PATRIARCAS E PROFETAS, cap. 68-69

Capítulo 68 — Davi em Ziclague

Este capítulo é baseado em 1 Samuel 29-30; 2 Samuel 1.

Davi e seus homens não tinham tomado parte na batalha entre Saul e os filisteus, posto que tivessem marchado com estes ao campo de lutas. Preparando-se os dois exércitos para se empenharem em combate, encontrou-se o filho de Jessé em uma situação de grande perplexidade. Esperava-se que ele batalhasse em favor dos filisteus. Caso abandonasse na luta o posto a ele designado, e se afastasse do campo, não somente ficaria com o estigma de covardia, mas de ingratidão e traição a Aquis, que o protegera e nele confiara. Tal ato cobriria seu nome de infâmia, e o exporia à ira de inimigos mais temíveis do que Saul. Contudo, não poderia absolutamente consentir em combater contra Israel. Caso fizesse isto, far-se-ia traidor ao seu país — inimigo de Deus e de Seu povo. Tal lhe vedaria para sempre o caminho ao trono de Israel; e, se Saul fosse morto na luta, sua morte seria atribuída a Davi.

Davi foi levado a compenetrar-se de que tinha errado seu caminho. Muito melhor ter-lhe-ia sido refugiar-se nas potentes fortalezas de Deus, nas montanhas, do que entre os declarados inimigos de Jeová e Seu povo. Mas o Senhor, em Sua grande misericórdia, não castigou este erro de Seu servo, deixando-o entregue a si mesmo em sua angústia e perplexidade; pois, embora Davi, perdendo seu apego ao poder divino, houvesse vacilado, e se desviado da senda da estrita integridade, era ainda o propósito de seu coração ser fiel a Deus. Enquanto Satanás e sua hoste estavam ocupados, auxiliando os adversários de Deus e de Israel a fazerem planos contra um rei que abandonara a Deus, os anjos do Senhor estavam agindo para livrarem Davi do perigo em que caíra. Mensageiros celestiais atuavam nos príncipes filisteus para que protestassem contra a presença de Davi e sua força no exército, no conflito que se aproximava.

“Que fazem aqui estes hebreus?” exclamaram os príncipes filisteus, acercando-se de Aquis. Este, não querendo desfazer-se de um aliado tão importante, respondeu: “Não é este Davi, o criado de Saul, rei de Israel, que esteve comigo há alguns dias ou anos? e coisa alguma achei nele desde o dia em que se revoltou, até ao dia de hoje.”

Mas os príncipes iradamente persistiram em seu pedido: “Faze voltar a este homem, e torne ao seu lugar em que tu o puseste, e não desça conosco à batalha, para que não se nos torne na batalha em adversário; porque com que aplacaria este a seu senhor? porventura não seria com as cabeças destes homens? Não é este aquele Davi, de quem uns aos outros respondiam nas danças, dizendo: Saul feriu os seus milhares, porém Davi as suas dezenas de milhares?” A morte de seu famoso campeão e a vitória de Israel naquela ocasião ainda estavam vivos na memória dos príncipes filisteus. Não criam que Davi combatesse contra seu próprio povo; e, caso tomasse, no calor do combate, o lado deles, poderia infligir maior dano aos filisteus do que faria o exército todo de Saul.

Assim Aquis foi obrigado a ceder, e, chamando a Davi, disse-lhe: “Vive o Senhor, que tu és reto, e que a tua entrada e a tua saída comigo no arraial é boa aos meus olhos; porque nenhum mal em ti achei, desde o dia em que a mim vieste, até ao dia de hoje; porém aos olhos dos príncipes não agradas. Volta, pois, agora, e volta em paz, para que não faças mal aos olhos dos príncipes dos filisteus”. 1 Samuel 29:3-7.

Davi, receando trair seus verdadeiros sentimentos, respondeu: “Por quê? que fiz? ou que achaste no teu servo desde o dia em que estive diante de ti, até ao dia de hoje, para que não vá e peleje contra os inimigos do rei meu senhor?”

A resposta de Aquis deve ter produzido um estremecimento de vergonha e remorso no coração de Davi, ao pensar quão indignos de um servo de Jeová eram os enganos a que se rebaixara. “Bem o sei; e que na verdade aos meus olhos és bom como um anjo de Deus”, disse o rei; “porém disseram os príncipes dos filisteus: Não suba este conosco à batalha. Agora, pois, amanhã de madrugada levanta-te com os criados do teu senhor, que têm vindo contigo; e, levantando-vos pela manhã de madrugada, e havendo luz, parti”. 1 Samuel 29:8-10. Deste modo a cilada em que Davi se enredara, rompera-se e ele ficou livre.

Depois de três dias de viagem, Davi e seu grupo de seiscentos homens chegaram em Ziclague, sua residência entre os filisteus. Mas seus olhos encontraram uma cena de desolação. Os amalequitas, tirando vantagem da ausência de Davi e sua força, tinham-se vingado de suas incursões em seu território. Haviam surpreendido a cidade, enquanto esta não se encontrava guardada, e, tendo-a saqueado e queimado, partiram, levando todas as mulheres e crianças como cativos, juntamente com muito despojo.

Mudos de horror e espanto, Davi e seus homens por algum tempo olharam em silêncio para as ruínas enegrecidas e a queimar-se lentamente. Então, quando um senso de sua terrível desolação os assaltou, aqueles guerreiros cheios de cicatrizes recebidas em batalhas “alçaram a sua voz, e choraram, até que neles não houve mais força para chorar”. 1 Samuel 30:4.

Com isto foi Davi de novo castigado pela falta de fé que o levara a colocar-se entre os filisteus. Teve oportunidade de ver quanta segurança poderia obter-se entre os adversários de Deus e de Seu povo. Os seguidores de Davi voltaram-se contra ele, como causa de suas calamidades. Ele tinha provocado a vingança dos amalequitas pelo seu ataque contra eles; todavia, demasiado confiante em sua segurança em meio de seus inimigos, deixara desguarnecida a cidade. Loucos de dor e raiva, seus soldados estavam agora prontos para quaisquer medidas extremas, e ameaçaram mesmo apedrejar seu líder.

Davi parecia desligado de todo o apoio humano. Tudo que lhe era caro na Terra, dele havia sido arrebatado. Saul o expulsara de seu país; os filisteus o expulsaram do arraial; os amalequitas pilharam sua cidade; suas mulheres e filhos haviam sido feitos prisioneiros; e os próprios amigos de seu grupo ligaram-se contra ele, e o ameaçavam mesmo de morte. Nesta hora de extrema angústia, Davi, em vez de permitir que seu espírito se ocupasse com tais circunstâncias dolorosas, olhou com fervor a Deus à espera de auxílio. Ele “animou-se no Senhor”. Reviu sua vida passada, cheia de peripécias. Em que o havia o Senhor abandonado? Sua alma refrigerou-se, lembrando-se das muitas provas do favor de Deus. Os seguidores de Davi, pelo seu descontentamento e impaciência, tornaram sua aflição duplamente atroz; mas o homem de Deus, tendo mesmo maior motivo de pesar, portou-se com coragem. “No dia em que eu temer, hei de confiar em Ti” (Salmos 56:3) — era a expressão de seu coração. Embora ele mesmo não pudesse divisar um meio para sair da dificuldade, Deus podia vê-lo, e quis ensinar-lhe o que fazer.

Mandando chamar Abiatar, o sacerdote, filho de Aimeleque, “consultou Davi ao Senhor, dizendo: Perseguirei eu a esta tropa? alcançá-la-ei?” A resposta foi: “Persegue-a, porque decerto a alcançarás, e tudo libertarás”. 1 Samuel 30:8.

A estas palavras o tumulto de mágoa e paixão cessou. Davi e seus soldados imediatamente se puseram em perseguição de seu adversário que fugia. Tão rápida foi a sua marcha que, em chegando ao ribeiro de Besor, que deságua perto de Gaza, no Mediterrâneo, duzentos do grupo foram obrigados pelo cansaço a ficar atrás. Mas Davi e os quatrocentos restantes avançaram impetuosamente, nada temendo.

Avançando, chegaram a um escravo egípcio, que estava aparentemente a ponto de morrer de cansaço e fome. Recebendo, porém, alimento e água, reanimou-se, e souberam que fora deixado a morrer, pelo seu cruel senhor, um amalequita pertencente à força invasora. Ele narrou a história da incursão e pilhagem; e, então, tendo exigido a promessa de que não seria morto ou entregue ao seu senhor, consentiu em guiar o grupo de Davi ao acampamento de seus inimigos.

Chegando à vista do arraial, defrontaram seus olhares uma cena de orgia. O exército vitorioso realizava uma grande festa. “Estavam espalhados sobre a face de toda a terra, comendo, e bebendo, e dançando, por todo aquele grande despojo que tomaram da terra dos filisteus e da terra de Judá”. 1 Samuel 30:16. Ordenou-se um ataque imediato, e os perseguidores arremessaram-se ferozmente sobre sua presa. Os amalequitas ficaram surpresos e tomados de confusão. A batalha prolongou-se por toda aquela noite e o dia seguinte, até que quase todo o exército fosse morto. Apenas um grupo de quatrocentos homens, montados em camelos, conseguiu escapar. Cumpriu-se a palavra do Senhor. “Livrou Davi tudo quanto tomaram os amalequitas; também as suas duas mulheres livrou Davi. E ninguém lhes faltou, desde o menor até ao maior, e até os filhos e as filhas; e também desde o despojo até tudo quanto lhes tinham tomado, tudo Davi tornou a trazer”. 1 Samuel 30:18, 19.

Quando Davi invadira o território dos amalequitas, passara ao fio da espada todos os habitantes que caíram em suas mãos. Se não fosse o poder repressor de Deus, os amalequitas ter-se-iam desforrado da mesma maneira, destruindo o povo de Ziclague. Resolveram poupar os prisioneiros, desejando aumentar a honra do triunfo em virtude de levar para seu país um grande número deles, e tencionando mais tarde vendê-los como escravos. Assim, sem o saber, cumpriram o propósito de Deus, conservando os prisioneiros isentos de qualquer mal, para serem restituídos aos seus maridos e pais.

Todos os poderes terrestres estão sob o domínio do Ser infinito. Ao mais poderoso governador, ao mais cruel opressor, diz Ele: “Até aqui virás, e não mais adiante”. Jó 38:11. O poder de Deus é constantemente exercido para contrariar as forças do mal: Ele está sempre em ação entre os homens, não para os destruir, mas para corrigi-los e preservá-los.

Com grande regozijo os vitoriosos iniciaram a marcha em direção à sua terra. Chegando aos seus companheiros que tinham ficado atrás, os mais egoístas e desregrados dos quatrocentos insistiram em que aqueles que não tinham tomado parte na batalha não participassem dos despojos; que lhes bastava cada um recuperar sua esposa e filhos. Mas Davi não quis permitir tal disposição. “Não fareis assim, irmãos meus”, disse ele, “com o que nos deu o Senhor. […] Qual é a parte dos que desceram à peleja, tal também será a parte dos que ficaram com a bagagem; igualmente repartirão”. 1 Samuel 30:23, 24. Assim foi resolvida a questão, e mais tarde tornou-se uma lei em Israel que todos os que com honra estivessem ligados a uma campanha militar devessem participar dos despojos, do mesmo modo que os que se achavam empenhados no próprio combate.

Além de recuperar todo o despojo que fora tomado de Ziclague, Davi e seu grupo apreenderam extensos rebanhos de ovelhas e vacas pertencentes aos amalequitas. Estes foram chamados “o despojo de Davi” (1 Samuel 30:20); e, voltando a Ziclague, enviou deste despojo presentes aos anciãos de sua própria tribo de Judá. Nesta distribuição foram lembrados todos os que ampararam a ele e seus seguidores nas fortalezas das montanhas, quando foi obrigado a fugir de um lugar para outro para conservar a vida. A bondade e a simpatia deles, tão preciosas ao perseguido fugitivo, foram dessa maneira gratamente reconhecidas.

Era o terceiro dia depois que Davi e seus guerreiros voltaram a Ziclague. Enquanto trabalhavam para restaurar suas casas arruinadas, aguardavam com coração ansioso notícias da batalha que sabiam dever ter sido ferida entre Israel e os filisteus. Subitamente um mensageiro entrou na cidade, “com vestidos rotos e com terra sobre a cabeça”. 2 Samuel 1:2-12. Foi logo levado a Davi, diante de quem se curvou com reverência, exprimindo reconhecê-lo como um príncipe poderoso, cujo favor desejava. Davi indagou ansiosamente como tinha ido a batalha. O fugitivo referiu a derrota e morte de Saul, e a morte de Jônatas. Mas foi além de uma simples declaração dos fatos. Supondo evidentemente que Davi deveria alimentar inimizade para com o seu implacável perseguidor, o estrangeiro esperava conseguir honra para si como o matador do rei. Com um ar de vanglória, o homem pôs-se a relatar que durante a batalha encontrou o rei de Israel ferido, e mui assediado pelos seus adversários, e que pelo seu próprio pedido ele, o mensageiro, o matara. A coroa de sua cabeça e a pulseira de ouro que trazia no braço ele as trouxera a Davi. Confiantemente esperava que estas notícias fossem recebidas com alegria, e que receberia uma boa recompensa pela parte que desempenhara.

Mas “apanhou Davi os seus vestidos, e os rasgou, como também todos os homens que estavam com ele. E prantearam, e choraram, e jejuaram até à tarde por Saul, e por Jônatas, seu filho, e pelo povo do Senhor, e pela casa de Israel, porque tinham caído à espada”.

Passado o primeiro abalo da terrível notícia, os pensamentos de Davi voltaram-se para o núncio estrangeiro, e para o crime de que, segundo sua própria declaração, ele era culpado. O líder perguntou ao moço: “Donde és tu?” E ele respondeu: “Sou filho de um homem estrangeiro, amalequita. E Davi lhe disse: Como não temeste tu estender a mão para matares ao ungido do Senhor?” Duas vezes Davi tivera Saul em seu poder; mas, quando insistiram para que o matasse, recusara-se levantar a mão contra aquele que fora consagrado por ordem de Deus para governar Israel. No entanto o amalequita não receara jactar-se de que matara o rei de Israel. Acusara a si mesmo de um crime digno de morte, e a pena foi infligida imediatamente. Disse Davi: “O teu sangue seja sobre a tua cabeça, porque a tua própria boca testificou contra ti, dizendo: Eu matei o ungido do Senhor”. 2 Samuel 1:13-16.

A dor de Davi pela morte de Saul era sincera e profunda, demonstrando a generosidade de uma natureza nobre. Não exultou com a queda de seu inimigo. O obstáculo que lhe impedia o acesso ao trono de Israel estava removido, mas ele não se regozijou com isto. A morte apaga a lembrança das desconfianças e crueldade de Saul, e agora em coisa alguma de sua história pensava a não ser naquilo que era nobre e digno de um rei. O nome de Saul estava ligado com o de Jônatas, cuja amizade fora tão fiel e tão abnegada.

O cântico no qual Davi exprimiu os sentimentos de seu coração, tornou-se um tesouro para a sua nação, e para o povo de Deus em todas as eras subseqüentes:

“Ah, ornamento de Israel! nos teus altos fui ferido. Como caíram os valentes!

Não o noticieis em Gate, não o publiqueis nas ruas de Ascalom,
para que não se alegrem as filhas dos filisteus,
para que não saltem de contentamento as filhas dos incircuncisos.

Vós, montes de Gilboa, nem orvalho, nem chuva caia sobre vós,
nem sobre vós, campos de ofertas alçadas.
Pois aí desprezivelmente foi arrojado o escudo dos valentes, o escudo de Saul,
como se não fora ungido com óleo. […]
Saul e Jônatas, tão amados e queridos na sua vida,
também na sua morte se não separaram;
eram mais ligeiros do que as águias, mais fortes do que os leões.
Vós, filhas de Israel, chorai por Saul, que vos vestia de escarlata em delícias,
que vos fazia trazer ornamentos de ouro sobre os vossos vestidos.

Como caíram os valentes no meio da peleja!
Jônatas nos teus altos foi ferido.
Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas;
quão amabilíssimo me eras!
Mais maravilhoso me era o teu amor do que o amor das mulheres.
Como caíram os valentes,
e pereceram as armas de guerra!”

2 Samuel 1:19-27.

Capítulo 69 — Davi chamado ao trono

Este capítulo é baseado em 2 Samuel 2-5:5.

A morte de Saul removeu os perigos que haviam feito de Davi um exilado. Estava agora aberto o caminho para ele voltar para a sua terra. Acabando-se os dias de lamentação por Saul e Jônatas, “Davi consultou ao Senhor, dizendo: Subirei a alguma das cidades de Judá? E disse-lhe o Senhor: Sobe. E disse Davi: Para onde subirei? E disse: Para Hebrom”. 2 Samuel 2:1.

Hebrom ficava a trinta quilômetros ao norte de Berseba, e a meio caminho entre esta cidade e o futuro local de Jerusalém. Chamava-se primitivamente Quiriate-Arba, a cidade de Arba, pai de Enaque. Mais tarde se chamou Manre, e ali foi o lugar em que foram sepultados os patriarcas, a “cova de Macpela”. Gênesis 25:9. Hebrom tinha sido a possessão de Calebe, e era agora a cidade principal de Judá. Ficava em um vale rodeado de fértil região montesina e de terras produtivas. As mais belas vinhas da Palestina achavam-se em seus termos, juntamente com numerosas plantações de oliveiras e outras árvores frutíferas.

Davi e seus seguidores imediatamente se prepararam para obedecer à instrução que tinham recebido de Deus. Os seiscentos homens armados, juntamente com suas mulheres e filhos, seus rebanhos e vacas, logo se acharam em caminho para Hebrom. Entrando a caravana na cidade, os homens de Judá estavam esperando para darem as boas-vindas a Davi como futuro rei de Israel. Imediatamente se tomaram disposições para a sua coroação. “E ungiram ali a Davi rei sobre a casa de Judá”. 2 Samuel 2:4. Mas não se fez nenhum esforço para estabelecer sua autoridade, pela força, sobre as outras tribos.

Um dos primeiros atos do rei recém-coroado foi exprimir sua afetuosa consideração pela memória de Saul e Jônatas. Tendo conhecimento da ação heróica dos homens de Jabes-Gileade, retirando os corpos dos chefes mortos, e dando-lhes honrosa sepultura, enviou Davi uma embaixada a Jabes com esta mensagem: “Benditos sejais vós do Senhor, que fizestes tal beneficência a vosso senhor, a Saul, e o sepultastes! Agora, pois, o Senhor use convosco de beneficência e fidelidade; e também eu vos farei este bem”. 2 Samuel 2:5, 6. E anunciou sua subida ao trono de Judá, e pediu fidelidade por parte daqueles que haviam mostrado tão sincera lealdade.

Os filisteus não se opuseram à ação de Judá, tornando a Davi rei. Eles o haviam favorecido em seu exílio, a fim de molestar e enfraquecer o reino de Saul; e agora esperavam que por causa de sua anterior bondade para com Davi, a extensão do poder deste resultaria, afinal, em proveito deles. Mas o reinado de Davi não estaria livre de dificuldades. Com a sua coroação começou o negro registro de conspirações e rebeliões. Davi não sentou no trono de um traidor. Deus o escolhera para ser rei de Israel, e não tinha havido motivo para desconfiança e oposição. No entanto, mal havia sido sua autoridade reconhecida pelos homens de Judá, quando, pela influência de Abner, foi Isbosete, filho de Saul, proclamado rei e posto sobre um trono rival em Israel.

Isbosete não era senão um representante fraco e incompetente da casa de Saul, ao passo que Davi estava preeminentemente qualificado para assumir as responsabilidades do reino. Abner, o fator principal no levantamento de Isbosete ao poder real, tinha sido comandante-geral do exército de Saul, e era o homem mais distinto em Israel. Abner sabia que Davi tinha sido designado pelo Senhor ao trono de Israel; mas tendo-o tanto tempo afligido e perseguido, não estava agora disposto a que o filho de Jessé sucedesse no reino em que governara Saul.

As circunstâncias sob as quais Abner foi posto, serviram para desenvolver seu verdadeiro caráter, e mostraram ser ele ambicioso e sem escrúpulos. Tinha estado intimamente ligado a Saul, e fora influenciado pelo espírito do rei para desprezar o homem que Deus escolhera para reinar sobre Israel. Seu ódio aumentara pela censura incisiva que Davi lhe fizera na ocasião em que a bilha de água e a lança do rei foram tiradas de ao lado de Saul, enquanto ele dormia no acampamento. Lembrava-se de como Davi tinha bradado aos ouvidos do rei e do povo de Israel: “Porventura não és varão? e quem há em Israel como tu, por que, pois, não guardaste tu o rei teu senhor? […] Não é bom isto, que fizeste; vive o Senhor, que sois dignos de morte, vós que não guardastes a vosso senhor, o ungido do Senhor”. 1 Samuel 26:15, 16. Esta censura inflamara-se em seu peito, e resolveu executar seu propósito de vingança, e criar divisão em Israel, por meio do que poderia ele próprio exaltar-se. Empregou o representante da passada realeza para promover suas ambições e intuitos egoístas. Sabia que o povo amava Jônatas. Sua memória era acalentada, e as primeiras campanhas bem-sucedidas de Saul não foram esquecidas pelo exército. Com decisão digna de melhor causa, este líder revoltoso prosseguiu na execução de seus planos.

Maanaim, na outra margem do Jordão, foi escolhida para residência real, visto que oferecia a máxima segurança contra ataques, quer de Davi quer dos filisteus. Ali teve lugar a coroação de Isbosete. Seu reino foi primeiramente aceito pelas tribos ao este do Jordão, e estendeu-se finalmente por todo o Israel, com exceção de Judá. Durante dois anos o filho de Saul fruiu as suas honras em sua segregada capital. Mas Abner, no intuito de ampliar seu poder por todo o Israel, preparou-se para a guerra agressiva. E “houve uma longa guerra entre a casa de Saul e a casa de Davi; porém Davi se ia fortalecendo, mas os da casa de Saul se iam enfraquecendo”. 2 Samuel 3:1.

Finalmente a traição subverteu o trono que a malícia e a ambição estabeleceram. Abner, enchendo-se de ira contra o fraco e incompetente Isbosete, desertou para o lado de Davi, com o oferecimento de lhe trazer todas as tribos de Israel. Suas propostas foram aceitas pelo rei, e ele foi despedido com honra para cumprir o seu propósito. Mas a recepção favorável de tão valente e famoso guerreiro provocou a inveja de Joabe, o comandante-geral do exército de Davi. Havia uma dissensão mortal entre Abner e Joabe, tendo o primeiro morto a Asael, irmão de Joabe, durante a guerra entre Israel e Judá. Agora Joabe, vendo uma oportunidade para vingar a morte de seu irmão, e livrar-se de um que seria seu rival, aproveitou-se vilmente da ocasião para armar cilada a Abner e matá-lo.

Davi, ouvindo falar deste traiçoeiro assalto, exclamou: “Inocente sou eu, e o meu reino, para com o Senhor, para sempre, do sangue de Abner, filho de Ner. Fique-se sobre a cabeça de Joabe e sobre toda a casa de seu pai”. 2 Samuel 3:28, 29. Em vista da condição incerta do reino, e do poderio e cargo dos assassinos — pois que o irmão de Joabe, Abisai, estivera unido com ele — Davi não pôde punir o crime com o justo castigo; contudo, manifestou publicamente sua aversão àquela cena de sangue. O sepultamento de Abner foi acompanhado de honras públicas. Exigiu-se que o exército, com Joabe à sua frente, tomasse parte nos atos de lamentação, com vestes rotas e vestidos de saco. O rei manifestou sua dor, observando um jejum no dia do sepultamento; acompanhou o séquito fúnebre como o principal pranteador; e junto à sepultura pronunciou uma homenagem que era uma censura cortante aos assassinos. E o rei, pranteando a Abner, disse: “Não morreu Abner como morre o vilão? As tuas mãos não estavam atadas, nem os teus pés carregados de grilhões de bronze, mas caíste como os que caem diante dos filhos da maldade!” 2 Samuel 3:33, 34.

O magnânimo reconhecimento por parte de Davi, com relação a um que fora seu inimigo atroz, conquistou a confiança e a admiração de todo o Israel. “O que todo o povo entendendo, pareceu bem aos seus olhos, assim como tudo quanto o rei fez pareceu bem aos olhos de todo o povo. E todo o povo e todo Israel entenderam naquele mesmo dia que não procedera do rei que matassem a Abner, filho de Ner.”

No círculo particular dos conselheiros e assistentes que lhe mereciam confiança, o rei falou do crime, e reconhecendo sua própria incapacidade de punir os assassinos como o desejava, entregou-os à justiça de Deus: “Não sabeis que hoje caiu em Israel um príncipe e um grande? Que eu ainda sou tenro, ainda que ungido rei; estes homens, filhos de Zeruia, são mais duros do que eu. O Senhor pagará ao malfeitor conforme a sua maldade”. 2 Samuel 3:36-39.

Abner tinha sido sincero em seus oferecimentos e representações a Davi; todavia seus intuitos eram vis e egoístas. Opusera-se persistentemente ao rei por Deus designado, na expectativa de conseguir honra para si. Era o ressentimento, o orgulho ferido, e a paixão o que o levou a abandonar a causa que durante tanto tempo havia servido; e, desertando para o lado de Davi, esperava receber a mais alta posição de honra ao seu serviço. Se ele tivesse sido bem-sucedido em seu propósito, seus talentos e ambição, sua grande influência e falta de piedade teriam feito perigar o trono de Davi e a paz e a prosperidade da nação.

“Ouvindo pois o filho de Saul que Abner morrera em Hebrom, as mãos se lhe afrouxaram; e todo o Israel pasmou”. 2 Samuel 4:1. Era evidente que o reino não poderia manter-se por muito tempo. Logo outro ato de traição completou a queda do poder decadente. Isbosete foi miseravelmente assassinado por dois de seus capitães, os quais, decepando-lhe a cabeça, levaram-na apressadamente ao rei de Judá, esperando assim captar o seu favor.

Compareceram perante Davi com a sangrenta testemunha de seu crime, dizendo: “Eis aqui a cabeça de Isbosete, filho de Saul, teu inimigo, que te procurava a morte; assim o Senhor vingou hoje ao rei meu senhor de Saul e da sua semente.” Mas Davi, cujo trono o próprio Deus estabelecera, e a quem Deus livrara de seus adversários, não desejava o auxílio da traição para estabelecer seu poderio. Contou aos assassinos a condenação que atingira aquele que se vangloriou de matar Saul. “Quanto mais”, acrescentou ele, “a ímpios homens, que mataram um homem justo em sua casa, sobre a sua cama; agora, pois, não requereria eu o seu sangue de vossas mãos, e não vos exterminaria da Terra? E deu Davi ordem aos seus mancebos que os matassem. […] Tomaram, porém, a cabeça de Isbosete, e a sepultaram na sepultura de Abner, em Hebrom”. 2 Samuel 4:11, 12.

Depois da morte de Isbosete, houve um desejo geral entre os principais homens de Israel de que Davi fosse rei de todas as tribos. “Então todas as tribos de Israel vieram a Davi, a Hebrom, e falaram, dizendo: Eis-nos aqui, teus ossos e tua carne somos.” Declararam: “Eras tu o que saías e entravas com Israel; e também o Senhor te disse: Tu apascentarás o Meu povo de Israel, e tu serás chefe sobre Israel. Assim, pois, todos os anciãos de Israel vieram ao rei, a Hebrom; e o rei Davi fez com eles aliança em Hebrom, perante o Senhor”. 2 Samuel 5:1-3. Assim, pela providência de Deus, abrira-se-lhe o caminho para ir ao trono. Ele não tinha nenhuma ambição pessoal a satisfazer, pois não procurara a honra a que fora levado.

Mais de oito mil dos descendentes de Arão, e dos levitas, serviam a Davi. A mudança nos sentimentos do povo foi assinalada e decisiva. A revolução foi silenciosa e digna, adaptada à grande obra que estavam a fazer. Quase meio milhão de almas, os anteriores súditos de Saul, congregaram-se em Hebrom e arredores. As próprias colinas e vales pareciam vivas com as multidões. A hora da coroação foi designada; o homem que fora expulso da corte de Saul, que fugira às montanhas e colinas e às cavernas da terra, a fim de preservar a vida, estava prestes a receber a mais alta honra que ao homem pode ser conferida por seus semelhantes. Sacerdotes e anciãos, vestidos nos trajes de seu ofício sagrado; oficiais e soldados com lanças e capacetes resplandecentes; e estrangeiros, de longas distâncias, ali se achavam para assistirem à coroação do rei eleito. Davi estava vestido com os trajes reais. O óleo sagrado foi-lhe posto sobre a fronte pelo sumo sacerdote; pois a unção feita por Samuel fora profética em relação ao que teria lugar no início das funções do rei. Chegado era o tempo, e Davi, mediante uma cerimônia solene, foi consagrado para o seu ofício como representante de Deus. O cetro foi-lhe posto nas mãos. O concerto de sua justa soberania foi escrito, e o povo apresentou seus compromissos de fidelidade. Colocou-se-lhe na fronte o diadema, e estava terminada a cerimônia da coroação. Israel tinha um rei de indicação divina. Aquele que tinha esperado pacientemente pelo Senhor, viu cumprida a promessa de Deus. “E Davi se ia cada vez mais aumentando e crescendo, porque o Senhor Deus dos exércitos era com ele”. 2 Samuel 5:10.

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