O DESEJADO DE TODAS AS NAÇÕES, cap. 63-65

Capítulo 63 — “Eis que o teu rei virá”

Este capítulo é baseado em Mateus 21:1-11; Marcos 11:1-10; Lucas 19:29-44; João 12:12-19.

Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu Rei virá a ti, justo e Salvador, pobre, e montado sobre um jumento, sobre um asninho, filho de jumenta”. Zacarias 9:9.

Quinhentos anos antes do nascimento de Cristo, o profeta Zacarias assim predisse a vinda do Rei de Israel. Essa profecia devia então cumprir-se. Aquele que por tanto tempo recusara honras reais, vem agora a Jerusalém como o prometido herdeiro do trono de Davi. Foi no primeiro dia da semana que Jesus fez Sua entrada triunfal em Jerusalém. Multidões que haviam afluído a vê-Lo em Betânia, acompanharam-nO, ansiosos de Lhe testemunhar a recepção. Muita gente se achava a caminho de Jerusalém para celebrar a páscoa, e uniu-se à multidão que acompanhava Jesus. Toda a natureza parecia regozijar-se. As árvores estavam verdejantes, e as flores espargiam pelo ar um delicado aroma. O povo achava-se animado de nova vida e alegria. Surgia mais uma vez a esperança do novo reino. Determinado entrar a cavalo em Jerusalém, Jesus mandara dois dos discípulos buscarem para Ele uma jumenta e seu asninho. Por ocasião de Seu nascimento, o Salvador dependeu da hospitalidade de estranhos. A manjedoura em que esteve, foi um lugar de descanso emprestado. Agora, se bem que Seu seja todo o gado sobre milhares de colinas, depende da bondade de um estranho quanto a um animal em que entrar em Jerusalém como Rei. Novamente, porém, se manifesta Sua divindade, mesmo nas mínimas instruções dadas aos discípulos para o desempenho desse mandado. Como predissera, foi prontamente satisfeito o pedido: “O Senhor precisa deles”. Mateus 21:3. Jesus preferiu servir-Se do asninho em que nenhum homem jamais montara. Com alegre entusiasmo, estenderam os discípulos suas vestes sobre o animal e sobre ele sentaram o Mestre. Até então Jesus sempre viajara a pé, e a princípio os discípulos se admiraram de que agora preferisse montar. Mas a esperança lhes raiou no coração ao jubiloso pensamento de que Ele estava para entrar na capital, proclamar-Se Rei, e firmar Seu poder real. Ao irem cumprir as ordens recebidas, comunicaram sua alegre esperança aos amigos de Jesus, e a agitação espalhou-se por toda parte, fazendo com que subisse de ponto a expectação do povo. Cristo estava seguindo o costume judaico nas entradas reais. O animal que montava era o mesmo cavalgado pelos reis de Israel, e a profecia predissera que assim viria o Messias a Seu reino. Logo que Ele Se sentou no jumentinho, um grande grito de triunfo atroou nos ares. A multidão aclamou-O como o Messias, seu Rei. Jesus aceitou agora a homenagem que nunca antes permitira, e os discípulos consideraram isso como prova de que suas alegres esperanças se realizariam, vendo-O estabelecido no trono. O povo ficou convencido de aproximar-se a hora de sua emancipação. Em pensamento viram os exércitos romanos expulsos de Jerusalém, e Israel mais uma vez nação independente. Todos estavam contentes e despertos; disputavam entre si o render-Lhe honras. Não podiam exibir pompas e esplendores, mas prestaram-Lhe o culto de corações felizes. Não lhes era possível presenteá-Lo com dádivas custosas, mas estendiam as vestes exteriores à guisa de tapete em Seu caminho, e também espalharam ramos de oliveira e palmas por onde devia passar. Não podiam abrir o cortejo triunfal com bandeiras reais, mas cortavam ramos de palmeira, os emblemas de vitória da natureza, e os agitavam no ar com altas aclamações e hosanas. À medida que avançavam, aumentava sempre o povo com a reunião dos que tinham ouvido da vinda de Jesus e se apressavam a tomar parte no acompanhamento. Os espectadores continuamente se misturavam à turba, perguntando: Quem é Este? Que quer dizer toda essa agitação? Todos tinham ouvido falar de Jesus, e esperavam que fosse a Jerusalém; mas sabiam que até então Ele Se esquivara a qualquer esforço para O colocar no trono e ficavam muito surpreendidos de saber que este era Ele. Cogitavam que teria operado essa grande mudança nAquele que dissera que Seu reino não era deste mundo. Suas perguntas são abafadas por um grito de triunfo. Este é aqui e ali repetido pela turba despertada, acompanhado pelos mais distantes, e ecoado pelos montes e vales. E depois acresce a comitiva pelas massas vindas de Jerusalém. Das multidões reunidas para assistir à páscoa, milhares saem ao encontro de Jesus. Saúdam-nO com o agitar das palmas e cânticos sagrados. Os sacerdotes fazem soar, no templo, a trombeta para o serviço da tarde, mas poucos atendem, e os príncipes, alarmados, dizem entre si: “Eis que toda a gente vai após Ele”. João 12:19. Nunca antes, em Sua vida terrestre, permitira Jesus essa demonstração. Previa claramente o resultado. Levá-Lo-ia à cruz. Era, porém, Seu desígnio apresentar-Se assim publicamente como Redentor. Desejava chamar a atenção para o sacrifício que Lhe devia coroar a missão para com o mundo caído. Enquanto o povo estava reunido em Jerusalém para a celebração da páscoa, Ele, o Cordeiro de Deus, representado pelos sacrifícios simbólicos, voluntariamente Se pôs de parte como oblação. Seria necessário que Sua igreja, em todos os sucessivos séculos, fizesse de Sua morte pelos pecados do mundo assunto de profunda reflexão e estudo. Todos os fatos com ela relacionados deviam verificar-se de maneira a ficarem acima de qualquer dúvida. Era preciso, pois, que os olhos de todo o povo fossem então dirigidos para Ele; os acontecimentos que precederam Seu grande sacrifício deviam ser de molde a chamar a atenção para o próprio sacrifício. Depois de uma demonstração como a que acompanhou Sua entrada em Jerusalém, todos os olhos Lhe seguiram a rápida marcha para a cena final. Os acontecimentos relacionados com essa entrada triunfal constituiriam assunto de todas as bocas, e tornariam Jesus objeto das cogitações de todos os espíritos. Depois de Sua crucifixão, muitos recordariam estes fatos relacionados com Seu julgamento e morte. Seriam levados a pesquisar os escritos dos profetas e convencer-se-iam de que Jesus era o Messias; e multiplicar-se-iam em todas as terras os conversos à fé. Nessa triunfante cena de Sua vida terrestre, o Salvador poderia haver aparecido escoltado por anjos celestiais e anunciado pela trombeta de Deus; essa demonstração, no entanto, teria sido contrária ao desígnio de Sua missão, contrária à lei que Lhe governara a vida. Permaneceu fiel à sorte humilde que aceitara. Devia levar o fardo da humanidade até haver dado a vida pela vida do mundo. Esse dia, que se afigurava aos discípulos o mais glorioso de sua vida, ter-se-ia toldado de sombrias nuvens, soubessem eles que a cena de regozijo não era senão um prelúdio aos sofrimentos e à morte do Mestre. Embora Ele lhes houvesse repetidas vezes falado do sacrifício que certamente O aguardava, no alegre triunfo presente esqueceram Suas dolorosas palavras, e anteciparam-Lhe o próspero reino no trono de Davi. Novos acréscimos se iam fazendo continuamente à procissão, e com poucas exceções, todos quantos a ela se juntavam eram possuídos pelo entusiasmo do momento, avolumando os hosanas que ecoavam de monte em monte, de vale em vale. Subiam continuamente as aclamações: “Hosana ao Filho de Davi; bendito O que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas!” Marcos 11:9, 10. Nunca antes vira o mundo um cortejo triunfal como esse. Não se assemelhava ao dos famosos conquistadores da Terra. Não fazia parte daquela cena nenhuma comitiva de lamentosos cativos, como troféus da bravura real. Achavam-se em torno do Salvador os gloriosos troféus de Seus serviços de amor pelo homem caído. Estavam os cativos a quem resgatara do poder de Satanás, louvando a Deus por sua libertação. Os cegos a quem restituíra a vista, abriam a marcha. Os mudos cuja língua soltara, entoavam os mais altos hosanas. Saltavam de alegria os coxos por Ele curados, sendo os mais ativos em quebrar os ramos de palmeira e agitá-los diante do Salvador. As viúvas e os órfãos exaltavam o nome de Jesus pelos atos de misericórdia que lhes dispensara. Os leprosos a quem purificara, estendiam na estrada as vestes incontaminadas, ao mesmo tempo que O saudavam como Rei da glória. Aqueles a quem Sua voz despertara do sono da morte, tomavam parte no cortejo. Lázaro, cujo corpo provara a corrupção no sepulcro, mas que então se regozijava na força da varonilidade gloriosa, conduzia o animal que Jesus montava. Muitos fariseus testemunhavam a cena e, ardendo de inveja e malignidade, buscavam desviar a corrente dos sentimentos populares. Com toda a sua autoridade tentaram impor silêncio ao povo; mas seus apelos e ameaças não faziam senão aumentar o entusiasmo. Temeram que essa multidão, na força de seu número, fizesse Jesus rei. Como último recurso, avançaram por entre a turba até onde estava o Salvador, e abordaram-nO com palavras de censura e ameaça: “Mestre, repreende os Teus discípulos”. Lucas 19:39. Declararam não serem lícitas tão ruidosas manifestações, nem permitidas pelas autoridades. Foram, porém, reduzidos ao silêncio pela réplica de Jesus: “Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão”. Lucas 19:40. Aquela cena de triunfo era designada pelo próprio Deus. Fora predita pelo profeta, e o homem era impotente para impedir os Seus desígnios. Houvesse o homem deixado de executar Seu plano, e Ele teria comunicado voz às inanimadas pedras, que saudariam Seu Filho com aclamações de louvor. Ao retirarem-se os mudos fariseus, foram proferidas por centenas de vozes as palavras de Zacarias: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu Rei virá a ti, justo e salvador, pobre, e montado sobre um jumento, sobre um asninho, filho de jumenta”. Zacarias 9:9. Quando o cortejo chegou ao cimo da colina e estava para descer para a cidade, Jesus deteve-Se, e toda a multidão com Ele. Perante eles se descortinava Jerusalém em toda a sua glória, nesse momento banhada à luz do Sol poente. O templo atraiu todos os olhares. Em majestosa suntuosidade erguia-se ele acima de todos os outros edifícios, parecendo apontar para o Céu, como a dirigir o povo ao único e verdadeiro Deus. O templo fora, durante muito tempo, a glória e o orgulho da nação judaica. Também os romanos se orgulhavam de sua magnificência. Um rei designado pelos romanos se unira aos judeus para o restaurar e embelezar, e o imperador de Roma o enriquecera com suas dádivas. Sua firme estrutura, riqueza e magnificência o haviam tornado uma das maravilhas do mundo. Enquanto o Sol no Ocidente tingia e dourava o Céu, o resplendor de sua glória iluminava o puro e alvo mármore das paredes do templo, pondo-lhe cintilações nas áureas colunas. Do alto do monte onde Jesus parou com Seus seguidores, apresentava ele a aparência de maciça estrutura de neve, marchetado de capitéis de ouro. À entrada do templo achava-se uma videira de ouro e prata, com verdes folhagens e maciços cachos de uvas, executados pelos mais hábeis artistas. Esse desenho representava Israel como uma próspera vinha. O ouro, a prata e verde vivo eram combinados com raro gosto e consumada maestria; enlaçando graciosamente os alvos e luzentes pilares, agarrando-se com as brilhantes gavinhas a seus dourados ornamentos, refletia o esplendor do Sol poente, resplandecendo como se o Céu lhe houvera emprestado a sua glória. Jesus contempla a cena, e a multidão silencia suas aclamações, encantada com a súbita visão de beleza. Todos os olhos se volvem para o Salvador, esperando ver-Lhe no semblante a admiração por eles próprios experimentada. Ao contrário, no entanto, percebem-Lhe uma nuvem de tristeza. Surpreendem-se, decepcionam-se ao ver-Lhe os olhos marejados de lágrimas e o corpo oscilar como a árvore agitada pela tempestade, enquanto uma angustiosa queixa Lhe brota dos trêmulos lábios, como irrompendo das profundezas de um coração partido. Que cena aquela que se oferecia à contemplação dos anjos! Seu bem-amado Comandante em lágrimas de angústia! Que visão para a alegre turba que, com gritos de triunfo e agitar de palmas O escoltava à gloriosa cidade, onde — esperavam com ardor — iria Ele em breve reinar! Jesus chorara ao pé do sepulcro de Lázaro, mas fora numa divina mágoa de simpatia para com a humana dor. Esta súbita tristeza, porém, era qual nota de lamento em meio de um grande coro triunfal. Por entre uma cena de regozijo, em que todos Lhe tributavam homenagens, o Rei de Israel Se debulhava em lágrimas; não as silenciosas lágrimas da alegria, mas pranto e gemidos de inexprimível angústia. A turba sentiu-se repentinamente tomada de tristeza. Emudeceram-lhes as aclamações. Muitos choraram, possuídos de simpatia por um pesar que não podiam compreender. As lágrimas de Jesus não eram a antecipação de Seus próprios sofrimentos. Mesmo diante dEle achava-se o Getsêmani, onde em breve O envolveria o horror de uma grande treva. Estava à vista também a porta das ovelhas, pela qual, durante séculos, haviam sido conduzidos os animais destinados às ofertas sacrificais. Essa porta presto se abriria para Ele, o grande Cordeiro de Deus, a cujo sacrifício pelos pecados do mundo apontavam todas essas ofertas. Perto estava o Calvário, cenário de Sua próxima agonia. No entanto, não foi por causa desses pontos a lembrarem-Lhe a cruel morte que o Redentor chorou e gemeu em angústia de espírito. Não era uma dor egoísta, a Sua. O pensamento de Sua própria agonia não intimidava aquela nobre Alma pronta para o sacrifício. Foi a vista de Jerusalém que pungiu o coração de Jesus — Jerusalém, que rejeitara o Filho de Deus e Lhe desdenhara o amor, que recusara ser convencida por Seus poderosos milagres e estava prestes a tirar-Lhe a vida. Viu o que ela era, em sua culpa de rejeitar o Redentor, e o que poderia ter sido caso O houvesse aceitado a Ele, o único a poder-lhe curar a ferida. Viera para salvá-la; como poderia a ela renunciar? Israel fora um povo favorecido; Deus fizera de seu templo a Sua habitação; era “formoso de sítio, e alegria de toda a Terra”. Salmos 48:2. Aí se achava o registro de mais de mil anos do protetor cuidado e terno amor de Cristo, como de um pai tratando com um filho único. Naquele templo emitiram os profetas suas solenes advertências. Ali foram agitados os ardentes incensários, enquanto o incenso, de mistura com as orações dos adoradores, ascendera para Deus. Ali fluíra o sangue dos animais, tipo do sangue de Cristo. Ali manifestara Jeová sua glória sobre o propiciatório. Ali oficiaram os sacerdotes, e a pompa do símbolo e da cerimônia havia continuado por séculos. Tudo isso, porém, devia ter um fim. Jesus ergueu a mão — aquela mão que tantas vezes beneficiara os enfermos e sofredores — e movendo-a na direção da condenada cidade, em entrecortadas frases de dor, exclamou: “Ah! se tu soubesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence!” Lucas 19:42. Aí Se deteve o Salvador e deixou por dizer qual seria a condição de Jerusalém, houvesse ela aceito o auxílio que Deus lhe desejava dar — o dom de Seu bem-amado Filho. Se Jerusalém houvesse sabido o que era seu privilégio saber, e dado ouvidos à luz que o Céu lhe enviara, teria permanecido de pé no orgulho de sua prosperidade, rainha de reinos, livre na força do poder dado por seu Deus. Não teria havido soldados armados às suas portas, nem bandeiras romanas tremulando de seus muros. O glorioso destino que felicitaria Jerusalém, houvesse ela aceito o Redentor, surgiu aos olhos do Filho de Deus. Viu que, por meio dEle, seria ela curada de sua grave enfermidade, libertada da escravidão e estabelecida como a poderosa metrópole da Terra. De suas muralhas partiria a pomba da paz, em direção de todas as nações. Seria ela o diadema de glória do mundo. Mas a brilhante visão do que poderia haver sido Jerusalém se desvanece aos olhos do Salvador. Compreende o que ela é então, sob o jugo romano, sob o desagrado de Deus, condenada ao Seu juízo retribuidor. Reata o fio de Sua lamentação: “Mas agora isto está encoberto aos teus olhos. Porque dias virão sobre ti, em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todas as bandas, e te derribarão, a ti e aos teus filhos que dentro de ti estiverem; e não deixarão em ti pedra sobre pedra, pois que não conheceste o tempo da tua visitação”. Lucas 19:42-44. Cristo veio para salvar Jerusalém com seus filhos; mas o orgulho farisaico, a hipocrisia, a inveja e a maldade O impediram de realizar Seu desígnio. Jesus sabia a terrível retribuição com que seria visitada a condenada cidade. Viu Jerusalém cercada de exércitos, os sitiados habitantes levados à fome e à morte, mães alimentando-se do corpo morto dos próprios filhos, e tanto pais como filhos arrebatando um ao outro o último pedaço de pão, destruída a afeição natural pelas corrosivas angústias da fome. Viu que a obstinação dos judeus, segundo se evidenciava no rejeitar da salvação por Ele oferecida, os levaria também a recusar submissão aos exércitos invasores. Contemplou o Calvário, no qual havia de ser erguido, tão densamente coalhado de cruzes como de árvores uma floresta. Viu os infelizes habitantes sofrendo em instrumentos de tortura e mediante crucifixão, destruídos os belos palácios, o templo em ruínas, e de seus maciços muros nem uma pedra deixada sobre outra, enquanto a cidade era arada como um campo. Bem podia o Salvador chorar em face de tão terrível cena! Jerusalém fora a filha de Seus cuidados, e como um terno pai pranteia um filho extraviado, assim chorava Jesus sobre a bem-amada cidade. Como posso renunciar a ti? Como te posso ver votada à destruição? Deverei deixar-te encher o cálice de tua iniqüidade? Uma alma é de tanto valor que, em comparação com ela, os mundos desmerecem até à insignificância; mas ali estava toda uma nação para se perder! Quando o Sol, em declínio rápido se ocultasse no céu ocidental, terminaria o dia de graça de Jerusalém. Quando a comitiva se detinha no cimo do Olivete, não era ainda demasiado tarde para Jerusalém se arrepender. O anjo da misericórdia dobrava então as asas para descer do áureo trono, a fim de dar lugar à justiça e ao juízo prestes a vir. Mas o grande coração amorável de Cristo intercedia ainda por Jerusalém, que Lhe escarnecera as misericórdias, desprezando as advertências, e estava a ponto de mergulhar as mãos em Seu sangue. Se tão-somente Jerusalém se arrependesse, não seria ainda demasiado tarde. Enquanto os últimos raios do Sol poente pairavam sobre o templo, as torres e cúpulas, não a levaria algum anjo bom ao amor do Salvador, desviando-lhe a condenação? Formosa e ímpia cidade, que apedrejara os profetas, que rejeitara o Filho de Deus, que por sua impenitência se prendia em cadeias de servidão — seu dia de graça estava quase passado! Todavia, novamente o Espírito de Deus fala a Jerusalém. Antes do fim do dia é dado outro testemunho em favor de Cristo. Ergue-se a voz desse testemunho, em correspondência com o chamado de um passado profético. Se Jerusalém atender ao chamado, se receber o Salvador que lhe está entrando pelas portas, poderá ainda ser salva. Aos ouvidos dos guias, em Jerusalém, chegam as notícias de que Jesus Se aproxima da cidade, com grande ajuntamento de povo. Mas eles não têm bom acolhimento para oferecer ao Filho de Deus. Saem-Lhe ao encontro com temor, esperando dispersar a turba. Quando o cortejo está para descer o Monte das Oliveiras, é interceptado pelos principais. Indagam a causa do tumultuoso regozijo. Ao perguntarem: “Quem é Este?” os discípulos possuídos de inspiração, respondem. Em eloqüentes acentos, repetem as profecias concernentes a Cristo: Adão vos dirá: É a semente da mulher que há de esmagar a cabeça da serpente. Perguntai a Abraão, ele vos afirmará: “É Melquisedeque, Rei de Salém” (Gênesis 14:18), Rei de Paz. Dir-vos-á Jacó: É Siló, da tribo de Judá. Isaías vos declarará: “Emanuel” (Isaías 7:14), “Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”. Isaías 9:6. Jeremias vos há de afirmar: O Renovo de Davi, “o Senhor, Justiça Nossa”. Jeremias 23:6. Afirmar-vos-á Daniel: É o Messias. Oséias vos dirá: É “o Senhor, o Deus dos Exércitos; o Senhor é o Seu memorial”. Oséias 12:5. Exclamará João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. João 1:29. O grande Jeová proclamou de Seu trono: “Este é o Meu Filho amado”. Mateus 3:17. Nós, Seus discípulos, declaramos: Este é Jesus, o Messias, o Príncipe da vida, o Redentor do mundo. E o príncipe das potestades da trevas O reconhece, dizendo: “Bem sei quem és: o Santo de Deus”. Marcos 1:24.

Capítulo 64 — Um povo condenado

Este capítulo é baseado em Marcos 11:11-14; Mateus 21:17-19.

A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém foi um imperfeito símbolo da Sua vinda nas nuvens do céu com poder e glória, por entre as aclamações dos anjos e o regozijo dos santos. Então, cumprir-se-ão as palavras de Cristo aos fariseus: “Desde agora Me não vereis mais, até que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor”. Mateus 23:39. Em visão profética, foi mostrado a Zacarias aquele dia de triunfo final; e ele viu também a condenação dos que, no primeiro advento, rejeitaram a Cristo: “E olharão para Mim, a quem traspassaram; e O prantearão como quem pranteia por um unigênito; e chorarão amargamente por Ele, como se chora amargamente pelo primogênito”. Zacarias 12:10. Esta cena anteviu Cristo quando contemplou a cidade e chorou sobre ela. Na ruína temporal de Jerusalém viu Ele a final destruição daquele povo que era culpado do sangue do Filho de Deus.

Os discípulos notavam o ódio dos judeus para com Cristo, mas não viam ainda até aonde ele os levaria. Não compreendiam ainda a verdadeira condição de Israel, nem entendiam a retribuição que estava impendente sobre Jerusalém. Isto lhes revelou Cristo mediante significativa lição prática. O último apelo a Jerusalém fora em vão. Os sacerdotes e principais tinham ouvido a voz profética do passado ecoando através da multidão, em resposta à pergunta: “Quem é Este?” mas não a aceitaram como sendo a voz da inspiração. Irados, confundidos, procuraram fazer silenciar o povo. Havia oficiais romanos entre a turba, e os inimigos de Jesus O denunciaram aos mesmos como chefe de uma rebelião. Apresentaram-nO como estando para Se apoderar do templo, e dominar como rei de Jerusalém. Mas a voz calma de Jesus fez por momentos silenciar a multidão clamorosa, enquanto declarava não ter vindo estabelecer um reino temporal; havia de subir em breve a Seu Pai, e Seus acusadores não mais O veriam, até que volvesse em glória. Então, demasiado tarde para sua salvação, O reconheceriam. Estas palavras, proferiu-as Jesus com tristeza e vigor singulares. Os funcionários romanos foram reduzidos ao silêncio. Ainda que estranhos à divina influência, comoveu-se-lhes o coração como nunca antes. No calmo e solene rosto de Jesus, leram amor, benevolência e serena dignidade. Foram possuídos de uma simpatia que não podiam compreender. Ao invés de prender a Jesus, sentiram-se mais inclinados a render-Lhe homenagem. Voltando-se para os sacerdotes e principais, acusaram-nos de criar o distúrbio. Esses chefes, envergonhados e derrotados, viraram-se para o povo com suas queixas e questionaram, zangados, uns com os outros. Entretanto, passou Jesus despercebidamente para o templo. Tudo ali estava tranqüilo, pois a cena sobre o Olivete para lá atraíra o povo. Por breve espaço demorou-Se Jesus no templo, olhando-o dolorosamente. Depois, retirou-Se com os discípulos e voltou para Betânia. Quando o povo O procurou para colocá-Lo no trono, não O pôde achar. Toda a noite passou Jesus em oração, e pela manhã, tornou a ir ao templo. No caminho encontrou um figueiral. Tinha fome, “e vendo de longe uma figueira que tinha folhas, foi ver se nela acharia alguma coisa; e, chegando a ela, não achou senão folhas, porque não era tempo de figos”. Marcos 11:13. Não era estação de figos maduros, senão em certas localidades; e nas montanhas das cercanias de Jerusalém podia-se na verdade dizer: “Não era tempo de figos”. Marcos 11:13. No pomar a que Jesus chegou, porém, uma árvore parecia adiantada a todas as demais. Estava já coberta de folhas. A natureza da figueira é que, antes de se abrirem as folhas, apareça o fruto. Portanto, essa árvore cheia de folhagem era uma promessa de bem desenvolvidos frutos. Sua aparência, porém, era enganosa. Depois de procurar entre os ramos, dos mais baixos aos mais altos, Jesus “não achou senão folhas”. Era uma massa de pretensiosa folhagem, nada mais. Cristo proferiu contra ela uma maldição, para que secasse. “Nunca mais coma alguém fruto de ti”, disse Ele. Na manhã seguinte, quando Ele e os discípulos se achavam outra vez a caminho para a cidade, os ressequidos ramos e as folhas caídas atraíram-lhes a atenção. “Mestre”, disse Pedro, “eis que a figueira que Tu amaldiçoaste, se secou”. Marcos 11:21. O ato de Cristo em amaldiçoar a figueira, surpreendera os discípulos. Parecia-lhes diverso de Suas maneiras e obras. Muitas vezes O tinham ouvido dizer que viera, não para condenar o mundo, mas para que por meio dEle o mundo se pudesse salvar. Lembravam-se de Suas palavras: “O Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las”. Lucas 9:56. Suas maravilhosas obras foram realizadas para restaurar, nunca para destruir. Os discípulos O haviam conhecido unicamente como o Restaurador, o Médico. Esse ato era único. Qual seria seu desígnio? indagaram. Deus “tem prazer na benignidade”. Miquéias 7:18. “Vivo Eu, diz o Senhor Jeová, que não tomo prazer na morte do ímpio”. Ezequiel 33:11. Para Ele a obra de destruição e acusação é uma “estranha obra” (Isaías 28:21), Trad. Figueiredo. Mas é em misericórdia e amor que ergue o véu do futuro, e revela aos homens os resultados de um caminho de pecado. A maldição da figueira foi uma parábola viva. Aquela árvore estéril, ostentando sua pretensiosa folhagem ao próprio rosto de Cristo, era um símbolo da nação judaica. O Salvador desejava tornar claras aos Seus discípulos a causa e a certeza da condenação de Israel. Para esse fim como que investiu a árvore de qualidades morais, e tornou-a expositora da verdade divina. Os judeus distinguiam-se de todas as outras nações, professando fidelidade para com Deus. Haviam sido especialmente favorecidos por Ele, e pretendiam ser mais justos que todos os outros povos. Mas estavam corrompidos pelo amor do mundo e a avareza. Jactanciavam-se de seu conhecimento, mas eram ignorantes das reivindicações divinas, e cheios de hipocrisia. Como a árvore estéril, estendiam os pretensiosos ramos para o alto, luxuriantes na aparência, belos à vista, mas não dando “senão folhas”. A religião judaica, com o magnificente templo, os altares sagrados, os sacerdotes mitrados e cerimônias impressionantes, era na verdade bela na aparência exterior; faltavam-lhe, porém, humildade, amor e beneficência. Todas as árvores do figueiral se achavam destituídas de fruto; as que não ostentavam folhas, no entanto, não suscitavam esperanças, não causando assim decepção. Essas árvores representavam os gentios. Eram tão destituídos de piedade como os judeus; mas não tinham professado servir a Deus. Não mostravam vangloriosas pretensões de bondade. Eram cegos às obras e caminhos divinos. Para eles não chegara ainda o tempo dos figos. Esperavam um dia que lhes trouxesse luz e esperança. Os judeus, que haviam recebido maiores bênçãos de Deus, eram responsáveis por seus abusos dos mesmos dons. Os privilégios de que se jactanciavam, só lhes acrescentavam a culpa. Jesus Se aproximara da figueira com fome, em busca de alimento. Assim chegou Ele a Israel, ansioso de neles encontrar os frutos da justiça. Prodigalizara-lhes Seus dons, a fim de que dessem frutos para benefício do mundo. Toda oportunidade, todo privilégio lhes fora assegurado, e em troca buscara a simpatia e a cooperação deles em Sua obra de graça. Anelava achar neles espírito de sacrifício e compaixão, zelo de Deus e profunda ansiedade de alma pela salvação de seus semelhantes. Houvessem eles guardado a lei divina, e teriam realizado a mesma obra abnegada feita por Cristo. Mas o amor para com Deus e os homens foi eclipsado pelo orgulho e a presunção. Trouxeram ruína sobre si mesmos, por se recusarem a servir aos outros. Os tesouros da verdade que lhes foram confiados, não os deram eles ao mundo. Na figueira estéril poderiam ler tanto o seu pecado como o seu castigo. Seca à maldição do Salvador, apresentando-se queimada, ressequida desde as raízes, a figueira mostrava o que seria o povo de Israel quando dele fosse retirada a graça divina. Recusando-se a comunicar bênção, não mais a receberiam. “A tua perdição, ó Israel”, diz o Senhor, “toda vem de ti”. Oséias 13:9. A advertência é para todos os tempos. O ato de Cristo em amaldiçoar a árvore que Seu próprio poder criara, fica como aviso para todas as igrejas e todos os cristãos. Ninguém pode viver a lei divina sem servir aos outros. Mas há muitos que não vivem segundo a misericordiosa, abnegada vida de Cristo. Alguns que se julgam excelentes cristãos não compreendem o que significa o serviço para Deus. Seus planos e cogitações têm por fim agradar a si mesmos. Agem sempre com referência a si próprios. O tempo só é de valor para eles quando podem ajuntar para si mesmos. Em todos os negócios da vida, é esse o seu objetivo. Trabalham não para os outros, mas para si mesmos. Deus os criou para viverem num mundo onde deve ser executado serviço altruísta. Era Seu desígnio que ajudassem a seus semelhantes por todos os modos possíveis. Mas é tão grande o eu que não podem ver nenhuma outra coisa. Não se põem em contato com a humanidade. Os que assim vivem para si, são como a figueira, toda presunção, mas sem frutos. Observam as formas de culto, mas sem arrependimento nem fé. Em profissão, honram a lei divina, mas faltam na obediência. Dizem, mas não fazem. Na sentença proferida contra a figueira, demonstra Cristo quão aborrecível é a Seus olhos essa vã pretensão. Diz Ele que o pecador declarado é menos culpado do que o que professa servir a Deus, mas não produz fruto para Sua glória. A parábola da figueira, dita antes da visita de Cristo a Jerusalém, ligava-se diretamente à lição por Ele ensinada no amaldiçoar a árvore sem fruto. O jardineiro intercedeu pela árvore estéril da parábola: “Deixa-a este ano, até que eu a escave e esterque; e, se der fruto, ficará, e, se não, depois a mandarás cortar.” Maior cuidado seria concedido à árvore estéril. Teria todas as vantagens. Mas se permanecesse infrutífera, coisa alguma a salvaria da destruição. Na parábola não foi predito o resultado da obra do jardineiro. Dependia do povo a quem eram dirigidas as palavras de Cristo. Os judeus eram representados pela árvore estéril, e com eles ficava a decisão de seu destino eterno. Foram-lhes concedidas as vantagens que o Céu lhes podia dar, mas não aproveitaram as crescentes bênçãos. Pelo ato de Cristo em amaldiçoar a figueira estéril, mostrou-se o resultado. Determinaram eles sua própria destruição. Por mais de um milênio abusara a nação judaica da misericórdia de Deus e atraíra Seus juízos. Rejeitaram-Lhe as advertências e mataram-Lhe os profetas. Por esses pecados tornou-se responsável o povo do tempo de Cristo, seguindo o mesmo caminho. Na rejeição de suas presentes misericórdias e advertências, residia a culpa daquela geração. Com as cadeias que a nação estivera por séculos a forjar, o povo do tempo de Cristo prendera a si mesmo. Em todos os séculos se concede aos homens seu período de luz e privilégios, um tempo de prova, em que se podem reconciliar com Deus. Há, porém, um limite a essa graça. A misericórdia pode interceder por anos e ser negligenciada e rejeitada; vem, porém, o tempo em que essa misericórdia faz sua última súplica. O coração torna-se tão endurecido que cessa de atender ao Espírito Santo de Deus. Então a suave, atraente voz não mais suplica ao pecador, e cessam as reprovações e advertências. Chegara aquele dia para Jerusalém. Jesus chorou em agonia sobre a condenada cidade, mas não a podia livrar. Esgotaria todos os recursos. Rejeitando o Espírito de Deus, Israel rejeitara o único meio de auxílio. Nenhum outro poder havia pelo qual pudesse ser libertado. A nação judaica era um símbolo do povo de todos os séculos, que desdenha os rogos do Infinito Amor. As lágrimas de Cristo, ao chorar sobre Jerusalém, foram derramadas pelos pecados de todos os tempos. Nos juízos proferidos contra Israel, os que rejeitam as reprovações e advertências do Santo Espírito de Deus podem ler sua própria condenação. Há nesta geração muitos que estão trilhando o mesmo caminho dos incrédulos judeus. Testemunharam as manifestações do poder de Deus; o Espírito Santo lhes falou ao coração; apegam-se, porém, a sua incredulidade e resistência. Deus lhes envia advertências e repreensões, mas não querem confessar seus erros, e rejeitam-Lhe a mensagem e o mensageiro. Os próprios meios que Ele emprega para sua restauração, tornam-se para eles em pedra de tropeço. Os profetas de Deus eram aborrecidos pelo apóstata Israel, porque por intermédio deles se revelavam seus pecados ocultos. Acabe considerava Elias inimigo, porque o profeta era fiel em repreender as secretas iniqüidades do rei. Assim hoje o servo de Cristo, o reprovador do pecado, encontra desdém e repulsas. A verdade bíblica, a religião de Cristo, luta contra uma forte corrente de impureza moral. O preconceito é mesmo mais forte no coração dos homens agora do que nos dias de Jesus. Ele, Cristo, não realizou as expectações dos homens; sua vida foi uma repreensão aos pecados deles, e O rejeitaram. Assim hoje a verdade da Palavra de Deus não se harmoniza com as práticas dos homens, com sua inclinação natural, e milhares lhe rejeitam a luz. Os homens, instigados por Satanás, lançam dúvidas sobre a Palavra de Deus e procuram exercer seu independente juízo. Preferem as trevas à luz, mas fazem-no com perigo para a própria alma. Os que sofismavam às palavras de Cristo, encontravam cada vez mais motivo para sofismar, até que se desviaram da Verdade e da Vida. Assim é agora. Deus não Se propõe a remover toda objeção que o coração carnal possa trazer contra Sua verdade. Aos que recusam os preciosos raios da luz que haviam de iluminar as trevas, os mistérios da Palavra de Deus permanecerão para sempre mistérios. Deles é oculta a verdade. Caminham cegamente, e ignoram a ruína que se acha perante eles. Do alto do Olivete, Cristo contemplou o mundo em todos os séculos, e Suas palavras são aplicáveis a toda a alma que desdenha as súplicas da divina misericórdia. Desdenhador de Seu amor, Ele hoje Se dirige a ti. És tu, tu mesmo que deves conhecer as coisas que pertencem à tua paz. Cristo está vertendo amargas lágrimas por ti, que não tens lágrimas para verter por ti mesmo. Já se manifesta em ti aquela fatal dureza de coração que destruiu os fariseus. E toda prova da graça divina, todo raio de divina luz, ou está abrandando e subjugando a alma, ou confirmando-a em sua desesperada impenitência. Cristo previu que Jerusalém permaneceria endurecida e impenitente; entretanto, toda a culpa, todas as consequências da rejeitada misericórdia, jaziam-lhe à própria porta. Assim se dará com toda alma que segue a mesma orientação. O Senhor declara: “A tua perdição, ó Israel, toda vem de ti”. Oséias 13:9. “Ouve tu, ó Terra! Eis que Eu trarei mal sobre este povo, o próprio fruto dos seus pensamentos; porque não estão atentos às Minhas palavras, e rejeitam a Minha lei”. Jeremias 6:10.

Capítulo 65 — O templo novamente purificado

Este capítulo é baseado em Mateus 21:12-16, 23-46; Marcos 11:15-19, 27-33; 12:1-12; Lucas 19:45-48; 20:1-19.

No princípio de Seu ministério, Cristo expulsara do templo os que o manchavam por seu profano tráfico; e Sua atitude severa e divina enchera de terror o coração dos astutos comerciantes. Ao fim de Sua missão, foi Ele outra vez ao templo e encontrou-o de novo profanado como antes. As condições eram ainda piores. O pátio do templo estava como um vasto curral de gado. Com os berros dos animais e o agudo tinir das moedas, misturava-se o som de iradas altercações entre os traficantes, e ouviam-se entre eles vozes de homens no sagrado ofício. Os dignitários do templo empenhavam-se, eles próprios, em comprar e vender, e trocar dinheiro. Tão completamente se achavam dominados pela cobiça de lucro que, aos olhos de Deus, não eram melhores que ladrões.

Pouco percebiam os sacerdotes e principais a solenidade da obra que lhes cumpria realizar. Em toda páscoa e festa dos tabernáculos, milhares de animais eram mortos, e seu sangue recolhido pelos sacerdotes e derramado sobre o altar. Os judeus familiarizaram-se com a oferta de sangue e quase perderam de vista o fato de ser o pecado o que tornava necessário todo esse derramamento de sangue de animais. Não discerniam que isso prefigurava o sangue do querido Filho de Deus, que seria derramado pela vida do mundo, e que pela oferta de sacrifícios deviam os homens ser levados ao crucificado Redentor. Jesus olhava as inocentes vítimas do sacrifício, e via como os judeus haviam tornado essas grandes convocações cenas de derramamento de sangue e de crueldade. Em lugar de humilde arrependimento pelo pecado, multiplicaram o sacrifício de animais, como se Deus pudesse ser honrado por um serviço destituído de coração. Os sacerdotes e principais endureceram a alma pelo egoísmo e a avareza. Os próprios símbolos que indicavam o Cordeiro de Deus, haviam eles transformado num meio de ganho. Assim, aos olhos do povo fora destruída, em grande parte, a santidade do serviço sacrifical. Despertou-se a indignação de Jesus; sabia que Seu sangue, tão próximo a ser vertido pelos pecados do mundo, seria tão pouco apreciado pelos sacerdotes e anciãos, como o dos animais, que derramavam incessantemente. Contra tais práticas falara Cristo por meio dos profetas. Dissera Samuel: “Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à Palavra do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender melhor é do que a gordura de carneiros”. 1 Samuel 15:22. E Isaías, vendo em visão profética a apostasia dos judeus, a eles se dirigiu como príncipes de Sodoma e Gomorra: “Ouvi a Palavra do Senhor, príncipes de Sodoma; prestai ouvidos à lei do nosso Deus, vós, ó povo de Gomorra. De que Me serve a Mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o Senhor? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e de gordura de animais nédios; e não folgo com o sangue dos bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecerdes diante de Mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis pisar os Meus átrios?” “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos Meus olhos; cessai de fazer mal; aprendei a fazer bem; praticai o que é reto; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão, tratai da causa das viúvas”. Isaías 1:10-12, 16, 17. Aquele mesmo que dera essas profecias, repetia agora, pela última vez, a advertência. Em cumprimento da profecia, o povo proclamara Jesus rei de Israel. Ele lhes recebera as homenagens, e aceitara a posição de rei. Nesse caráter devia agir. Sabia que seriam nulos Seus esforços para reformar um sacerdócio corrompido; não obstante, essa obra precisava ser feita; tinha de ser dada a um povo incrédulo a prova de Sua divina missão. Novamente o penetrante olhar de Jesus percorreu o profanado pátio do templo. Todos os olhares estavam voltados para Ele. Sacerdotes e principais, fariseus e gentios, olhavam com surpresa e respeito para Aquele que Se achava diante deles com a majestade do Rei do Céu. A divindade irrompeu da humanidade, revestindo Cristo de uma dignidade e glória que jamais manifestara. Os que se achavam mais próximos dEle afastaram-se o mais que lhes permitia a multidão. Não fosse a presença de alguns de Seus discípulos, e o Salvador Se encontraria como isolado. Todos os sons cessaram. Parecia insuportável o profundo silêncio. Cristo falou com um poder que dominou o povo como uma forte tempestade: “Está escrito: A Minha casa é casa de oração; mas vós fizestes dela covil de salteadores”. Lucas 19:46. Sua voz soou como trombeta através do templo. O desagrado de Sua fisionomia assemelhava-se a um fogo consumidor. Com autoridade, ordenou: “Tirai daqui estes.” Três anos antes, os dirigentes do templo haviam-se envergonhado de sua fuga à ordem de Jesus. Sempre se admiraram depois, de seus temores e de sua obediência sem réplica a um simples, humilde homem. Julgaram ser impossível repetir-se a humilhante submissão. Ficaram, todavia, ainda mais aterrados agora que antes e mais apressados em obedecer-Lhe à ordem. Não houve ninguém que ousasse questionar-Lhe a autoridade. Sacerdotes e comerciantes fugiram-Lhe da presença, tangendo adiante o gado. Ao saírem do templo, encontraram no caminho uma multidão que trazia os enfermos, indagando pelo grande Médico. As notícias dadas pelos que fugiam, fizeram com que alguns desses voltassem atrás. Temiam encontrar Alguém tão poderoso, cujo simples olhar afugentara de Sua presença os sacerdotes e principais. O maior número, porém, avançou por entre a multidão apressada, ansiosos de encontrar Aquele que era sua única esperança. Ao fugir do templo a multidão, muitos ficaram atrás. A esses se reuniram então os recém-vindos. Novamente o pátio do templo se encheu de doentes e moribundos, e mais uma vez, Jesus os socorreu. Depois de algum tempo, os sacerdotes e líderes se aventuraram a voltar ao templo. Acalmado o pânico, sentiram-se presa de ansiedade quanto ao que iria Jesus fazer em seguida. Esperavam que tomasse o trono de Davi. Voltando silenciosamente ao templo, ouviram vozes de homens e mulheres e crianças louvando a Deus. Ao entrar, ficaram paralisados diante da maravilhosa cena. Viram os enfermos curados, os cegos restaurados à vista, os surdos ouvindo, e os coxos saltando de prazer. As crianças superavam os demais no regozijo. Jesus lhes curara as moléstias; enlaçara-as nos braços, recebera-lhes os beijos de reconhecido afeto, e algumas delas haviam adormecido em Seu peito, ao ensinar Ele a multidão. Agora, com alegres vozes, os pequenos Lhe entoavam o louvor. Repetiam os hosanas da véspera, e triunfalmente agitavam palmas diante do Salvador. O templo ecoava e reecoava às suas aclamações: “Bendito o que vem em nome do Senhor”! Salmos 118:26. “Eis que o teu Rei virá a ti, justo e Salvador!” Zacarias 9:9. “Hosana ao Filho de Davi!” O som dessas felizes, irreprimidas vozes foi uma ofensa para os dirigentes do templo. Decidiram-se a fazer calar essas demonstrações. Disseram ao povo que a casa de Deus era profanada pelos pés das crianças e suas aclamações de júbilo. Verificando que suas palavras não causavam impressão no povo, voltaram-se os sacerdotes para Cristo: “Ouves o que estes dizem? E Jesus lhes disse: Sim; nunca lestes: pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor?” Mateus 21:16. Predissera a profecia que Cristo seria proclamado rei, e essa palavra se devia cumprir. Os sacerdotes e principais de Israel recusaram anunciar Sua glória, e Deus moveu as crianças para Lhe servirem de testemunhas. Silenciassem as vozes infantis, e os próprios pilares do templo entoariam o louvor do Salvador. Os fariseus ficaram inteiramente perplexos e desconcertados. Alguém que não podiam intimidar, achava-Se com a direção. Jesus tomara Sua posição de guarda do templo. Nunca antes assumira essa régia autoridade. Nunca antes haviam Suas palavras e ações possuído tão grande poder. Fizera maravilhosas obras por toda Jerusalém, mas nunca antes por maneira tão solene e impressiva. Em presença do povo que Lhe testemunhara as maravilhosas obras, os sacerdotes e principais não ousavam hostilizá-Lo abertamente. Conquanto zangados e confundidos por Sua resposta, não foram capazes de fazer qualquer coisa mais naquele dia. Na manhã seguinte, o Sinédrio considerou novamente a atitude que devia tomar para com Jesus. Três anos antes, tinham pedido um sinal de Sua messianidade. Desde então realizara Ele poderosas obras por toda a Terra. Curara os enfermos, alimentara miraculosamente milhares de pessoas, caminhara sobre as ondas, e Sua palavra impusera calma ao revoltado mar. Repetidamente lera o coração dos homens como um livro aberto; expulsara demônios e ressuscitara mortos. Os principais tinham diante de si as provas de Sua messianidade. Decidiram então não pedir nenhum sinal de Sua autoridade, mas tirar dEle qualquer confissão ou declaração que O pudessem condenar. Dirigindo-se ao templo, onde Ele estava ensinando, puseram-se a interrogá-Lo: “Com que autoridade fazes isto? e quem Te deu tal autoridade?” Mateus 21:23. Esperavam que Ele declarasse proceder de Deus Sua autoridade. Essa afirmação intentavam negar. Mas Jesus os enfrentou com outra interrogação, aparentemente ligada a assunto diverso, e tornou Sua resposta dependente da que eles dessem a essa pergunta. “O batismo de João”, disse Ele, “de onde era? Do Céu, ou dos homens?” Mateus 21:25. Viram os sacerdotes encontrar-se diante de um dilema do qual nenhum sofisma os podia livrar. Se dissessem que o batismo de João era do Céu, tornar-se-ia patente sua incoerência. Cristo diria: Então por que não o crestes? João testificara de Cristo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. João 1:29. Se os sacerdotes acreditassem no testemunho de João, como poderiam negar a messianidade de Cristo? Se declarassem sua crença real, de que o ministério de João era dos homens, trariam sobre si mesmos uma tempestade de indignação; pois o povo acreditava que João era profeta. Com vivo interesse aguardava o povo a decisão. Sabia que os sacerdotes haviam professado aceitar o ministério de João, e esperavam que reconhecessem indiscutivelmente que fora enviado por Deus. Mas depois de conferenciarem em segredo entre si, decidiram não se comprometer. Professando hipocritamente ignorância, disseram: “Não sabemos.” “Nem Eu vos digo com que autoridade faço isto” (Mateus 21:27), disse Jesus. Escribas, sacerdotes e principais ficaram todos em silêncio. Confundidos e decepcionados, quedaram cabisbaixos, não ousando insistir em interrogar a Cristo. Por sua covardia e indecisão haviam, em grande medida, perdido o respeito do povo, que se achava então ao lado, divertido de ver derrotados esses orgulhosos homens, cheios de justiça própria. Todas essas palavras e atos de Cristo eram importantes, e sua influência devia ser experimentada em grau sempre crescente depois de Sua crucifixão e ascensão. Muitos dos que tinham esperado ansiosamente o resultado da pergunta de Jesus, afinal se tornariam discípulos Seus, havendo sido pela primeira vez atraídos a Ele naquele dia cheio de acontecimentos. A cena do pátio do templo nunca mais se apagaria da memória deles. Era assinalado o contraste entre Jesus e o sumo sacerdote, quando juntos falavam. O orgulhoso dignitário do templo estava trajado de ricas e custosas vestimentas. Tinha na cabeça uma brilhante tiara. Seu porte era majestoso, os cabelos e a longa barba prateados pela idade. Sua aparência enchia de respeito os que o viam. Perante essa augusta personagem, achava-Se a Majestade do Céu, sem adorno ou ostentação. Tinha nas vestes os vestígios das jornadas; Seu rosto era pálido e exprimia paciente tristeza; todavia, nEle se estampavam dignidade e benevolência em estranho contraste com o ar orgulhoso, presunçoso e irado do sumo sacerdote. Muitos dos que testemunhavam as palavras e atos de Jesus no templo, entronizaram-nO daí em diante no coração como profeta de Deus. À medida, porém, que o sentimento popular se voltava em favor de Jesus, o ódio dos sacerdotes crescia para com Ele. A sabedoria com que Se esquivava aos laços que Lhe armavam aos pés, sendo uma nova evidência de Sua divindade, acrescentava combustível a sua ira. Em Sua discussão com os rabis, não era propósito de Cristo humilhar os oponentes. Não Se alegrava em vê-los em situação difícil. Tinha importante lição a ensinar. Mortificara os inimigos, permitindo que se vissem emaranhados na própria rede que para Ele haviam preparado. Sua confessada ignorância com respeito ao caráter do batismo de João, proporcionou-Lhe oportunidade de falar e aproveitou-a, apresentando-lhes sua verdadeira situação e ajuntando uma advertência às muitas que já fizera. “Mas que vos parece?” disse Ele. “Um homem tinha dois filhos, e, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha. Ele, porém, respondendo, disse: Não quero. Mas depois, arrependendo-se, foi. E, dirigindo-se ao segundo, falou-lhe de igual modo; e, respondendo ele, disse: Eu vou, senhor; e não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?” Mateus 21:28-31. Essa súbita pergunta tirou Seus ouvintes de sua habitual posição de guarda. Haviam acompanhado atentamente a parábola, e então responderam imediatamente: “O primeiro.” Fixando neles o firme olhar, respondeu Jesus em tom severo e solene: “Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram diante de vós no reino de Deus. Porque João veio a vós no caminho da justiça, e não o crestes, mas os publicanos e as meretrizes o creram; vós, porém, vendo isto, nem depois vos arrependestes para o crer”. Mateus 21:31, 32. Os sacerdotes e principais não podiam deixar de dar resposta correta à pergunta de Cristo, e assim obteve Ele sua opinião em favor do primeiro filho. Este filho representava os publicanos, os que eram desprezados e odiados pelos fariseus. Os publicanos haviam sido inteiramente imorais. Tinham sido na verdade transgressores da lei de Deus, mostrando em sua vida absoluta resistência às Suas reivindicações. Eram ingratos e profanos; ao ser-lhes dito que fossem trabalhar na vinha do Senhor, recusaram desdenhosamente. Mas ao vir João, pregando o arrependimento e o batismo, os publicanos receberam a mensagem e foram batizados. O segundo filho representava os dirigentes da nação judaica. Alguns fariseus se tinham arrependido, recebendo o batismo de João; mas os dirigentes não quiseram reconhecer que ele viera de Deus. Suas advertências e acusações não os levaram a uma reforma. “Rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido batizados por ele.” Trataram desdenhosamente sua mensagem. Como o segundo filho que, quando chamado, disse: “Eu vou, senhor”, mas não foi, os sacerdotes e principais professaram obediência, mas agiram em sentido contrário. Faziam grandes profissões de piedade, pretendiam estar obedecendo à lei divina, mas prestavam apenas uma falsa obediência. Os publicanos eram acusados e amaldiçoados pelos fariseus como incrédulos; mas mostraram por sua fé e obras que iam para o reino do Céu antes daqueles homens cheios de justiça própria, aos quais fora dada grande luz, mas cujas obras não correspondiam a sua profissão de piedade. Os sacerdotes e principais não tinham vontade de suportar essas penetrantes verdades; ficaram calados, entretanto, na esperança de que Jesus dissesse qualquer coisa que pudessem voltar contra Ele; mas tinham de suportar ainda mais. “Ouvi ainda outra parábola”, disse Cristo. “Houve um homem, pai de família, que plantou uma vinha, circundou-a de um valado, e construiu nela um lagar, e edificou uma torre, e arrendou-a a uns lavradores, e ausentou-se para longe. E, chegando o tempo dos frutos, enviou os seus servos aos lavradores, para receber os seus frutos. E os lavradores, apoderando-se dos servos, feriram um, mataram outro, e apedrejaram outro. Depois enviou outros servos, em maior número do que os primeiros; e eles fizeram-lhes o mesmo; e, por último, enviou-lhes seu filho, dizendo: Terão respeito ao meu filho. Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo, e apoderemo-nos da sua herança. E, lançando mão dele, o arrastaram para fora da vinha, e o mataram. Quando pois vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores?” Mateus 21:33-40. Jesus Se dirigiu a todo o povo presente; mas os sacerdotes e principais responderam. “Dará afrontosa morte aos maus”, disseram, “e arrendará a vinha a outros lavradores, que a seu tempo lhe dêem os frutos”. Mateus 21:41. Os que assim falavam não perceberam, a princípio, a aplicação da parábola, mas viram depois haver proferido a própria condenação. Na parábola, o pai de família representava Deus, a vinha a nação judaica, e o valado a lei divina que lhes servia de proteção. A torre era um símbolo do templo. O dono da vinha fizera tudo que era para prosperidade da mesma. “Que mais se podia fazer à Minha vinha”, diz Ele, “que lhe não tenha feito?” Isaías 5:4. Assim foi representado o incessante cuidado de Deus para com Israel. E como os lavradores deviam devolver ao pai de família a devida proporção de frutos da vinha, assim o povo de Deus O devia honrar por uma vida em correspondência com os sagrados privilégios que tinham. Mas, como os lavradores mataram os servos que o senhor lhes enviara em busca de frutos, assim os judeus fizeram morrer os profetas que Deus mandara para os chamar ao arrependimento. Mensageiro após mensageiro fora morto. Até aí a aplicação da parábola não podia ser posta em dúvida, e no que se seguiu não foi menos clara. No amado filho a quem o senhor da vinha afinal mandara a seus desobedientes servos, e de quem se apoderaram para matar, viram os sacerdotes e principais uma distinta figura de Jesus e a sorte que sobre Ele impendia. Já estavam planejando tirar a vida Àquele a quem o Pai lhes enviara em um último apelo. Na retribuição infligida aos ingratos lavradores, estava descrita a sorte dos que haviam de condenar Cristo à morte. Olhando-os com piedade, continuou o Salvador: “Nunca lestes nas Escrituras: A pedra, que os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do ângulo; pelo Senhor foi feito isto, e é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto Eu vos digo que o reino de Deus vos será tirado, e será dado a uma nação que dê os seus frutos. E quem cair sobre esta pedra despedaçar-se-á; e aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó”. Mateus 21:42-44. Essa profecia repetiram os judeus muitas vezes nas sinagogas, aplicando-a ao Messias que havia de vir. Cristo era a pedra de esquina da dispensação judaica, e de todo o plano da salvação. Essa pedra fundamental os edificadores judaicos, os sacerdotes e príncipes de Israel, estavam agora rejeitando. O Salvador chamou-lhes a atenção para as profecias que lhes mostrariam seu perigo. Buscou, por todos os meios possíveis, mostrar-lhes claramente a natureza do ato que estavam para praticar. E Suas palavras tinham outro desígnio. Ao fazer a pergunta: “Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores?” (Mateus 21:40) era intuito de Cristo que os fariseus respondessem como fizeram. Tinha em vista que eles mesmos se condenassem. Suas advertências, deixando de despertá-los para o arrependimento, selar-lhes-iam a condenação, e Ele queria que vissem que eles próprios haviam trazido sobre si a ruína. Intentava mostrar-lhes a justiça de Deus em retirar-lhes os privilégios nacionais, o que já começara e terminaria, não somente na destruição do templo e da cidade, mas na dispersão da nação. Os ouvintes reconheceram a advertência. Não obstante, porém, a sentença que eles mesmos haviam proferido, os sacerdotes e príncipes estavam prontos a completar o quadro, dizendo: “Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo.” “E, pretendendo prendê-Lo, recearam o povo” (Mateus 21:46), porque o sentimento público era a favor de Cristo. Citando a profecia da pedra rejeitada, referia-Se Cristo a uma ocorrência verdadeira da história de Israel. O incidente relacionava-se com a edificação do primeiro templo. Conquanto tivesse especial aplicação ao tempo do primeiro advento de Cristo, devendo ter tocado com poder especial aos judeus, encerra também uma lição para nós. Ao ser erigido o templo de Salomão, as imensas pedras para as paredes e os fundamentos foram inteiramente preparadas na pedreira; depois de serem levadas para o local da construção, nenhum instrumento devia ser nelas empregado; os obreiros só tinham que as colocar em posição. Fora trazida para ser empregada nos fundamentos uma pedra de dimensões extraordinárias, e de singular feitio; mas os construtores não conseguiam achar lugar para ela e não a queriam aceitar. Era-lhes um estorvo, jazendo para ali, sem utilidade. Por muito tempo assim ficou como pedra rejeitada. Mas, ao chegarem os edificadores à ocasião de colocar a pedra angular, procuraram por muito tempo uma de tamanho e resistência suficientes e do devido formato, para ocupar aquele lugar e suportar o grande peso que sobre ela repousaria. Fizessem uma imprudente escolha para esse importante lugar, e estaria em risco a segurança de todo o edifício. Deveriam encontrar uma pedra capaz de resistir à influência do Sol, da geada e da tempestade. Várias pedras foram escolhidas, diversas vezes, mas, sob a pressão de imensos pesos, haviam-se despedaçado. Outras não puderam suportar a prova das súbitas mudanças atmosféricas. Afinal, a atenção dos construtores foi atraída para a pedra por tanto tempo rejeitada. Ficara exposta ao ar, ao Sol e à tempestade, sem apresentar a mais leve fenda. Os edificadores examinaram essa pedra. Suportara todas as provas, menos uma. Se pudesse resistir à prova de vigorosa pressão, decidir-se-iam a aceitá-la para pedra angular. Foi feita a prova. A pedra foi aceita, levada para o lugar que lhe era designado, verificando-se a ele ajustar-se perfeitamente. Em profética visão, foi mostrado a Isaías que essa pedra era um símbolo de Cristo. Diz ele: “Ao Senhor dos Exércitos, a Ele santificai; e seja Ele o vosso temor, e seja Ele o vosso assombro. Então Ele vos será santuário; mas servirá de pedra de tropeço, e de rocha de escândalo, às duas casas de Israel; de laço e rede aos moradores de Jerusalém. E muitos dentre eles tropeçarão, e cairão, e serão quebrantados, e enlaçados e presos”. Isaías 8:13-15. Levado em visão adiante, ao primeiro advento, é mostrado ao profeta que Cristo devia sofrer provas e experiências das quais era um símbolo o que se fizera à pedra de esquina do templo de Salomão. “Portanto assim diz o Senhor Jeová: Eis que ponho em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crê não se apresse”. Isaías 28:16. Com infinita sabedoria, escolheu Deus a pedra fundamental, e a colocou Ele mesmo. Chamou-a “firme”. O mundo inteiro pode depor sobre ela seus fardos e pesares; pode suportá-los a todos. Com perfeita segurança podem edificar sobre ela. Cristo é uma “pedra já provada”. Aqueles que nEle confiam, Ele nunca decepcionará. Suportou todas as provas. Resistiu à pressão da culpa de Adão e da de sua posteridade, e saiu mais que vencedor dos poderes do mal. Tem suportado os fardos sobre Ele lançados por todo pecador arrependido. Em Cristo tem encontrado alívio o coração culpado. Ele é o firme fundamento. Todos quantos fazem dEle sua confiança, descansam em segurança perfeita. Na profecia de Isaías, declara-se que Cristo é tanto o firme fundamento como uma pedra de tropeço. O apóstolo Pedro, escrevendo sob inspiração do Espírito Santo, mostra claramente para quem Cristo é uma pedra de esquina, e para quem é rocha de escândalo: “Se é que já provastes que o Senhor é benigno: e, chegando-vos para Ele — pedra viva, reprovada, na verdade pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, vós, também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo. Pelo que também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido. E assim para vós, os que crerdes, é preciosa, mas para os rebeldes, a pedra que os edificadores reprovaram essa foi a principal da esquina; e uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na Palavra, sendo desobedientes”. 1 Pedro 2:3-8. Para os que crêem, Cristo é o firme fundamento. São eles que caem sobre a Rocha e se despedaçam. A submissão a Cristo e a fé nEle são aqui representadas. Cair sobre a Rocha e despedaçar-se, é renunciar a nossa própria justiça e ir a Cristo com a humildade de uma criança, arrependidos de nossas transgressões e crendo em Seu amor perdoador. E assim também é pela fé e a obediência que edificamos sobre Cristo como nosso fundamento. Sobre essa pedra viva podem edificar semelhantemente judeus e gentios. Este é o único fundamento sobre que podemos com segurança edificar. É suficientemente largo para todos, e forte bastante para sustentar o peso e o fardo do mundo inteiro. E pela ligação com Cristo, a pedra viva, todos quantos edificam sobre esse fundamento se tornam pedras vivas. Muitas pessoas são lavradas, polidas e embelezadas por seus próprios esforços; não podem, no entanto, tornar-se “pedras vivas”, porque não estão ligadas a Cristo. Sem essa ligação, homem algum se pode salvar. Sem a vida de Cristo em nós, não podemos resistir às tempestades das tentações. Nossa segurança eterna depende de edificarmos sobre o firme fundamento. Multidões se encontram hoje em dia edificando sobre fundamento não provado. Ao cair a chuva, e soprarem os ventos, e as enchentes sobrevirem, sua casa cairá, porque não está fundada sobre a Rocha eterna, a principal pedra de esquina — Cristo Jesus. “Para aqueles que tropeçam na Palavra, sendo desobedientes”, Cristo é uma rocha de escândalo. Mas “a pedra que os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do ângulo”. Como a pedra rejeitada, Cristo, em Sua missão terrestre suportara desdém e maus-tratos. Foi “desprezado, e o mais indigno dentre os homens; homem de dores, e experimentado nos trabalhos: […] era desprezado, e não fizemos dEle caso algum”. Isaías 53:3. Mas aproximava-se o tempo em que Ele seria glorificado. Pela ressurreição dentre os mortos, seria “declarado Filho de Deus em poder”. Romanos 1:4. Em Sua segunda vinda, seria revelado como Senhor do Céu e da Terra. Os que se achavam então prestes a crucificá-Lo, reconheceriam Sua grandeza. Perante o Universo, a pedra rejeitada Se tornaria a principal pedra de esquina. “E aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó.” O povo que rejeitou a Cristo, teria de ver em breve destruídas sua cidade e nação. Sua glória seria despedaçada, espalhada como o pó diante do vento. E que foi que destruiu os judeus? Foi a rocha que, houvessem eles edificado sobre ela, teria sido sua segurança. Foi a bondade divina desprezada, a justiça maltratada, e menosprezada Sua misericórdia. Os homens deliberaram opor-se a Deus, e tudo quanto teria servido para sua salvação foi voltado para sua destruição. Tudo quanto Deus ordenara para vida, acharam ser para morte. Na crucifixão de Cristo pelos judeus, estava envolvida a destruição de Jerusalém. O sangue derramado sobre o Calvário, foi o peso que os fez abismar na ruína para este mundo e o mundo por vir. Assim será no grande dia final, quando o juízo cair sobre os que rejeitam a graça divina. Cristo, para eles a pedra de escândalo, aparecer-lhes-á então como vingadora montanha. A glória de Seu rosto, que para os justos é vida, será para os ímpios um fogo consumidor. Por causa do amor rejeitado, da graça desprezada, será destruído o pecador. Mediante muitas ilustrações e repetidas advertências, Jesus mostrou qual seria o resultado, para os israelitas, de rejeitar o Filho de Deus. Nessas palavras, dirigia-Se a todos, em todos os séculos, que se recusam a recebê-Lo como Redentor. Todas as advertências são para eles. O templo profanado, o filho desobediente, os falsos lavradores, os edificadores desdenhosos, têm seu paralelo na experiência de todo pecador. A menos que este se arrependa, sobrevir-lhe-á a condenação prefigurada por aqueles.

 

Fonte: https://m.egwwritings.org/pt/book/1813.2593#2593, https://m.egwwritings.org/pt/book/1813.2558#2558 e https://m.egwwritings.org/pt/book/1813.2593#2593

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