PARÁBOLAS DE JESUS, cap. 28 – semana 20/12/2015

Capítulo 28 — O maior dos males

Este capítulo é baseado em Mateus 19:16-30; 20:1-16; Marcos 10:17-31; Lucas 18:18-30.

A verdade da livre graça de Deus fora quase perdida de vista pelos judeus. Os rabinos ensinavam que o favor de Deus devia ser alcançado por merecimento. Esperavam ganhar pelas próprias obras o galardão dos justos. Por isto seu culto todo era induzido por um espírito ávido e mercenário. Até os discípulos de Cristo não estavam totalmente livres deste espírito, e o Salvador aproveitava toda oportunidade para mostrar-lhes seu erro. Justamente antes de dar a parábola dos trabalhadores ocorreu um evento que Lhe ofereceu a oportunidade para apresentar os justos princípios.

Indo Seu caminho, um jovem príncipe correu-Lhe ao encontro e, ajoelhando-se, saudou-O reverentemente. “Bom Mestre”, disse, “que bem farei, para conseguir a vida eterna?” Mateus 19:16.

O príncipe dirigiu-se a Cristo meramente como a um rabino honrado, não reconhecendo nEle o Filho de Deus. O Salvador disse: “Por que Me chamas bom? Não há bom, senão um só que é Deus.” Mateus 19:17. Em que sentido Me chamas bom? Deus unicamente é bom. Se Me reconheces como tal, precisas receber-Me como Seu Filho e representante.

“Se queres, porém, entrar na vida”, acrescentou, “guarda os mandamentos.” Mateus 19:17. O caráter de Deus é expresso em Sua lei; e se queres estar em harmonia com Deus, os princípios de Sua lei devem ser o motivo de todas as tuas ações.

Cristo não diminui as exigências da lei. Em linguagem inconfundível apresenta a obediência a ela como condição da vida eterna — a mesma condição requerida de Adão antes da queda. O Senhor não espera agora menos de nós, do que esperava do homem no Paraíso, obediência perfeita, justiça irrepreensível. A exigência sob o pacto da graça é tão ampla quanto os requisitos ditados no Éden — harmonia com a lei de Deus, que é santa, justa e boa.

Às palavras: “Guarda os mandamentos”, o jovem respondeu: “Quais?” Mateus 19:17, 18. Supôs que fossem alguns preceitos cerimoniais; mas Cristo falava da lei dada no Sinai. Mencionou diversos mandamentos da segunda tábua do decálogo, e resumiu-os todos no preceito: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Mateus 19:19.

O jovem respondeu sem hesitação: “Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?” Mateus 19:20. Sua compreensão da lei era externa e superficial. Julgado segundo o padrão humano, preservara caráter irrepreensível. Em grande parte sua vida exterior fora isenta de culpa; acreditara realmente que sua obediência fora sem falha. Contudo tinha um receio íntimo de que nem tudo estava direito entre seu coração e Deus. Isso originou a pergunta: “Que me falta ainda?”

“Se queres ser perfeito”, disse Cristo, “vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no Céu; e vem e segue-Me. E o jovem, ouvindo essa palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades.” Mateus 19:21, 22. O amante de si mesmo é transgressor da lei. Isto quis Jesus revelar ao jovem, e submeteu-o a uma prova de modo tal, que manifestaria o egoísmo de seu coração. Mostrou-lhe a nódoa do caráter. O jovem não desejou mais esclarecimento. Nutrira na alma um ídolo — o mundo era o seu deus. Professava ter guardado os mandamentos, porém estava destituído do princípio que é o próprio espírito e vida de todos eles. Não possuía verdadeiro amor a Deus e ao homem. Esta falta era a carência de tudo quanto o qualificaria para entrar no reino do Céu. Em seu amor ao próprio eu e ao ganho terrestre, estava em desarmonia com os princípios do Céu.

Quando este jovem príncipe foi ter com Jesus, sua sinceridade e fervor conquistaram o coração do Salvador. “Olhando para ele, o amou.” Marcos 10:21. Nele viu alguém que poderia trabalhar como pregador da justiça. Teria recebido este jovem talentoso e nobre tão prontamente como recebera os pobres pescadores que O seguiam. Se devotasse sua aptidão à obra de salvar almas, poderia tornar-se obreiro diligente e bem-sucedido para Cristo.

Precisava, porém, aceitar primeiramente as condições do discipulado. Precisava entregar-se a Deus sem reservas. Ao convite do Salvador, João, Pedro, Mateus e seus companheiros, deixando tudo, levantaram-se e O seguiram. Lucas 5:28. Era requerida a mesma consagração do jovem príncipe. E nisto Cristo não pediu maior sacrifício do que Ele próprio fizera. “Sendo rico, por amor de vós Se fez pobre, para que, pela Sua pobreza, enriquecêsseis.” 2 Coríntios 8:9. O jovem tinha somente que seguir aonde Cristo oprecedera.

Cristo contemplou o rapaz e anelou seu coração. Desejava enviá-lo como mensageiro de bênçãos aos homens. Em vez daquilo que fora convidado a renunciar, Cristo lhe ofereceu o privilégio de Sua companhia. “Segue-Me”, disse. Mateus 19:21. Este privilégio foi considerado uma alegria por Pedro, Tiago e João. O próprio jovem olhava a Cristo com admiração. Seu coração foi atraído ao Salvador. Não estava, porém, pronto para aceitar Seu princípio de abnegação. Preferiu suas riquezas a Cristo. Desejava a vida eterna, mas não queria receber na alma aquele amor desinteressado que, somente, é vida, e com coração triste saiu da presença de Cristo.

Quando o jovem se retirou, Jesus disse aos discípulos: “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas.” Marcos 10:23. Estas palavras surpreenderam os discípulos. Haviam sido ensinados a considerar os ricos favorecidos do Céu; poder e riquezas mundanas, eles mesmos esperavam receber no reino do Messias; se os ricos não entrassem no reino, que esperança poderia haver para os demais homens?

“Jesus, tornando a falar, disse-lhes: Filhos, quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus. E eles se admiravam ainda mais.” Marcos 10:24-26. Agora reconheceram que também eles estavam incluídos na solene advertência. À luz das palavras do Salvador, seu oculto anelo pelo poder e pelas riquezas foi revelado. Com maus pressentimentos quanto a si mesmos, exclamaram: “Quem poderá, pois, salvar-se?” Marcos 10:26.

“Jesus, porém, olhando para eles, disse: Para os homens é impossível, mas não para Deus, porque para Deus todas as coisas são possíveis.” Marcos 10:27.

Um rico, como tal, não pode entrar no Céu. Sua riqueza não lhe outorga direito à herança dos santos na luz. Somente pela graça imerecida de Cristo pode alguém ter entrada na cidade de Deus.

As palavras do Espírito são dirigidas tanto aos ricos como aos pobres: “Não sois de vós mesmos; porque fostes comprados por bom preço.” 1 Coríntios 6:19, 20. Quando os homens crerem isto, considerarão suas posses um legado para ser usado como Deus dirigir, para salvação dos perdidos, e conforto dos sofredores e pobres. Para o homem isto é impossível, porque o coração se apega às posses terrestres. A alma presa ao serviço de “Mamom”, está surda ao clamor da necessidade humana. Para Deus todas as coisas são possíveis, porém. Contemplando o imaculado amor de Cristo, o coração egoísta se enternecerá e será subjugado. Como o fariseu Saulo, o rico será induzido a dizer: “O que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor.” Filipenses 3:7, 8. Então nada estimarão seu. Jubilarão por considerarem-se mordomos da múltipla graça de Deus, e por Sua causa servos de todos os homens.

Pedro foi o primeiro a reanimar-se da íntima convicção operada pelas palavras do Salvador. Pensou com satisfação no que ele e seus irmãos renunciaram por Cristo: “Eis que”, disse ele, “nós deixamos tudo e Te seguimos.” Mateus 19:27. Lembrando-se da promessa condicional ao jovem príncipe: “Terás um tesouro no Céu” (Mateus 19:21), perguntou o que ele e seus companheiros receberiam como recompensa por seu sacrifício.

A resposta do Salvador comoveu o coração daqueles pescadores galileus. Cristo mencionou honras que ultrapassavam seus mais altos sonhos. “Em verdade vos digo que vós, que Me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do Homem Se assentar no trono da Sua glória, também vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel.” Mateus 19:28. E acrescentou: “Ninguém há, que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos, por amor de Mim e do evangelho, que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições, e, no século futuro, a vida eterna.” Marcos 10:29, 30.

Mas a pergunta de Pedro: “Que receberemos?” (Mateus 19:27) revelou um espírito que, não corrigido, incapacitaria os discípulos para serem mensageiros de Cristo; porque era espírito de mercenário. Embora houvessem sido atraídos pelo amor de Jesus, os discípulos não estavam completamente livres do farisaísmo. Ainda trabalhavam com o pensamento de merecer recompensa proporcional à sua obra. Nutriam espírito de exaltação e complacência próprias, e faziam distinções entre si. Se algum deles falhava em qualquer pormenor, os outros nutriam sentimentos de superioridade.

Para que os discípulos não perdessem de vista os princípios do evangelho, Cristo lhes narrou uma parábola ilustrativa da maneira como Deus procede com Seus servos, e o espírito com que deseja que trabalhem para Ele.

“O reino dos Céus”, disse Ele, “é semelhante a um homem, pai de família, que saiu de madrugada a assalariar trabalhadores para a sua vinha.” Mateus 20:1. Era costume que os homens que procuravam trabalho esperassem nas praças, e lá iam os empreiteiros procurar servos. O homem da parábola é apresentado como indo a diferentes horas contratar operários. Os assalariados nas primeiras horas concordaram em trabalhar por uma soma combinada; os assalariados mais tarde deixaram o seu salário à discrição do pai de família.

“Aproximando-se a noite, diz o senhor da vinha ao seu mordomo: Chama os trabalhadores, e paga-lhes o salário, começando pelos últimos até aos primeiros. E, chegando os que tinham ido perto da hora undécima, receberam um dinheiro cada um; vindo, porém, os primeiros, cuidaram que haviam de receber mais; mas, do mesmo modo, receberam um dinheiro cada um.” Mateus 20:8-10.

O procedimento do pai de família com os trabalhadores em sua vinha representa o de Deus com a família humana. É contrário aos costumes que prevalecem entre os homens. Nos negócios mundanos, a compensação é dada de acordo com o trabalho executado. O trabalhador espera que lhe seja pago somente aquilo que ganhou. Mas na parábola, Cristo estava ilustrando os princípios de Seu reino — um reino não deste mundo. Ele não é regido por qualquer norma humana. Diz o Senhor: “Porque os Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os Meus caminhos. … Porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os Meus caminhos mais altos que os vossos caminhos, e os Meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos.” Isaías 55:8, 9.

Na parábola, os primeiros obreiros concordaram em trabalhar por uma soma estipulada, e receberam a quantia especificada. Nada mais. Os assalariados mais tarde creram na promessa do mestre: “Dar-vos-ei o que for justo.” Mateus 20:4. Mostraram confiança nele, nada perguntando a respeito do salário. Confiaram em sua justiça e eqüidade. Foram recompensados, não de acordo com o que trabalharam, mas segundo a generosidade do pai de família.

Assim deseja Deus que confiemos nEle, que justifica o ímpio. Seu galardão é dado, não proporcionalmente ao nosso mérito, mas conforme Seu propósito, “que fez em Cristo Jesus, nosso Senhor”. Efésios 3:11. “Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas, segundo a Sua misericórdia, nos salvou.” Tito 3:5. E aos que nEle confiam fará “muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos”. Efésios 3:20.

Não a soma do trabalho que executamos, nem seus resultados visíveis, mas o espírito com que o fazemos, é que o torna valioso para Deus. Os que foram à vinha à undécima hora, estavam gratos pela oportunidade de trabalhar. Seu coração estava cheio de gratidão àquele que os recebera; e quando no fim do dia o pai de família lhes pagou uma jornada completa, ficaram muito surpreendidos. Sabiam que não mereciam tal recompensa. E a bondade expressa no semblante de Seu amo encheu-os de júbilo. Jamais esqueceram a benignidade do patrão nem a generosa recompensa que receberam. Assim é com o pecador que, conhecendo sua indignidade, entrou na vinha do Mestre à undécima hora. Seu tempo de serviço parece tão curto, sente que não merece recompensa; porém, enche-se de alegria porque, sobretudo, Deus o aceitou. Labuta com espírito humilde e confiante, grato pelo privilégio de ser um coobreiro de Cristo. Deus Se deleita em honrar este espírito.

O Senhor deseja que descansemos nEle sem pensar na medida do galardão. Quando Cristo habita na alma, o pensamento de remuneração não é supremo. Este não é o motivo impelente do nosso serviço. Verdade é que num sentido secundário devemos olhar à recompensa. Deus deseja que apreciemos as bênçãos prometidas; mas não que sejamos ávidos de remuneração, nem sintamos que para cada serviço devamos receber compensação. Não devemos estar tão ansiosos de obter o galardão, como de fazer o que é justo, independentemente de todo o lucro. O amor a Deus e a nossos semelhantes deve ser o nosso motivo.

Esta parábola não desculpa os que ouvem o primeiro chamado para o trabalho, mas negligenciam entrar na vinha do Senhor. Quando o pai de família foi à praça à undécima hora, e encontrou homens desocupados, disse: “Por que estais ociosos todo o dia?”Mateus 20:6. A resposta foi: “Porque ninguém nos assalariou.” Mateus 20:7. Nenhum dos chamados mais tarde, estava ali de manhã. Não recusaram a chamada. Os que recusam e depois se arrependem, fazem bem em arrepender-se; mas não é seguro menosprezar o primeiro apelo da graça.

Quando os trabalhadores da vinha receberam “um dinheiro cada um” (Mateus 20:9), os que haviam começado a trabalhar mais cedo, ficaram ofendidos. Não haviam labutado eles doze horas? arrazoaram entre si, e não era justo que recebessem mais do que os que trabalharam apenas uma hora na parte mais amena do dia? “Estes últimos trabalharam só uma hora”, disseram, “e tu os igualaste conosco, que suportamos a fadiga e a calma do dia.” Mateus 20:12.

“Amigo”, retrucou o pai de família a um deles; “não te faço injustiça; não ajustaste tu comigo um dinheiro? Toma o que é teu e retira-te; eu quero dar a este derradeiro tanto como a ti. Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” Mateus 20:13-15.

“Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros, últimos, porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos.” Mateus 20:16.

Os primeiros trabalhadores da parábola representam os que, por causa de seus serviços reclamam preferência sobre os demais. Empreendem sua obra com o espírito de engrandecimento, e não empregam nela abnegação e sacrifício. Podem haver professado servir a Deus toda a sua vida; podem destacar-se em suportar dificuldades, privação e provas, e por isso pensam ter direito a grande remuneração. Pensam mais na recompensa que no privilégio de serem servos de Cristo. A seu parecer, suas labutas e sacrifícios conferem-lhes o direito de receber mais honras que os outros, e por não ser reconhecido esse direito, ficam ofendidos. Se tivessem trabalhado com espírito amável e confiante, continuariam a ser os primeiros; mas sua disposição queixosa e lamuriante é dessemelhante da de Cristo, e demonstra que são indignos de confiança. Revela seu desejo de exaltação própria, desconfiança de Deus, e espírito ambicioso e de inveja para com os irmãos. A bondade e a liberalidade do Senhor lhes é motivo de murmuração. Assim demonstram não ter afinidade com Deus. Não conhecem a alegria da cooperação com o Obreiro por excelência.

Nada mais ofensivo há para Deus que este espírito acanhado, e que cuida só de si. Não pode Ele operar com os que manifestam tais predicados. São insensíveis à operação de Seu Espírito.

Os judeus foram os primeiros a serem chamados para a vinha do Senhor; e por isso eram altivos e cheios de justiça própria. Cuidavam que seus longos anos de trabalho os titulavam para receber galardão maior do que os outros. Nada lhes foi mais exasperante do que uma insinuação de que os gentios deveriam ser admitidos aos mesmos privilégios que eles nas coisas de Deus.

Cristo advertiu os discípulos que primeiro foram chamados a segui-Lo, a que não acariciassem o mesmo mal. Viu que o espírito de justiça própria seria a causa da debilidade e maldição da igreja. Os homens pensariam que poderiam fazer alguma coisa para obter lugar no reino dos Céus. Imaginariam que quando tivessem feito certos progressos o Senhor viria para auxiliá-los. Assim haveria abundância do próprio eu e pouco de Jesus. Muitos que houvessem progredido um pouco se jactariam e considerariam superiores a outros. Seriam ávidos de lisonjas, invejosos se não fossem tidos por mais importantes. Cristo procurou proteger Seus discípulos contra este perigo.

Não é cabível o vangloriar-nos de algum mérito. “Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas. Mas o que se gloriar glorie-se nisto: em Me conhecer e saber que Eu sou o Senhor, que faço beneficência, juízo e justiça na Terra; porque destas coisas Me agrado, diz o Senhor.” Jeremias 9:23, 24.

A recompensa não é pelas obras, para que ninguém se glorie, mas pela graça. “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne? Porque, se Abraão foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar, mas não diante de Deus. Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Ora, àquele que faz qualquer obra, não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, porém crê nAquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.” Romanos 4:1-5. Portanto não há ocasião de alguém se gloriar sobre outro, ou de murmurar. Ninguém é mais privilegiado do que outro, nem pode alguém reclamar o galardão como um direito.

O primeiro e o último devem ser participantes do grande galardão eterno, e o primeiro deve dar alegremente as boas-vindas ao último. Aquele que inveja o galardão de outro, esquece que ele mesmo é salvo unicamente pela graça. A parábola dos trabalhadores reprova toda ambição e suspeita. O amor regozija-se na verdade, e não estabelece comparações invejosas. Quem possui amor, compara somente seu próprio caráter imperfeito com a amabilidade de Cristo.

Esta parábola é uma advertência a todos os obreiros que, embora longos seus serviços, embora fartas as labutas, estão sem amor aos irmãos e sem humildade perante Deus. Não há religião na entronização do próprio eu. Aquele, cujo alvo é a glorificação própria, se encontrará destituído daquela graça que, somente, pode torná-lo eficiente no serviço de Cristo. Quando é tolerado o orgulho e a complacência própria, a obra é arruinada.

Não é a duração do tempo que labutamos, mas a voluntariedade e fidelidade em nosso trabalho que o torna aceitável a Deus. É requerida uma renúncia completa do próprio eu em todo o nosso serviço. O menor dever feito com sinceridade e desinteresse é mais agradável a Deus que a maior obra quando manchada pelo egoísmo. Ele olha para ver quanto nutrimos do espírito de Cristo, e quanto nosso trabalho revela da semelhança de Cristo. Considera mais o amor e a fidelidade com que trabalhamos do que a quantidade que fazemos.

Somente quando o egoísmo estiver morto, banida a contenda pela supremacia, o coração repleto de gratidão e o amor houver tornado fragrante a vida — somente então, Cristo nos está habitando na alma e somos reconhecidos como coobreiros de Deus.

Por mais difícil que seja a labuta, os verdadeiros obreiros não a consideram fadiga. Estão prontos para gastarem-se e deixarem-se gastar; porém é uma obra prazenteira, feita de coração alegre. A alegria em Deus é expressa mediante Jesus Cristo. Sua alegria é a alegria proposta a Cristo: “Fazer a vontade dAquele que Me enviou e realizar a Sua obra.” João 4:34. São cooperadores do Senhor da glória. Este pensamento suaviza toda fadiga, robustece a vontade, fortalece o espírito para tudo que suceder. Trabalhando com coração isento de egoísmo, enobrecidos por serem participantes dos sofrimentos de Cristo, partilhando de Suas simpatias e colaborando com Ele em Sua obra, ajudam a intensificar a Sua alegria e a acrescentar honra e louvor ao Seu nome exaltado.

Esse é o espírito de todo serviço verdadeiro para Deus. Pela falta do mesmo, muitos que aparentam ser os primeiros se tornarão os últimos, enquanto os que o possuem, embora considerados os últimos, se tornarão os primeiros.

Muitos há que se entregaram a Cristo, todavia não vêem oportunidade de realizar grande obra ou fazer grandes sacrifícios em Seu serviço. Estes podem achar conforto no pensamento de que não é necessariamente a abnegação do mártir que é mais aceitável a Deus; pode ser que o missionário que enfrente diariamente o perigo e a morte, não tome a mais elevada posição nos registros do Céu. O cristão que o é em sua vida particular, na renúncia diária do eu, na sinceridade de propósito e pureza de pensamento, em mansidão sob provocação, em fé e piedade, em fidelidade nas coisas mínimas, que na vida familiar representa o caráter de Cristo, esse pode ser mais precioso aos olhos de Deus que o missionário ou mártir de fama mundial.

Oh, como são diferentes os padrões pelos quais Deus e o homem medem o caráter! Deus vê muitas tentações resistidas das quais o mundo e até os amigos íntimos nunca sabem — tentações no lar e no coração. Vê a humildade da alma em vista de sua própria fraqueza; o arrependimento sincero, até de um pensamento que é mau. Vê a inteira devoção a Seu serviço. Anotou as horas de duros combates com o próprio eu — combates que trouxeram vitória. Tudo isto os anjos e Deus sabem. Um memorial há escrito diante dEle, para os que temem ao Senhor e para os que se lembram do Seu nome.

O segredo do êxito não é encontrado nem em nossa erudição, nem em nossa posição, nem em nosso número ou nos talentos a nós confiados, nem na vontade do homem. Cônscios de nossa deficiência devemos contemplar a Cristo, e por Ele que é a força por excelência, a expressão máxima do pensamento, o voluntário e obediente obterá uma vitória após outra.

E por mais breve que seja o nosso serviço, ou mais humilde nossa obra, se seguirmos a Cristo com fé singela, não seremos desapontados pelo galardão. Aquilo que o maior e mais sábio não pode alcançar, o mais débil e mais humilde receberá. Os portões áureos do Céu não se abrem para os que se exaltam. Não são erguidos para os de espírito altivo. Os portais eternos abrir-se-ão ao trêmulo contato de uma criancinha. Abençoado será o galardão da graça para os que trabalharam para Deus com simplicidade de fé e amor.

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