PATRIARCAS E PROFETAS, cap. 56-57

Capítulo 56 — Eli e seus filhos

Este capítulo é baseado em 1 Samuel 2:12-36.
Eli era sacerdote e juiz em Israel. Ocupava as posições mais elevadas e de maior responsabilidade que havia entre o povo de Deus. Como homem divinamente escolhido para os sagrados deveres do sacerdócio, e posto no país como a autoridade judiciária mais elevada, era ele olhado como um exemplo, e exercia grande influência sobre as tribos de Israel. Mas, embora tivesse sido designado para governar o povo, não governava a sua própria casa. Eli era um pai transigente. Amando a paz e a comodidade, não exercia a sua autoridade para corrigir os maus hábitos e paixões de seus filhos. Em vez de contender com eles ou castigá-los, submetia-se à sua vontade e os deixava seguir seu próprio caminho. Em vez de considerar a educação de seus filhos como uma das mais importantes de suas responsabilidades, tratou desta questão como se fosse de pequena relevância. O sacerdote e juiz de Israel não foi deixado em trevas quanto ao dever de restringir e governar os filhos que Deus dera aos seus cuidados. Mas Eli recuou deste dever, porque o mesmo implicava contrariar a vontade de seus filhos, e tornaria necessário puni-los e repudiá-los. Sem pesar as terríveis conseqüências que se seguiriam à sua conduta, condescendeu com seus filhos no que quer que desejassem, e negligenciou a obra de os habilitar para o serviço de Deus e para os deveres da vida.
De Abraão disse Deus: “Eu o tenho conhecido, que ele há de ordenar a seus filhos e a sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor, para obrarem com justiça e juízo”. Gênesis 18:19. Eli, porém, permitiu que seus filhos o governassem. O pai se tornou sujeito aos seus filhos. A maldição da transgressão foi visível nas corrupções e males que assinalaram a conduta de seus filhos. Estes não tinham a devida apreciação do caráter de Deus nem da santidade de Sua lei. Para eles o Seu serviço era uma coisa comum. Desde a infância se haviam acostumado ao santuário e aos seus serviços; mas em vez de se tornarem mais reverentes perderam toda a intuição da santidade e significação do mesmo. O pai não lhes corrigira a falta de reverência para com a sua autoridade; não impedira ao desrespeito deles pelos serviços solenes do santuário; e, quando chegaram à maioridade, estavam cheios dos frutos mortíferos do ceticismo e da rebelião.
Se bem que totalmente incapazes para o ofício, foram postos como sacerdotes no santuário para ministrarem perante Deus. O Senhor dera as instruções mais específicas com relação à oferta de sacrifícios; mas estes homens ímpios levaram ao serviço de Deus o seu desrespeito à autoridade, e não deram atenção à lei das ofertas, que deveriam ser feitas da maneira mais solene. Os sacrifícios, que apontavam à morte de Cristo, no futuro, estavam destinados a conservar no coração do povo a fé no Redentor vindouro; daí o ser da máxima importância que as determinações do Senhor com relação aos mesmos fossem estritamente atendidas. As ofertas pacíficas eram especialmente uma expressão de ações de graças a Deus. Nestas ofertas apenas a gordura devia ser queimada no altar; certa porção especificada era reservada aos sacerdotes, mas a maior parte era devolvida ao ofertante, para ser por ele e seus amigos comida em uma festa sacrifical. Assim todos os corações deveriam ser com gratidão e fé encaminhados ao grande Sacrifício que deveria tirar o pecado do mundo.
Os filhos de Eli, em vez de se compenetrarem da solenidade deste serviço simbólico, apenas pensavam como poderiam dele fazer o meio para a satisfação própria. Não contentes com a parte que lhes tocava das ofertas pacíficas, exigiam uma porção adicional; e o grande número desses sacrifícios apresentados nas festas anuais dava aos sacerdotes oportunidade de se enriquecerem, à custa do povo. Não somente reclamavam mais daquilo a que tinham direito, mas recusavam-se mesmo a esperar até que a gordura estivesse queimada como oferta a Deus. Persistiam em reclamar qualquer porção que lhes agradasse, e, sendo-lhes negada, ameaçavam tomá-la pela violência.
A irreverência por parte dos sacerdotes logo despojou o serviço de sua significação santa e solene, e o povo “desprezava a oferta do Senhor”. 1 Samuel 2:12-36. O grande sacrifício antitípico para o qual deveriam olhar em antecipação, não mais era reconhecido. “Era pois muito grande o pecado destes mancebos perante o Senhor.”
Esses sacerdotes infiéis também transgrediam a lei de Deus e desonravam o ofício sagrado pelas suas práticas vis e degradantes; todavia, continuavam a poluir com sua presença o tabernáculo de Deus. Muitos dentre o povo, cheios de indignação ante o corrupto procedimento de Hofni e Finéias, deixaram de subir ao lugar designado para o culto. Assim o serviço que Deus ordenara era desprezado e negligenciado porque se achava ligado com os pecados de homens ímpios, ao mesmo tempo em que aqueles cujo coração era inclinado ao mal se tornavam audazes no pecado. A impiedade, a dissolução, e mesmo a idolatria, prevaleciam em terrível extensão.
Eli tinha errado grandemente em permitir que seus filhos ministrassem no ofício santo. Desculpando a sua conduta, sob um pretexto ou outro, tornou-se cego aos seus pecados; mas chegaram afinal a um ponto em que não mais ele podia cerrar os olhos aos crimes dos filhos. O povo se queixava das suas ações violentas, e o sumo sacerdote ficou pesaroso e angustiado. Não ousou permanecer em silêncio por mais tempo. Mas seus filhos haviam crescido sem a idéia de consideração para com qualquer pessoa a não ser para consigo mesmos; e agora não se preocupavam com quem quer que fosse. Viam a mágoa do pai, mas seus duros corações não se comoviam. Ouviam-lhe as brandas admoestações, mas não se impressionavam, tampouco modificavam sua má conduta, embora advertidos das conseqüências de seu pecado. Se Eli houvesse tratado com justiça seus ímpios filhos, teriam sido rejeitados do ofício sacerdotal, e punidos de morte. Temendo assim trazer a ignomínia e a condenação pública a seus filhos, manteve-os nos mais sagrados cargos de confiança. Permitiu também que misturassem sua corrupção com o santo serviço de Deus, e infligissem à causa da verdade um dano que os anos não poderiam apagar. Quando, porém, o juiz de Israel negligenciou sua obra, Deus tomou a questão em Suas mãos.
“Veio um homem de Deus a Eli, e disse-lhe: Assim diz o Senhor: Não Me manifestei, na verdade, à casa de teu pai, estando eles ainda no Egito, na casa de Faraó? E Eu o escolhi dentre todas as tribos de Israel para sacerdote, para oferecer sobre o Meu altar, para acender o incenso, e para trazer o éfode perante Mim; e dei à casa de teu pai todas as ofertas queimadas dos filhos de Israel. Por que dais coices contra o sacrifício e contra a Minha oferta de manjares, que ordenei na Minha morada, e honras a teus filhos mais do que a Mim, para vos engordardes do principal de todas as ofertas do Meu povo de Israel? Portanto, diz o Senhor Deus de Israel: Na verdade tinha dito Eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de Mim perpetuamente; porém agora diz o Senhor: Longe de Mim tal coisa, porque aos que Me honram honrarei, porém os que Me desprezam serão envilecidos. […] E Eu suscitarei para Mim um sacerdote fiel que obrará segundo o Meu coração e a Minha alma, e Eu lhe edificarei uma casa firme, e andará sempre diante do Meu ungido”. 1 Samuel 2:27-30, 35.
Deus acusou Eli de honrar seus filhos mais do que ao Senhor. Eli permitira que a oferta designada por Deus como uma bênção a Israel se tornasse coisa desprezível, e isto em vez de levar seus filhos a envergonhar-se por suas práticas ímpias e abomináveis. Aqueles que seguem suas próprias inclinações, com uma afeição cega para com seus filhos, condescendendo com eles na satisfação de seus desejos egoístas, e não fazem uso da autoridade de Deus para repreender o pecado e corrigir o mal, tornam manifesto que estão honrado seus ímpios filhos mais do que a Deus. Estão mais ansiosos por defender a reputação deles do que glorificar a Deus; mais desejosos de agradar a seus filhos do que comprazer ao Senhor e guardar o Seu serviço de toda a aparência do mal.
Deus responsabilizou Eli, como sacerdote e juiz de Israel, pela condição moral e religiosa de Seu povo, e, em sentido especial, pelo caráter de seus filhos. Ele devia a princípio ter tentado restringir o mal por meio de medidas brandas; mas, se estas não dessem resultado, devê-lo-ia ter subjugado pelos meios mais severos. Incorreu no desagrado do Senhor por não reprovar o pecado e executar a justiça no pecador. Não se pôde contar com ele para que Israel fosse conservado puro. Aqueles que têmmuito pouca coragem para reprovar o mal, ou que pela indolência ou falta de interesse não fazem um esforço ardoroso para purificar a família ou a igreja de Deus, são responsáveis pelos males que possam resultar de sua negligência ao dever. Somos precisamente tão responsáveis pelos males que poderíamos ter impedido nos outros pelo exercício da autoridade paterna ou pastoral, como se esses atos tivessem sido nossos.
Eli não dirigiu sua casa segundo as regras de Deus para o governo da família. Seguiu seu próprio juízo. O extremoso pai deixou de tomar em consideração as faltas e pecados dos filhos, em sua meninice, comprazendo-se com o pensamento de que após algum tempo eles perderiam suas más tendências. Muitos estão hoje a cometer erro semelhante. Julgam que conhecem um meio melhor para educar os filhos do que aquele que Deus deu em Sua Palavra. Alimentam neles más tendências, insistindo nesta desculpa: “São muito novos para serem castigados. Esperemos que fiquem mais velhos, e possamos entender-nos com eles.” Assim os maus hábitos são deixados a se fortalecerem até que se tornam uma segunda natureza. Os filhos crescem sem sujeição, com traços de caráter que são para eles uma maldição por toda a vida, e que podem reproduzir-se em outros.
Não há maior desgraça para os lares do que permitir que os jovens sigam o seu próprio caminho. Quando os pais tomam em consideração todo desejo dos filhos, e com estes condescendem no que sabem não ser para o seu bem, os filhos logo perdem todo o respeito para com os pais, toda a consideração pela autoridade de Deus e do homem e são levados cativos à vontade de Satanás. A influência de uma família mal dirigida é dilatada, e desastrosa a toda a sociedade. Acumula uma onda de males que afeta famílias, comunidades e governos.
Por causa da posição de Eli, sua influência era mais vasta do que se ele fora homem comum. Sua vida familiar era imitada em todo o Israel. Os funestos resultados de seu proceder negligente e amante da comodidade, eram vistos em milhares de lares que se modelaram pelo seu exemplo. Se se condescende com os filhos em práticas ruins, ao mesmo tempo em que os pais fazem profissão de religião, a verdade de Deus é levada ao opróbrio. A melhor prova de cristianismo de uma casa é o tipo de caráter gerado pela sua influência. As ações falam mais alto do que a mais positiva profissão de piedade. Se os que professam a religião, em vez de aplicarem esforços ardorosos, persistentes e diligentes para manter um lar bem dirigido em testemunho dos benefícios da fé em Deus, forem frouxos em seu governo, e condescendentes com os maus desejos de seus filhos, estarão a fazer como Eli, e trarão injúria à causa de Cristo e ruína sobre si e suas casas. Mas, por maiores que sejam os males da infidelidade paterna sob qualquer circunstância, são eles dez vezes maiores quando existentes nas famílias daqueles que são designados para ensinadores do povo. Quando estes deixam de governar sua casa, estão, pelo seu mau exemplo, transviando a muitos. Sua culpa é tanto maior do que a dos outros quanto sua posição é de maior responsabilidade.
Fora feita a promessa de que a casa de Arão andaria diante de Deus para sempre; mas esta promessa fora dada sob a condição de que se dedicassem eles à obra do santuário com singeleza de coração, e honrassem a Deus em todos os seus caminhos, não servindo ao eu, nem seguindo suas próprias inclinações perversas. Eli e seus filhos tinham sido provados, e o Senhor os encontrara inteiramente indignos da exaltada posição de sacerdotes ao Seu serviço. E Deus declarou: “Longe de Mim”. 1 Samuel 2:30. Ele não pôde cumprir o bem que tencionara fazer-lhes, porque deixaram de desempenhar a sua parte.
O exemplo dos que administram em coisas santas deve ser de maneira que incuta no povo a reverência para com Deus, e o receio de O ofender. Quando os homens, servindo de embaixadores “da parte de Cristo” (2 Coríntios 5:20) para falar ao povo acerca da mensagem de misericórdia e reconciliação, enviada por Deus, fazem uso de sua vocação sagrada qual manto para encobrir a satisfação egoísta ou sensual, constituem-se eles os agentes mais eficazes de Satanás. Como Hofni e Finéias, fazem com que os homens desdenhem a oferta do Senhor. Podem prosseguir com sua má conduta, em segredo, por algum tempo; mas, quando finalmente é apresentado seu verdadeiro caráter, a fé do povo recebe um abalo de que muitas vezes resulta a destruição de sua confiança na religião. Fica na mente uma desconfiança contra todos os que professam ensinar a Palavra de Deus. A mensagem do verdadeiro servo de Cristo é recebida com dúvida. Surge constantemente a pergunta: “Não se mostrará este homem ser como aquele que julgávamos tão santo, e achamos tão corrupto?” Assim a Palavra de Deus perde o seu poder sobre as pessoas.
Na reprovação de Eli a seus filhos acham-se palavras de uma significação solene e terrível — palavras que todos os que ministram em coisas sagradas bem fariam em ponderar: “Pecando homem contra homem, os juízes o julgarão; pecando, porém, o homem contra o Senhor, quem rogará por ele?” 1 Samuel 2:25. Houvessem seus crimes lesado unicamente seus semelhantes, e poderia o juiz ter feito a reconciliação, indicando uma pena, e exigindo a devida restituição; e assim os transgressores poderiam ter sido perdoados. Ou, se não tivessem eles sido culpados de um pecado de presunção, uma oferta para o pecado poderia ter sido apresentada por eles. Mas seus pecados estavam de tal maneira entretecidos com seu ministério de, na qualidade de sacerdotes do Altíssimo, oferecerem sacrifício pelo pecado, e a obra de Deus foi de tal maneira profanada e desonrada perante o povo, que nenhuma expiação por eles poderia ser aceita. Seu próprio pai, embora fosse sumo sacerdote, não ousou interceder em favor deles; não os podia defender da ira de um Deus santo. De todos os pecadores, são os mais culpados os que lançam o desdém aos meios que o Céu proveu para a redenção do homem — pecadores estes que “de novo crucificam o Filho de Deus, e O expõem ao vitupério”. Hebreus 6:6.

Capítulo 57 — A Arca tomada pelos Filisteus

Este capítulo é baseado em 1 Samuel 3-7.
Outra advertência deveria ser dada à casa de Eli. Deus não podia comunicar-Se com o sumo sacerdote e seus filhos; os pecados deles, qual densa nuvem, haviam excluído a presença de Seu Espírito Santo. Mas, em meio do mal, o menino Samuel permanecia fiel ao Céu, e dar a mensagem de condenação à casa de Eli foi sua missão, como profeta do Altíssimo que era.
“A palavra do Senhor era de muita valia naqueles dias; não havia visão manifesta. E sucedeu naquele dia que, estando Eli deitado em seu lugar (e os seus olhos se começavam já a escurecer, que não podia ver), e, estando também Samuel já deitado, antes que a lâmpada de Deus se apagasse no templo do Senhor, em que estava a arca de Deus, o Senhor chamou a Samuel.” Supondo ser a voz de Eli, o menino foi apressadamente para junto do leito do sacerdote, dizendo: “Eis-me aqui, porque tu me chamaste.” A resposta foi: “Não te chamei eu, filho meu, torna a deitar-te”. 1 Samuel 3:1-5. Três vezes Samuel foi chamado, e três vezes respondeu de modo semelhante. E então Eli se convenceu de que o misterioso chamado era a voz de Deus. O Senhor preterira o Seu servo escolhido, o homem de cabelos brancos, para comunicar-Se com uma criança. Isto em si mesmo era uma repreensão amarga, porém merecida, a Eli e sua casa.
Nenhum sentimento de inveja ou suspeita despertou-se no coração de Eli. Recomendou a Samuel que respondesse, se de novo fosse chamado: “Fala, Senhor, porque o Teu servo ouve.” Mais uma vez foi ouvida a voz, e o menino respondeu: “Fala, porque o Teu servo ouve”. 1 Samuel 3:9, 10. Tão aterrado ficou com o pensamento de que o grande Deus lhe falaria, que não pôde lembrar-se das palavras exatas que Eli mandou dizer.
“E disse o Senhor a Samuel: Eis aqui vou Eu a fazer uma coisa em Israel, a qual todo o que ouvir lhe tinirão ambas as orelhas. Naquele mesmo dia suscitarei contra Eli tudo quanto tenho falado contra a sua casa; começá-lo-ei e acabá-lo-ei. Porque já Eu lhe fiz saber que julgarei a sua casa para sempre, pela iniqüidade que ele bem conhecia, porque, fazendo-se os seus filhos abomináveis, não os repreendeu. Portanto, jurei à casa de Eli que nunca jamais será expiada a iniqüidade da casa de Eli com sacrifício nem com oferta de manjares”. 1 Samuel 3:11-14.
Antes de receber de Deus esta mensagem, “Samuel ainda não conhecia ao Senhor, e ainda não lhe tinha sido manifestada a palavra do Senhor”; isto é, ele não estava familiarizado com tais manifestações diretas da presença de Deus conforme eram concedidas aos profetas. Foi o propósito do Senhor revelar-Se de uma maneira inesperada, para que Eli viesse ouvir a tal respeito por meio da surpresa e indagação do jovem.
Samuel ficou cheio de temor e espanto, ante o pensamento de ter-lhe sido confiada uma mensagem tão terrível. Pela manhã se dirigiu aos seus deveres como de costume, mas com um grande peso em seu coração juvenil. O Senhor não o havia mandado revelar a terrível denúncia, donde o permanecer ele em silêncio, evitando, tanto quanto possível, a presença de Eli. Tremia, receoso de que alguma pergunta o compelisse a declarar os juízos divinos contra aquele a quem amava e reverenciava. Eli estava certo de que a mensagem predizia alguma grande calamidade, a ele e sua casa. Chamou Samuel, e ordenou-lhe que relatasse fielmente o que o Senhor revelara. O jovem obedeceu, e o idoso homem prostrou-se em humilde submissão à pavorosa sentença. “O Senhor é”, disse ele; “faça o que bem parecer aos Seus olhos”.1 Samuel 3:7, 18.
Todavia, Eli não manifestou os frutos do verdadeiro arrependimento. Confessou sua falta, mas deixou de renunciar ao pecado. Ano após ano o Senhor retardava os Seus ameaçados juízos. Muito se poderia ter feito naqueles anos para remir as faltas do passado; mas o idoso sacerdote não adotou medidas eficazes para corrigir os males que estavam a poluir o santuário do Senhor, e levando em Israel milhares à ruína. A paciência de Deus deu lugar a que Hofni e Finéias endurecessem o coração, e se tornassem ainda mais audazes na transgressão. As mensagens de advertência e reprovação à sua casa foram por Eli dadas a conhecer à nação toda. Por este meio ele esperava até certo ponto contrariar a má influência de sua passada negligência. Mas as advertências foram desatendidas pelo povo, assim como haviam sido pelos sacerdotes. O povo das nações circunvizinhas também, o qual não ignorava as iniqüidades abertamente praticadas em Israel, tornou-se ainda mais audaz em sua idolatria e crime. Não experimentavam a intuição de culpa pelos seus pecados, como o teriam feito caso houvessem os israelitas preservado a sua integridade. Aproximava-se, porém, o dia da retribuição. A autoridade de Deus havia sido posta de lado e Seu culto negligenciado e desprezado; e tornou-se necessário intervir Ele para que se mantivesse a honra de Seu nome.
“E Israel saiu ao encontro, à peleja, aos filisteus, e se acamparam junto a Ebenézer; e os filisteus se acamparam junto a Afeque.” Esta expedição foi empreendida pelos israelitas sem o conselho do Senhor, sem o apoio de sumo sacerdote ou profeta. “E os filisteus se dispuseram em ordem de batalha, para sair ao encontro a Israel; e, estendendo-se a peleja, Israel foi ferido diante dos filisteus, porque feriram na batalha, no campo, uns quatro mil homens.” Voltando para o acampamento a força fragmentada e desalentada, “disseram os anciãos de Israel: Por que nos feriu o Senhor hoje diante dos filisteus?” A nação estava madura para os juízos de Deus, e no entanto não viam que seus próprios pecados haviam sido a causa daquele terrível revés. E disseram: “Tragamos de Siló a arca do concerto do Senhor, e venha no meio de nós, para que nos livre da mão de nossos inimigos.” O Senhor não dera ordem ou permissão para que a arca fosse ao exército; contudo os israelitas estavam confiantes em que deles seria a vitória, e proferiram uma grande aclamação quando ela foi, pelos filhos de Eli, levada ao arraial.
Os filisteus consideravam a arca como o deus de Israel. Todas as grandes obras que Jeová fizera em prol de Seu povo, eram por eles atribuídas ao poder da mesma. Ao ouvirem as aclamações de júbilo pela sua aproximação, disseram: “Que voz de tão grande júbilo, é esta no arraial dos hebreus? Então souberam que a arca do Senhor era vinda ao arraial. Pelo que os filisteus se atemorizaram; porque diziam: Deus veio ao arraial. E diziam mais: Ai de nós! que tal nunca jamais sucedeu antes. Ai de nós! quem nos livrará da mão destes grandiosos deuses? Estes são os deuses que feriram aos egípcios com todas as pragas junto ao deserto. Esforçai-vos, e sede homens, ó filisteus, para que porventura não venhais a servir aos hebreus, como eles serviram a vós; sede pois homens, e pelejai”. 1 Samuel 4:2, 3, 6-9.
Os filisteus deram um encarniçado assalto, de que resultou a derrota de Israel, com grande morticínio. Trinta mil homens jaziam mortos em campo, e a arca de Deus foi tomada, tendo os dois filhos de Eli tombado enquanto combatiam para defendê-la. Deixou-se assim, novamente, nas páginas da História um testemunho para todos os séculos futuros, de que a iniqüidade do povo professo de Deus não ficará impune. Quanto maior for o conhecimento da vontade de Deus, tanto maior o pecado daqueles que a desatendem. A mais espantosa calamidade que poderia ocorrer, recaíra a Israel. A arca de Deus fora apreendida, e estava em poder do inimigo. A glória havia verdadeiramente se afastado de Israel quando o símbolo da presença e poder contínuos de Jeová foi removido do meio deles. Com aquele escrínio sagrado associavam-se as mais maravilhosas revelações da verdade e poder de Deus. Em tempos anteriores, vitórias miraculosas haviam sido conseguidas quando quer que o mesmo aparecia. Faziam-lhe sombras as asas dos querubins de ouro, e a glória indescritível do shekinah, símbolo visível do altíssimo Deus, repousara sobre ela no lugar santíssimo. Mas agora não trouxera vitória alguma. Não se mostrara ser uma defesa nesta ocasião, e havia pranto por todo o Israel.
Não se haviam compenetrado de que sua fé era simplesmente uma fé nominal, e perderam o poder da mesma para prevalecerem com Deus. A lei de Deus, contida na arca, era também um símbolo de Sua presença; mas haviam lançado o desprezo aos mandamentos, desdenharam suas reivindicações e contristaram o Espírito do Senhor de modo que Se retirou do meio deles. Quando o povo obedecia aos santos preceitos, o Senhor estava com eles, para agir em prol deles, com Seu poder infinito; mas, quando olharam para a arca, e não a puseram em relação com Deus, e tampouco honraram Sua vontade revelada pela obediência à Sua lei, serviu-lhes ela de pouco mais que uma caixa comum. Olhavam para a arca como as nações idólatras olhavam para os seus deuses, como se ela possuísse em si os elementos de poder e salvação. Transgrediam a lei que nela se continha; pois o seu mesmo culto à arca determinou a formalidade, a hipocrisia e a idolatria. Seu pecado os separara de Deus, e Ele não lhes poderia dar a vitória antes que se arrependessem e abandonassem sua iniqüidade.
Não bastava que a arca e o santuário estivessem no meio de Israel. Não bastava que os sacerdotes oferecessem sacrifícios, e que o povo fosse chamado filhos de Deus. O Senhor não toma em consideração o pedido daqueles que acariciam a iniqüidade no coração; está escrito que “o que desvia os seus ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável”. Provérbios 28:9.
Quando o exército saiu para a batalha, Eli, cego e velho, havia ficado em Siló. Foi com inquietadores pressentimentos que ele aguardou o resultado do conflito, “porquanto o seu coração estava tremendo pela arca de Deus”. Tomando lugar fora da porta do tabernáculo, assentava-se todos os dias ao lado do caminho, esperando ansiosamente a chegada de um mensageiro do campo de batalha.
Finalmente, um benjamita do exército, “com os vestidos rotos e com terra sobre a cabeça”, veio correndo pela subida que dava para a cidade. Passando descuidadamente pelo ancião, ao lado do caminho, arremessou-se à cidade, e referiu às multidões ansiosas as notícias da derrota e das perdas.
O ruído de choro e lamentação chegou àquele que ao lado do tabernáculo vigiava. O mensageiro foi-lhe trazido. E o homem disse a Eli: “Israel fugiu de diante dos filisteus, e houve também grande destroço entre o povo; e, demais disto, também teus dois filhos, Hofni e Finéias, morreram.” Eli pôde suportar tudo isto, por terrível que fosse, pois ele o esperava. Mas quando o mensageiro acrescentou: “A arca de Deus é tomada”, uma expressão de indizível angústia lhe passou pelo semblante. O pensamento de que seu pecado de tal maneira desonrara a Deus, e fizera com que Ele retirasse Sua presença de Israel, era mais do que podia suportar; deixaram-no suas forças, ele caiu, “e quebrou-se-lhe o pescoço, e morreu”.
A mulher de Finéias, apesar da impiedade de seu marido, temia ao Senhor. A morte de seu sogro e de seu esposo, e, acima de tudo, a terrível notícia de que a arca de Deus fora tomada, causaram-lhe a morte. Compenetrou-se de que a última esperança de Israel havia desaparecido; e deu à criança nascida nesta hora de adversidade o nome de Icabode, ou “Inglório”, dizendo, chorosa, com sua respiração moribunda, as palavras: “Foi-se a glória de Israel. Porquanto a arca de Deus foi levada presa”. 1 Samuel 4:12, 11, 17-22.
Mas o Senhor não havia rejeitado o Seu povo inteiramente, tampouco toleraria por muito tempo a exultação dos gentios. Usara os filisteus como instrumento para punir Israel, e empregou a arca para castigar os filisteus. Nos tempos passados a presença divina a acompanhara, a fim de ser ela a força e glória de Seu povo obediente. Aquela Presença invisível ainda a acompanharia para levar o terror e a destruição aos transgressores de Sua santa lei. O Senhor muitas vezes emprega Seus piores inimigos para punir a infidelidade de Seu povo professo. Os ímpios podem triunfar por algum tempo, vendo Israel sofrer o castigo; mas virá o tempo em que eles também deverão defrontar-se com a sentença de um Deus santo, que odeia o pecado. Onde quer que a iniqüidade seja acalentada, seguir-se-ão, rápidos e infalíveis, os juízos de Deus.
Os filisteus levaram a arca, triunfalmente, para Asdode, uma de suas cinco cidades principais, e a colocaram na casa de seu deus Dagom. Pensaram que o poder que até ali havia acompanhado a arca seria deles, e que este, unido com o poder de Dagom, torná-los-ia invencíveis. Mas, ao entrar no templo no dia seguinte, viram um quadro que os encheu de consternação. Dagom tinha caído sobre seu rosto em terra, diante da arca de Jeová. Os sacerdotes reverentemente ergueram o ídolo, e o repuseram em seu lugar. Mas, na manhã seguinte, encontraram-no mutilado de maneira singular, jazendo de novo sobre a terra, diante da arca. A parte superior deste ídolo era semelhante à de um homem, e a inferior tinha a semelhança de peixe. Todas as partes que se assemelhavam à forma humana tinham sido agora separadas, e apenas permanecia o corpo de peixe. Sacerdotes e povo ficaram tomados de terror; consideraram este misterioso acontecimento como um mau agouro, anunciando destruição para eles e seus ídolos, diante do Deus dos hebreus. Mudaram então a arca de seu templo, e a colocaram em um edifício à parte.
Os habitantes de Asdode foram feridos de uma doença aflitiva e fatal. Lembrando-se das pragas que foram infligidas ao Egito pelo Deus de Israel, o povo atribuiu suas aflições à presença da arca entre eles. Foi resolvido transportá-la a Gate. Mas a praga seguiu de perto a sua mudança, e os homens daquela cidade a enviaram para Ecrom. Ali o povo a recebeu aterrorizado, exclamando: “Transportaram para mim a arca do Deus de Israel, para me matarem, a mim e ao meu povo.” Volveram aos seus deuses em busca de proteção, como o povo de Gate e Asdode haviam feito; porém a obra do destruidor continuou até que em sua angústia “o clamor da cidade subia até o Céu”. 1 Samuel 5:10, 12. Receando conservar por mais tempo a arca entre as casas dos homens, o povo em seguida colocou-a em pleno campo. Seguiu-se então uma praga de ratos, que infestou a terra, destruindo os produtos do solo, tanto nos celeiros como no campo. Completa destruição, pela doença e pela fome, ameaçava agora a nação.
Durante sete meses, a arca permaneceu na Filístia, e durante este tempo os israelitas não fizeram esforços para a recuperarem. Mas estavam agora os filisteus tão ansiosos para se livrarem de sua presença como haviam estado para a obterem. Em vez de ser uma fonte de força para eles, foi um grande peso e grave maldição. Contudo não sabiam o que fazer; pois aonde quer que ela ia, seguiam-se os juízos de Deus. O povo chamou os príncipes da nação, juntamente com os sacerdotes e adivinhos, e ansiosamente indagou: “Que faremos nós da arca do Senhor? Fazei-nos saber como a tornaremos a enviar ao seu lugar.” Foram aconselhados a devolvê-la com uma valiosa oferta para expiação da culpa. “Então”, disseram os sacerdotes, “sereis curados, e se vos fará saber porque a Sua mão se não tira de vós.”
Para desviar ou remover uma praga, era antigamente costume entre os gentios fazer-se uma imagem de ouro, prata, ou outro material, daquilo que causava destruição, ou do objeto ou parte do corpo especialmente atacada. Isso era colocado sobre alguma coluna, ou em algum ponto bem visível, e supunha-se ser uma proteção eficaz contra os males assim representados. Costume semelhante ainda existe entre alguns povos gentílicos. Quando uma pessoa que sofre de alguma doença vai ao templo de seu ídolo em busca de cura, leva consigo uma figura da parte atacada, que apresenta como uma oferta ao seu deus.
Foi de acordo com esta superstição dominante, que os principais dos filisteus recomendaram ao povo fazer representações das pragas pelas quais tinham sido afligidos: “cinco hemorróidas de ouro e cinco ratos de ouro”, “segundo o número dos príncipes dos filisteus”; “porquanto”, disseram eles, “a praga é uma mesma sobre todos vós e sobre todos os vossos príncipes”. 1 Samuel 6:2-4.
Aqueles magos reconheciam que um poder misterioso acompanhava a arca, poder este que eles não tinham sabedoria para enfrentar. Contudo não aconselhavam o povo a desviar-se de sua idolatria para servirem ao Senhor. Odiavam ainda ao Deus de Israel, embora compelidos pelos juízos esmagadores a submeter-se à Sua autoridade. Assim os pecadores podem convencer-se pelos juízos de Deus de que é inútil contender contra Ele. Podem ser obrigados a sujeitar-se ao Seu poder, enquanto no coração se rebelam contra o Seu domínio. Tal submissão não pode salvar o pecador. O coração deve render-se a Deus — deve ser subjugado pela graça divina — antes que o arrependimento do homem possa ser aceito.
Quão grande é a longanimidade de Deus para com os ímpios! Os filisteus idólatras e o relapso Israel haviam semelhantemente desfrutado dos dons de Sua providência. Dez milhares de bênçãos, sem que fossem notadas, estiveram a cair silenciosamente no caminho de homens ingratos e rebeldes. Cada bênção lhes falava do Doador, mas eles eram indiferentes ao Seu amor. A paciência de Deus era muito grande para com os filhos dos homens; mas, quando persistiam contumazes em sua impenitência, Ele removia deles Sua mão protetora. Recusaram-se a escutar a voz de Deus nas obras criadas, e nas advertências, conselhos e reprovações de Sua Palavra; e assim Ele foi obrigado a falar-lhes por meio de juízos.
Alguns houve entre os filisteus que estavam prontos a opor-se à volta da arca à sua própria terra. Tal reconhecimento do poder do Deus de Israel seria humilhante ao orgulho da Filístia. Mas “os sacerdotes e os adivinhadores” (1 Samuel 6:2) aconselharam o povo a não imitar a teimosia de Faraó e dos egípcios, e assim trazer sobre si ainda maiores aflições. Propuseram então um plano que ganhou o assentimento de todos, e imediatamente foi posto em execução. A arca, juntamente com a oferta feita de ouro, para a expiação da culpa, foi posta em um carro novo, prevenindo assim todo o perigo de contaminação; a este carro foram ligadas duas vacas sobre cujo pescoço nunca havia sido posto jugo. Seus bezerros foram presos em casa, e as vacas foram deixadas livres para irem onde quisessem. Se a arca fosse assim devolvida aos israelitas pelo caminho de Bete-Semes, a cidade mais próxima dos levitas, os filisteus aceitariam isto como prova de que o Deus de Israel lhes fizera aquele grande mal; “e, se não”, disseram eles, “saberemos que não nos tocou a Sua mão, e que isto nos sucedeu por acaso”.
Sendo deixadas à vontade, as vacas afastaram-se de seus bezerros, e, mugindo enquanto iam, tomaram a estrada direta para Bete-Semes. Sem serem guiados por mão humana, os pacientes animais se conservaram a caminho. A presença divina acompanhou a arca, e ela passou em segurança exatamente para o lugar designado.
Era então o tempo da ceifa do trigo, e os homens de Bete-Semes estavam a fazer a colheita no vale. “E, levantando os seus olhos, viram a arca, e vendo-a, se alegraram. E o carro veio ao campo de Josué, o bete-semita, e parou ali; e ali estava uma grande pedra; e fenderam a madeira do carro, e ofereceram as vacas ao Senhor em holocausto.” Os príncipes dos filisteus, que haviam acompanhado a arca “até o termo de Bete-Semes” (1 Samuel 6:9, 13, 14, 12), e foram testemunhas da recepção à mesma, voltaram então a Ecrom. A praga cessou, e ficaram convencidos de que suas calamidades foram um juízo do Deus de Israel.
Os homens de Bete-Semes rapidamente espalharam a notícia de que a arca estava em seu poder, e o povo do território circunvizinho reuniu-se para festejar a sua volta. A arca fora posta sobre a pedra que a princípio servira de altar, e diante dela sacrifícios adicionais foram oferecidos ao Senhor. Houvessem os adoradores se arrependido de seus pecados, e a bênção de Deus os teria acompanhado. Mas não estavam a obedecer fielmente à Sua lei; e, ao mesmo tempo que se regozijavam com a volta da arca como um precursor do bem, não tinham uma intuição verdadeira de sua santidade. Em vez de prepararem um local conveniente para sua recepção, permitiram que ela ficasse no campo da ceifa. Como continuassem a olhar para o receptáculo sagrado, e falar acerca da maneira maravilhosa por que havia sido recuperado, começaram a conjeturar sobre onde jazia o seu poder peculiar. Finalmente, vencidos pela curiosidade, removeram a cobertura, e arriscaram-se a abri-la.
Todo o Israel havia sido ensinado a olhar para a arca com temor e reverência. Quando se exigia mudá-la de um lugar para outro, os levitas nem sequer deveriam olhar para ela. Apenas uma vez ao ano permitia-se ao sumo sacerdote ver a arca de Deus. Mesmo os filisteus gentios não haviam ousado remover a sua cobertura. Anjos do Céu, invisíveis, sempre a acompanhavam em todas as suas viagens. A irreverente ousadia do povo de Bete-Semes foi prontamente punida. Muitos foram feridos de morte instantânea.
Os sobreviventes não foram levados por este juízo a arrepender-se de seu pecado, mas apenas a olhar para a arca com um temor supersticioso. Ansiosos por se livrarem de sua presença, e não ousando contudo afastá-la, os bete-semitas enviaram uma mensagem aos habitantes de Quiriate-Jearim, convidando-os a levá-la. Com grande alegria os homens deste lugar receberam o sagrado receptáculo. Sabiam que ele era o penhor do favor divino aos obedientes e fiéis. Com solene alegria levaram-na à sua cidade, e a colocaram na casa de Abinadabe, levita. Este homem designou seu filho Eleazar para cuidar da mesma, e ela ali ficou durante muitos anos.
Durante os anos que se passaram desde que o Senhor Se manifestara pela primeira vez ao filho de Ana, viera a vocação de Samuel ao ofício profético a ser reconhecida por toda a nação. Transmitindo fielmente a advertência divina à casa de Eli, por penoso e probante que tivesse sido este dever, Samuel dera prova de sua fidelidade como mensageiro de Jeová; “e o Senhor era com ele, e nenhuma de todas as suas palavras deixou cair em terra. E todo o Israel, desde Dã até Berseba, conheceu que Samuel estava confirmado por profeta do Senhor”.
Os israelitas, como uma nação, continuavam ainda em estado de irreligião e idolatria, e como castigo permaneceram sujeitos aos filisteus. Durante este tempo Samuel visitou as cidades e aldeias por todo o país, procurando volver o coração do povo ao Deus de seus pais; e seus esforços não ficaram sem bons resultados. Depois de sofrerem a opressão de seus inimigos durante vinte anos, os israelitas lamentavam “após o Senhor”. Aconselhou-os Samuel: “Se com todo o vosso coração vos converterdes ao Senhor, tirai dentre vós os deuses estranhos e os astarotes, e preparai o vosso coração ao Senhor, e servi a Ele só” (1 Samuel 7:3); aqui vemos que a piedade prática, a religião do coração, era ensinada nos dias de Samuel como o foi por Cristo quando Ele esteve na Terra. Sem a graça de Cristo, as formas exteriores da religião eram destituídas de valor para o antigo Israel. Elas são o mesmo para o Israel moderno.
Há hoje necessidade de um tal reavivamento da verdadeira religião do coração como o que foi experimentado pelo antigo Israel. O arrependimento é o primeiro passo que deve ser dado por todos os que desejam voltar a Deus. Ninguém pode efetuar isto por outrem. Devemos individualmente humilhar nossa alma perante Deus, e lançar fora nossos ídolos. Quando houvermos feito tudo o que pudermos, o Senhor nos manifestará a Sua salvação.
Com a cooperação dos cabeças das tribos, reuniu-se uma grande assembléia em Mispa. Ali teve lugar um jejum solene. Com profunda humilhação o povo confessou os seus pecados; e, como prova de sua resolução de obedecer às instruções que tinham ouvido, investiram a Samuel com a autoridade de juiz.
Os filisteus interpretaram essa reunião como um conselho de guerra, e com uma grande força saíram para dispersar os israelitas, antes que chegassem seus planos à maturidade. A notícia de sua aproximação causou grande terror em Israel. O povo rogou a Samuel: “Não cesses de clamar ao Senhor nosso Deus por nós, para que nos livre da mão dos filisteus”. 1 Samuel 7:2, 3, 8.
Quando Samuel estava no ato de apresentar um cordeiro como holocausto, os filisteus se aproximaram para a batalha. Então o Ser poderoso que descera sobre o Sinai por entre fogo, fumo e trovões; que dividira o Mar Vermelho, e abrira caminho através do Jordão para os filhos de Israel, manifestou novamente o Seu poder. Uma terrível tempestade irrompeu sobre a hoste que avançava, e a terra ficou juncada dos cadáveres dos grandes guerreiros.
Os israelitas tinham ficado em silencioso pavor, a tremer, com esperança e medo. Quando viram a matança de seus inimigos, souberam que Deus havia aceito o seu arrependimento. Embora não estivessem preparados para a batalha, tomaram as armas dos filisteus mortos e perseguiram o exército fugitivo a Bete-Car. Esta assinalada vitória foi ganha no mesmo campo em que, vinte anos antes, Israel fora ferido diante dos filisteus, tendo sido mortos os sacerdotes, e tomada a arca de Deus. Para as nações bem como para os indivíduos, o caminho da obediência a Deus é o caminho da segurança e da felicidade, enquanto o da transgressão apenas leva ao revés e à derrota. Os filisteus foram agora subjugados de maneira tão completa que entregaram as fortalezas que haviam tomado a Israel, e abstiveram-se de atos de hostilidade por muitos anos. Outras nações seguiram este exemplo, e os israelitas desfrutaram paz até o fim da administração unipessoal de Samuel.
A fim de que essa ocasião não fosse jamais esquecida, Samuel ergueu, entre Mispa e Sem, uma grande pedra como memorial. Chamou o seu nome Ebenézer, “a pedra da ajuda”, dizendo ao povo: “Até aqui nos ajudou o Senhor”. 1 Samuel 7:12.
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