oferta que está sobre o altar, esse é devedor. Insensatos e cegos! Pois qual é maior: a oferta, ou o altar, que santifica a oferta?” Mat. 23:16-19. Os sacerdotes interpretavam as reivindicações divinas segundo sua própria norma falsa e estreita. Presumiam fazer justas diferenças quanto à relativa culpa de vários pecados, passando levemente por alto alguns, e tratando outros, talvez de menos conseqüência, como imperdoáveis. Por considerações monetárias desculpavam pessoas de seus votos. E por grandes somas de dinheiro passavam por alto graves crimes. Ao mesmo tempo esses sacerdotes e príncipes, em outros casos, proferiam severo juízo por ofensas triviais.
“Ai de vós escribas e fariseus hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas.” Mat. 23:23. Nessas palavras Cristo torna a condenar o abuso das obrigações sagradas. Não põe de lado a própria obrigação. O sistema do dízimo foi ordenado por Deus, e havia sido observado desde os primitivos tempos. Abraão, o pai dos fiéis, deu dízimo de tudo quanto possuía. Os príncipes judaicos reconheciam a obrigação de dizimar, e isso era justo; mas não
DTN – Pag. 617 deixavam o povo manter suas próprias convicções do dever. Estabeleciam-se regras arbitrárias para todos os casos. As exigências se haviam tornado tão complicadas, que era impossível cumpri-las. Ninguém sabia quando havia satisfeito suas obrigações. Segundo fora dado por Deus, o sistema era justo e razoável; mas os sacerdotes e rabis o tinham transformado em carga enfadonha.
Tudo quanto Deus ordena, é de importância. Cristo reconhecia como dever o dar o dízimo; mas mostrou que isso não podia desculpar a negligência de outros deveres. Os fariseus eram muito exatos em dizimar ervas da horta, tais como hortelã, endro e cominho; isso pouco lhes custava, dando-lhes reputação de exatidão e santidade. Ao mesmo tempo suas inúteis restrições oprimiam o povo e destruíam o respeito pelo sagrado sistema designado por Deus. Ocupavam a mente dos homens com insignificantes distinções, e desviavam-lhes a atenção das verdades essenciais. Negligenciavam-se os assuntos de mais peso da lei, justiça, misericórdia e verdade. “Deveis, porém, fazer estas coisas”, disse Cristo, “e não omitir aquelas.” Mat. 23:23.
Outras leis foram semelhantemente pervertidas pelos rabis. Nas instruções dadas por intermédio de Moisés, era proibido comer qualquer coisa imunda. O uso da carne de porco, e da carne de certos outros animais, era proibido, como sendo de molde a encher o sangue de impurezas e abreviar a vida. Mas os fariseus não deixaram essas restrições como Deus as ordenara. Foram a extremos injustificáveis. Entre outras coisas, tinha o povo que coar toda a água de uso, não contivesse ela o mais pequenino inseto, o qual poderia ser classificado entre os animais imundos. Jesus, comparando essas fúteis exações com a magnitude de seus pecados reais, disse aos fariseus: “Condutores cegos! que coais um mosquito e engolis um camelo.” Mat. 23:24. “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia.” Mat. 23:27. Como os branqueados sepulcros, belamente ornamentados ocultavam os putrefatos restos no interior, assim a aparente santidade dos sacerdotes e príncipes escondia iniqüidade. Jesus continuou:
“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! pois que edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos, e dizeis: Se existíssemos no tempo de nossos pais, nunca nos associaríamos com eles para derramar o sangue dos profetas. Assim,
DTN – Pag. 618 vós mesmos testificais que sois filhos dos que mataram os profetas.” Mat. 23:29-31. Para mostrar sua estima pelos profetas mortos, os judeus eram muito zelosos em embelezar-lhes os sepulcros; mas não aproveitavam seus ensinos, nem davam ouvidos às suas reprovações.
Nos dias de Cristo nutria-se uma supersticiosa consideração para com os túmulos dos mortos, e prodigalizavam-se grandes somas no adorno dos mesmos. Aos olhos de Deus isso era idolatria. Em sua indevida consideração para com os mortos, os homens mostravam não amar a Deus sobre tudo, e ao próximo como a si mesmos. A mesma idolatria está sendo hoje levada bem longe. Muitos são culpados de negligenciar as viúvas e os órfãos, os doentes e os pobres, a fim de construírem custosos monumentos para os mortos. Tempo, dinheiro e trabalho são abundantemente despendidos para esse fim, ao passo que os deveres para com os vivos – deveres positivamente ordenados por Cristo – são deixados por cumprir.
Os fariseus construíam os sepulcros dos profetas, e os adornavam, e diziam uns para os outros: Se existíssemos no tempo de nossos pais, nunca nos associaríamos a eles para derramar o sangue dos servos de Deus. Ao mesmo tempo estavam planejando tirar a vida de Seu Filho. Isso nos deve servir de lição. Deve-nos abrir os olhos ao poder de Satanás para enganar a mente que se desvia da luz da verdade. Muitos seguem nas pegadas dos fariseus. Reverenciam os que morreram por sua fé. Admiram-se da cegueira dos judeus em rejeitar a Cristo. Houvéssemos vivido em Seu tempo, declaram, e com prazer Lhe receberíamos os ensinos; nunca teríamos tomado parte no crime dos que rejeitaram o Salvador. Mas quando a obediência a Deus requer abnegação e humilhação, essas mesmas pessoas abafam suas convicções e recusam obediência. Assim manifestam o mesmo espírito que os fariseus a quem Cristo condenou.
Mal avaliavam os judeus a terrível responsabilidade envolvida na rejeição de Cristo. Desde o tempo em que foi derramado o primeiro sangue inocente, quando o justo Abel caiu pela mão de Caim, repetira-se a mesma história com progressiva culpa. Em todos os séculos haviam profetas erguido a voz contra os pecados dos reis, autoridades e povo, dizendo as palavras que Deus lhes dera e obedecendo à Sua vontade com perigo da própria vida. De geração para geração se estivera acumulando uma terrível punição contra os rejeitadores da luz e da verdade. Essa os inimigos de Cristo estavam então atraindo sobre as próprias cabeças. O pecado dos sacerdotes e principais era maior que o de qualquer geração anterior. Por sua rejeição do Salvador, estavam-se
DTN – Pag. 619 tornando responsáveis pelo sangue de todos os justos mortos desde Abel até Cristo. Estavam prestes a fazer transbordar sua taça de iniqüidade. E dentro em pouco lhes seria ela derramada sobre a cabeça em juízo de retribuição. Disso os advertiu Jesus:
“Para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a Terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar. Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir sobre esta geração.” Mat. 23:35 e 36.
Os escribas e fariseus que escutavam Jesus, sabiam que Suas palavras eram verdadeiras. Sabiam como fora morto o profeta Zacarias. Enquanto as palavras de advertência vindas de Deus se achavam em seus lábios, uma fúria satânica apoderou-se do rei apóstata e, por sua ordem, foi morto o profeta. Seu sangue assinalara as pedras do próprio pátio do templo, e não pôde ser apagado; ali ficou para dar testemunho contra o apóstata Israel. Enquanto o templo existisse, ali estaria a mancha daquele sangue justo, clamando a Deus vingança. Ao referir-Se Jesus a esses terríveis pecados, um arrepio de horror passou pela multidão.
Antevendo o futuro, declarou Jesus que a impenitência dos judeus e sua intolerância para com os servos do Senhor seriam futuramente as mesmas do passado:
“Portanto, eis que Eu vos envio profetas, sábios e escribas; e a uns deles matareis e crucificareis; e a outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade.” Mat. 23:34. Profetas e sábios, cheios de fé e do Espírito Santo – Estêvão, Tiago e muitos outros – seriam condenados e mortos. Com a mão erguida para o Céu e uma luz divina a circundá-Lo, Cristo falou como juiz aos que se achavam diante dEle. Sua voz, tantas vezes ouvida em suavidade e súplica, fazia-se agora ouvir em censura e condenação. Os ouvintes tremeram. Jamais se havia de apagar a impressão produzida por Suas palavras e Seu olhar.
A indignação de Cristo era contra a hipocrisia, os crassos pecados pelos quais os homens estavam destruindo a própria alma, enganando o povo e desonrando a Deus. No enganador raciocínio dos sacerdotes e principais, distinguia Ele a operação de forças satânicas. Viva e penetrante fora Sua acusação do pecado; mas não proferiu palavras de vingança. Tinha uma santa indignação contra o príncipe das trevas; mas não manifestava nenhuma irritação. Assim o cristão que vive em harmonia com Deus, possuindo os suaves atributos do amor e da misericórdia, experimentará uma justa indignação contra o pecado;
DTN – Pag. 620 mas não se tomará de paixão para injuriar os que injuriam. Mesmo enfrentando os que se acham movidos pelas forças de baixo para manter a falsidade, em Cristo conservará ele ainda a calma e o domínio de si mesmo.
No semblante do Filho de Deus estampava-se divina piedade ao deitar Ele um demorado olhar ao templo, e depois, aos ouvintes. Numa voz agitada por profunda angústia de coração e amargas lágrimas, Ele exclamou: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis Eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!” Mat. 23:37. É a luta da separação. Na lamentação de Cristo, extravasava o próprio coração de Deus. É o misterioso adeus do longânimo amor da Divindade.
Fariseus e saduceus igualmente emudeceram. Jesus chamou Seus discípulos, e preparou-Se para deixar o templo, não como um vencido e forçado a retirar-se da presença dos adversários, mas como alguém cuja obra está concluída. Retirou-Se do conflito, vencedor.
As gemas de verdade caídas dos lábios de Cristo, naquele dia memorável, foram entesouradas em muitos corações. Para eles começou uma nova corrente de pensamentos, aspirações novas foram despertadas, e teve início uma nova época. Depois da crucifixão e ressurreição de Cristo, estas pessoas foram para a frente, e cumpriram sua divina missão com uma sabedoria e zelo correspondentes à grandeza da obra. Deram uma mensagem que falava aos corações dos homens, enfraquecendo as velhas superstições que haviam por muito tempo feito definhar a vida de milhares. Em face de seu testemunho, as teorias e filosofias humanas tornaram-se quais ociosas fábulas. Poderosos foram os resultados que emanaram das palavras do Salvador àquela turba admirada e cheia de temor, no templo de Jerusalém.
Mas Israel, como nação, divorciara-se de Deus. Os ramos naturais da oliveira foram quebrados. Olhando pela última vez para o interior do templo, Jesus disse em patética lamentação: “Eis que a vossa casa vai ficar-vos deserta; porque Eu vos digo que desde agora não Me vereis mais, até que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor.” Mat. 23:38 e 39. Até então Ele chamara o templo a casa de Seu Pai; mas agora, ao sair o Filho de Deus de entre aquelas paredes, a presença de Deus seria para sempre retirada do templo construído para Sua glória. Daí em diante suas cerimônias seriam destituídas de sentido, uma zombaria seus cultos.

COMENTÁRIO SOBRE DTN, cap. 63-65 – semana do dia 09/09/2018

O povo de Deus é representado graficamente nestes três capítulos. Seja regozijando-se na ignorância do iminente sacrifício de Jesus ou possuindo a presunçosa certeza de ser um membro do povo escolhido, faz pouca diferença quanto ao resultado desastroso. Da mesma forma para nós hoje, o fato de possuirmos “a verdade” ou sermos ignorantes dela, faz pouca diferença se não estivermos ligados a Jesus.

Todo o Céu está intensamente focado em ajudar o povo de Deus a entender quem é Jesus, Seu amor que nâo desiste e Seu grande desejo de se conectar com cada um de nós em um nível pessoal. Pois somente através da conexão vital com Ele podemos alcançar a justiça que Ele deseja conceder a nós, tornando-nos aptos para o céu.

A surpreendente maldição de Cristo sobre a figueira traz uma advertência profunda e sóbria para nós hoje. Israel se destruiu ao rejeitar Jesus e, assim, perdeu sua proteção. Nós também temos a escolha de apenas parecer bem externamente, mas ser estéril e eternamente perdido; ou estar conectado com Jesus, produzindo o fruto do Espírito e vivendo vidas de serviço a Deus e ao Seu povo.

Limpar o templo de motivos e ações hostis ao propósito de Deus parece à primeira vista uma ação surpreendente de Jesus, ao contrário de Sua instrução usual e serviço amoroso. No entanto, uma vez expulsa a cobiça, a desonestidade e a grosseira representação do propósito de Deus, Jesus poderia novamente retomar Seu ministério de cura. Da mesma forma, uma vez que nos conectamos com Jesus e permitimos que Ele expulse as falhas de caráter dos templos de nossos corações, Ele está livre para fazer milagres de restauração e cultivar o fruto de Seu Espírito dentro de nós.

Eileen Van Tassel
Anciã da IASD Riverside, Camas
WA, EUA

 

Fonte: https://www.revivalandreformation.org/bhp/en/sop/da/63-64-65
Tradução: Jeferson Antonio Quimelli

O DESEJADO DE TODAS AS NAÇÕES, cap. 63-65

Capítulo 63 — “Eis que o teu rei virá”

Este capítulo é baseado em Mateus 21:1-11; Marcos 11:1-10; Lucas 19:29-44; João 12:12-19.

Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu Rei virá a ti, justo e Salvador, pobre, e montado sobre um jumento, sobre um asninho, filho de jumenta”. Zacarias 9:9.

Quinhentos anos antes do nascimento de Cristo, o profeta Zacarias assim predisse a vinda do Rei de Israel. Essa profecia devia então cumprir-se. Aquele que por tanto tempo recusara honras reais, vem agora a Jerusalém como o prometido herdeiro do trono de Davi. Foi no primeiro dia da semana que Jesus fez Sua entrada triunfal em Jerusalém. Multidões que haviam afluído a vê-Lo em Betânia, acompanharam-nO, ansiosos de Lhe testemunhar a recepção. Muita gente se achava a caminho de Jerusalém para celebrar a páscoa, e uniu-se à multidão que acompanhava Jesus. Toda a natureza parecia regozijar-se. As árvores estavam verdejantes, e as flores espargiam pelo ar um delicado aroma. O povo achava-se animado de nova vida e alegria. Surgia mais uma vez a esperança do novo reino. Determinado entrar a cavalo em Jerusalém, Jesus mandara dois dos discípulos buscarem para Ele uma jumenta e seu asninho. Por ocasião de Seu nascimento, o Salvador dependeu da hospitalidade de estranhos. A manjedoura em que esteve, foi um lugar de descanso emprestado. Agora, se bem que Seu seja todo o gado sobre milhares de colinas, depende da bondade de um estranho quanto a um animal em que entrar em Jerusalém como Rei. Novamente, porém, se manifesta Sua divindade, mesmo nas mínimas instruções dadas aos discípulos para o desempenho desse mandado. Como predissera, foi prontamente satisfeito o pedido: “O Senhor precisa deles”. Mateus 21:3. Jesus preferiu servir-Se do asninho em que nenhum homem jamais montara. Com alegre entusiasmo, estenderam os discípulos suas vestes sobre o animal e sobre ele sentaram o Mestre. Até então Jesus sempre viajara a pé, e a princípio os discípulos se admiraram de que agora preferisse montar. Mas a esperança lhes raiou no coração ao jubiloso pensamento de que Ele estava para entrar na capital, proclamar-Se Rei, e firmar Seu poder real. Ao irem cumprir as ordens recebidas, comunicaram sua alegre esperança aos amigos de Jesus, e a agitação espalhou-se por toda parte, fazendo com que subisse de ponto a expectação do povo. Cristo estava seguindo o costume judaico nas entradas reais. O animal que montava era o mesmo cavalgado pelos reis de Israel, e a profecia predissera que assim viria o Messias a Seu reino. Logo que Ele Se sentou no jumentinho, um grande grito de triunfo atroou nos ares. A multidão aclamou-O como o Messias, seu Rei. Jesus aceitou agora a homenagem que nunca antes permitira, e os discípulos consideraram isso como prova de que suas alegres esperanças se realizariam, vendo-O estabelecido no trono. O povo ficou convencido de aproximar-se a hora de sua emancipação. Em pensamento viram os exércitos romanos expulsos de Jerusalém, e Israel mais uma vez nação independente. Todos estavam contentes e despertos; disputavam entre si o render-Lhe honras. Não podiam exibir pompas e esplendores, mas prestaram-Lhe o culto de corações felizes. Não lhes era possível presenteá-Lo com dádivas custosas, mas estendiam as vestes exteriores à guisa de tapete em Seu caminho, e também espalharam ramos de oliveira e palmas por onde devia passar. Não podiam abrir o cortejo triunfal com bandeiras reais, mas cortavam ramos de palmeira, os emblemas de vitória da natureza, e os agitavam no ar com altas aclamações e hosanas. À medida que avançavam, aumentava sempre o povo com a reunião dos que tinham ouvido da vinda de Jesus e se apressavam a tomar parte no acompanhamento. Os espectadores continuamente se misturavam à turba, perguntando: Quem é Este? Que quer dizer toda essa agitação? Todos tinham ouvido falar de Jesus, e esperavam que fosse a Jerusalém; mas sabiam que até então Ele Se esquivara a qualquer esforço para O colocar no trono e ficavam muito surpreendidos de saber que este era Ele. Cogitavam que teria operado essa grande mudança nAquele que dissera que Seu reino não era deste mundo. Suas perguntas são abafadas por um grito de triunfo. Este é aqui e ali repetido pela turba despertada, acompanhado pelos mais distantes, e ecoado pelos montes e vales. E depois acresce a comitiva pelas massas vindas de Jerusalém. Das multidões reunidas para assistir à páscoa, milhares saem ao encontro de Jesus. Saúdam-nO com o agitar das palmas e cânticos sagrados. Os sacerdotes fazem soar, no templo, a trombeta para o serviço da tarde, mas poucos atendem, e os príncipes, alarmados, dizem entre si: “Eis que toda a gente vai após Ele”. João 12:19. Nunca antes, em Sua vida terrestre, permitira Jesus essa demonstração. Previa claramente o resultado. Levá-Lo-ia à cruz. Era, porém, Seu desígnio apresentar-Se assim publicamente como Redentor. Desejava chamar a atenção para o sacrifício que Lhe devia coroar a missão para com o mundo caído. Enquanto o povo estava reunido em Jerusalém para a celebração da páscoa, Ele, o Cordeiro de Deus, representado pelos sacrifícios simbólicos, voluntariamente Se pôs de parte como oblação. Seria necessário que Sua igreja, em todos os sucessivos séculos, fizesse de Sua morte pelos pecados do mundo assunto de profunda reflexão e estudo. Todos os fatos com ela relacionados deviam verificar-se de maneira a ficarem acima de qualquer dúvida. Era preciso, pois, que os olhos de todo o povo fossem então dirigidos para Ele; os acontecimentos que precederam Seu grande sacrifício deviam ser de molde a chamar a atenção para o próprio sacrifício. Depois de uma demonstração como a que acompanhou Sua entrada em Jerusalém, todos os olhos Lhe seguiram a rápida marcha para a cena final. Os acontecimentos relacionados com essa entrada triunfal constituiriam assunto de todas as bocas, e tornariam Jesus objeto das cogitações de todos os espíritos. Depois de Sua crucifixão, muitos recordariam estes fatos relacionados com Seu julgamento e morte. Seriam levados a pesquisar os escritos dos profetas e convencer-se-iam de que Jesus era o Messias; e multiplicar-se-iam em todas as terras os conversos à fé. Nessa triunfante cena de Sua vida terrestre, o Salvador poderia haver aparecido escoltado por anjos celestiais e anunciado pela trombeta de Deus; essa demonstração, no entanto, teria sido contrária ao desígnio de Sua missão, contrária à lei que Lhe governara a vida. Permaneceu fiel à sorte humilde que aceitara. Devia levar o fardo da humanidade até haver dado a vida pela vida do mundo. Esse dia, que se afigurava aos discípulos o mais glorioso de sua vida, ter-se-ia toldado de sombrias nuvens, soubessem eles que a cena de regozijo não era senão um prelúdio aos sofrimentos e à morte do Mestre. Embora Ele lhes houvesse repetidas vezes falado do sacrifício que certamente O aguardava, no alegre triunfo presente esqueceram Suas dolorosas palavras, e anteciparam-Lhe o próspero reino no trono de Davi. Novos acréscimos se iam fazendo continuamente à procissão, e com poucas exceções, todos quantos a ela se juntavam eram possuídos pelo entusiasmo do momento, avolumando os hosanas que ecoavam de monte em monte, de vale em vale. Subiam continuamente as aclamações: “Hosana ao Filho de Davi; bendito O que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas!” Marcos 11:9, 10. Nunca antes vira o mundo um cortejo triunfal como esse. Não se assemelhava ao dos famosos conquistadores da Terra. Não fazia parte daquela cena nenhuma comitiva de lamentosos cativos, como troféus da bravura real. Achavam-se em torno do Salvador os gloriosos troféus de Seus serviços de amor pelo homem caído. Estavam os cativos a quem resgatara do poder de Satanás, louvando a Deus por sua libertação. Os cegos a quem restituíra a vista, abriam a marcha. Os mudos cuja língua soltara, entoavam os mais altos hosanas. Saltavam de alegria os coxos por Ele curados, sendo os mais ativos em quebrar os ramos de palmeira e agitá-los diante do Salvador. As viúvas e os órfãos exaltavam o nome de Jesus pelos atos de misericórdia que lhes dispensara. Os leprosos a quem purificara, estendiam na estrada as vestes incontaminadas, ao mesmo tempo que O saudavam como Rei da glória. Aqueles a quem Sua voz despertara do sono da morte, tomavam parte no cortejo. Lázaro, cujo corpo provara a corrupção no sepulcro, mas que então se regozijava na força da varonilidade gloriosa, conduzia o animal que Jesus montava. Muitos fariseus testemunhavam a cena e, ardendo de inveja e malignidade, buscavam desviar a corrente dos sentimentos populares. Com toda a sua autoridade tentaram impor silêncio ao povo; mas seus apelos e ameaças não faziam senão aumentar o entusiasmo. Temeram que essa multidão, na força de seu número, fizesse Jesus rei. Como último recurso, avançaram por entre a turba até onde estava o Salvador, e abordaram-nO com palavras de censura e ameaça: “Mestre, repreende os Teus discípulos”. Lucas 19:39. Declararam não serem lícitas tão ruidosas manifestações, nem permitidas pelas autoridades. Foram, porém, reduzidos ao silêncio pela réplica de Jesus: “Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão”. Lucas 19:40. Aquela cena de triunfo era designada pelo próprio Deus. Fora predita pelo profeta, e o homem era impotente para impedir os Seus desígnios. Houvesse o homem deixado de executar Seu plano, e Ele teria comunicado voz às inanimadas pedras, que saudariam Seu Filho com aclamações de louvor. Ao retirarem-se os mudos fariseus, foram proferidas por centenas de vozes as palavras de Zacarias: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu Rei virá a ti, justo e salvador, pobre, e montado sobre um jumento, sobre um asninho, filho de jumenta”. Zacarias 9:9. Quando o cortejo chegou ao cimo da colina e estava para descer para a cidade, Jesus deteve-Se, e toda a multidão com Ele. Perante eles se descortinava Jerusalém em toda a sua glória, nesse momento banhada à luz do Sol poente. O templo atraiu todos os olhares. Em majestosa suntuosidade erguia-se ele acima de todos os outros edifícios, parecendo apontar para o Céu, como a dirigir o povo ao único e verdadeiro Deus. O templo fora, durante muito tempo, a glória e o orgulho da nação judaica. Também os romanos se orgulhavam de sua magnificência. Um rei designado pelos romanos se unira aos judeus para o restaurar e embelezar, e o imperador de Roma o enriquecera com suas dádivas. Sua firme estrutura, riqueza e magnificência o haviam tornado uma das maravilhas do mundo. Enquanto o Sol no Ocidente tingia e dourava o Céu, o resplendor de sua glória iluminava o puro e alvo mármore das paredes do templo, pondo-lhe cintilações nas áureas colunas. Do alto do monte onde Jesus parou com Seus seguidores, apresentava ele a aparência de maciça estrutura de neve, marchetado de capitéis de ouro. À entrada do templo achava-se uma videira de ouro e prata, com verdes folhagens e maciços cachos de uvas, executados pelos mais hábeis artistas. Esse desenho representava Israel como uma próspera vinha. O ouro, a prata e verde vivo eram combinados com raro gosto e consumada maestria; enlaçando graciosamente os alvos e luzentes pilares, agarrando-se com as brilhantes gavinhas a seus dourados ornamentos, refletia o esplendor do Sol poente, resplandecendo como se o Céu lhe houvera emprestado a sua glória. Jesus contempla a cena, e a multidão silencia suas aclamações, encantada com a súbita visão de beleza. Todos os olhos se volvem para o Salvador, esperando ver-Lhe no semblante a admiração por eles próprios experimentada. Ao contrário, no entanto, percebem-Lhe uma nuvem de tristeza. Surpreendem-se, decepcionam-se ao ver-Lhe os olhos marejados de lágrimas e o corpo oscilar como a árvore agitada pela tempestade, enquanto uma angustiosa queixa Lhe brota dos trêmulos lábios, como irrompendo das profundezas de um coração partido. Que cena aquela que se oferecia à contemplação dos anjos! Seu bem-amado Comandante em lágrimas de angústia! Que visão para a alegre turba que, com gritos de triunfo e agitar de palmas O escoltava à gloriosa cidade, onde — esperavam com ardor — iria Ele em breve reinar! Jesus chorara ao pé do sepulcro de Lázaro, mas fora numa divina mágoa de simpatia para com a humana dor. Esta súbita tristeza, porém, era qual nota de lamento em meio de um grande coro triunfal. Por entre uma cena de regozijo, em que todos Lhe tributavam homenagens, o Rei de Israel Se debulhava em lágrimas; não as silenciosas lágrimas da alegria, mas pranto e gemidos de inexprimível angústia. A turba sentiu-se repentinamente tomada de tristeza. Emudeceram-lhes as aclamações. Muitos choraram, possuídos de simpatia por um pesar que não podiam compreender. As lágrimas de Jesus não eram a antecipação de Seus próprios sofrimentos. Mesmo diante dEle achava-se o Getsêmani, onde em breve O envolveria o horror de uma grande treva. Estava à vista também a porta das ovelhas, pela qual, durante séculos, haviam sido conduzidos os animais destinados às ofertas sacrificais. Essa porta presto se abriria para Ele, o grande Cordeiro de Deus, a cujo sacrifício pelos pecados do mundo apontavam todas essas ofertas. Perto estava o Calvário, cenário de Sua próxima agonia. No entanto, não foi por causa desses pontos a lembrarem-Lhe a cruel morte que o Redentor chorou e gemeu em angústia de espírito. Não era uma dor egoísta, a Sua. O pensamento de Sua própria agonia não intimidava aquela nobre Alma pronta para o sacrifício. Foi a vista de Jerusalém que pungiu o coração de Jesus — Jerusalém, que rejeitara o Filho de Deus e Lhe desdenhara o amor, que recusara ser convencida por Seus poderosos milagres e estava prestes a tirar-Lhe a vida. Viu o que ela era, em sua culpa de rejeitar o Redentor, e o que poderia ter sido caso O houvesse aceitado a Ele, o único a poder-lhe curar a ferida. Viera para salvá-la; como poderia a ela renunciar? Israel fora um povo favorecido; Deus fizera de seu templo a Sua habitação; era “formoso de sítio, e alegria de toda a Terra”. Salmos 48:2. Aí se achava o registro de mais de mil anos do protetor cuidado e terno amor de Cristo, como de um pai tratando com um filho único. Naquele templo emitiram os profetas suas solenes advertências. Ali foram agitados os ardentes incensários, enquanto o incenso, de mistura com as orações dos adoradores, ascendera para Deus. Ali fluíra o sangue dos animais, tipo do sangue de Cristo. Ali manifestara Jeová sua glória sobre o propiciatório. Ali oficiaram os sacerdotes, e a pompa do símbolo e da cerimônia havia continuado por séculos. Tudo isso, porém, devia ter um fim. Jesus ergueu a mão — aquela mão que tantas vezes beneficiara os enfermos e sofredores — e movendo-a na direção da condenada cidade, em entrecortadas frases de dor, exclamou: “Ah! se tu soubesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence!” Lucas 19:42. Aí Se deteve o Salvador e deixou por dizer qual seria a condição de Jerusalém, houvesse ela aceito o auxílio que Deus lhe desejava dar — o dom de Seu bem-amado Filho. Se Jerusalém houvesse sabido o que era seu privilégio saber, e dado ouvidos à luz que o Céu lhe enviara, teria permanecido de pé no orgulho de sua prosperidade, rainha de reinos, livre na força do poder dado por seu Deus. Não teria havido soldados armados às suas portas, nem bandeiras romanas tremulando de seus muros. O glorioso destino que felicitaria Jerusalém, houvesse ela aceito o Redentor, surgiu aos olhos do Filho de Deus. Viu que, por meio dEle, seria ela curada de sua grave enfermidade, libertada da escravidão e estabelecida como a poderosa metrópole da Terra. De suas muralhas partiria a pomba da paz, em direção de todas as nações. Seria ela o diadema de glória do mundo. Mas a brilhante visão do que poderia haver sido Jerusalém se desvanece aos olhos do Salvador. Compreende o que ela é então, sob o jugo romano, sob o desagrado de Deus, condenada ao Seu juízo retribuidor. Reata o fio de Sua lamentação: “Mas agora isto está encoberto aos teus olhos. Porque dias virão sobre ti, em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todas as bandas, e te derribarão, a ti e aos teus filhos que dentro de ti estiverem; e não deixarão em ti pedra sobre pedra, pois que não conheceste o tempo da tua visitação”. Lucas 19:42-44. Cristo veio para salvar Jerusalém com seus filhos; mas o orgulho farisaico, a hipocrisia, a inveja e a maldade O impediram de realizar Seu desígnio. Jesus sabia a terrível retribuição com que seria visitada a condenada cidade. Viu Jerusalém cercada de exércitos, os sitiados habitantes levados à fome e à morte, mães alimentando-se do corpo morto dos próprios filhos, e tanto pais como filhos arrebatando um ao outro o último pedaço de pão, destruída a afeição natural pelas corrosivas angústias da fome. Viu que a obstinação dos judeus, segundo se evidenciava no rejeitar da salvação por Ele oferecida, os levaria também a recusar submissão aos exércitos invasores. Contemplou o Calvário, no qual havia de ser erguido, tão densamente coalhado de cruzes como de árvores uma floresta. Viu os infelizes habitantes sofrendo em instrumentos de tortura e mediante crucifixão, destruídos os belos palácios, o templo em ruínas, e de seus maciços muros nem uma pedra deixada sobre outra, enquanto a cidade era arada como um campo. Bem podia o Salvador chorar em face de tão terrível cena! Jerusalém fora a filha de Seus cuidados, e como um terno pai pranteia um filho extraviado, assim chorava Jesus sobre a bem-amada cidade. Como posso renunciar a ti? Como te posso ver votada à destruição? Deverei deixar-te encher o cálice de tua iniqüidade? Uma alma é de tanto valor que, em comparação com ela, os mundos desmerecem até à insignificância; mas ali estava toda uma nação para se perder! Quando o Sol, em declínio rápido se ocultasse no céu ocidental, terminaria o dia de graça de Jerusalém. Quando a comitiva se detinha no cimo do Olivete, não era ainda demasiado tarde para Jerusalém se arrepender. O anjo da misericórdia dobrava então as asas para descer do áureo trono, a fim de dar lugar à justiça e ao juízo prestes a vir. Mas o grande coração amorável de Cristo intercedia ainda por Jerusalém, que Lhe escarnecera as misericórdias, desprezando as advertências, e estava a ponto de mergulhar as mãos em Seu sangue. Se tão-somente Jerusalém se arrependesse, não seria ainda demasiado tarde. Enquanto os últimos raios do Sol poente pairavam sobre o templo, as torres e cúpulas, não a levaria algum anjo bom ao amor do Salvador, desviando-lhe a condenação? Formosa e ímpia cidade, que apedrejara os profetas, que rejeitara o Filho de Deus, que por sua impenitência se prendia em cadeias de servidão — seu dia de graça estava quase passado! Todavia, novamente o Espírito de Deus fala a Jerusalém. Antes do fim do dia é dado outro testemunho em favor de Cristo. Ergue-se a voz desse testemunho, em correspondência com o chamado de um passado profético. Se Jerusalém atender ao chamado, se receber o Salvador que lhe está entrando pelas portas, poderá ainda ser salva. Aos ouvidos dos guias, em Jerusalém, chegam as notícias de que Jesus Se aproxima da cidade, com grande ajuntamento de povo. Mas eles não têm bom acolhimento para oferecer ao Filho de Deus. Saem-Lhe ao encontro com temor, esperando dispersar a turba. Quando o cortejo está para descer o Monte das Oliveiras, é interceptado pelos principais. Indagam a causa do tumultuoso regozijo. Ao perguntarem: “Quem é Este?” os discípulos possuídos de inspiração, respondem. Em eloqüentes acentos, repetem as profecias concernentes a Cristo: Adão vos dirá: É a semente da mulher que há de esmagar a cabeça da serpente. Perguntai a Abraão, ele vos afirmará: “É Melquisedeque, Rei de Salém” (Gênesis 14:18), Rei de Paz. Dir-vos-á Jacó: É Siló, da tribo de Judá. Isaías vos declarará: “Emanuel” (Isaías 7:14), “Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”. Isaías 9:6. Jeremias vos há de afirmar: O Renovo de Davi, “o Senhor, Justiça Nossa”. Jeremias 23:6. Afirmar-vos-á Daniel: É o Messias. Oséias vos dirá: É “o Senhor, o Deus dos Exércitos; o Senhor é o Seu memorial”. Oséias 12:5. Exclamará João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. João 1:29. O grande Jeová proclamou de Seu trono: “Este é o Meu Filho amado”. Mateus 3:17. Nós, Seus discípulos, declaramos: Este é Jesus, o Messias, o Príncipe da vida, o Redentor do mundo. E o príncipe das potestades da trevas O reconhece, dizendo: “Bem sei quem és: o Santo de Deus”. Marcos 1:24.

Capítulo 64 — Um povo condenado

Este capítulo é baseado em Marcos 11:11-14; Mateus 21:17-19.

A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém foi um imperfeito símbolo da Sua vinda nas nuvens do céu com poder e glória, por entre as aclamações dos anjos e o regozijo dos santos. Então, cumprir-se-ão as palavras de Cristo aos fariseus: “Desde agora Me não vereis mais, até que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor”. Mateus 23:39. Em visão profética, foi mostrado a Zacarias aquele dia de triunfo final; e ele viu também a condenação dos que, no primeiro advento, rejeitaram a Cristo: “E olharão para Mim, a quem traspassaram; e O prantearão como quem pranteia por um unigênito; e chorarão amargamente por Ele, como se chora amargamente pelo primogênito”. Zacarias 12:10. Esta cena anteviu Cristo quando contemplou a cidade e chorou sobre ela. Na ruína temporal de Jerusalém viu Ele a final destruição daquele povo que era culpado do sangue do Filho de Deus.

Os discípulos notavam o ódio dos judeus para com Cristo, mas não viam ainda até aonde ele os levaria. Não compreendiam ainda a verdadeira condição de Israel, nem entendiam a retribuição que estava impendente sobre Jerusalém. Isto lhes revelou Cristo mediante significativa lição prática. O último apelo a Jerusalém fora em vão. Os sacerdotes e principais tinham ouvido a voz profética do passado ecoando através da multidão, em resposta à pergunta: “Quem é Este?” mas não a aceitaram como sendo a voz da inspiração. Irados, confundidos, procuraram fazer silenciar o povo. Havia oficiais romanos entre a turba, e os inimigos de Jesus O denunciaram aos mesmos como chefe de uma rebelião. Apresentaram-nO como estando para Se apoderar do templo, e dominar como rei de Jerusalém. Mas a voz calma de Jesus fez por momentos silenciar a multidão clamorosa, enquanto declarava não ter vindo estabelecer um reino temporal; havia de subir em breve a Seu Pai, e Seus acusadores não mais O veriam, até que volvesse em glória. Então, demasiado tarde para sua salvação, O reconheceriam. Estas palavras, proferiu-as Jesus com tristeza e vigor singulares. Os funcionários romanos foram reduzidos ao silêncio. Ainda que estranhos à divina influência, comoveu-se-lhes o coração como nunca antes. No calmo e solene rosto de Jesus, leram amor, benevolência e serena dignidade. Foram possuídos de uma simpatia que não podiam compreender. Ao invés de prender a Jesus, sentiram-se mais inclinados a render-Lhe homenagem. Voltando-se para os sacerdotes e principais, acusaram-nos de criar o distúrbio. Esses chefes, envergonhados e derrotados, viraram-se para o povo com suas queixas e questionaram, zangados, uns com os outros. Entretanto, passou Jesus despercebidamente para o templo. Tudo ali estava tranqüilo, pois a cena sobre o Olivete para lá atraíra o povo. Por breve espaço demorou-Se Jesus no templo, olhando-o dolorosamente. Depois, retirou-Se com os discípulos e voltou para Betânia. Quando o povo O procurou para colocá-Lo no trono, não O pôde achar. Toda a noite passou Jesus em oração, e pela manhã, tornou a ir ao templo. No caminho encontrou um figueiral. Tinha fome, “e vendo de longe uma figueira que tinha folhas, foi ver se nela acharia alguma coisa; e, chegando a ela, não achou senão folhas, porque não era tempo de figos”. Marcos 11:13. Não era estação de figos maduros, senão em certas localidades; e nas montanhas das cercanias de Jerusalém podia-se na verdade dizer: “Não era tempo de figos”. Marcos 11:13. No pomar a que Jesus chegou, porém, uma árvore parecia adiantada a todas as demais. Estava já coberta de folhas. A natureza da figueira é que, antes de se abrirem as folhas, apareça o fruto. Portanto, essa árvore cheia de folhagem era uma promessa de bem desenvolvidos frutos. Sua aparência, porém, era enganosa. Depois de procurar entre os ramos, dos mais baixos aos mais altos, Jesus “não achou senão folhas”. Era uma massa de pretensiosa folhagem, nada mais. Cristo proferiu contra ela uma maldição, para que secasse. “Nunca mais coma alguém fruto de ti”, disse Ele. Na manhã seguinte, quando Ele e os discípulos se achavam outra vez a caminho para a cidade, os ressequidos ramos e as folhas caídas atraíram-lhes a atenção. “Mestre”, disse Pedro, “eis que a figueira que Tu amaldiçoaste, se secou”. Marcos 11:21. O ato de Cristo em amaldiçoar a figueira, surpreendera os discípulos. Parecia-lhes diverso de Suas maneiras e obras. Muitas vezes O tinham ouvido dizer que viera, não para condenar o mundo, mas para que por meio dEle o mundo se pudesse salvar. Lembravam-se de Suas palavras: “O Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las”. Lucas 9:56. Suas maravilhosas obras foram realizadas para restaurar, nunca para destruir. Os discípulos O haviam conhecido unicamente como o Restaurador, o Médico. Esse ato era único. Qual seria seu desígnio? indagaram. Deus “tem prazer na benignidade”. Miquéias 7:18. “Vivo Eu, diz o Senhor Jeová, que não tomo prazer na morte do ímpio”. Ezequiel 33:11. Para Ele a obra de destruição e acusação é uma “estranha obra” (Isaías 28:21), Trad. Figueiredo. Mas é em misericórdia e amor que ergue o véu do futuro, e revela aos homens os resultados de um caminho de pecado. A maldição da figueira foi uma parábola viva. Aquela árvore estéril, ostentando sua pretensiosa folhagem ao próprio rosto de Cristo, era um símbolo da nação judaica. O Salvador desejava tornar claras aos Seus discípulos a causa e a certeza da condenação de Israel. Para esse fim como que investiu a árvore de qualidades morais, e tornou-a expositora da verdade divina. Os judeus distinguiam-se de todas as outras nações, professando fidelidade para com Deus. Haviam sido especialmente favorecidos por Ele, e pretendiam ser mais justos que todos os outros povos. Mas estavam corrompidos pelo amor do mundo e a avareza. Jactanciavam-se de seu conhecimento, mas eram ignorantes das reivindicações divinas, e cheios de hipocrisia. Como a árvore estéril, estendiam os pretensiosos ramos para o alto, luxuriantes na aparência, belos à vista, mas não dando “senão folhas”. A religião judaica, com o magnificente templo, os altares sagrados, os sacerdotes mitrados e cerimônias impressionantes, era na verdade bela na aparência exterior; faltavam-lhe, porém, humildade, amor e beneficência. Todas as árvores do figueiral se achavam destituídas de fruto; as que não ostentavam folhas, no entanto, não suscitavam esperanças, não causando assim decepção. Essas árvores representavam os gentios. Eram tão destituídos de piedade como os judeus; mas não tinham professado servir a Deus. Não mostravam vangloriosas pretensões de bondade. Eram cegos às obras e caminhos divinos. Para eles não chegara ainda o tempo dos figos. Esperavam um dia que lhes trouxesse luz e esperança. Os judeus, que haviam recebido maiores bênçãos de Deus, eram responsáveis por seus abusos dos mesmos dons. Os privilégios de que se jactanciavam, só lhes acrescentavam a culpa. Jesus Se aproximara da figueira com fome, em busca de alimento. Assim chegou Ele a Israel, ansioso de neles encontrar os frutos da justiça. Prodigalizara-lhes Seus dons, a fim de que dessem frutos para benefício do mundo. Toda oportunidade, todo privilégio lhes fora assegurado, e em troca buscara a simpatia e a cooperação deles em Sua obra de graça. Anelava achar neles espírito de sacrifício e compaixão, zelo de Deus e profunda ansiedade de alma pela salvação de seus semelhantes. Houvessem eles guardado a lei divina, e teriam realizado a mesma obra abnegada feita por Cristo. Mas o amor para com Deus e os homens foi eclipsado pelo orgulho e a presunção. Trouxeram ruína sobre si mesmos, por se recusarem a servir aos outros. Os tesouros da verdade que lhes foram confiados, não os deram eles ao mundo. Na figueira estéril poderiam ler tanto o seu pecado como o seu castigo. Seca à maldição do Salvador, apresentando-se queimada, ressequida desde as raízes, a figueira mostrava o que seria o povo de Israel quando dele fosse retirada a graça divina. Recusando-se a comunicar bênção, não mais a receberiam. “A tua perdição, ó Israel”, diz o Senhor, “toda vem de ti”. Oséias 13:9. A advertência é para todos os tempos. O ato de Cristo em amaldiçoar a árvore que Seu próprio poder criara, fica como aviso para todas as igrejas e todos os cristãos. Ninguém pode viver a lei divina sem servir aos outros. Mas há muitos que não vivem segundo a misericordiosa, abnegada vida de Cristo. Alguns que se julgam excelentes cristãos não compreendem o que significa o serviço para Deus. Seus planos e cogitações têm por fim agradar a si mesmos. Agem sempre com referência a si próprios. O tempo só é de valor para eles quando podem ajuntar para si mesmos. Em todos os negócios da vida, é esse o seu objetivo. Trabalham não para os outros, mas para si mesmos. Deus os criou para viverem num mundo onde deve ser executado serviço altruísta. Era Seu desígnio que ajudassem a seus semelhantes por todos os modos possíveis. Mas é tão grande o eu que não podem ver nenhuma outra coisa. Não se põem em contato com a humanidade. Os que assim vivem para si, são como a figueira, toda presunção, mas sem frutos. Observam as formas de culto, mas sem arrependimento nem fé. Em profissão, honram a lei divina, mas faltam na obediência. Dizem, mas não fazem. Na sentença proferida contra a figueira, demonstra Cristo quão aborrecível é a Seus olhos essa vã pretensão. Diz Ele que o pecador declarado é menos culpado do que o que professa servir a Deus, mas não produz fruto para Sua glória. A parábola da figueira, dita antes da visita de Cristo a Jerusalém, ligava-se diretamente à lição por Ele ensinada no amaldiçoar a árvore sem fruto. O jardineiro intercedeu pela árvore estéril da parábola: “Deixa-a este ano, até que eu a escave e esterque; e, se der fruto, ficará, e, se não, depois a mandarás cortar.” Maior cuidado seria concedido à árvore estéril. Teria todas as vantagens. Mas se permanecesse infrutífera, coisa alguma a salvaria da destruição. Na parábola não foi predito o resultado da obra do jardineiro. Dependia do povo a quem eram dirigidas as palavras de Cristo. Os judeus eram representados pela árvore estéril, e com eles ficava a decisão de seu destino eterno. Foram-lhes concedidas as vantagens que o Céu lhes podia dar, mas não aproveitaram as crescentes bênçãos. Pelo ato de Cristo em amaldiçoar a figueira estéril, mostrou-se o resultado. Determinaram eles sua própria destruição. Por mais de um milênio abusara a nação judaica da misericórdia de Deus e atraíra Seus juízos. Rejeitaram-Lhe as advertências e mataram-Lhe os profetas. Por esses pecados tornou-se responsável o povo do tempo de Cristo, seguindo o mesmo caminho. Na rejeição de suas presentes misericórdias e advertências, residia a culpa daquela geração. Com as cadeias que a nação estivera por séculos a forjar, o povo do tempo de Cristo prendera a si mesmo. Em todos os séculos se concede aos homens seu período de luz e privilégios, um tempo de prova, em que se podem reconciliar com Deus. Há, porém, um limite a essa graça. A misericórdia pode interceder por anos e ser negligenciada e rejeitada; vem, porém, o tempo em que essa misericórdia faz sua última súplica. O coração torna-se tão endurecido que cessa de atender ao Espírito Santo de Deus. Então a suave, atraente voz não mais suplica ao pecador, e cessam as reprovações e advertências. Chegara aquele dia para Jerusalém. Jesus chorou em agonia sobre a condenada cidade, mas não a podia livrar. Esgotaria todos os recursos. Rejeitando o Espírito de Deus, Israel rejeitara o único meio de auxílio. Nenhum outro poder havia pelo qual pudesse ser libertado. A nação judaica era um símbolo do povo de todos os séculos, que desdenha os rogos do Infinito Amor. As lágrimas de Cristo, ao chorar sobre Jerusalém, foram derramadas pelos pecados de todos os tempos. Nos juízos proferidos contra Israel, os que rejeitam as reprovações e advertências do Santo Espírito de Deus podem ler sua própria condenação. Há nesta geração muitos que estão trilhando o mesmo caminho dos incrédulos judeus. Testemunharam as manifestações do poder de Deus; o Espírito Santo lhes falou ao coração; apegam-se, porém, a sua incredulidade e resistência. Deus lhes envia advertências e repreensões, mas não querem confessar seus erros, e rejeitam-Lhe a mensagem e o mensageiro. Os próprios meios que Ele emprega para sua restauração, tornam-se para eles em pedra de tropeço. Os profetas de Deus eram aborrecidos pelo apóstata Israel, porque por intermédio deles se revelavam seus pecados ocultos. Acabe considerava Elias inimigo, porque o profeta era fiel em repreender as secretas iniqüidades do rei. Assim hoje o servo de Cristo, o reprovador do pecado, encontra desdém e repulsas. A verdade bíblica, a religião de Cristo, luta contra uma forte corrente de impureza moral. O preconceito é mesmo mais forte no coração dos homens agora do que nos dias de Jesus. Ele, Cristo, não realizou as expectações dos homens; sua vida foi uma repreensão aos pecados deles, e O rejeitaram. Assim hoje a verdade da Palavra de Deus não se harmoniza com as práticas dos homens, com sua inclinação natural, e milhares lhe rejeitam a luz. Os homens, instigados por Satanás, lançam dúvidas sobre a Palavra de Deus e procuram exercer seu independente juízo. Preferem as trevas à luz, mas fazem-no com perigo para a própria alma. Os que sofismavam às palavras de Cristo, encontravam cada vez mais motivo para sofismar, até que se desviaram da Verdade e da Vida. Assim é agora. Deus não Se propõe a remover toda objeção que o coração carnal possa trazer contra Sua verdade. Aos que recusam os preciosos raios da luz que haviam de iluminar as trevas, os mistérios da Palavra de Deus permanecerão para sempre mistérios. Deles é oculta a verdade. Caminham cegamente, e ignoram a ruína que se acha perante eles. Do alto do Olivete, Cristo contemplou o mundo em todos os séculos, e Suas palavras são aplicáveis a toda a alma que desdenha as súplicas da divina misericórdia. Desdenhador de Seu amor, Ele hoje Se dirige a ti. És tu, tu mesmo que deves conhecer as coisas que pertencem à tua paz. Cristo está vertendo amargas lágrimas por ti, que não tens lágrimas para verter por ti mesmo. Já se manifesta em ti aquela fatal dureza de coração que destruiu os fariseus. E toda prova da graça divina, todo raio de divina luz, ou está abrandando e subjugando a alma, ou confirmando-a em sua desesperada impenitência. Cristo previu que Jerusalém permaneceria endurecida e impenitente; entretanto, toda a culpa, todas as consequências da rejeitada misericórdia, jaziam-lhe à própria porta. Assim se dará com toda alma que segue a mesma orientação. O Senhor declara: “A tua perdição, ó Israel, toda vem de ti”. Oséias 13:9. “Ouve tu, ó Terra! Eis que Eu trarei mal sobre este povo, o próprio fruto dos seus pensamentos; porque não estão atentos às Minhas palavras, e rejeitam a Minha lei”. Jeremias 6:10.

Capítulo 65 — O templo novamente purificado

Este capítulo é baseado em Mateus 21:12-16, 23-46; Marcos 11:15-19, 27-33; 12:1-12; Lucas 19:45-48; 20:1-19.

No princípio de Seu ministério, Cristo expulsara do templo os que o manchavam por seu profano tráfico; e Sua atitude severa e divina enchera de terror o coração dos astutos comerciantes. Ao fim de Sua missão, foi Ele outra vez ao templo e encontrou-o de novo profanado como antes. As condições eram ainda piores. O pátio do templo estava como um vasto curral de gado. Com os berros dos animais e o agudo tinir das moedas, misturava-se o som de iradas altercações entre os traficantes, e ouviam-se entre eles vozes de homens no sagrado ofício. Os dignitários do templo empenhavam-se, eles próprios, em comprar e vender, e trocar dinheiro. Tão completamente se achavam dominados pela cobiça de lucro que, aos olhos de Deus, não eram melhores que ladrões.

Pouco percebiam os sacerdotes e principais a solenidade da obra que lhes cumpria realizar. Em toda páscoa e festa dos tabernáculos, milhares de animais eram mortos, e seu sangue recolhido pelos sacerdotes e derramado sobre o altar. Os judeus familiarizaram-se com a oferta de sangue e quase perderam de vista o fato de ser o pecado o que tornava necessário todo esse derramamento de sangue de animais. Não discerniam que isso prefigurava o sangue do querido Filho de Deus, que seria derramado pela vida do mundo, e que pela oferta de sacrifícios deviam os homens ser levados ao crucificado Redentor. Jesus olhava as inocentes vítimas do sacrifício, e via como os judeus haviam tornado essas grandes convocações cenas de derramamento de sangue e de crueldade. Em lugar de humilde arrependimento pelo pecado, multiplicaram o sacrifício de animais, como se Deus pudesse ser honrado por um serviço destituído de coração. Os sacerdotes e principais endureceram a alma pelo egoísmo e a avareza. Os próprios símbolos que indicavam o Cordeiro de Deus, haviam eles transformado num meio de ganho. Assim, aos olhos do povo fora destruída, em grande parte, a santidade do serviço sacrifical. Despertou-se a indignação de Jesus; sabia que Seu sangue, tão próximo a ser vertido pelos pecados do mundo, seria tão pouco apreciado pelos sacerdotes e anciãos, como o dos animais, que derramavam incessantemente. Contra tais práticas falara Cristo por meio dos profetas. Dissera Samuel: “Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à Palavra do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender melhor é do que a gordura de carneiros”. 1 Samuel 15:22. E Isaías, vendo em visão profética a apostasia dos judeus, a eles se dirigiu como príncipes de Sodoma e Gomorra: “Ouvi a Palavra do Senhor, príncipes de Sodoma; prestai ouvidos à lei do nosso Deus, vós, ó povo de Gomorra. De que Me serve a Mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o Senhor? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e de gordura de animais nédios; e não folgo com o sangue dos bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecerdes diante de Mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis pisar os Meus átrios?” “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos Meus olhos; cessai de fazer mal; aprendei a fazer bem; praticai o que é reto; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão, tratai da causa das viúvas”. Isaías 1:10-12, 16, 17. Aquele mesmo que dera essas profecias, repetia agora, pela última vez, a advertência. Em cumprimento da profecia, o povo proclamara Jesus rei de Israel. Ele lhes recebera as homenagens, e aceitara a posição de rei. Nesse caráter devia agir. Sabia que seriam nulos Seus esforços para reformar um sacerdócio corrompido; não obstante, essa obra precisava ser feita; tinha de ser dada a um povo incrédulo a prova de Sua divina missão. Novamente o penetrante olhar de Jesus percorreu o profanado pátio do templo. Todos os olhares estavam voltados para Ele. Sacerdotes e principais, fariseus e gentios, olhavam com surpresa e respeito para Aquele que Se achava diante deles com a majestade do Rei do Céu. A divindade irrompeu da humanidade, revestindo Cristo de uma dignidade e glória que jamais manifestara. Os que se achavam mais próximos dEle afastaram-se o mais que lhes permitia a multidão. Não fosse a presença de alguns de Seus discípulos, e o Salvador Se encontraria como isolado. Todos os sons cessaram. Parecia insuportável o profundo silêncio. Cristo falou com um poder que dominou o povo como uma forte tempestade: “Está escrito: A Minha casa é casa de oração; mas vós fizestes dela covil de salteadores”. Lucas 19:46. Sua voz soou como trombeta através do templo. O desagrado de Sua fisionomia assemelhava-se a um fogo consumidor. Com autoridade, ordenou: “Tirai daqui estes.” Três anos antes, os dirigentes do templo haviam-se envergonhado de sua fuga à ordem de Jesus. Sempre se admiraram depois, de seus temores e de sua obediência sem réplica a um simples, humilde homem. Julgaram ser impossível repetir-se a humilhante submissão. Ficaram, todavia, ainda mais aterrados agora que antes e mais apressados em obedecer-Lhe à ordem. Não houve ninguém que ousasse questionar-Lhe a autoridade. Sacerdotes e comerciantes fugiram-Lhe da presença, tangendo adiante o gado. Ao saírem do templo, encontraram no caminho uma multidão que trazia os enfermos, indagando pelo grande Médico. As notícias dadas pelos que fugiam, fizeram com que alguns desses voltassem atrás. Temiam encontrar Alguém tão poderoso, cujo simples olhar afugentara de Sua presença os sacerdotes e principais. O maior número, porém, avançou por entre a multidão apressada, ansiosos de encontrar Aquele que era sua única esperança. Ao fugir do templo a multidão, muitos ficaram atrás. A esses se reuniram então os recém-vindos. Novamente o pátio do templo se encheu de doentes e moribundos, e mais uma vez, Jesus os socorreu. Depois de algum tempo, os sacerdotes e líderes se aventuraram a voltar ao templo. Acalmado o pânico, sentiram-se presa de ansiedade quanto ao que iria Jesus fazer em seguida. Esperavam que tomasse o trono de Davi. Voltando silenciosamente ao templo, ouviram vozes de homens e mulheres e crianças louvando a Deus. Ao entrar, ficaram paralisados diante da maravilhosa cena. Viram os enfermos curados, os cegos restaurados à vista, os surdos ouvindo, e os coxos saltando de prazer. As crianças superavam os demais no regozijo. Jesus lhes curara as moléstias; enlaçara-as nos braços, recebera-lhes os beijos de reconhecido afeto, e algumas delas haviam adormecido em Seu peito, ao ensinar Ele a multidão. Agora, com alegres vozes, os pequenos Lhe entoavam o louvor. Repetiam os hosanas da véspera, e triunfalmente agitavam palmas diante do Salvador. O templo ecoava e reecoava às suas aclamações: “Bendito o que vem em nome do Senhor”! Salmos 118:26. “Eis que o teu Rei virá a ti, justo e Salvador!” Zacarias 9:9. “Hosana ao Filho de Davi!” O som dessas felizes, irreprimidas vozes foi uma ofensa para os dirigentes do templo. Decidiram-se a fazer calar essas demonstrações. Disseram ao povo que a casa de Deus era profanada pelos pés das crianças e suas aclamações de júbilo. Verificando que suas palavras não causavam impressão no povo, voltaram-se os sacerdotes para Cristo: “Ouves o que estes dizem? E Jesus lhes disse: Sim; nunca lestes: pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor?” Mateus 21:16. Predissera a profecia que Cristo seria proclamado rei, e essa palavra se devia cumprir. Os sacerdotes e principais de Israel recusaram anunciar Sua glória, e Deus moveu as crianças para Lhe servirem de testemunhas. Silenciassem as vozes infantis, e os próprios pilares do templo entoariam o louvor do Salvador. Os fariseus ficaram inteiramente perplexos e desconcertados. Alguém que não podiam intimidar, achava-Se com a direção. Jesus tomara Sua posição de guarda do templo. Nunca antes assumira essa régia autoridade. Nunca antes haviam Suas palavras e ações possuído tão grande poder. Fizera maravilhosas obras por toda Jerusalém, mas nunca antes por maneira tão solene e impressiva. Em presença do povo que Lhe testemunhara as maravilhosas obras, os sacerdotes e principais não ousavam hostilizá-Lo abertamente. Conquanto zangados e confundidos por Sua resposta, não foram capazes de fazer qualquer coisa mais naquele dia. Na manhã seguinte, o Sinédrio considerou novamente a atitude que devia tomar para com Jesus. Três anos antes, tinham pedido um sinal de Sua messianidade. Desde então realizara Ele poderosas obras por toda a Terra. Curara os enfermos, alimentara miraculosamente milhares de pessoas, caminhara sobre as ondas, e Sua palavra impusera calma ao revoltado mar. Repetidamente lera o coração dos homens como um livro aberto; expulsara demônios e ressuscitara mortos. Os principais tinham diante de si as provas de Sua messianidade. Decidiram então não pedir nenhum sinal de Sua autoridade, mas tirar dEle qualquer confissão ou declaração que O pudessem condenar. Dirigindo-se ao templo, onde Ele estava ensinando, puseram-se a interrogá-Lo: “Com que autoridade fazes isto? e quem Te deu tal autoridade?” Mateus 21:23. Esperavam que Ele declarasse proceder de Deus Sua autoridade. Essa afirmação intentavam negar. Mas Jesus os enfrentou com outra interrogação, aparentemente ligada a assunto diverso, e tornou Sua resposta dependente da que eles dessem a essa pergunta. “O batismo de João”, disse Ele, “de onde era? Do Céu, ou dos homens?” Mateus 21:25. Viram os sacerdotes encontrar-se diante de um dilema do qual nenhum sofisma os podia livrar. Se dissessem que o batismo de João era do Céu, tornar-se-ia patente sua incoerência. Cristo diria: Então por que não o crestes? João testificara de Cristo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. João 1:29. Se os sacerdotes acreditassem no testemunho de João, como poderiam negar a messianidade de Cristo? Se declarassem sua crença real, de que o ministério de João era dos homens, trariam sobre si mesmos uma tempestade de indignação; pois o povo acreditava que João era profeta. Com vivo interesse aguardava o povo a decisão. Sabia que os sacerdotes haviam professado aceitar o ministério de João, e esperavam que reconhecessem indiscutivelmente que fora enviado por Deus. Mas depois de conferenciarem em segredo entre si, decidiram não se comprometer. Professando hipocritamente ignorância, disseram: “Não sabemos.” “Nem Eu vos digo com que autoridade faço isto” (Mateus 21:27), disse Jesus. Escribas, sacerdotes e principais ficaram todos em silêncio. Confundidos e decepcionados, quedaram cabisbaixos, não ousando insistir em interrogar a Cristo. Por sua covardia e indecisão haviam, em grande medida, perdido o respeito do povo, que se achava então ao lado, divertido de ver derrotados esses orgulhosos homens, cheios de justiça própria. Todas essas palavras e atos de Cristo eram importantes, e sua influência devia ser experimentada em grau sempre crescente depois de Sua crucifixão e ascensão. Muitos dos que tinham esperado ansiosamente o resultado da pergunta de Jesus, afinal se tornariam discípulos Seus, havendo sido pela primeira vez atraídos a Ele naquele dia cheio de acontecimentos. A cena do pátio do templo nunca mais se apagaria da memória deles. Era assinalado o contraste entre Jesus e o sumo sacerdote, quando juntos falavam. O orgulhoso dignitário do templo estava trajado de ricas e custosas vestimentas. Tinha na cabeça uma brilhante tiara. Seu porte era majestoso, os cabelos e a longa barba prateados pela idade. Sua aparência enchia de respeito os que o viam. Perante essa augusta personagem, achava-Se a Majestade do Céu, sem adorno ou ostentação. Tinha nas vestes os vestígios das jornadas; Seu rosto era pálido e exprimia paciente tristeza; todavia, nEle se estampavam dignidade e benevolência em estranho contraste com o ar orgulhoso, presunçoso e irado do sumo sacerdote. Muitos dos que testemunhavam as palavras e atos de Jesus no templo, entronizaram-nO daí em diante no coração como profeta de Deus. À medida, porém, que o sentimento popular se voltava em favor de Jesus, o ódio dos sacerdotes crescia para com Ele. A sabedoria com que Se esquivava aos laços que Lhe armavam aos pés, sendo uma nova evidência de Sua divindade, acrescentava combustível a sua ira. Em Sua discussão com os rabis, não era propósito de Cristo humilhar os oponentes. Não Se alegrava em vê-los em situação difícil. Tinha importante lição a ensinar. Mortificara os inimigos, permitindo que se vissem emaranhados na própria rede que para Ele haviam preparado. Sua confessada ignorância com respeito ao caráter do batismo de João, proporcionou-Lhe oportunidade de falar e aproveitou-a, apresentando-lhes sua verdadeira situação e ajuntando uma advertência às muitas que já fizera. “Mas que vos parece?” disse Ele. “Um homem tinha dois filhos, e, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha. Ele, porém, respondendo, disse: Não quero. Mas depois, arrependendo-se, foi. E, dirigindo-se ao segundo, falou-lhe de igual modo; e, respondendo ele, disse: Eu vou, senhor; e não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?” Mateus 21:28-31. Essa súbita pergunta tirou Seus ouvintes de sua habitual posição de guarda. Haviam acompanhado atentamente a parábola, e então responderam imediatamente: “O primeiro.” Fixando neles o firme olhar, respondeu Jesus em tom severo e solene: “Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram diante de vós no reino de Deus. Porque João veio a vós no caminho da justiça, e não o crestes, mas os publicanos e as meretrizes o creram; vós, porém, vendo isto, nem depois vos arrependestes para o crer”. Mateus 21:31, 32. Os sacerdotes e principais não podiam deixar de dar resposta correta à pergunta de Cristo, e assim obteve Ele sua opinião em favor do primeiro filho. Este filho representava os publicanos, os que eram desprezados e odiados pelos fariseus. Os publicanos haviam sido inteiramente imorais. Tinham sido na verdade transgressores da lei de Deus, mostrando em sua vida absoluta resistência às Suas reivindicações. Eram ingratos e profanos; ao ser-lhes dito que fossem trabalhar na vinha do Senhor, recusaram desdenhosamente. Mas ao vir João, pregando o arrependimento e o batismo, os publicanos receberam a mensagem e foram batizados. O segundo filho representava os dirigentes da nação judaica. Alguns fariseus se tinham arrependido, recebendo o batismo de João; mas os dirigentes não quiseram reconhecer que ele viera de Deus. Suas advertências e acusações não os levaram a uma reforma. “Rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido batizados por ele.” Trataram desdenhosamente sua mensagem. Como o segundo filho que, quando chamado, disse: “Eu vou, senhor”, mas não foi, os sacerdotes e principais professaram obediência, mas agiram em sentido contrário. Faziam grandes profissões de piedade, pretendiam estar obedecendo à lei divina, mas prestavam apenas uma falsa obediência. Os publicanos eram acusados e amaldiçoados pelos fariseus como incrédulos; mas mostraram por sua fé e obras que iam para o reino do Céu antes daqueles homens cheios de justiça própria, aos quais fora dada grande luz, mas cujas obras não correspondiam a sua profissão de piedade. Os sacerdotes e principais não tinham vontade de suportar essas penetrantes verdades; ficaram calados, entretanto, na esperança de que Jesus dissesse qualquer coisa que pudessem voltar contra Ele; mas tinham de suportar ainda mais. “Ouvi ainda outra parábola”, disse Cristo. “Houve um homem, pai de família, que plantou uma vinha, circundou-a de um valado, e construiu nela um lagar, e edificou uma torre, e arrendou-a a uns lavradores, e ausentou-se para longe. E, chegando o tempo dos frutos, enviou os seus servos aos lavradores, para receber os seus frutos. E os lavradores, apoderando-se dos servos, feriram um, mataram outro, e apedrejaram outro. Depois enviou outros servos, em maior número do que os primeiros; e eles fizeram-lhes o mesmo; e, por último, enviou-lhes seu filho, dizendo: Terão respeito ao meu filho. Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo, e apoderemo-nos da sua herança. E, lançando mão dele, o arrastaram para fora da vinha, e o mataram. Quando pois vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores?” Mateus 21:33-40. Jesus Se dirigiu a todo o povo presente; mas os sacerdotes e principais responderam. “Dará afrontosa morte aos maus”, disseram, “e arrendará a vinha a outros lavradores, que a seu tempo lhe dêem os frutos”. Mateus 21:41. Os que assim falavam não perceberam, a princípio, a aplicação da parábola, mas viram depois haver proferido a própria condenação. Na parábola, o pai de família representava Deus, a vinha a nação judaica, e o valado a lei divina que lhes servia de proteção. A torre era um símbolo do templo. O dono da vinha fizera tudo que era para prosperidade da mesma. “Que mais se podia fazer à Minha vinha”, diz Ele, “que lhe não tenha feito?” Isaías 5:4. Assim foi representado o incessante cuidado de Deus para com Israel. E como os lavradores deviam devolver ao pai de família a devida proporção de frutos da vinha, assim o povo de Deus O devia honrar por uma vida em correspondência com os sagrados privilégios que tinham. Mas, como os lavradores mataram os servos que o senhor lhes enviara em busca de frutos, assim os judeus fizeram morrer os profetas que Deus mandara para os chamar ao arrependimento. Mensageiro após mensageiro fora morto. Até aí a aplicação da parábola não podia ser posta em dúvida, e no que se seguiu não foi menos clara. No amado filho a quem o senhor da vinha afinal mandara a seus desobedientes servos, e de quem se apoderaram para matar, viram os sacerdotes e principais uma distinta figura de Jesus e a sorte que sobre Ele impendia. Já estavam planejando tirar a vida Àquele a quem o Pai lhes enviara em um último apelo. Na retribuição infligida aos ingratos lavradores, estava descrita a sorte dos que haviam de condenar Cristo à morte. Olhando-os com piedade, continuou o Salvador: “Nunca lestes nas Escrituras: A pedra, que os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do ângulo; pelo Senhor foi feito isto, e é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto Eu vos digo que o reino de Deus vos será tirado, e será dado a uma nação que dê os seus frutos. E quem cair sobre esta pedra despedaçar-se-á; e aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó”. Mateus 21:42-44. Essa profecia repetiram os judeus muitas vezes nas sinagogas, aplicando-a ao Messias que havia de vir. Cristo era a pedra de esquina da dispensação judaica, e de todo o plano da salvação. Essa pedra fundamental os edificadores judaicos, os sacerdotes e príncipes de Israel, estavam agora rejeitando. O Salvador chamou-lhes a atenção para as profecias que lhes mostrariam seu perigo. Buscou, por todos os meios possíveis, mostrar-lhes claramente a natureza do ato que estavam para praticar. E Suas palavras tinham outro desígnio. Ao fazer a pergunta: “Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores?” (Mateus 21:40) era intuito de Cristo que os fariseus respondessem como fizeram. Tinha em vista que eles mesmos se condenassem. Suas advertências, deixando de despertá-los para o arrependimento, selar-lhes-iam a condenação, e Ele queria que vissem que eles próprios haviam trazido sobre si a ruína. Intentava mostrar-lhes a justiça de Deus em retirar-lhes os privilégios nacionais, o que já começara e terminaria, não somente na destruição do templo e da cidade, mas na dispersão da nação. Os ouvintes reconheceram a advertência. Não obstante, porém, a sentença que eles mesmos haviam proferido, os sacerdotes e príncipes estavam prontos a completar o quadro, dizendo: “Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo.” “E, pretendendo prendê-Lo, recearam o povo” (Mateus 21:46), porque o sentimento público era a favor de Cristo. Citando a profecia da pedra rejeitada, referia-Se Cristo a uma ocorrência verdadeira da história de Israel. O incidente relacionava-se com a edificação do primeiro templo. Conquanto tivesse especial aplicação ao tempo do primeiro advento de Cristo, devendo ter tocado com poder especial aos judeus, encerra também uma lição para nós. Ao ser erigido o templo de Salomão, as imensas pedras para as paredes e os fundamentos foram inteiramente preparadas na pedreira; depois de serem levadas para o local da construção, nenhum instrumento devia ser nelas empregado; os obreiros só tinham que as colocar em posição. Fora trazida para ser empregada nos fundamentos uma pedra de dimensões extraordinárias, e de singular feitio; mas os construtores não conseguiam achar lugar para ela e não a queriam aceitar. Era-lhes um estorvo, jazendo para ali, sem utilidade. Por muito tempo assim ficou como pedra rejeitada. Mas, ao chegarem os edificadores à ocasião de colocar a pedra angular, procuraram por muito tempo uma de tamanho e resistência suficientes e do devido formato, para ocupar aquele lugar e suportar o grande peso que sobre ela repousaria. Fizessem uma imprudente escolha para esse importante lugar, e estaria em risco a segurança de todo o edifício. Deveriam encontrar uma pedra capaz de resistir à influência do Sol, da geada e da tempestade. Várias pedras foram escolhidas, diversas vezes, mas, sob a pressão de imensos pesos, haviam-se despedaçado. Outras não puderam suportar a prova das súbitas mudanças atmosféricas. Afinal, a atenção dos construtores foi atraída para a pedra por tanto tempo rejeitada. Ficara exposta ao ar, ao Sol e à tempestade, sem apresentar a mais leve fenda. Os edificadores examinaram essa pedra. Suportara todas as provas, menos uma. Se pudesse resistir à prova de vigorosa pressão, decidir-se-iam a aceitá-la para pedra angular. Foi feita a prova. A pedra foi aceita, levada para o lugar que lhe era designado, verificando-se a ele ajustar-se perfeitamente. Em profética visão, foi mostrado a Isaías que essa pedra era um símbolo de Cristo. Diz ele: “Ao Senhor dos Exércitos, a Ele santificai; e seja Ele o vosso temor, e seja Ele o vosso assombro. Então Ele vos será santuário; mas servirá de pedra de tropeço, e de rocha de escândalo, às duas casas de Israel; de laço e rede aos moradores de Jerusalém. E muitos dentre eles tropeçarão, e cairão, e serão quebrantados, e enlaçados e presos”. Isaías 8:13-15. Levado em visão adiante, ao primeiro advento, é mostrado ao profeta que Cristo devia sofrer provas e experiências das quais era um símbolo o que se fizera à pedra de esquina do templo de Salomão. “Portanto assim diz o Senhor Jeová: Eis que ponho em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crê não se apresse”. Isaías 28:16. Com infinita sabedoria, escolheu Deus a pedra fundamental, e a colocou Ele mesmo. Chamou-a “firme”. O mundo inteiro pode depor sobre ela seus fardos e pesares; pode suportá-los a todos. Com perfeita segurança podem edificar sobre ela. Cristo é uma “pedra já provada”. Aqueles que nEle confiam, Ele nunca decepcionará. Suportou todas as provas. Resistiu à pressão da culpa de Adão e da de sua posteridade, e saiu mais que vencedor dos poderes do mal. Tem suportado os fardos sobre Ele lançados por todo pecador arrependido. Em Cristo tem encontrado alívio o coração culpado. Ele é o firme fundamento. Todos quantos fazem dEle sua confiança, descansam em segurança perfeita. Na profecia de Isaías, declara-se que Cristo é tanto o firme fundamento como uma pedra de tropeço. O apóstolo Pedro, escrevendo sob inspiração do Espírito Santo, mostra claramente para quem Cristo é uma pedra de esquina, e para quem é rocha de escândalo: “Se é que já provastes que o Senhor é benigno: e, chegando-vos para Ele — pedra viva, reprovada, na verdade pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, vós, também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo. Pelo que também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido. E assim para vós, os que crerdes, é preciosa, mas para os rebeldes, a pedra que os edificadores reprovaram essa foi a principal da esquina; e uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na Palavra, sendo desobedientes”. 1 Pedro 2:3-8. Para os que crêem, Cristo é o firme fundamento. São eles que caem sobre a Rocha e se despedaçam. A submissão a Cristo e a fé nEle são aqui representadas. Cair sobre a Rocha e despedaçar-se, é renunciar a nossa própria justiça e ir a Cristo com a humildade de uma criança, arrependidos de nossas transgressões e crendo em Seu amor perdoador. E assim também é pela fé e a obediência que edificamos sobre Cristo como nosso fundamento. Sobre essa pedra viva podem edificar semelhantemente judeus e gentios. Este é o único fundamento sobre que podemos com segurança edificar. É suficientemente largo para todos, e forte bastante para sustentar o peso e o fardo do mundo inteiro. E pela ligação com Cristo, a pedra viva, todos quantos edificam sobre esse fundamento se tornam pedras vivas. Muitas pessoas são lavradas, polidas e embelezadas por seus próprios esforços; não podem, no entanto, tornar-se “pedras vivas”, porque não estão ligadas a Cristo. Sem essa ligação, homem algum se pode salvar. Sem a vida de Cristo em nós, não podemos resistir às tempestades das tentações. Nossa segurança eterna depende de edificarmos sobre o firme fundamento. Multidões se encontram hoje em dia edificando sobre fundamento não provado. Ao cair a chuva, e soprarem os ventos, e as enchentes sobrevirem, sua casa cairá, porque não está fundada sobre a Rocha eterna, a principal pedra de esquina — Cristo Jesus. “Para aqueles que tropeçam na Palavra, sendo desobedientes”, Cristo é uma rocha de escândalo. Mas “a pedra que os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do ângulo”. Como a pedra rejeitada, Cristo, em Sua missão terrestre suportara desdém e maus-tratos. Foi “desprezado, e o mais indigno dentre os homens; homem de dores, e experimentado nos trabalhos: […] era desprezado, e não fizemos dEle caso algum”. Isaías 53:3. Mas aproximava-se o tempo em que Ele seria glorificado. Pela ressurreição dentre os mortos, seria “declarado Filho de Deus em poder”. Romanos 1:4. Em Sua segunda vinda, seria revelado como Senhor do Céu e da Terra. Os que se achavam então prestes a crucificá-Lo, reconheceriam Sua grandeza. Perante o Universo, a pedra rejeitada Se tornaria a principal pedra de esquina. “E aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó.” O povo que rejeitou a Cristo, teria de ver em breve destruídas sua cidade e nação. Sua glória seria despedaçada, espalhada como o pó diante do vento. E que foi que destruiu os judeus? Foi a rocha que, houvessem eles edificado sobre ela, teria sido sua segurança. Foi a bondade divina desprezada, a justiça maltratada, e menosprezada Sua misericórdia. Os homens deliberaram opor-se a Deus, e tudo quanto teria servido para sua salvação foi voltado para sua destruição. Tudo quanto Deus ordenara para vida, acharam ser para morte. Na crucifixão de Cristo pelos judeus, estava envolvida a destruição de Jerusalém. O sangue derramado sobre o Calvário, foi o peso que os fez abismar na ruína para este mundo e o mundo por vir. Assim será no grande dia final, quando o juízo cair sobre os que rejeitam a graça divina. Cristo, para eles a pedra de escândalo, aparecer-lhes-á então como vingadora montanha. A glória de Seu rosto, que para os justos é vida, será para os ímpios um fogo consumidor. Por causa do amor rejeitado, da graça desprezada, será destruído o pecador. Mediante muitas ilustrações e repetidas advertências, Jesus mostrou qual seria o resultado, para os israelitas, de rejeitar o Filho de Deus. Nessas palavras, dirigia-Se a todos, em todos os séculos, que se recusam a recebê-Lo como Redentor. Todas as advertências são para eles. O templo profanado, o filho desobediente, os falsos lavradores, os edificadores desdenhosos, têm seu paralelo na experiência de todo pecador. A menos que este se arrependa, sobrevir-lhe-á a condenação prefigurada por aqueles.

 

Fonte: https://m.egwwritings.org/pt/book/1813.2593#2593, https://m.egwwritings.org/pt/book/1813.2558#2558 e https://m.egwwritings.org/pt/book/1813.2593#2593

Comentário sobre O Desejado de Todas as Nações, cap. 61-62

A doce ternura de Jesus toca o meu coração.

Zaqueu, Maria Madalena, Simão e Judas compartilhavam algo em comum: uma vida de pecado e vergonha. No entanto, suas vidas públicas se manifestavam de modo diferente: dois deles eram publicamente justos e respeitados, enquanto dois eram excluídos e rejeitados pela sociedade. Não importa se o pecado é exteriormente visível ou internamente oculto. Não importa se o pecador é publicamente aclamado ou publicamente envergonhado. Tanto o pecado interno como o externo produzem cicatrizes na vida.

Jesus conhecia o coração de cada um destes seguidores. Nem uma vez ele os castigou, o que só teria endurecido seus corações em resistência teimosa. Ele também não envergonha publicamente ninguém hoje em dia. Jesus entende que a vergonha só leva a mais ocultação e negação. Ele sabe que a culpa pode sobrecarregar a alma. Ele sabe que a vergonha da sociedade apenas aprofunda as feridas do coração.

Desde o final de 2015, eu tenho vivido sozinha, a maior parte do tempo confinada a uma cama com lesões neurológicas, completamente dependente do apoio financeiro de amigos e desconhecidos enquanto aguardo a confirmação da deficiência. Pedir ajuda me expôs a muitas situações embaraçosas. Quando as pessoas não entendem minha jornada, elas criticam, sermoneiam, envergonham, fazem comentários cruéis e muitas vezes vão embora, deixando meu coração mais partido do que meu corpo.

Não importa se você foi envergonhado pelos efeitos do pecado ou pela conseqüência não desejada das provações agonizantes da vida, você precisa saber esta verdade: dois mil anos atrás, Jesus não envergonhava nenhum de seus seguidores. Ele não se afastou deles, nem mesmo de Judas.

Confie no coração de Jesus. Ele nunca irá lhe envergonhar ou lhe deixar. Jamais!

Lori Engel
Capelã (atualmente com deficiência)
Eugene, Oregon EUA

O DESEJADO DE TODAS AS NAÇÕES, cap. 61-62

CAPÍTULO 61

Zaqueu

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De caminho para Jerusalém, “tendo Jesus entrado em Jericó, ia passando”. Luc. 19:1. A poucos quilômetros do Jordão, da banda ocidental do vale que se estendia daí numa planície, descansava a cidade em meio de verdura tropical e luxuriante beleza. Com as palmeiras e preciosos jardins regados por fontes naturais, brilhava qual esmeralda no engaste das calcáreas colinas e desolados barrancos que se interpunham entre Jerusalém e a cidade da planície.

Muitas caravanas, de caminho para a festa, passavam por Jericó. Sua chegada era sempre um momento de alegria. Agora, porém, mais profundo interesse agitava o povo. Sabia-se achar-Se entre a multidão o Rabi galileu que, não havia muito, ressuscitara Lázaro; e conquanto abundassem os murmúrios quanto às conspirações dos sacerdotes, estavam as multidões ansiosas de Lhe render homenagens.

Jericó era uma das cidades outrora separadas para os sacerdotes, e por essa época grande número deles tinha aí sua residência. Mas a cidade possuía também uma população de caráter inteiramente diverso. Era um grande centro de comércio, e os oficiais romanos e os soldados, com estrangeiros de todos os pontos, aí se achavam, ao passo que a coletoria da alfândega a tornava morada de muitos publicanos.

“Chefe dos publicanos”, Zaqueu era israelita, e detestado de seus patrícios. Sua posição e fortuna eram o prêmio de uma carreira


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que aborreciam, e considerada sinônimo de injustiça e extorsão. Todavia, o rico funcionário da alfândega não era de todo endurecido homem do mundo que parecia. Sob a aparência de mundanidade e orgulho, achava-se um coração susceptível às influências divinas. Zaqueu ouvira falar de Jesus. Espalhara-se por toda parte a fama dAquele que Se conduzira bondosa e cortesmente para com as classes proscritas. Despertou-se nesse chefe de publicanos o anelo de uma vida melhor. A poucos quilômetros apenas de Jericó, pregara João Batista no Jordão, e Zaqueu ouvira falar do chamado ao arrependimento. A instrução aos publicanos: “Não peçais mais do que o que vos está ordenado” (Luc. 3:13), conquanto aparentemente desatendida, impressionara-lhe o espírito. Conhecia as Escrituras, e estava convencido de que era injusto seu proceder. Agora, ouvindo as palavras que diziam provir do grande Mestre, se sentiu pecador aos olhos de Deus. Todavia, o que ouvira dizer de Jesus acendeu-lhe a esperança no coração. Arrependimento e reforma da vida eram possíveis mesmo para ele; não fora acaso publicano um dos mais dignos discípulos do Mestre? Zaqueu começou imediatamente a obedecer à convicção que dele tomara posse, e a fazer restituição àqueles a quem prejudicara.

Começara já a volver atrás, quando soaram em Jericó as novas de que Jesus vinha entrando na cidade. Zaqueu decidiu vê-Lo. Principiava a compreender quão amargos são os frutos do pecado, e quão difícil é a senda daquele que busca voltar de uma carreira de erros. Ser mal-compreendido, enfrentar a suspeita e a desconfiança no esforço de corrigir seus erros, dura coisa era de sofrer. O chefe de publicanos anelava contemplar o rosto dAquele cujas palavras lhe infundiram esperança ao coração.

Estavam apinhadas as ruas e Zaqueu, que era de pequena estatura, nada podia ver por sobre as cabeças do povo. Ninguém lhe queria abrir caminho; assim, correndo um pouco adiante da multidão, chegou a uma copada figueira à beira da estrada, e o abastado cobrador de impostos trepou, sentando-se entre os galhos, de modo a poder ver o cortejo ao passar embaixo. A multidão aproxima-se, vai passando, e Zaqueu investiga com ansioso olhar, em busca da figura que almejava ver.

Por sobre o clamor dos sacerdotes e rabis e as aclamações da turba, chegou ao coração de Jesus a expressão do mudo desejo daquele chefe de publicanos. De súbito, mesmo embaixo da figueira, um grupo estaca, os de diante e os de trás detêm-se e Alguém cujo olhar parecia ler a alma, ergue os olhos para a figueira. Quase


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duvidando dos próprios sentidos, o homem que ali estava na árvore ouve as palavras: “Zaqueu, desce depressa, porque hoje Me convém pousar em tua casa.” Luc. 19:5.

A multidão abre alas, e Zaqueu, caminhando como quem sonha, serve de guia para sua residência. Mas os rabinos contemplam isto de semblante carregado, murmurando descontentes e zombeteiros, “que entrara para ser hóspede de um homem pecador”. Luc. 19:7.

Zaqueu ficou abismado, num deslumbramento, e silencioso em face do amor e da condescendência de Cristo em rebaixar-Se até ele, tão indigno. Então o amor e a lealdade para com o Mestre que acabava de achar, lhe descerraram os lábios. Resolveu fazer pública sua confissão e arrependimento.


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Em presença da multidão, “levantando-se Zaqueu, disse ao Senhor: Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado”. Luc. 19:8.

“E disse-lhe Jesus: Hoje veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão.” Luc. 19:9.

Quando o jovem rico se retirara de Jesus, maravilharam-se os discípulos de ouvir o Mestre dizer: “Quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no reino de Deus!” Exclamaram uns para os outros: “Quem poderá pois salvar-se?” Mar. 10:24 e 26. Agora, tinham uma demonstração das palavras de Cristo: “As coisas que são impossíveis aos homens são possíveis a Deus.” Luc. 18:27. Viram como, por meio da graça divina, um rico podia entrar no reino.

Antes de Zaqueu ter contemplado o rosto de Cristo, começara a fazer aquilo que tornava manifesto ter ele arrependimento sincero. Antes de ser acusado pelos homens, confessara seu pecado. Submetera-se à convicção do Espírito Santo e começara a cumprir o ensino das palavras escritas para o antigo Israel, bem como para nós mesmos. Dissera o Senhor havia muito: “Quando teu irmão empobrecer, e as suas forças decaírem, então sustentá-lo-ás, como estrangeiro e peregrino, para que viva contigo. Não tomarás dele usura, nem ganho; mas do teu Deus terás temor, para que teu irmão viva contigo. Não lhe darás teu dinheiro com usura, nem lhe darás o teu manjar por interesse.” “Ninguém pois oprima ao seu próximo; mas terás temor do teu Deus.” Lev. 25:35-37 e 17. Estas palavras foram proferidas pelo próprio Cristo quando envolto na coluna de nuvem, e a primeira resposta de Zaqueu ao amor de Cristo era manifestar compaixão para com o pobre e o sofredor.

Havia entre os publicanos um convênio, de modo que podiam oprimir o povo e apoiar-se uns aos outros em suas práticas fraudulentas. Em sua extorsão, praticavam o que se tornara costume quase geral. Os próprios sacerdotes e rabinos que os desprezavam, eram culpados de se enriquecer por meios desonestos, sob o manto de seu sagrado ofício. Mas tão depressa se submeteu o publicano à influência do Espírito Santo, lançou de sua vida todo proceder contrário à integridade.

Não é genuíno nenhum arrependimento que não opere a reforma. A justiça de Cristo não é uma capa para encobrir pecados não confessados e não abandonados; é um princípio de vida que transforma o caráter e rege a conduta. Santidade é integridade


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para com Deus; é a inteira entrega da alma e da vida para habitação dos princípios do Céu.

O cristão deve representar perante o mundo, nos negócios de sua vida, a maneira por que o Senhor Se conduzira em empreendimentos desse gênero. Em toda transação deve ele patentear que Deus é seu mestre. “Santidade ao Senhor” deve-se achar escrito nos diários e razões, nas escrituras, recibos e letras de câmbio. Os que professam ser seguidores de Cristo, e são injustos nos tratos, estão dando falso testemunho do caráter de um Deus santo, justo e misericordioso. Toda alma convertida, como Zaqueu, marca a entrada de Cristo no coração pelo abandono das práticas injustas que lhe assinalaram a vida. Como o chefe dos publicanos, dará provas de sua sinceridade fazendo restituição. O Senhor diz: “Restituindo esse ímpio o penhor, pagando o furtado, andando nos estatutos da vida, e não praticando iniqüidade, … de todos os seus pecados com que pecou não se fará memória contra ele:… certamente viverá.” Ezeq. 33:15 e 16.

Se prejudicamos outros por qualquer injusta transação, se nos aproveitamos de alguém num negócio, ou defraudamos qualquer pessoa, ainda que sob a proteção da lei, devemos confessar nossa injustiça e fazer restituição tanto quanto esteja ao nosso alcance. Cumpre-nos restituir, não somente o que tiramos, mas tudo quanto se teria acumulado, se posto em justo e sábio emprego durante o tempo que se achou em nosso poder.

A Zaqueu, disse o Salvador: “Hoje veio a salvação a esta casa.” Luc. 19:9. Não somente foi o próprio Zaqueu abençoado, mas toda a casa com ele. Jesus foi ao seu lar, para dar-lhe lições sobre a verdade e instruir sua família nas coisas do reino. Tinham estado excluídos das sinagogas pelo desprezo dos rabis e adoradores; mas agora, como os mais favorecidos dentre as famílias de Jericó, reuniram-se em seu próprio lar, em torno do divino Mestre, e ouviram por si mesmos as palavras da vida.

É quando se recebe Cristo como Salvador pessoal, que sobrevém salvação à alma. Zaqueu recebera a Jesus não somente como a um hóspede de passagem em sua casa, mas como Alguém que vinha habitar no templo da alma. Os escribas e fariseus o acusavam de pecador, murmuraram contra Cristo por Se hospedar sob seu teto, mas o Senhor o reconheceu como filho de Abraão. Pois “os que são da fé são filhos de Abraão”. Gál. 3:7.

 

CAPÍTULO 62

O Banquete em Casa de Simão

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Simão de Betânia era considerado discípulo de Jesus. Era um dos poucos fariseus que se unira abertamente aos Seus seguidores. Reconhecia-O como mestre e acalentava esperanças que fosse o Messias, mas não O aceitara como Salvador. Seu caráter não estava transformado; permaneciam sem mudança seus princípios.

Simão fora curado de lepra, e isso é que o atraíra a Jesus. Desejara mostrar sua gratidão e, na última visita de Cristo a Betânia, ofereceu um banquete ao Salvador e a Seus discípulos. Esta festa reuniu muitos dos judeus. Havia por esse tempo grande agitação em Jerusalém. Cristo e Sua missão estavam atraindo mais atenção do que nunca. Os que tinham ido à festa, observavam-Lhe atentamente os movimentos, e alguns com olhos hostis.

O Salvador chegara a Betânia apenas seis dias antes da páscoa, e, como de costume, buscara repouso em casa de Lázaro. As multidões de viajantes que se dirigiam rumo à cidade, divulgaram as novas de que Ele estava a caminho para Jerusalém, e descansaria o sábado em Betânia. Havia entre o povo grande entusiasmo. Muitos afluíam a Betânia, alguns por simpatia para com Jesus, e outros por curiosidade de ver a pessoa que fora ressuscitada dos mortos.

Muitos esperavam ouvir de Lázaro uma história maravilhosa das cenas testemunhadas depois da morte. Surpreendiam-se de que ele não lhes contasse coisa alguma. Não tinha nada para contar


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a respeito. Declara a inspiração: “Os mortos não sabem coisa nenhuma. … O seu amor, o seu ódio, e a sua inveja já pereceram.” Ecl. 9:5 e 6. Mas Lázaro tinha um maravilhoso testemunho a dar com respeito à obra de Cristo. Para esse fim fora ressuscitado. Com segurança e poder, declarava que Jesus era o Filho de Deus.

As notícias levadas para Jerusalém pelos que visitavam Betânia aumentavam a agitação. O povo estava ansioso de ver e ouvir a Jesus. Havia uma geral interrogação – se Lázaro O acompanharia a Jerusalém e se o Profeta seria coroado rei durante a Páscoa. Os sacerdotes e príncipes viram que seu domínio sobre o povo continuava a enfraquecer, e mais amargo se tornava seu ódio contra Jesus. Mal podiam esperar a oportunidade de O tirar de seu caminho para sempre. À medida que o tempo passava, começaram a temer que afinal talvez não fosse a Jerusalém. Lembravam-se de quantas vezes lhe frustrara os desígnios assassinos, e temiam que lhes houvesse lido os pensamentos contra Ele e permanecesse ausente. Mal podiam ocultar sua ansiedade, e indagavam entre si: “Que vos parece? Não virá à festa?” João 11:56.

Foi convocado o concílio dos sacerdotes e fariseus. Desde a ressurreição de Lázaro, aumentara tanto a simpatia do povo para com Jesus, que seria perigoso lançar mão dEle abertamente. Assim decidiram as autoridades prendê-Lo em segredo, e efetuar o julgamento o mais silenciosamente possível. Esperavam que ao se tornar isso conhecido, a inconstante onda da opinião pública se voltaria a seu favor.

Assim se propuseram a destruir Jesus. Mas enquanto Lázaro existisse, sabiam os sacerdotes e rabis que não se achavam em segurança. A própria existência de um homem que por quatro dias estivera no sepulcro e fora ressuscitado por uma palavra de Jesus, causaria cedo ou tarde uma reação. O povo se vingaria de seus guias por tirarem a vida Àquele que fora capaz de realizar esse milagre. O Sinédrio decidiu, portanto, que Lázaro também deveria morrer. A tal ponto a inveja e os preconceitos levam seus escravos. O ódio e a incredulidade dos guias judaicos haviam crescido até dispô-los a tirar a vida de uma pessoa a quem o infinito poder salvara do sepulcro.

Enquanto se tramava em Jerusalém essa conspiração, Jesus e Seus amigos eram convidados à festa de Simão. À mesa achava-Se Jesus, tendo a um lado Simão, a quem curara de repugnante moléstia, e do outro Lázaro, a quem ressuscitara. Marta servia à mesa, mas Maria escutava ansiosamente toda palavra que caía dos lábios de Jesus. Em Sua misericórdia perdoara Jesus os seus


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pecados, chamara do sepulcro seu bem-amado irmão, e a alma de Maria estava cheia de reconhecimento. Ouvira Jesus falar de Sua morte próxima e, em seu profundo amor e tristeza, almejara honrá-Lo. Com grande sacrifício para si, comprara um vaso de alabastro de “ungüento de nardo puro, de muito preço” (João 12:3) para com ele ungir-Lhe o corpo. Mas agora muitos diziam que Ele estava para ser coroado rei. Seu pesar transformou-se em alegria, e ansiava ser a primeira a honrar a seu Senhor. Quebrando o vaso de ungüento, derramou o conteúdo sobre a cabeça e os pés de Jesus, e depois, enquanto de joelhos chorava umedecendo-os com lágrimas, enxugava-os com os longos cabelos soltos.

Buscara não ser observada, e seus movimentos poderiam passar desapercebidos, mas o ungüento encheu a sala de odor, declarando a todos os presentes a ação dela. Judas contemplou a mesma com grande desagrado. Em vez de esperar o que diria Cristo sobre o assunto, começou a murmurar suas recriminações aos que lhe ficavam mais próximos, censurando-O por tolerar esse desperdício. Fez astutamente insinuações de molde a produzir descontentamento.

Judas era tesoureiro dos discípulos, e de seu pequeno depósito subtraíra às escondidas para o próprio uso, limitando assim a uma insignificância os recursos dos discípulos. Ansiava colocar na bolsa tudo quanto pudesse obter. Dos meios desta bolsa muitas vezes se tirava para socorro dos pobres; e quando se comprava qualquer coisa que Judas não julgava essencial, dizia: Por que esse desperdício? por que o preço disso não se pôs na bolsa que tenho para os pobres? Ora, o ato de Maria achava-se em tão frisante contraste com o seu egoísmo, que o colocava em situação vergonhosa; e, segundo o seu costume, procurou apresentar um motivo digno à objeção que fazia a sua oferenda. Voltando-se para os discípulos, disse: “Por que não se vendeu este ungüento por trezentos dinheiros e não se deu aos pobres? Ora ele disse isto, não pelo cuidado que tivesse dos pobres, mas porque era ladrão, e tinha a bolsa, e tirava o que ali se lançava.” João 12:5 e 6. Judas não tinha coração para os pobres. Houvessem vendido o ungüento de Maria, caísse o lucro em seu poder, e não teriam os pobres recebido benefício.

Judas tinha em alto conceito sua habilidade administrativa. Julgava-se, como financista, muito superior aos condiscípulos e levara-os a considerá-lo da mesma maneira. Conquistara-lhes a confiança, e exercia sobre eles grande influência. Sua professada simpatia pelos pobres os enganou; e a astuta insinuação que fez


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os levou a olhar com desconfiança a dedicação de Maria. E em volta da mesa passou a murmuração: “Para que é este desperdício? Pois este ungüento podia vender-se por grande preço, e dar-se o dinheiro aos pobres.” Mat. 26:8 e 9.

Maria ouviu as palavras de crítica. O coração tremeu-lhe no peito. Temeu que a irmã a repreendesse por seu desperdício. Talvez o Mestre também a julgasse imprevidente. Sem se justificar ou apresentar desculpa, estava para se esquivar dali, quando se ouviu a voz de Seu Senhor: “Deixai-a, para que a molestais?” Viu que ela estava embaraçada e aflita. Sabia que nesse ato de serviço exprimira gratidão pelo perdão de seus pecados, e acalmou-lhe o espírito. Erguendo a voz acima dos murmúrios da crítica, disse: “Ela fez-Me boa obra. Porque sempre tendes os pobres convosco, e podeis fazer-lhes bem, quando quiserdes; mas a Mim nem sempre Me tendes. Esta fez o que podia; antecipou-se a ungir o Meu corpo para a sepultura.” Mar. 14:6-8.

A fragrante oferenda que Maria pensara prodigalizar ao corpo inanimado do Salvador, vasou-a ela sobre Ele vivo. No sepultamento, seu aprazível odor não poderia impregnar senão o túmulo; agora, alegrou-Lhe o coração com a certeza de sua fé e amor. José de Arimatéia e Nicodemos não ofereceram suas dádivas de amor a Jesus em vida. Com amargo pranto levaram suas custosas especiarias ao frio e inconsciente corpo. As mulheres que levaram especiarias ao sepulcro, em vão o fizeram, pois verificaram ter Ele ressuscitado. Mas Maria, extravasando o seu amor sobre o Salvador enquanto Ele tinha conhecimento da dedicação dela, estava-O preparando para Seu sepultamento. E, ao baixar à treva de Sua grande prova, levou consigo a lembrança desse ato, penhor do amor que Seus remidos Lhe votariam para sempre.

Muitos há que levam aos mortos preciosos dons. De pé, ao lado da querida figura para sempre silenciosa, proferem abundantes palavras de amor. Ternura, apreço, dedicação, tudo é prodigalizado àquele que já não vê nem ouve. Houvessem essas palavras sido ditas quando o fatigado espírito tanto delas necessitava; quando o ouvido as apreenderia e o coração as podia sentir, quão precioso teria sido o seu perfume!

Maria não sabia toda a significação de seu ato de amor. Não podia responder a seus acusadores. Não saberia explicar por que escolhera aquela ocasião para ungir a Jesus. O Espírito Santo planejara por ela, e ela Lhe obedecera às sugestões. A inspiração não se detém para dar o motivo. Presença invisível, fala ela à mente e à alma, e move o coração para agir. Ela é sua própria justificação.

Cristo explicou a Maria o significado de seu ato, e com isso deu


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mais do que recebera. “Ora, derramando este perfume sobre o Meu corpo”, disse Ele, “ela o fez para o Meu sepultamento.” Mat. 26:12. Como o vaso de alabastro foi quebrado, e encheu toda a casa com sua fragrância, assim Cristo havia de morrer e Seu corpo ser quebrantado; mas Ele Se ergueria da tumba, e o perfume de Sua vida havia de encher a Terra. “Cristo nos amou, e Se entregou a Si mesmo por nós, em oferta de sacrifício a Deus, em cheiro suave.” Efés. 5:2.

“Em verdade vos digo”, declarou Cristo, “que, em todas as partes do mundo onde este evangelho for pregado, também o que ela fez será contado para sua memória.” Mar. 14:9. Contemplando o futuro, o Salvador falou com segurança a respeito de Seu evangelho. Ele devia ser pregado por todo o mundo. E onde quer que se estendesse o evangelho, a oferenda de Maria havia de espargir sua fragrância, e por sua ação espontânea seriam abençoados outros corações. Erguer-se-iam e cairiam impérios; seriam esquecidos nomes de reis e conquistadores; mas o feito dessa mulher seria imortalizado nas páginas da História Sagrada. Enquanto o tempo durasse, aquele partido vaso de alabastro contaria a história do abundante amor de Deus a uma raça caída.

O ato de Maria achava-se em assinalado contraste com o que Judas estava para praticar. Que incisiva lição poderia ter Cristo dado àquele que lançara a semente da crítica e do mau juízo na mente dos discípulos! Com quanta justiça poderia o acusador haver sido acusado! Aquele que lê os motivos de cada alma, e entende toda ação, poderia haver aberto, aos olhos dos convivas da festa, sombrios capítulos da vida de Judas. Poderia ter sido patenteada a vã pretensão em que o traidor baseava suas palavras; pois, em vez de compadecer-se dos pobres, roubava-os do dinheiro que se destinava a socorrê-los. Poderia haver sido despertada indignação contra ele por sua opressão à viúva, ao órfão e ao jornaleiro. Houvesse, porém, Jesus desmascarado Judas, isso teria sido apresentado como causa da traição. E, se bem que acusado de ladrão, Judas teria captado simpatia, mesmo entre os discípulos. O Salvador não o repreendeu, e evitou assim dar-lhe desculpa para a traição.

O olhar que Jesus lhe lançou, no entanto, convenceu a Judas de que o Salvador lhe penetrara a hipocrisia, e lera seu baixo, desprezível caráter. E louvando Maria, tão severamente reprovada, Cristo repreendera a Judas. Antes disso, o Salvador nunca lhe fizera uma censura direta. Agora, a reprimenda irritou-lhe o coração. Decidiu vingar-se. Da ceia, saiu diretamente para


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o palácio do sumo sacerdote, onde encontrou reunido o conselho, e ofereceu-se para lhes entregar Jesus nas mãos.

Os sacerdotes se regozijaram. A esses guias de Israel fora concedido o privilégio de receber a Jesus como Salvador, sem dinheiro e sem preço. Mas recusaram o precioso dom a eles oferecido no mais terno espírito de constrangedora afeição. Recusaram aceitar aquela salvação que é mais valiosa do que o ouro, e compraram seu Senhor por trinta moedas de prata.

Judas condescendera com a avareza até que ela lhe dominara todos os bons traços de caráter. Invejou a dádiva feita a Jesus. Seu coração queimou de inveja de que o Salvador fosse objeto de uma oferenda digna dos reis da Terra. Por uma quantia muito inferior a do vaso de ungüento, traiu a seu Senhor.

Os discípulos não eram como Judas. Amavam o Salvador. Não Lhe apreciavam, entretanto, o elevado caráter. Houvessem compreendido o que fizera por eles, e teriam sentido que coisa alguma que Lhe fosse oferecida era desperdiçada. Os magos do Oriente, que tão pouco sabiam a respeito de Jesus, haviam mostrado mais verdadeiro apreço da honra que Lhe era devida. Levaram preciosas dádivas ao Salvador, e diante dEle se inclinaram em homenagem, quando era ainda um simples Bebê deitado na manjedoura.

Cristo dá valor aos atos de sincera cortesia. Quando qualquer Lhe prestava um favor, com celestial delicadeza Ele o abençoava. Não recusava a mais singela flor arrancada pela mão de uma criança e a Ele oferecida com amor. Aceitava as ofertas dos pequeninos, e abençoava os doadores inscrevendo-lhes o nome no livro da vida. A unção feita por Maria acha-se nas Escrituras, mencionada como distintivo das outras Marias. Atos de amor e reverência para com Jesus são uma demonstração de fé nEle como Filho de Deus. E o Espírito Santo menciona como testemunho de lealdade para com Cristo: “Se lavou os pés aos santos, se socorreu os aflitos, se praticou toda boa obra.” I Tim. 5:10.

Cristo Se deleitava no sincero desejo de Maria de fazer a vontade de Seu Senhor. Aceitava a riqueza do puro afeto que Seus discípulos não compreendiam, não queriam compreender. O desejo que Maria tinha de prestar esse serviço a seu Senhor era para Ele de mais valor que todos os preciosos ungüentos da Terra, pois exprimia seu apreço pelo Redentor do mundo. Era o amor de Cristo que a constrangia. Enchia-lhe a alma a incomparável excelência do caráter de Cristo. Aquele ungüento era símbolo do coração da doadora. Era demonstração exterior de um amor nutrido por correntes celestiais e que chegara a ponto de extravasamento.


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A obra de Maria era exatamente a lição que os discípulos necessitavam, para mostrar-lhes que seriam aprazíveis a Cristo as expressões de amor por parte deles. Jesus fora-lhes tudo e não percebiam que em breve seriam privados de Sua presença, que dentro em pouco não lhes seria dado oferecer-Lhe nenhum sinal de reconhecimento por Seu grande amor. A solidão de Cristo, separado das cortes celestiais, vivendo a vida da humanidade, nunca a compreenderam nem apreciaram devidamente os discípulos. Foi muitas vezes magoado, porque não Lhe dispensavam aquilo que deles deveria ter recebido. Sabia que, estivessem sob a influência dos anjos celestiais que O acompanhavam, também haviam de considerar que nenhuma dádiva era de suficiente valor para exprimir o espiritual afeto do coração.

Seu conhecimento posterior deu-lhes o verdadeiro sentimento quanto às muitas coisas que poderiam ter feito para Jesus, exprimindo o amor e o reconhecimento de seu coração, enquanto Lhe estavam ao lado. Quando não mais Jesus Se achava entre eles, e se sentiam na verdade como ovelhas sem pastor, começavam a ver como poderiam ter manifestado para com Ele atenções que Lhe teriam alegrado o coração. Não mais então censuraram a Maria, mas a si mesmos. Oh! se lhes fosse dado retirar sua crítica, e apresentarem os pobres como mais dignos da oferenda do que Jesus! Sentiram vivamente a reprovação, ao tirarem da cruz o ferido corpo de seu Senhor.

A mesma falta se manifesta hoje, em nosso mundo. Poucos somente apreciam o que Cristo é para eles. Fizessem-no, no entanto, e o grande amor de Maria seria expressado, a unção liberalmente feita. Não seria considerado desperdício o custoso ungüento. Coisa alguma se reputaria demasiado preciosa para Cristo, nenhuma abnegação nem sacrifício grande demais para ser suportado por amor dEle.

As palavras proferidas em indignação: “Por que é este desperdício?” (Mat. 26:8) recordaram vividamente a Cristo o maior sacrifício já feito – o dom de Si mesmo como propiciação por um mundo perdido. O Senhor seria tão generoso para com a família humana, que não se poderia dizer que Lhe era possível fazer mais. No dom de Jesus, Deus deu todo o Céu. Sob o ponto de vista humano, esse sacrifício era um espantoso desperdício. Para o raciocínio humano todo o plano de salvação é um desperdício de misericórdias e recursos. Encontramos por toda parte abnegação e sacrifício feito com toda a alma. Bem podem as hostes celestiais contemplar, com assombro, a família humana que recusa ser erguida e enriquecida com o ilimitado amor expresso em Cristo. Bem podem elas exclamar: por que este grande desperdício?


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Mas a expiação por um mundo perdido devia ser plena, abundante, completa. A oferenda de Cristo foi inexcedivelmente abundante para abranger toda alma que Deus criou. Não se podia restringir, de modo a não exceder o número dos que haviam de aceitar o grande Dom. Nem todos os homens são salvos; todavia, o plano da salvação não é um desperdício pelo fato de não realizar tudo que foi provido por sua liberalidade. Há o suficiente, e sobeja ainda.

Simão, o hospedeiro, fora influenciado pela crítica de Judas à dádiva de Maria, e surpreendeu-se do procedimento de Jesus. Seu orgulho farisaico ofendeu-se. Sabia que muitos de seus hóspedes estavam olhando a Jesus com desconfiança e desagrado. Simão disse no seu interior: “Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que Lhe tocou, pois é uma pecadora.” Luc. 7:39.

Curando Simão da lepra, Cristo o salvara de uma morte em vida. Mas agora Simão duvidava se o Salvador era profeta. Por Cristo permitir que essa mulher dEle se aproximasse, por não a desprezar como alguém cujos pecados são demasiado grandes para serem perdoados, por não mostrar que compreendia haver ela caído, Simão foi tentado a pensar que Ele não era profeta. Jesus nada sabe dessa mulher, tão pródiga em demonstrações, pensou ele, ou não lhe permitiria que O tocasse.

Foi, porém, a ignorância de Simão acerca de Deus e de Cristo que o levou a assim pensar. Não compreendeu que o Filho de Deus deve agir à maneira divina, compassiva, terna e misericordiosamente. A maneira de Simão era não fazer caso do penitente serviço de Maria. Seu ato de beijar os pés de Cristo e ungir-Lhos com o ungüento foi exasperante para seu coração endurecido. Pensou que se Cristo fosse profeta, reconheceria os pecadores e os repreenderia.

A esse inexpresso pensamento, respondeu o Salvador: “Simão, uma coisa tenho a dizer-te…. Um certo credor tinha dois devedores; um devia-lhe quinhentos dinheiros, e outro cinqüenta. E, não tendo ele com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Dize pois: qual deles o amará mais? E Simão, respondendo, disse: Tenho para mim que é aquele a quem mais perdoou. E Ele lhe disse: Julgaste bem.” Luc. 7:40-43.

Como fizera Natã com Davi, Cristo ocultou Seu bem atirado golpe sob o véu de uma parábola. Lançou sobre o hospedeiro a responsabilidade de proferir a própria sentença. Simão induzira ao pecado a mulher que ora desprezava. Fora por ele profundamente prejudicada. Pelos dois devedores da parábola, eram representados Simão e a mulher. Jesus não intentava ensinar que diferentes graus de obrigação houvessem de ser sentidos pelas


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duas pessoas, pois cada uma tinha um débito de gratidão que nunca se poderia solver. Mas Simão se julgava mais justo que Maria, e Jesus desejava fazer-lhe ver quão grande era na verdade a sua culpa. Queria mostrar-lhe que seu pecado era maior que o dela, tão maior, como um débito de quinhentos dinheiros é superior a uma dívida de cinqüenta.

Simão começou então a ver-se sob um novo aspecto. Observou como Maria era considerada por Alguém que era mais que profeta. Notou que, com o penetrante olhar profético, Cristo lhe lera o amorável e devotado coração. A vergonha apoderou-se dele, e percebeu achar-se em presença de Alguém que lhe era superior.

“Entrei em tua casa”, continuou Cristo, “e não Me deste água para os pés”; mas com lágrimas de arrependimento originadas no amor, Maria lavou-Me os pés e enxugou-os com os próprios cabelos. “Não Me deste ósculo, mas esta mulher” a quem tu desprezas, “desde que entrou, não tem cessado de Me beijar os pés.” Luc. 7:44 e 45. Cristo contava as oportunidades que Simão tivera de manifestar seu amor pelo Senhor, e o apreço pelo que fora feito por ele. Claramente, se bem que com delicada polidez, o Salvador assegurou a Seus discípulos que o coração se Lhe magoa quando Seus filhos se descuidam de manifestar gratidão para com Ele por palavras e atos de amor.

O Perscrutador do coração lera os motivos que deram lugar ao ato de Maria, e viu também o espírito que instigara as palavras de Simão. “Vês tu esta mulher?” disse-lhe. É uma pecadora. Digo-te “que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado pouco ama”. Luc. 7:47.

A frieza de Simão e sua negligência para com o Salvador mostravam quão pouco apreciava a bênção que recebera. Julgava honrar a Jesus, convidando-O à sua casa. Mas viu-se então como na realidade era. Enquanto pensara ler seu Hóspede, Este o estivera lendo a ele. Viu quão justo era o juízo de Cristo a seu respeito. Sua justiça fora um vestido de farisaísmo. Desprezara a compaixão de Jesus. Não O reconhecera como representante de Deus. Ao passo que Maria era uma pecadora perdoada, ele era um não perdoado pecador. A rigorosa regra de justiça que quisera impor contra ela, condenava-o a ele próprio.

Simão foi tocado pela bondade de Jesus em não o repreender abertamente diante dos hóspedes. Não fora tratado como desejara que Maria o fosse. Viu que Jesus não desejava expor sua culpa diante dos outros, mas buscava, por uma exata exposição do fato, convencer-lhe o espírito e por piedosa bondade vencer-lhe o coração. Uma severa acusação haveria endurecido Simão contra o arrependimento, mas a paciente admoestação o convenceu de


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seu erro. Viu a magnitude do débito que tinha para com seu Senhor. Seu orgulho humilhou-se, ele se arrependeu, e o altivo fariseu tornou-se um humilde e abnegado discípulo.

Maria fora considerada grande pecadora, mas Cristo sabia as circunstâncias que lhe tinham moldado a vida. Poderia haver-lhe extinguido nalma toda centelha de esperança, mas não o fez. Fora Ele que a erguera do desespero e da ruína. Sete vezes ouvira ela Sua repreensão aos demônios que lhe dominavam o coração e a mente. Ouvira-Lhe o forte clamor ao Pai em benefício dela. Sabia quão ofensivo é o pecado à Sua imaculada pureza, e em Sua força vencera.

Quando, aos olhos humanos, seu caso parecia desesperado, Cristo viu em Maria aptidões para o bem. Viu os melhores traços de seu caráter. O plano da redenção dotou a humanidade de grandes possibilidades, e em Maria se deviam as mesmas realizar. Mediante Sua graça, tornou-se participante da natureza divina. Aquela que caíra e cuja mente fora habitação de demônios, chegara bem perto do Salvador em associação e serviço. Foi Maria que se assentou aos pés de Jesus e dEle aprendeu. Foi ela que Lhe derramou na cabeça o precioso ungüento, e banhou os pés com as próprias lágrimas. Achou-se aos pés da cruz e O seguiu ao sepulcro. Foi a primeira junto ao sepulcro, depois da ressurreição. A primeira a proclamar o Salvador ressuscitado.

Jesus conhece as circunstâncias de toda alma. Podeis dizer: Sou pecador, muito pecador. Talvez o sejais; mas quanto pior fordes, tanto mais necessitais de Jesus. Ele não repele nenhuma criatura que chora, contrita. Não diz a ninguém tudo quanto poderia revelar, mas manda a toda alma tremente que tenha ânimo. Perdoará abundantemente todos quantos a Ele forem em busca de perdão e restauração.

Cristo poderia comissionar os anjos do Céu para derramar as taças de Sua ira sobre nosso mundo, a fim de destruir a todos quantos estão cheios de ódio contra Deus. Poderia apagar essa mancha negra do Seu Universo. Mas assim não faz. Acha-Se hoje ante o altar de incenso, apresentando perante Deus as orações dos que desejam Seu auxílio.

As almas que a Ele se volvem em busca de refúgio, Cristo erguerá acima da acusação e da contenda das línguas. Nenhum homem ou anjo mau pode incriminar a essas almas. Cristo as liga a Sua própria natureza humano-divina. Acham-se ao lado dAquele que tomou sobre Si os pecados, na luz que procede do trono divino. “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? Pois é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre os mortos, a qual está à direita de Deus, e também intercede por nós.” Rom. 8:33 e 34.

Comentário sobre O Desejado de Todas as Nações, cap. 59 – 60

O vício em poder e controle permanece vivo e bem hoje, exatamente como há dois mil anos. Desesperados para proteger posições de autoridade, os líderes judeus rejeitaram a Cristo, escolhendo endurecer seus corações. O Príncipe do Céu não forçaria a mudança de seus corações cegos pelo ódio ou curaria arbitrariamente suas almas devastadas pelo pecado. Capaz de ressuscitar os mortos, Ele ainda era incapaz de reviver os corações dos líderes espirituais impulsionados pela necessidade de poder.

Que conforto isso é para nós quando sofremos pelos corações endurecidos daqueles que não conseguimos alcançar! Saber que o Filho de Deus não conseguiu alcançar certas pessoas nos ajuda a aceitar a realidade comovente que nunca seremos capazes de alcançar a todos. Devemos abandonar a ilusão de que podemos salvar a todos.

Hoje, os corações humanos ainda são motivados pelo desejo de controle. A necessidade de poder muitas vezes leva Cristo para fora dos corações, deixando igrejas e lares vulneráveis ao comportamento tirânico. O medo de perder o respeito e a autoridade ainda leva muitos cristãos a crucificar vidas e corações. Infelizmente, o vício implacável ao poder destruiu muitas casas e vidas.

Todos os dias, perguntemos aos nossos corações: Em que extensão minha vida é governada pela necessidade de controle e poder? O que temo perder caso permita uma maior liberdade dos outros? Quando me sinto seguro no amor de Deus e aprendo a me sentir seguro não sendo controlador, deixarei de tentar ser Deus na vida dos outros.

Lori Engel, Capelã aposentada
Eugene, Oregon, USA

Fonte:https://www.revivalandreformation.org/bhp/en/sop/da/59-60
Equipe de tradução: Jobson Santos, Jeferson Quimelli e Gisele Quimelli