O DESEJADO DE TODAS AS NAÇÕES, cap 4 e 5

Capítulo 4 — “Hoje vos nasceu o Salvador”

Este capítulo é baseado em Lucas 2:1-20.

O Rei da Glória muito Se humilhou ao revestir-Se da humanidade. Rude e ingrato foi o Seu ambiente terrestre. Sua glória foi velada, para que a majestade de Sua aparência exterior não se tornasse objeto de atração. Esquivava-Se a toda exibição exterior.

Riquezas, honras terrestres e humana grandeza nunca poderão salvar uma alma da morte; Jesus Se propôs que nenhuma atração de natureza terrena levasse homens ao Seu lado. Unicamente a beleza da verdade celeste devia atrair os que O seguissem. O caráter do Messias fora desde há muito predito na profecia, e era Seu desejo que os homens O aceitassem em razão do testemunho da Palavra de Deus.

Os anjos maravilharam-se ante o glorioso plano da redenção. Observavam a ver de que maneira o povo de Deus receberia Seu Filho, revestido da humanidade. Anjos foram à terra do povo escolhido. Outras nações estavam embebidas com fábulas, e adorando falsos deuses. À terra onde se revelara a glória de Deus, e brilhara a luz da profecia, foram os anjos. Dirigiram-se invisíveis a Jerusalém, aos designados expositores dos Sagrados Oráculos, e ministros da casa de Deus. Já a Zacarias, enquanto ministrava perante o altar, fora anunciada a proximidade da vinda de Cristo. Já nascido estava o precursor, havendo sua missão sido atestada por milagres e profecias. As novas de Seu nascimento e o maravilhoso significado de Sua missão tinham sido amplamente divulgados. Todavia, Jerusalém não se estava preparando para receber o Redentor.

Com pasmo viram os mensageiros celestiais a indiferença do povo a quem Deus chamara para comunicar ao mundo a luz da sagrada verdade. A nação judaica fora conservada como testemunho de que Cristo havia de nascer da semente de Abraão e da linhagem de Davi; no entanto, não sabiam que Sua vinda se achava agora às portas. No templo, o sacrifício matutino e vespertino apontava diariamente ao Cordeiro de Deus; entretanto, nem mesmo ali havia qualquer preparação para O receber. Os sacerdotes e doutores da nação ignoravam que o maior acontecimento dos séculos estava prestes a ocorrer. Proferiam suas orações destituídas de sentido, e realizavam os ritos do culto para serem vistos pelos homens, mas em sua luta por riquezas e honras mundanas, não estavam preparados para a revelação do Messias. A mesma indiferença penetrava a terra de Israel. Corações egoístas e absorvidos pelo mundo, ficavam impassíveis ante o júbilo que comovia o Céu. Apenas alguns estavam ansiando contemplar o Invisível. A esses foi enviada a embaixada do Céu.

Anjos assistiam José e Maria enquanto viajavam de seu lar, em Nazaré, à cidade de Davi. O decreto de Roma Imperial acerca do alistamento dos povos de seu vasto domínio, estendera-se aos habitantes das montanhas da Galiléia. Como outrora Ciro fora chamado ao trono do império do mundo a fim de libertar os cativos do Senhor, assim César Augusto se tornara o instrumento para a realização do desígnio de Deus em levar a mãe de Jesus a Belém. Ela é da linhagem de Davi, e o Filho de Davi deve nascer na sua cidade. De Belém dissera o profeta: “De ti é que Me há de sair Aquele que há de reinar em Israel, e cuja geração é desde o princípio, desde os dias da eternidade”. Miquéias 5:2. Mas na cidade de sua real linhagem, José e Maria não são reconhecidos nem honrados. Fatigados e sem lar, atravessam toda a extensão da estreita rua, da porta da cidade ao extremo oriental desta, buscando em vão um lugar de pousada para a noite. Não há lugar para eles na apinhada hospedaria. Num rústico rancho em que se abrigam os animais, encontram afinal refúgio, e ali nasce o Redentor do mundo.

Os homens não o sabem, mas as novas enchem o Céu de regozijo. Com mais profundo e mais terno interesse os santos seres do mundo da luz são atraídos para a Terra. Todo o mundo se ilumina à presença do Redentor. Sobre as colinas de Belém acha-se reunida inumerável multidão de anjos. Esperam o sinal para declarar as alegres novas ao mundo. Houvessem os guias de Israel sido fiéis ao depósito que se lhes confiara, e teriam partilhado da alegria de anunciar o nascimento de Jesus. Mas assim foram passados por alto.

Deus declara: “Derramarei águas sobre o sedento e rios sobre a terra seca” (Isaías 44:3 “Aos justos nasce luz das trevas”. Salmos 112:4. Os brilhantes raios, que descem do trono de Deus, iluminarão os que andam em busca de luz e a aceitam com alegria.

Nos campos em que o jovem Davi guardara seus rebanhos, havia ainda pastores vigiando durante a noite. Nas horas caladas, conversavam entre si acerca do prometido Salvador, e oravam pela vinda do Rei ao trono de Davi. “E eis que um anjo do Senhor veio sobre eles, e a glória do Senhor os cercou de resplendor, e tiveram grande temor. E o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo, pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor”. Lucas 2:9-11.

A essas palavras, visões de glória encheram a mente dos pastores que as escutavam. Chegara a Israel o Libertador! Poder, exaltação, triunfo, acham-se associados à Sua vinda. O anjo, porém, deve prepará-los para reconhecerem o Salvador na pobreza e na humilhação. “Isto vos será por sinal”, diz ele: “Achareis o Menino envolto em panos, e deitado numa manjedoura”. Lucas 2:12.

O celestial mensageiro acalmara-lhes os temores. Dissera-lhes como poderiam encontrar Jesus. Com terna consideração para com sua humana fraqueza, dera-lhes tempo para se habituarem à radiação divina. Então, o júbilo e a glória não se puderam por mais tempo ocultar. Toda a planície se iluminou com a resplandecência das hostes de Deus. A Terra emudeceu, e o Céu inclinou-se para escutar o cântico: “Glória a Deus nas alturas, paz na Terra, boa vontade para com os homens”. Lucas 2:14.

Quem dera que a família humana pudesse hoje reconhecer este cântico! A declaração então feita, a nota vibrada então, avolumar-se-á até ao fim do tempo, e ressoará até aos extremos da Terra. Quando se erguer o Sol da Justiça, trazendo salvação sob Suas asas, esse cântico há de ecoar pela voz de uma grande multidão, como a voz de muitas águas, dizendo: “Aleluia, pois já o Senhor Deus todo-poderoso reina”. Apocalipse 19:6.

Ao desaparecerem os anjos, dissipou-se a luz, e mais uma vez cobriram as sombras da noite as colinas de Belém. A mais gloriosa cena que olhos humanos já contemplaram, permaneceu, no entanto, na memória dos pastores. “E depois que os anjos se retiraram deles para o Céu, os pastores diziam entre si: Vamos até Belém, e vejamos o que é que lá sucedeu, e o que é que o Senhor nos manifestou. E foram com grande pressa; e encontraram Maria e José, e o Menino deitado na manjedoura”. Lucas 2:15, 16.

Partindo com grande alegria, divulgaram as coisas que tinham visto e ouvido. “E todos os que o ouviram se maravilharam do que os pastores lhes diziam. Mas Maria guardou todas estas coisas, conferindo-as em seu coração. E voltaram os pastores, glorificando e louvando a Deus”. Lucas 2:18-20. Não se acham o Céu e a Terra mais distanciados hoje do que ao tempo em que os pastores ouviram o cântico dos anjos. A humanidade é hoje objeto da solicitude celeste da mesma maneira que o era quando homens comuns, ocupando posições ordinárias, se encontravam à luz do dia com anjos, e falavam com os mensageiros nas vinhas e nos campos. Enquanto nos movemos em nossos afazeres comuns, podemos ter bem perto o Céu. Anjos das cortes no alto assistirão os passos dos que vão e vêm às ordens de Deus.

A história de Belém é inexaurível. Nela se acham ocultas as “profundidades das riquezas, tanto da sabedoria como da ciência de Deus”. Romanos 11:33. Maravilhamo-nos do sacrifício do Salvador em permutar o trono do Céu pela manjedoura, e a companhia dos anjos que O adoravam pela dos animais da estrebaria. O orgulho e presunção humanos ficam repreendidos em Sua presença. Todavia, esse passo não era senão o princípio de Sua maravilhosa condescendência. Teria sido uma quase infinita humilhação para o Filho de Deus, revestir-Se da natureza humana mesmo quando Adão permanecia em seu estado de inocência, no Éden. Mas Jesus aceitou a humanidade quando a raça havia sido enfraquecida por quatro mil anos de pecado. Como qualquer filho de Adão, aceitou os resultados da operação da grande lei da hereditariedade. O que estes resultados foram, manifesta-se na história de Seus ancestrais terrestres. Veio com essa hereditariedade para partilhar de nossas dores e tentações, e dar-nos o exemplo de uma vida impecável.

Satanás aborrecera a Cristo no Céu, por causa de Sua posição nas cortes de Deus. Mais O aborreceu ainda quando se sentiu ele próprio destronado. Odiou Aquele que Se empenhou em redimir uma raça de pecadores. Não obstante, ao mundo em que Satanás pretendia domínio, permitiu Deus que viesse Seu Filho, impotente criancinha, sujeito à fraqueza da humanidade. Permitiu que enfrentasse os perigos da vida em comum com toda a alma humana, combatesse o combate como qualquer filho da humanidade o tem de fazer, com risco de fracasso e ruína eterna.

O coração do pai humano compadece-se do filho. Olha a fisionomia do pequenino, e treme ante a idéia dos perigos da vida. Anela proteger seu querido do poder de Satanás, guardá-lo da tentação e do conflito. Para enfrentar mais amargo conflito e mais terrível risco Deus deu Seu Filho unigênito, para que a vereda da vida fosse assegurada aos nossos pequeninos. “Nisto está o amor.” Maravilhai-vos, ó céus! e assombrai-vos, ó Terra!

Capítulo 5 — A dedicação

Este capítulo é baseado em Lucas 2:21-38.

Cerca de quarenta dias depois do nascimento de Cristo, José e Maria levaram-nO a Jerusalém, para O apresentar ao Senhor, e oferecer sacrifício. Isso estava de acordo com a lei judaica e, como substituto do homem, Cristo Se devia conformar com a lei em todos os particulares. Já havia sido submetido ao rito da circuncisão, como penhor de Sua submissão à lei.

Como oferta da parte da mãe, a lei exigia um cordeiro de um ano para holocausto, e um pombinho novo ou uma rola como oferta pelo pecado. Mas a lei prescrevia que, se os pais fossem demasiado pobres para levar um cordeiro, seria aceito um par de rolas ou dois pombinhos, um para holocausto, e outro como oferta pelo pecado.

As ofertas apresentadas ao Senhor deviam ser sem mancha. Representavam a Cristo, de onde se conclui evidentemente que Jesus era isento de deformidade física. Era o “cordeiro imaculado e sem contaminação”. 1 Pedro 1:19. Sua estrutura física não era maculada por qualquer defeito; o corpo era robusto e sadio. E, durante toda a vida, viveu em conformidade com as leis da natureza. Física assim como espiritualmente, Jesus foi um exemplo do que Deus designava que fosse toda a humanidade, mediante a obediência a Suas leis.

A dedicação do primogênito teve sua origem nos primitivos tempos. Deus prometera dar o Primogênito do Céu para salvar os pecadores. Este dom devia ser reconhecido em todas as famílias pela consagração do primogênito. Devia ser consagrado ao sacerdócio, como representante de Cristo entre os homens.

Na libertação de Israel do Egito, a dedicação do primogênito foi novamente ordenada. Quando os filhos de Israel estavam em servidão aos egípcios, o Senhor instruiu Moisés a ir ter com Faraó, rei do Egito, dizendo: “Assim diz o Senhor: Israel é Meu Filho, Meu primogênito. E Eu te tenho dito: Deixa ir o Meu filho, para que Me sirva; mas tu recusaste deixá-lo ir; eis que Eu matarei a teu filho, o teu primogênito”. Êxodo 4:22, 23.

Moisés entregou sua mensagem; mas a resposta do orgulhoso rei, foi: “Quem é o Senhor, para que eu obedeça à Sua voz, e deixe ir Israel? Não conheço o Senhor, e não deixarei ir Israel”. Êxodo 5:2. O Senhor operou em favor de Seu povo por meio de sinais e maravilhas, enviando terríveis juízos sobre Faraó. Por fim, o anjo destruidor foi incumbido de matar o primogênito do homem e dos animais entre os egípcios. A fim de que os israelitas fossem poupados, receberam instruções para pôr nas ombreiras da porta de sua casa o sangue de um cordeiro imolado. Cada casa devia ser marcada, para que, quando o anjo viesse, em sua missão de morte, passasse por sobre a dos israelitas.

Depois de enviar este juízo sobre o Egito, o Senhor disse a Moisés: “Santifica-Me todo o primogênito […] de homens e de animais; porque Meu é”. Êxodo 13:2. “Desde o dia em que feri a todo o primogênito na terra do Egito, santifiquei para Mim todo o primogênito em Israel, desde o homem até ao animal; Meus serão; Eu sou o Senhor”. Números 3:13. Depois que o serviço do tabernáculo foi estabelecido, o Senhor escolheu a tribo de Levi em lugar do primogênito de todo o Israel, para ministrar no santuário. Entretanto, esses primogênitos deviam continuar a ser considerados como pertencendo ao Senhor, devendo ser reavidos por meio de resgate.

Assim a lei para apresentação do primogênito se tornava particularmente significativa. Ao mesmo tempo que era uma comemoração do maravilhoso libertamento dos filhos de Israel, prefigurava um livramento maior, a ser operado pelo unigênito Filho de Deus. Como o sangue espargido nos umbrais da porta havia salvo o primogênito de Israel, assim o sangue de Cristo tem poder de salvar o mundo.

Que significação, logo, se acha ligada à apresentação de Cristo! Mas o sacerdote não enxergou através do véu; não leu o mistério além. A apresentação de crianças era cena comum. Diariamente o sacerdote recebia o dinheiro da redenção, ao serem as criancinhas apresentadas ao Senhor. Cotidianamente seguia a rotina de sua obra, prestando pouca atenção aos pais ou às crianças, a não ser que notasse qualquer indício de fortuna ou elevada posição dos primeiros. José e Maria eram pobres; e, ao trazerem seu filho, o sacerdote viu unicamente um homem e uma mulher trajados à moda galiléia, e no mais humilde vestuário. Nada havia em sua aparência que atraísse a atenção, e a oferta que apresentaram era a das classes mais pobres.

O sacerdote fez a cerimônia de seu serviço oficial. Tomou a criança nos braços, e ergueu-a perante o altar. Depois de a devolver à mãe, inscreveu o nome “Jesus” na lista dos primogênitos. Mal pensava ele, enquanto a criança lhe repousava nos braços, que era a Majestade do Céu, o Rei da Glória. Não pensou o sacerdote que essa criança era Aquele de quem Moisés escrevera: “O Senhor vosso Deus vos suscitará um Profeta dentre vossos irmãos, semelhante a mim; a Este ouvireis em tudo o que vos disser”. Atos dos Apóstolos 3:22. Não pensou que essa criança era Aquele cuja glória Moisés rogara ver. Mas Alguém maior do que Moisés Se achava nos braços do sacerdote; e, ao inscrever o nome do menino, inscrevia o dAquele que era o fundamento de toda a dispensação judaica. Aquele nome devia ser sua sentença de morte; pois o sistema de sacrifícios e ofertas estava envelhecendo; o tipo havia quase atingido o antítipo, a sombra ao corpo.

O Shekinah [presença visível de Deus] se afastara do santuário, mas no Menino de Belém encontrava-se, velada, a glória ante a qual se curvam os anjos. Essa inconsciente criancinha era a Semente prometida, a quem apontava o primeiro altar, construído à porta do Éden. Este era Siló, o doador de paz. Fora Ele que Se declarara a Moisés como o EU SOU. Fora Ele quem, na coluna de fumo e fogo, servira de guia a Israel. Este era Aquele sobre quem os videntes haviam predito. Era o Desejado de todas as nações, a Raiz e a Geração de Davi, a Resplandecente Estrela da Manhã. O nome dAquele impotente Menino, inscrito nos registros de Israel, declarando-O nosso irmão, era a esperança da caída humanidade. A Criança por quem fora pago o resgate era Aquele que devia pagar o resgate pelos pecados do mundo. Era Ele o verdadeiro “sumo Sacerdote sobre a casa de Deus” (Hebreus 10:21), a cabeça de “um sacerdócio perpétuo”, (Hebreus 7:24) o intercessor “à destra da Majestade nas alturas”. Hebreus 1:3.

As coisas espirituais se discernem espiritualmente. No templo, o Filho de Deus foi consagrado à obra que viera fazer. O sacerdote olhou-O como o teria feito a qualquer outra criança. Mas, se bem que não visse nem sentisse nada de extraordinário, o ato de Deus em dar Seu Filho ao mundo não ficou despercebido. Essa ocasião não passou sem que Cristo fosse de algum modo reconhecido. “Havia em Jerusalém um homem cujo nome era Simeão; e este homem era justo e temente a Deus, esperando a Consolação d’Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele. E fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que ele não morreria antes de ter visto o Cristo do Senhor”. Lucas 2:25, 26.

Ao entrar Simeão no templo, vê uma família apresentando o primogênito ante o sacerdote. Sua aparência revela pobreza; mas Simeão compreende as advertências do Espírito, e é profundamente impressionado quanto a ser o menino que está sendo apresentado ao Senhor, a Consolação de Israel, Aquele que anelava ver. Ao surpreendido sacerdote, Simeão parece um homem enlevado. A criança fora devolvida a Maria, e ele a toma nos braços e a apresenta a Deus, enquanto sua alma é possuída de uma alegria que nunca dantes experimentara. Ao levantar o Salvador para o céu, diz: “Agora, Senhor, despedes em paz o Teu servo, segundo a Tua palavra; pois já os meus olhos viram a Tua salvação, a qual Tu preparaste perante a face de todos os povos; Luz para alumiar as nações, e para glória de Teu povo Israel”. Lucas 2:29-32.

O espírito de profecia estava sobre este homem de Deus, e enquanto José e Maria ali permaneciam, admirando-se de suas palavras, ele os abençoou, e disse a Maria: “Eis que Este é posto para queda e elevação de muitos em Israel, e para sinal que é contraditado; (e uma espada traspassará também a tua própria alma); para que se manifestem os pensamentos de muitos corações”. Lucas 2:35, 36.

Também Ana, uma profetisa, entrou e confirmou o testemunho de Simeão a respeito de Cristo. Ao falar Simeão, seu rosto iluminou-se com a glória de Deus, e ela derramou suas sinceras ações de graças por lhe haver sido permitido contemplar o Cristo do Senhor.

Esses humildes adoradores não haviam estudado em vão as profecias. Mas os que ocupavam posições de príncipes e sacerdotes em Israel, conquanto tivessem igualmente diante de si as preciosas declarações dos profetas, não estavam andando no caminho do Senhor, e seus olhos não se achavam abertos para contemplar a Luz da vida.

Assim é ainda. Acontecimentos nos quais a atenção de todo o Céu se acha concentrada, não são discernidos, sua ocorrência passa despercebida pelos guias religiosos e os adoradores na casa de Deus. Os homens reconhecem Cristo na História, ao passo que se desviam do Cristo vivo. Cristo em Sua Palavra, convidando ao sacrifício, no pobre e sofredor que implora auxílio, na causa justa que envolve pobreza e fadiga e censuras, nestas coisas Ele não é hoje mais prontamente recebido do que o foi mil e novecentos anos atrás.

Maria ponderou a vasta e profunda profecia de Simeão. Ao olhar para a criança que tinha nos braços, e relembrar as palavras dos pastores de Belém, enchia-se de grata alegria e iluminada esperança. As palavras de Simeão trouxeram-lhe à mente as proféticas declarações de Isaías: “Brotará um Rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um Renovo frutificará. E repousará sobre Ele o Espírito do Senhor, o espírito de sabedoria e de inteligência, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do Senhor. […] E a justiça será o cinto dos Seus lombos”. Isaías 11:1-5. “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz. […] Porque um Menino nos nasceu, um Filho se nos deu; e o principado está sobre os Seus ombros; e o Seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus forte, Pai da eternidade, Príncipe da Paz”. Isaías 9:2-6.

No entanto, Maria não compreendia a missão de Cristo. Simeão profetizara dEle como uma luz para os gentios, bem como uma glória para Israel. Assim o anjo anunciara Seu nascimento como novas de grande alegria para todos os povos. Deus estava procurando corrigir a estreita concepção judaica da obra do Messias. Desejava que os homens O olhassem, não somente como o libertador de Israel, mas como o Redentor do mundo. Muitos anos, porém, deviam passar antes de a própria mãe de Jesus poder compreender Sua missão.

Maria esperava o reino do Messias no trono de Davi, mas não via o batismo de sofrimento pelo qual esse trono devia ser conquistado. Por meio de Simeão revelava-se que o Messias não teria no mundo um caminho livre de obstáculos. Nas palavras dirigidas a Maria: “Uma espada traspassará também a tua própria alma”, Deus, em Sua compassiva misericórdia, dá à mãe de Jesus uma indicação da angústia que já por amor dEle começara a suportar.

“Eis que Este é posto para queda e elevação de muitos em Israel, e para sinal que é contraditado”, dissera Simeão. Teriam de cair os que se quisessem erguer novamente. Precisamos cair sobre a Rocha e despedaçar-nos, antes de poder ser elevados em Cristo. O eu tem de ser destronado, abatido o orgulho, se queremos conhecer a glória do reino espiritual. Os judeus não queriam aceitar a honra que se obtém por meio da humilhação. Não receberam, portanto, o Redentor. Ele foi um sinal contra o qual se falaria.

“Para que se manifestem os pensamentos de muitos corações”. Lucas 2:35. A luz da vida do Salvador, o coração de todos, desde o Criador ao príncipe das trevas, é manifestado. Satanás tem representado a Deus como egoísta e opressor, como pretendendo tudo e não dando nada, como reclamando o serviço de Suas criaturas para Sua própria glória, e não fazendo nenhum sacrifício em favor delas. Mas o dom de Cristo revela o coração do Pai. Ele testifica que os pensamentos de Deus a nosso respeito são “pensamentos de paz, e não de mal”. Jeremias 29:11. Declara que, ao passo que o ódio de Deus para com o pecado é forte como a morte, Seu amor para com o pecador é ainda mais forte do que a morte. Havendo empreendido nossa redenção, não poupará coisa alguma, por cara que Lhe seja, se necessário for à finalização de Sua obra. Nenhuma verdade essencial à nossa salvação é retida, nenhum milagre de misericórdia negligenciado, nenhum instrumento divino deixado de ser posto em ação. Os favores amontoam-se aos favores, as dádivas acrescentam-se às dádivas. Todo o tesouro do Céu se acha franqueado àqueles que Ele busca salvar. Havendo coletado as riquezas do Universo, e aberto os recursos do infinito poder, entrega tudo nas mãos de Cristo, e diz: Tudo isso é para o homem. Serve-Te de tudo isso para lhe provar que não há amor maior que o Meu na Terra e no Céu. Sua maior felicidade se achará em Me amar ele a Mim.

Na cruz do Calvário, o amor e o egoísmo encontraram-se face a face. Ali teve lugar sua suprema manifestação. Cristo vivera unicamente para confortar e beneficiar, e, ao levá-Lo à morte, Satanás manifestou a malignidade de seu ódio contra Deus. Tornou evidente que o real desígnio de sua rebelião, era destronar o Senhor, e destruir Aquele por meio de quem o Seu amor se manifestava.

Pela vida e morte de Cristo, também os pensamentos dos homens são trazidos à luz. Da manjedoura à cruz, a vida do Salvador foi um convite à entrega, e à participação no sofrimento. Revelou o desígnio dos homens. Jesus veio com a verdade do Céu, e todos quantos ouviam a voz do Espírito Santo foram atraídos a Ele. Os adoradores do próprio eu pertenciam ao reino de Satanás. Em sua atitude em relação a Cristo, todos manifestariam de que lado se achavam. E assim todos passam sobre si mesmos o julgamento.

No dia do juízo final, toda alma perdida compreenderá a natureza de sua rejeição da verdade. A cruz será apresentada, e sua real significação será vista por todo espírito que foi cegado pela transgressão. Ante a visão do Calvário com sua misteriosa Vítima, achar-se-ão condenados os pecadores. Toda falsa desculpa será banida. A apostasia humana aparecerá em seu odioso caráter. Os homens verão o que foi sua escolha. Toda questão de verdade e de erro, na longa controvérsia, terá então sido esclarecida. No juízo do Universo, Deus ficará isento de culpa pela existência ou continuação do mal. Será demonstrado que os decretos divinos não são cúmplices do pecado. Não havia defeito no governo de Deus, nenhum motivo de desafeto. Quando os pensamentos de todos os corações forem revelados, tanto os leais como os rebeldes se unirão em declarar: “Justos e verdadeiros são os Teus caminhos, ó Rei dos santos. Quem Te não temerá, ó Senhor, e não magnificará o Teu nome? […] Porque os Teus juízos são manifestos”. Apocalipse 15:3, 4.

 

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