COMENTÁRIO SOBRE O Desejado de Todas as Nações, cap. 70-71 30/09/2018

Quando meus filhos eram pequenos, todos os sábados eu os levava à Escola Sabatina, onde professores dedicados os ensinavam canções e histórias da Bíblia que se tornaram a base de sua vida cristã. Uma destas canções era intitulada “Ilumine o Canto Onde Você Está” [“Brighten the Corner Where You Are.”]. Você já ouviu essa música antes? O primeiro verso e refrão tem a seguinte letra:

“Não espere que até algum feito de grandeza você possa fazer,
Não espere até que possa derramar longe sua luz,
Para os muitos deveres que estão perto de você, seja presente,
Ilumine o canto onde você está.

Ilumine o canto onde você está!
Ilumine o canto onde você está!
Alguém longe do porto ao abrigo você pode guiar;
Ilumine o canto onde você está! [Tradução livre] *

Quão verdadeira é essa pequena canção! Você está iluminando o canto onde você está? Estou eu? Que trabalho o Salvador te deu para fazer? Você é um pastor ou obreiro da Bíblia? Maravilhoso! Então seja o melhor pastor e obreiro da Bíblia que você pode ser! Você é um missionário ou professor? Fantástico! Faça o seu melhor para ajudar os outros e ensine o melhor que puder! Mas, e se você não for nada disso? E se você não for médico ou enfermeiro? E se você não tiver nenhum papel formal de liderança? Esperamos que venham os “especialistas” para ajudar aqueles que nos rodeiam?

No Desejado de Todas as Nações, p. 640 nos é dito que “todos podem encontrar algo para fazer”. Você é um balconista em uma loja? Então abençoe os outros através do seu trabalho fiel e de sorriso luminoso. Você toca um instrumento musical? Então você é um “musicanário” [“musicanary“, um “musico missionário” ] ao abençoar outros com seu dom de música. Você é uma dona de casa? Então você ilumina a vida todos os dias de seus filhos. Seus filhos estão crescidos? Você pode ser um ouvido atento em telefonemas. Você está cuidando de um amigo que não pode sair de casa? Então traga com você muita alegria toda vez que for visitá-lo. Ou é você que não pode sair de casa? Então você tem o maior trabalho de todos: você pode ser um guerreiro de oração.

Em todas as coisas, Jesus é o nosso exemplo. Ao reunir-se com seus discípulos para celebrar a Páscoa, em vez de seus discípulos O honrarem assumindo o papel de servo, eles discutiram entre si porque ninguém queria desempenhar esse papel. Em vez de castigá-los verbalmente, Jesus se levantou e começou a servir os discípulos enquanto lavava seus pés. O Rei da Glória se abaixou e realizou a mais humilde das tarefas.

Ao olhar para o Seu exemplo, pense: quem Ele colocou na minha vida para eu servir hoje? A quem Ele está te chamando hoje para servir?

Susan Menzmer, dona de casa e educadora escolar em casa
IASD de McDonald Road
Tennessee, EUA

* [“Do not wait until some deed of greatness you may do,
Do not wait to shed your light afar,
To the many duties ever near you now be true,
Brighten the corner where you are.
Brighten the corner where you are!
Brighten the corner where you are!
Someone far from harbor you may guide across the bar;
Brighten the corner where you are!”
]

Fonte: https://www.revivalandreformation.org/bhp/en/sop/da/70-71
Equipe de tradução: Jeferson Quimelli, Gisele Quimelli e Pr. Jobson Santos

[NT: Você pode escutar esta canção em: https://www.youtube.com/watch?v=T_wPqlN1mw4 ou em https://www.youtube.com/watch?v=zedH4C85Nzw]

O DESEJADO DE TODAS AS NAÇÕES, cap. 70-71

Capítulo 70 — “Um destes meus pequeninos irmãos”

Este capítulo é baseado em Mateus 25:31-46.

E quando o Filho do homem vier em Sua glória, e todos os santos anjos com Ele, então Se assentará no trono da Sua glória; e todas as nações serão reunidas diante dEle, e apartará uns dos outros”. Mateus 25:31, 32. Assim descreveu Cristo aos discípulos, no Monte das Oliveiras, as cenas do grande dia do Juízo. E apresentou sua decisão como girando em torno de um ponto. Quando as nações se reunirem diante dEle, não haverá senão duas classes, e seu destino eterno será determinado pelo que houverem feito ou negligenciado fazer por Ele na pessoa dos pobres e sofredores. DTN 451.1

Naquele dia, Cristo não apresentará aos homens a grande obra que Ele fez em seu benefício, ao dar a própria vida pela redenção deles. Apresenta a fiel obra que fizeram por Ele. Aos que põe à Sua direita, dirá: “Vinde, benditos de Meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e destes-Me de comer; tive sede, e destes-Me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-Me; estava nu, e vestistes-Me; adoeci, e visitastes-Me; estive na prisão, e fostes ver-Me”. Mateus 25:34-36. Mas aqueles a quem Cristo louva, não sabem que O tinham servido a Ele. À sua perplexa interrogação, responde: “Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes”. Mateus 25:40. DTN 451.2

Jesus dissera aos discípulos que seriam aborrecidos por todos os homens, perseguidos e aflitos. Muitos seriam expulsos de seu lar, e reduzidos à pobreza. Muitos estariam em aflição por motivo de doenças e privações. Muitos seriam lançados na prisão. A todos quantos abandonaram amigos ou casa por amor dEle, prometera Jesus nesta vida cem vezes tanto. Agora deu certeza de uma bênção especial a todos quantos servissem a seus irmãos. Em todos quantos sofrem por causa do Meu nome, disse, haveis de reconhecer-Me a Mim. Como Me serviríeis a Mim, assim os deveis servir a eles. Esta é a prova de que sois Meus discípulos. DTN 451.3

Todos quantos nasceram na família celestial, são em sentido especial irmãos de nosso Senhor. O amor de Cristo liga os membros de Sua família, e onde quer que esse amor se manifeste, aí se revela a relação divina. “Qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus”. 1 João 4:7. DTN 451.4

Aqueles que Cristo louva no Juízo, talvez tenham conhecido pouco de teologia, mas nutriram Seus princípios. Mediante a influência do Divino Espírito, foram uma bênção para os que os cercavam. Mesmo entre os gentios existem pessoas que têm cultivado o espírito de bondade; antes de lhes haverem caído aos ouvidos as palavras de vida, acolheram com simpatia os missionários, servindo-os mesmo com perigo da própria vida. Há, entre os gentios, pessoas que servem a Deus ignorantemente, a quem a luz nunca foi levada por instrumentos humanos; todavia não perecerão. Conquanto ignorantes da lei escrita de Deus, ouviram Sua voz a falar-lhes por meio da natureza, e fizeram aquilo que a lei requeria. Suas obras testificam que o Espírito Santo lhes tocou o coração, e são reconhecidos como filhos de Deus.DTN 451.5

Quão surpreendidos e jubilosos ficarão os humildes dentre as nações, e dentre os pagãos, de ouvir dos lábios do Salvador: “Quando o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes”! Mateus 25:40. Quão alegre ficará o coração do Infinito amor quando Seus seguidores erguerem para Ele o olhar, em surpresa e regozijo ante Suas palavras de aprovação! DTN 452.1

Mas o amor de Cristo não se restringe a uma classe. Ele Se identifica com todo filho da raça humana. Para fazermos parte da família celestial, tornou-Se membro da família humana. É o Filho do homem, e assim um irmão de todo filho e filha de Adão. Seus seguidores não se devem sentir separados do mundo que perece em seu redor. São uma parte da grande teia da humanidade; e o Céu os considera irmãos dos pecadores da mesma maneira que dos santos. Os caídos, os errantes e os pecadores são todos envolvidos pelo amor de Cristo; e toda boa ação praticada para erguer uma alma caída, todo ato de misericórdia, é aceito como feito a Ele próprio. DTN 452.2

Os anjos celestiais são enviados para servir os que hão de herdar a salvação. Não sabemos agora quem são eles; ainda não é manifesto quem vencerá e participará da herança dos santos na luz; mas anjos do Céu estão atravessando a Terra de alto a baixo, de lado a lado, buscando confortar os tristes, proteger os que estão em perigo, conquistar o coração dos homens para Cristo. Ninguém é negligenciado ou deixado à margem. Deus não faz acepção de pessoas, e tem igual cuidado pelas almas que criou. DTN 452.3

Ao abrirdes a porta aos necessitados e sofredores de Cristo, estais acolhendo anjos invisíveis. Convidais a companhia de seres celestiais. Eles trazem uma sagrada atmosfera de alegria e paz. Vêm com louvores nos lábios, e uma nota correspondente se ouve no Céu. Todo ato de misericórdia promove música ali. O Pai, em Seu trono, conta os abnegados obreiros entre Seus mais preciosos tesouros. DTN 452.4

Os que estão à esquerda de Cristo, os que O negligenciaram na pessoa dos pobres e sofredores, estavam inconscientes de sua culpa. Satanás os cegara; não perceberam o que deviam a seus irmãos. Estiveram absorvidos consigo mesmos, e não cuidaram das necessidades dos outros. DTN 452.5

Deus deu aos ricos fortuna para que socorram e confortem Seus filhos sofredores; mas demasiadas vezes são indiferentes às privações dos demais. Sentem-se superiores a seus irmãos pobres. Não se colocam no lugar deles. Não compreendem suas tentações e lutas, e a misericórdia extingue-se-lhes no coração. Em custosas habitações e esplêndidas igrejas, os ricos excluem-se dos pobres, e os meios dados por Deus, para beneficiar os necessitados, são gastos em ostentação, orgulho e egoísmo. Os pobres são diariamente roubados quanto à educação que deviam ter a respeito das ternas misericórdias de Deus; pois Ele tomou amplas providências para que fossem confortados com o indispensável à vida. São forçados a sofrer a pobreza que limita a existência, sendo muitas vezes tentados a ficar invejosos, ciumentos e cheios de ruins suspeitas. Os que não sofreram, por sua parte, a pressão das necessidades, freqüentemente tratam os pobres com menosprezo, fazendo-lhes sentir que são considerados indigentes. DTN 452.6

Mas Cristo contempla tudo isso e diz: Fui Eu que tive fome e sede. Fui Eu que andei como estrangeiro. Fui Eu o enfermo. Eu que estive na prisão. Enquanto vos banqueteáveis em vossa rica mesa, Eu Me achava faminto na choupana ou no desabrigo das ruas. Ao vos encontrardes à vontade em vossa luxuosa habitação, Eu não tinha onde reclinar a cabeça. Quando apinháveis o guarda-roupa de ricos trajes, Eu Me achava destituído de tudo. Ao irdes em busca de prazeres, Eu definhava na prisão.DTN 453.1

Quando distribuístes a escassa provisão de pão ao pobre faminto, quando destes aquelas insuficientes roupas para o abrigar da cortante geada, lembrastes acaso que o estáveis dando ao Senhor da glória? Todos os dias de vossa vida Eu Me achava perto de vós na pessoa desses aflitos, mas não Me buscastes. Não vos tornastes Meus companheiros. Não vos conheço. DTN 453.2

Muitos pensam que seria grande privilégio visitar os cenários da vida de Cristo na Terra, andar pelos lugares por Ele trilhados, contemplar o lago à margem do qual gostava de ensinar, as montanhas e vales em que Seus olhos tantas vezes pousaram. Mas não necessitamos ir a Nazaré, a Cafarnaum ou a Betânia para andar nos passos de Jesus. Encontraremos Suas pegadas junto ao leito dos doentes, nas choças da pobreza, nos apinhados becos das grandes cidades, e em qualquer lugar onde há corações humanos necessitados de consolação. Fazendo como Jesus fazia quando na Terra, andaremos em Seus passos. DTN 453.3

Todos podem encontrar qualquer coisa para fazer. “Os pobres sempre os tendes convosco” (João 12:8), disse Jesus, e ninguém deve julgar que não haja lugar onde possa trabalhar para Ele. Milhões e milhões de almas quase a perecer, ligadas em cadeias de ignorância e pecado, nunca ouviram tal coisa como seja o amor de Cristo por eles. Invertidas as condições, que desejaríamos que fizessem por nós? Tudo isso, o quanto estiver ao nosso alcance, achamo-nos na mais solene obrigação de fazer por eles. A regra de vida dada por Cristo, aquela pela qual cada um de nós deve subsistir ou cair no Juízo, é: “Tudo que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós”. Mateus 7:12. DTN 453.4

O Salvador deu Sua preciosa vida, a fim de estabelecer uma igreja capaz de cuidar de almas aflitas e tentadas. Um grupo de crentes pode ser pobre, sem instrução, desconhecido; todavia, estando em Cristo, pode fazer no lar, na vizinhança, na igreja, e mesmo nas regiões distantes, uma obra cujos resultados serão de alcance eterno.DTN 454.1

É porque essa obra é negligenciada, que tantos jovens discípulos nunca avançam além do simples alfabeto da experiência cristã. A luz que resplandeceu em seu próprio coração quando Jesus lhes disse: “Perdoados te são os teus pecados” (Mateus 9:2), deveriam conservar viva mediante o auxílio prestado a outros em necessidade. A irrequieta energia, tantas vezes fonte de perigo para os jovens, poderia ser encaminhada de maneira que fluísse em correntes de bênção. O próprio eu seria esquecido na diligente obra para bem de outros. DTN 454.2

Os que servem os outros, serão servidos pelo Sumo Pastor. Eles próprios beberão da água viva e ficarão satisfeitos. Não anelarão diversões excitantes, ou uma mudança de vida. O grande objeto de interesse será: como salvar almas quase a perecer. O intercâmbio social será proveitoso. O amor do Redentor ligará os corações em unidade. DTN 454.3

Quando compreendemos que somos coobreiros de Deus, Suas promessas não serão proferidas com indiferença. Elas arderão em nossa alma e inflamar-se-ão em nossos lábios. A Moisés, quando chamado a servir a um povo ignorante, indisciplinado e rebelde, foi feita por Deus a promessa: “Irá a Minha presença contigo para te fazer descansar”. Êxodo 33:14. E Ele disse: “Certamente Eu serei contigo”. Êxodo 3:12. Essa promessa pertence a todos quantos trabalham em lugar de Cristo, em favor de Seus aflitos e sofredores. DTN 454.4

O amor aos homens é a manifestação do amor de Deus em direção à Terra. Foi para implantar esse amor, fazer-nos filhos de uma família, que o Rei da Glória Se tornou um conosco. E quando se cumprirem as palavras que disse ao partir: “Que vos ameis uns aos outros, assim como Eu vos amei” (João 15:12); quando amarmos o mundo assim como Ele o amou, então Sua missão por nós está cumprida. Estamos aptos para o Céu; pois o temos no coração. DTN 454.5

Mas “se faltares de livrar aos que são levados à morte, e arrastados à matança; se disseres: Eis que não soubemos isso: Não é assim que Aquele que pondera os corações, Esse o entende? e que Aquele que conserva a tua alma, Esse o sabe? Ele também retribuiu ao homem segundo a sua obra” (Provérbios 24:11, 12), Trad. Trinitariana. No grande dia do Juízo, os que não trabalharam para Cristo, que andaram ao sabor dos ventos, só pensando em si, cuidando de si, serão postos pelo Juiz de toda a Terra com os que fizeram o mal. Receberão a mesma condenação. DTN 454.6

A toda alma é confiado um depósito. De cada um pedirá contas o Sumo Pastor: “Onde está o rebanho que se te deu, e as ovelhas da tua glória?” E: “que dirás quando Ele te visitar?” Jeremias 13:20, 21.

Capítulo 71 — Servo dos servos

Este capítulo é baseado em Lucas 22:7-18, 24João 13:1-17.

No cenáculo de uma morada de Jerusalém, achava-Se Cristo à mesa com os discípulos. Tinham-se reunido para celebrar a páscoa. O Salvador desejava celebrar essa festa a sós com os doze. Sabia que era chegada a Sua hora; Ele próprio era o verdadeiro Cordeiro pascoal, e no dia em que se comia a páscoa, devia Ele ser sacrificado. Estava prestes a beber o cálice da ira; devia logo receber o final batismo do sofrimento. Algumas horas tranqüilas Lhe restavam, porém, e essas deviam ser empregadas em benefício dos amados discípulos. DTN 455.1

Toda a vida de Cristo fora de abnegado serviço. “Não […] para ser servido, mas para servir” (Mateus 20:28), fora a lição de cada ato Seu. Mas ainda os discípulos não haviam aprendido a lição. Nessa última ceia pascoal, Jesus repetiu Seus ensinos mediante uma ilustração que os gravou para sempre na mente e no coração deles. DTN 455.2

As entrevistas de Jesus com os discípulos eram geralmente períodos de calma alegria, altamente apreciados por todos eles. As ceias pascoais haviam sido cenas de especial interesse; mas nessa ocasião Jesus estava perturbado. Tinha o coração oprimido, e havia uma sombra a toldar-Lhe o semblante. Ao encontrar-Se com os discípulos no cenáculo, perceberam eles que qualquer coisa Lhe pesava fortemente no espírito, e conquanto não conhecessem a causa, possuíram-se de piedoso interesse por Sua dor. DTN 455.3

Enquanto se achavam reunidos ao redor da mesa, disse Ele em tom de tocante tristeza: “Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça; porque vos digo que não a comerei mais até que ela se cumpra no reino de Deus”. Lucas 22:15, 16. DTN 455.4

Cristo sabia que chegara o tempo de partir deste mundo, e ir para o Pai. E havendo amado os Seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. Achava-Se agora na sombra da cruz, e a dor torturava-Lhe o coração. Sabia que seria abandonado na hora de ser entregue. Sabia que, pelo mais humilhante processo a que se submetiam os criminosos, seria condenado à morte. Conhecia a ingratidão e crueldade daqueles a quem viera salvar. Sabia quão grande o sacrifício que devia fazer, e para quantos seria ele em vão. Sabendo tudo quanto se achava diante de Si, poderia ser naturalmente esmagado ao pensamento da própria humilhação e sofrimento. Mas olhou aos doze, os quais estiveram com Ele como Seus mesmos, e que, depois de Sua vergonha e dor, e passados os dolorosos maus-tratos, seriam deixados a lutar no mundo. O pensamento do que Ele próprio deveria sofrer estava sempre relacionado com os discípulos em Seu espírito. Não pensava em Si mesmo. O cuidado por eles era o que predominava em Sua mente. DTN 455.5

Nessa última noite em que estava com os discípulos, Jesus tinha muito a dizer-lhes. Estivessem eles preparados para receber o que lhes almejava comunicar, e teriam sido poupados a desoladora angústia, a decepção e incredulidade. Mas Jesus viu que não podiam suportar o que lhes tinha a dizer. Ao olhar-lhes o rosto, as palavras de advertência e conforto estacaram-Lhe nos lábios. Passaram-se momentos em silêncio. Parecia que Jesus esperava. Os discípulos não se sentiam à vontade. O compassivo interesse despertado pelo pesar de Cristo parecia haver-se dissipado. Suas dolorosas palavras, indicando os próprios sofrimentos, pouca impressão produziram. Os olhares que trocavam entre si, traduziam ciúmes e rivalidade. DTN 456.1

Havia “entre eles contenda, sobre qual deles parecia ser o maior”. Essa rivalidade, manifestada na presença de Cristo, O entristeceu e magoou. Apegavam-se os discípulos a sua idéia favorita de que Cristo firmaria Seu poder, e tomaria Seu posto no trono de Davi. E no coração cada um continuava a anelar a posição mais elevada no reino. Haviam-estimado a si mesmos e uns aos outros, e em lugar de considerar seus irmãos mais dignos, colocavam-se em primeiro lugar. O pedido de Tiago e João, de se assentarem à direita e à esquerda do trono de Cristo, despertara a indignação dos outros. O terem os dois irmãos tido a presunção de pedir a mais alta posição despertara por tal forma os dez, que havia ameaça de alheamento. Pensaram que eram mal julgados, que sua fidelidade e seus talentos não eram apreciados. Judas era o mais rigoroso contra Tiago e João. DTN 456.2

Quando os discípulos entraram na sala da ceia, tinham o coração cheio de ressentimentos. Judas apressou-se a tomar lugar junto de Cristo, à esquerda; João estava à direita. Se houvesse lugar mais elevado, Judas estava decidido a ocupá-lo, e esse lugar, julgava-se, era junto de Cristo. E Judas era um traidor. DTN 456.3

Surgira outra causa de dissensão. Numa festa, era costume que um servo lavasse os pés aos hóspedes, e nessa ocasião se fizeram preparativos para esse serviço. O jarro, a bacia e a toalha ali estavam, prontos para a lavagem dos pés; não havia nenhum servo presente, porém, e cabia aos discípulos fazer isso. Mas cada um deles, cedendo ao orgulho ferido, resolveu não desempenhar a parte de servo. Todos manifestaram total desinteresse, parecendo inconscientes de haver qualquer coisa para fazerem. Por seu silêncio, recusavam-se a humilhar-se. DTN 456.4

Como havia Cristo de levar essas pobres almas a um ponto em que Satanás não obtivesse sobre elas decidida vitória? Como poderia mostrar que uma simples profissão de discipulado não os tornava discípulos, nem lhes garantia um lugar no reino? Como lhes mostraria que é o amoroso serviço, a verdadeira humildade, que constitui a genuína grandeza? Como haveria Ele de acender amor no coração deles, e habilitá-los a compreender aquilo que lhes ansiava dizer? DTN 456.5

Os discípulos não fizeram nenhum gesto no sentido de se servirem uns aos outros. Jesus esperou por algum tempo a ver o que fariam. Então Ele, o divino Mestre, Se ergueu da mesa. Pondo de lado a veste exterior, que Lhe poderia estorvar os movimentos, tomou uma toalha e cingiu-Se. Com surpreendido interesse olhavam os discípulos, esperando em silêncio ver o que se ia seguir. “Depois deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos, e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido”. João 13:5. Esta ação abriu os olhos deles. Profunda vergonha e humilhação os possuiu. Entenderam a muda repreensão, e viram-se sob um aspecto inteiramente novo. DTN 457.1

Assim exprimiu Cristo Seu amor pelos discípulos. O espírito egoísta que os animava, encheu-O de pesar, mas não entrou em discussão com eles a respeito do caso. Deu-lhes em vez disso um exemplo que nunca esqueceriam. Seu amor a eles não se alterava nem esfriava facilmente. Sabia que o Pai entregara todas as coisas em Suas mãos, e que viera de Deus e ia para Deus. Tinha plena consciência de Sua divindade; mas pusera de lado a coroa real e as régias vestimentas, e tomara a forma de servo. Um dos últimos atos de Sua vida na Terra foi cingir-Se como servo, e desempenhar a parte de servo. DTN 457.2

Antes da páscoa, Judas se encontrara pela segunda vez com os sacerdotes e escribas, fechando o acordo de entregar Jesus em suas mãos. Todavia misturou-se depois com os discípulos como se fosse inocente de qualquer mal, interessando-se no preparo da festa. Os discípulos nada sabiam do desígnio de Judas. Unicamente Jesus podia ler-lhe o segredo. Não obstante, não o expôs. Jesus estava sequioso de sua alma. Sentia-Se por ele tão oprimido como por Jerusalém, quando chorara sobre a condenada cidade. Seu coração bradava: “Como posso renunciar a ti?” O empolgante poder daquele amor foi sentido por Judas. Quando as mãos do Salvador estavam lavando aqueles empoeirados pés, e enxugando-os com a toalha, o coração de Judas comoveu-se intensamente com o impulso de confessar no mesmo instante e ali mesmo o seu pecado. Mas não se queria humilhar. Endureceu o coração contra o arrependimento, e os velhos impulsos, no momento postos de lado, dominaram-no novamente. Judas escandalizou-se então com o ato de Cristo, de lavar os pés dos discípulos. Se Jesus assim Se humilhava, pensou, não podia ser o Rei de Israel. Estava destruída toda esperança de honra mundana num reino temporal. Judas ficou convencido de que nada tinha a ganhar por seguir a Cristo. Depois de O ver rebaixar a Si mesmo, segundo pensava, confirmou-se em seu propósito de negar a Cristo e confessar-se enganado. Foi possuído por um demônio, e resolveu completar a obra que concordara em fazer, entregando seu Senhor. DTN 457.3

Escolhendo sua posição à mesa, Judas procurara colocar-se em primeiro lugar, e Cristo, como servo, servira-o primeiro. João, para com quem Judas sentira tão grande amargura, foi deixado para o fim. Mas João não tomou isso como repreensão ou menosprezo. Observando os discípulos a ação de Cristo, sentiram-se sobremaneira comovidos. Ao chegar a vez de Pedro, exclamou ele com espanto: “Senhor, Tu lavas-me os pés a mim?” A condescendência de Cristo quebrantou-lhe o coração. Encheu-se de vergonha, ao pensar que um dos discípulos não estava fazendo esse serviço. “O que Eu faço”, disse Cristo, “não o sabes tu agora, mas tu o saberás depois”. João 13:7. Pedro não podia suportar ver seu Senhor, que Ele acreditava ser o Filho de Deus, fazendo o papel de um servo. Todo o seu ser ergueu-se em protesto contra essa humilhação. Não compreendia que para isso viera Cristo ao mundo. Com grande veemência, exclamou: “Nunca me lavarás os pés”. João 13:8. DTN 458.1

Solenemente disse Cristo a Pedro: “Se Eu te não lavar, não tens parte comigo.” O serviço que Pedro recusava, era símbolo de uma purificação mais elevada. Cristo viera para lavar o coração da mancha do pecado. Recusando deixar Cristo lavar-lhe os pés, Pedro estava recusando a purificação superior incluída na mais humilde. Estava na verdade rejeitando seu Senhor. Não é humilhante para o Mestre permitirmos-Lhe que trabalhe para nossa purificação. A verdadeira humildade é receber com coração agradecido qualquer providência tomada em nosso favor, e prestar fervoroso serviço a Cristo. DTN 458.2

Às palavras: “Se Eu te não lavar, não tens parte comigo”, Pedro subjugou seu orgulho e vontade própria. Não podia suportar a idéia de separar-se de Cristo; isto teria sido para ele a morte. “Não só os meus pés”, disse, “mas também as mãos e a cabeça. Disse-lhe Jesus: Aquele que está lavado não necessita de lavar senão os pés, pois no mais todo está limpo”. João 13:9, 10. DTN 458.3

Essas palavras querem dizer mais que a limpeza do corpo. Cristo está falando ainda da mais alta purificação, ilustrada pela menor. Aquele que viera do banho, estava limpo, mas os pés calçados de sandálias logo se encheram de pó, e necessitavam novamente de ser lavados. Assim Pedro e seus irmãos tinham sido lavados na grande fonte aberta para o pecado e a impureza. Cristo os reconhecia como Seus. Mas a tentação os levara ao mal, e necessitavam ainda de Sua graça purificadora. Quando Jesus Se cingira com a toalha para lhes lavar o pó dos pés, desejava, por aquele mesmo ato, lavar-lhes do coração a discórdia, o ciúme e o orgulho. Isso era de muito mais importância que a lavagem de seus empoeirados pés. Com o espírito que então os animava, nenhum deles estava preparado para a comunhão com Cristo. Enquanto não fossem levados a um estado de humildade e amor, não estavam preparados para participar na ceia pascoal, ou tomar parte na cerimônia comemorativa que Cristo estava para instituir. Seu coração devia ser limpo. O orgulho e o interesse egoísta criaram dissensão e ódio, mas tudo isso lavou Cristo ao lavar-lhes os pés. Operou-se uma mudança de sentimentos. Olhando para eles, Jesus podia dizer: “Vós estais limpos”. João 13:10. Agora havia união de coração, amor de um para com o outro. Tornaram-se humildes e dóceis. Com exceção de Judas, cada um estava disposto a conceder ao outro o mais alto lugar. Então, com coração submisso e grato, estavam aptos a receber as palavras de Cristo. DTN 458.4

Como Pedro e seus irmãos, também nós fomos lavados no sangue de Cristo; todavia muitas vezes, pelo contato com o mal, a pureza do coração é maculada. Devemos chegar a Cristo em busca de Sua purificadora graça. Pedro recuou ante a idéia de pôr em contato com as mãos de Seu Senhor e Mestre os pés menos limpos; mas quantas vezes pomos nosso coração pecaminoso, poluído, em contato com o coração de Cristo Quão ofensivo para Ele é nosso mau gênio, nossa vaidade e orgulho. Não obstante devemos levar-Lhe todas as nossas fraquezas e contaminação. Unicamente Ele nos pode lavar e deixar limpos. Não estamos preparados para a comunhão com Ele, a menos que sejamos limpos por Sua eficácia. DTN 459.1

Jesus disse aos discípulos: “Vós estais limpos, mas não todos”. João 13:10. Ele lavara os pés de Judas, que, porém, não Lhe entregara o coração. Este não estava purificado. Judas não se submetera a Cristo. DTN 459.2

Depois de haver lavado os pés dos discípulos, tomou Suas vestes e, sentando-Se outra vez, disse-lhes: “Entendeis o que vos tenho feito? Vós Me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque Eu o sou. Ora se Eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque vos dei o exemplo, para que, como vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou”. João 13:12-14. DTN 459.3

Cristo queria que Seus discípulos entendessem que, se bem que Ele lhes houvesse lavado os pés, isto em nada Lhe diminuía a dignidade. “Vós Me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque Eu sou”. João 13:13. E, sendo tão infinitamente superior, Ele comunicou graça e significação a esse serviço. Ninguém tão exaltado como Cristo, e todavia abaixou-Se até ao mais humilde dever. Para que Seu povo não fosse extraviado pelo egoísmo que habita no coração natural, e se fortaleça com o servir ao próprio eu, Cristo mesmo estabeleceu o exemplo da humildade. Não deixaria esse grande assunto a cargo do homem. De tanta conseqüência o considerava, que Ele próprio, igual a Deus, fez o papel de servo para com Seus discípulos. Enquanto eles contendiam pela mais alta posição, Aquele diante de quem todo joelho se dobrará, a quem os anjos da glória reputam uma honra servir, curvou-Se para lavar os pés daqueles que Lhe chamavam Senhor. Lavou os pés de Seu traidor. DTN 459.4

Em Sua vida e ensinos, Cristo deu um perfeito exemplo do abnegado ministério que tem sua origem em Deus. Deus não vive para Si. Criando o mundo, mantendo todas as coisas, Ele está constantemente ministrando em benefício de outros. “Faz que o Seu Sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos”. Mateus 5:45. Esse ideal de ministério confiou Deus a Seu Filho. A Jesus foi dado pôr-Se como cabeça da humanidade, para que por Seu exemplo pudesse ensinar o que significa servir. Toda a Sua vida esteve sob a lei do serviço. Serviu a todos, a todos ajudou. Assim viveu Ele a lei de Deus, e por Seu exemplo mostrou como podemos obedecer à mesma. DTN 459.5

Repetidamente procurara Jesus estabelecer este princípio entre os discípulos. Quando Tiago e João pediram para ser postos em destaque, disse: “Todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal”. Mateus 20:26. Em Meu reino não tem lugar o princípio de preferência ou supremacia. A grandeza única é a grandeza da humildade. A única distinção baseia-se na dedicação ao serviço dos outros. DTN 460.1

Depois, havendo lavado os pés aos discípulos, Ele disse: “Eu vos dei o exemplo, para que como Eu vos fiz, façais vós também”. João 13:15. Nestas palavras Cristo não somente estava ordenando a prática da hospitalidade. Queria significar mais do que a lavagem dos pés dos hóspedes para tirar-lhes o pó dos caminhos. Cristo estava aí instituindo um culto. Pelo ato de nosso Senhor, esta cerimônia humilhante tornou-se uma ordenança consagrada. Devia ser observada pelos discípulos, a fim de poderem conservar sempre em mente Suas lições de humildade e serviço. DTN 460.2

Essa ordenança é o preparo designado por Cristo para o serviço sacramental. Enquanto o orgulho, desinteligência e luta por superioridade forem nutridos, o coração não pode entrar em associação com Cristo. Não estamos preparados para receber a comunhão de Seu corpo e de Seu sangue. Por isso Jesus indicou que se observasse primeiramente a comemoração de Sua humilhação. DTN 460.3

Ao chegarem a esta ordenança, os filhos de Deus devem evocar as palavras do Senhor da vida e da glória: “Entendeis o que vos tenho feito? Vós Me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque Eu o sou. Ora se Eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns dos outros. Porque Eu vos dei o exemplo, para que, como Eu vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou. Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes”. João 13:16, 17. Existe no homem a disposição de se estimar em mais alta conta do que a seu irmão, de trabalhar para si mesmo, de procurar o mais alto lugar; e muitas vezes isso dá em resultado ruins suspeitas e amargura de espírito. A ordenança que precede à ceia do Senhor, deve remover esses desentendimentos, tirar o homem de seu egoísmo, fazê-lo baixar de seus tacões de exaltação própria à humildade de coração que o levará a servir a seu irmão. DTN 460.4

O santo Vigia do Céu acha-Se presente nesses períodos para torná-los uma ocasião de exame de consciência, de convicção de pecado, e de bendita segurança de pecados perdoados. Cristo, na plenitude de Sua graça, acha-Se aí para mudar a corrente dos pensamentos que têm seguido direções egoístas. O Espírito Santo aviva as sensibilidades dos que seguem o exemplo de seu Senhor. Ao ser lembrada a humilhação do Salvador por nós, pensamento liga-se a pensamento; evoca-se uma cadeia de lembranças, a recordação da grande bondade de Deus e do favor e ternura dos amigos terrestres. Bênçãos esquecidas, misericórdias de que se abusou, bondades menosprezadas são trazidas à memória. Patenteiam-se raízes de amargura que expulsaram a preciosa planta do amor. São trazidos à lembrança defeitos de caráter, negligência de deveres, ingratidão para com Deus, frieza para com nossos irmãos. O pecado é visto sob o aspecto por que o vê o próprio Deus. Nossos pensamentos não são de complacência com nós mesmos, mas de severa censura ao próprio eu, e de humilhação. Fortalece-se a mente para derribar toda barreira que tem causado separação. O pensar e falar mal são postos de lado. São confessados os pecados, e perdoados. Penetra na alma a subjugante graça de Cristo, e Seu amor liga os corações numa bendita unidade. DTN 460.5

Ao ser assim aprendida a lição do serviço preparatório, desperta-se o desejo de uma vida espiritual mais elevada. A esse desejo atenderá o divino Vigia. A alma será elevada. Podemos participar da comunhão com a consciência do perdão dos pecados. A luz da justiça de Cristo encherá as câmaras da mente e o templo da alma. Contemplamos “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. João 1:29. DTN 461.1

A todos quantos recebem o espírito deste serviço, ele nunca se poderá tornar uma simples cerimônia. Sua constante lição será: “Servi-vos uns aos outros pela caridade”. Gálatas 5:13. Ao lavar os pés aos discípulos, Cristo deu nova prova de que estaria disposto a fazer qualquer serviço, por mais humilde que fosse, que os tornasse co-herdeiros Seus da fortuna eterna do tesouro celeste. Seus discípulos, ao realizarem o mesmo rito, penhoram-se para servir de igual maneira aos seus irmãos. Sempre que essa ordenança é devidamente celebrada, os filhos de Deus são levados a uma santa relação uns para com os outros, para se ajudar e beneficiar mutuamente. Comprometem-se a dar a vida a um desinteressado ministério. E isto não somente uns pelos outros. Seu campo de labor é tão vasto como era o de Seu Mestre. O mundo está cheio de pessoas necessitadas de nosso ministério. Os pobres, os ignorantes, os desamparados, acham-se por toda parte. Aqueles que comungaram com Cristo no cenáculo, sairão para servir como Ele serviu. DTN 461.2

Jesus, o que era servido por todos, veio a tornar-Se Servo de todos. E porque ministrou a todos, por todos há de ser novamente servido e honrado. E os que quiserem partilhar de Seus divinos atributos, participando com Ele da alegria de ver almas redimidas, devem seguir-Lhe o exemplo de abnegado ministério. DTN 461.3

Tudo isso estava compreendido nas palavras de Cristo: “Eu vos dei o exemplo, para que, como Eu vos fiz, façais vós também”. João 13:15. Esse era o intuito do serviço por Ele estabelecido. E Ele diz: “Se sabeis estas coisas”, se sabeis o desígnio de Suas lições, “bem-aventurados sois se as fizerdes.”

 

Fonte: https://m.egwwritings.org/pt/book/1813.2825#2825 e https://m.egwwritings.org/pt/book/1813.2854

COMENTÁRIO SOBRE DTN, cap. 63-65 – semana do dia 09/09/2018

O povo de Deus é representado graficamente nestes três capítulos. Seja regozijando-se na ignorância do iminente sacrifício de Jesus ou possuindo a presunçosa certeza de ser um membro do povo escolhido, faz pouca diferença quanto ao resultado desastroso. Da mesma forma para nós hoje, o fato de possuirmos “a verdade” ou sermos ignorantes dela, faz pouca diferença se não estivermos ligados a Jesus.

Todo o Céu está intensamente focado em ajudar o povo de Deus a entender quem é Jesus, Seu amor que nâo desiste e Seu grande desejo de se conectar com cada um de nós em um nível pessoal. Pois somente através da conexão vital com Ele podemos alcançar a justiça que Ele deseja conceder a nós, tornando-nos aptos para o céu.

A surpreendente maldição de Cristo sobre a figueira traz uma advertência profunda e sóbria para nós hoje. Israel se destruiu ao rejeitar Jesus e, assim, perdeu sua proteção. Nós também temos a escolha de apenas parecer bem externamente, mas ser estéril e eternamente perdido; ou estar conectado com Jesus, produzindo o fruto do Espírito e vivendo vidas de serviço a Deus e ao Seu povo.

Limpar o templo de motivos e ações hostis ao propósito de Deus parece à primeira vista uma ação surpreendente de Jesus, ao contrário de Sua instrução usual e serviço amoroso. No entanto, uma vez expulsa a cobiça, a desonestidade e a grosseira representação do propósito de Deus, Jesus poderia novamente retomar Seu ministério de cura. Da mesma forma, uma vez que nos conectamos com Jesus e permitimos que Ele expulse as falhas de caráter dos templos de nossos corações, Ele está livre para fazer milagres de restauração e cultivar o fruto de Seu Espírito dentro de nós.

Eileen Van Tassel
Anciã da IASD Riverside, Camas
WA, EUA

 

Fonte: https://www.revivalandreformation.org/bhp/en/sop/da/63-64-65
Tradução: Jeferson Antonio Quimelli

O DESEJADO DE TODAS AS NAÇÕES, cap. 63-65

Capítulo 63 — “Eis que o teu rei virá”

Este capítulo é baseado em Mateus 21:1-11; Marcos 11:1-10; Lucas 19:29-44; João 12:12-19.

Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu Rei virá a ti, justo e Salvador, pobre, e montado sobre um jumento, sobre um asninho, filho de jumenta”. Zacarias 9:9.

Quinhentos anos antes do nascimento de Cristo, o profeta Zacarias assim predisse a vinda do Rei de Israel. Essa profecia devia então cumprir-se. Aquele que por tanto tempo recusara honras reais, vem agora a Jerusalém como o prometido herdeiro do trono de Davi. Foi no primeiro dia da semana que Jesus fez Sua entrada triunfal em Jerusalém. Multidões que haviam afluído a vê-Lo em Betânia, acompanharam-nO, ansiosos de Lhe testemunhar a recepção. Muita gente se achava a caminho de Jerusalém para celebrar a páscoa, e uniu-se à multidão que acompanhava Jesus. Toda a natureza parecia regozijar-se. As árvores estavam verdejantes, e as flores espargiam pelo ar um delicado aroma. O povo achava-se animado de nova vida e alegria. Surgia mais uma vez a esperança do novo reino. Determinado entrar a cavalo em Jerusalém, Jesus mandara dois dos discípulos buscarem para Ele uma jumenta e seu asninho. Por ocasião de Seu nascimento, o Salvador dependeu da hospitalidade de estranhos. A manjedoura em que esteve, foi um lugar de descanso emprestado. Agora, se bem que Seu seja todo o gado sobre milhares de colinas, depende da bondade de um estranho quanto a um animal em que entrar em Jerusalém como Rei. Novamente, porém, se manifesta Sua divindade, mesmo nas mínimas instruções dadas aos discípulos para o desempenho desse mandado. Como predissera, foi prontamente satisfeito o pedido: “O Senhor precisa deles”. Mateus 21:3. Jesus preferiu servir-Se do asninho em que nenhum homem jamais montara. Com alegre entusiasmo, estenderam os discípulos suas vestes sobre o animal e sobre ele sentaram o Mestre. Até então Jesus sempre viajara a pé, e a princípio os discípulos se admiraram de que agora preferisse montar. Mas a esperança lhes raiou no coração ao jubiloso pensamento de que Ele estava para entrar na capital, proclamar-Se Rei, e firmar Seu poder real. Ao irem cumprir as ordens recebidas, comunicaram sua alegre esperança aos amigos de Jesus, e a agitação espalhou-se por toda parte, fazendo com que subisse de ponto a expectação do povo. Cristo estava seguindo o costume judaico nas entradas reais. O animal que montava era o mesmo cavalgado pelos reis de Israel, e a profecia predissera que assim viria o Messias a Seu reino. Logo que Ele Se sentou no jumentinho, um grande grito de triunfo atroou nos ares. A multidão aclamou-O como o Messias, seu Rei. Jesus aceitou agora a homenagem que nunca antes permitira, e os discípulos consideraram isso como prova de que suas alegres esperanças se realizariam, vendo-O estabelecido no trono. O povo ficou convencido de aproximar-se a hora de sua emancipação. Em pensamento viram os exércitos romanos expulsos de Jerusalém, e Israel mais uma vez nação independente. Todos estavam contentes e despertos; disputavam entre si o render-Lhe honras. Não podiam exibir pompas e esplendores, mas prestaram-Lhe o culto de corações felizes. Não lhes era possível presenteá-Lo com dádivas custosas, mas estendiam as vestes exteriores à guisa de tapete em Seu caminho, e também espalharam ramos de oliveira e palmas por onde devia passar. Não podiam abrir o cortejo triunfal com bandeiras reais, mas cortavam ramos de palmeira, os emblemas de vitória da natureza, e os agitavam no ar com altas aclamações e hosanas. À medida que avançavam, aumentava sempre o povo com a reunião dos que tinham ouvido da vinda de Jesus e se apressavam a tomar parte no acompanhamento. Os espectadores continuamente se misturavam à turba, perguntando: Quem é Este? Que quer dizer toda essa agitação? Todos tinham ouvido falar de Jesus, e esperavam que fosse a Jerusalém; mas sabiam que até então Ele Se esquivara a qualquer esforço para O colocar no trono e ficavam muito surpreendidos de saber que este era Ele. Cogitavam que teria operado essa grande mudança nAquele que dissera que Seu reino não era deste mundo. Suas perguntas são abafadas por um grito de triunfo. Este é aqui e ali repetido pela turba despertada, acompanhado pelos mais distantes, e ecoado pelos montes e vales. E depois acresce a comitiva pelas massas vindas de Jerusalém. Das multidões reunidas para assistir à páscoa, milhares saem ao encontro de Jesus. Saúdam-nO com o agitar das palmas e cânticos sagrados. Os sacerdotes fazem soar, no templo, a trombeta para o serviço da tarde, mas poucos atendem, e os príncipes, alarmados, dizem entre si: “Eis que toda a gente vai após Ele”. João 12:19. Nunca antes, em Sua vida terrestre, permitira Jesus essa demonstração. Previa claramente o resultado. Levá-Lo-ia à cruz. Era, porém, Seu desígnio apresentar-Se assim publicamente como Redentor. Desejava chamar a atenção para o sacrifício que Lhe devia coroar a missão para com o mundo caído. Enquanto o povo estava reunido em Jerusalém para a celebração da páscoa, Ele, o Cordeiro de Deus, representado pelos sacrifícios simbólicos, voluntariamente Se pôs de parte como oblação. Seria necessário que Sua igreja, em todos os sucessivos séculos, fizesse de Sua morte pelos pecados do mundo assunto de profunda reflexão e estudo. Todos os fatos com ela relacionados deviam verificar-se de maneira a ficarem acima de qualquer dúvida. Era preciso, pois, que os olhos de todo o povo fossem então dirigidos para Ele; os acontecimentos que precederam Seu grande sacrifício deviam ser de molde a chamar a atenção para o próprio sacrifício. Depois de uma demonstração como a que acompanhou Sua entrada em Jerusalém, todos os olhos Lhe seguiram a rápida marcha para a cena final. Os acontecimentos relacionados com essa entrada triunfal constituiriam assunto de todas as bocas, e tornariam Jesus objeto das cogitações de todos os espíritos. Depois de Sua crucifixão, muitos recordariam estes fatos relacionados com Seu julgamento e morte. Seriam levados a pesquisar os escritos dos profetas e convencer-se-iam de que Jesus era o Messias; e multiplicar-se-iam em todas as terras os conversos à fé. Nessa triunfante cena de Sua vida terrestre, o Salvador poderia haver aparecido escoltado por anjos celestiais e anunciado pela trombeta de Deus; essa demonstração, no entanto, teria sido contrária ao desígnio de Sua missão, contrária à lei que Lhe governara a vida. Permaneceu fiel à sorte humilde que aceitara. Devia levar o fardo da humanidade até haver dado a vida pela vida do mundo. Esse dia, que se afigurava aos discípulos o mais glorioso de sua vida, ter-se-ia toldado de sombrias nuvens, soubessem eles que a cena de regozijo não era senão um prelúdio aos sofrimentos e à morte do Mestre. Embora Ele lhes houvesse repetidas vezes falado do sacrifício que certamente O aguardava, no alegre triunfo presente esqueceram Suas dolorosas palavras, e anteciparam-Lhe o próspero reino no trono de Davi. Novos acréscimos se iam fazendo continuamente à procissão, e com poucas exceções, todos quantos a ela se juntavam eram possuídos pelo entusiasmo do momento, avolumando os hosanas que ecoavam de monte em monte, de vale em vale. Subiam continuamente as aclamações: “Hosana ao Filho de Davi; bendito O que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas!” Marcos 11:9, 10. Nunca antes vira o mundo um cortejo triunfal como esse. Não se assemelhava ao dos famosos conquistadores da Terra. Não fazia parte daquela cena nenhuma comitiva de lamentosos cativos, como troféus da bravura real. Achavam-se em torno do Salvador os gloriosos troféus de Seus serviços de amor pelo homem caído. Estavam os cativos a quem resgatara do poder de Satanás, louvando a Deus por sua libertação. Os cegos a quem restituíra a vista, abriam a marcha. Os mudos cuja língua soltara, entoavam os mais altos hosanas. Saltavam de alegria os coxos por Ele curados, sendo os mais ativos em quebrar os ramos de palmeira e agitá-los diante do Salvador. As viúvas e os órfãos exaltavam o nome de Jesus pelos atos de misericórdia que lhes dispensara. Os leprosos a quem purificara, estendiam na estrada as vestes incontaminadas, ao mesmo tempo que O saudavam como Rei da glória. Aqueles a quem Sua voz despertara do sono da morte, tomavam parte no cortejo. Lázaro, cujo corpo provara a corrupção no sepulcro, mas que então se regozijava na força da varonilidade gloriosa, conduzia o animal que Jesus montava. Muitos fariseus testemunhavam a cena e, ardendo de inveja e malignidade, buscavam desviar a corrente dos sentimentos populares. Com toda a sua autoridade tentaram impor silêncio ao povo; mas seus apelos e ameaças não faziam senão aumentar o entusiasmo. Temeram que essa multidão, na força de seu número, fizesse Jesus rei. Como último recurso, avançaram por entre a turba até onde estava o Salvador, e abordaram-nO com palavras de censura e ameaça: “Mestre, repreende os Teus discípulos”. Lucas 19:39. Declararam não serem lícitas tão ruidosas manifestações, nem permitidas pelas autoridades. Foram, porém, reduzidos ao silêncio pela réplica de Jesus: “Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão”. Lucas 19:40. Aquela cena de triunfo era designada pelo próprio Deus. Fora predita pelo profeta, e o homem era impotente para impedir os Seus desígnios. Houvesse o homem deixado de executar Seu plano, e Ele teria comunicado voz às inanimadas pedras, que saudariam Seu Filho com aclamações de louvor. Ao retirarem-se os mudos fariseus, foram proferidas por centenas de vozes as palavras de Zacarias: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu Rei virá a ti, justo e salvador, pobre, e montado sobre um jumento, sobre um asninho, filho de jumenta”. Zacarias 9:9. Quando o cortejo chegou ao cimo da colina e estava para descer para a cidade, Jesus deteve-Se, e toda a multidão com Ele. Perante eles se descortinava Jerusalém em toda a sua glória, nesse momento banhada à luz do Sol poente. O templo atraiu todos os olhares. Em majestosa suntuosidade erguia-se ele acima de todos os outros edifícios, parecendo apontar para o Céu, como a dirigir o povo ao único e verdadeiro Deus. O templo fora, durante muito tempo, a glória e o orgulho da nação judaica. Também os romanos se orgulhavam de sua magnificência. Um rei designado pelos romanos se unira aos judeus para o restaurar e embelezar, e o imperador de Roma o enriquecera com suas dádivas. Sua firme estrutura, riqueza e magnificência o haviam tornado uma das maravilhas do mundo. Enquanto o Sol no Ocidente tingia e dourava o Céu, o resplendor de sua glória iluminava o puro e alvo mármore das paredes do templo, pondo-lhe cintilações nas áureas colunas. Do alto do monte onde Jesus parou com Seus seguidores, apresentava ele a aparência de maciça estrutura de neve, marchetado de capitéis de ouro. À entrada do templo achava-se uma videira de ouro e prata, com verdes folhagens e maciços cachos de uvas, executados pelos mais hábeis artistas. Esse desenho representava Israel como uma próspera vinha. O ouro, a prata e verde vivo eram combinados com raro gosto e consumada maestria; enlaçando graciosamente os alvos e luzentes pilares, agarrando-se com as brilhantes gavinhas a seus dourados ornamentos, refletia o esplendor do Sol poente, resplandecendo como se o Céu lhe houvera emprestado a sua glória. Jesus contempla a cena, e a multidão silencia suas aclamações, encantada com a súbita visão de beleza. Todos os olhos se volvem para o Salvador, esperando ver-Lhe no semblante a admiração por eles próprios experimentada. Ao contrário, no entanto, percebem-Lhe uma nuvem de tristeza. Surpreendem-se, decepcionam-se ao ver-Lhe os olhos marejados de lágrimas e o corpo oscilar como a árvore agitada pela tempestade, enquanto uma angustiosa queixa Lhe brota dos trêmulos lábios, como irrompendo das profundezas de um coração partido. Que cena aquela que se oferecia à contemplação dos anjos! Seu bem-amado Comandante em lágrimas de angústia! Que visão para a alegre turba que, com gritos de triunfo e agitar de palmas O escoltava à gloriosa cidade, onde — esperavam com ardor — iria Ele em breve reinar! Jesus chorara ao pé do sepulcro de Lázaro, mas fora numa divina mágoa de simpatia para com a humana dor. Esta súbita tristeza, porém, era qual nota de lamento em meio de um grande coro triunfal. Por entre uma cena de regozijo, em que todos Lhe tributavam homenagens, o Rei de Israel Se debulhava em lágrimas; não as silenciosas lágrimas da alegria, mas pranto e gemidos de inexprimível angústia. A turba sentiu-se repentinamente tomada de tristeza. Emudeceram-lhes as aclamações. Muitos choraram, possuídos de simpatia por um pesar que não podiam compreender. As lágrimas de Jesus não eram a antecipação de Seus próprios sofrimentos. Mesmo diante dEle achava-se o Getsêmani, onde em breve O envolveria o horror de uma grande treva. Estava à vista também a porta das ovelhas, pela qual, durante séculos, haviam sido conduzidos os animais destinados às ofertas sacrificais. Essa porta presto se abriria para Ele, o grande Cordeiro de Deus, a cujo sacrifício pelos pecados do mundo apontavam todas essas ofertas. Perto estava o Calvário, cenário de Sua próxima agonia. No entanto, não foi por causa desses pontos a lembrarem-Lhe a cruel morte que o Redentor chorou e gemeu em angústia de espírito. Não era uma dor egoísta, a Sua. O pensamento de Sua própria agonia não intimidava aquela nobre Alma pronta para o sacrifício. Foi a vista de Jerusalém que pungiu o coração de Jesus — Jerusalém, que rejeitara o Filho de Deus e Lhe desdenhara o amor, que recusara ser convencida por Seus poderosos milagres e estava prestes a tirar-Lhe a vida. Viu o que ela era, em sua culpa de rejeitar o Redentor, e o que poderia ter sido caso O houvesse aceitado a Ele, o único a poder-lhe curar a ferida. Viera para salvá-la; como poderia a ela renunciar? Israel fora um povo favorecido; Deus fizera de seu templo a Sua habitação; era “formoso de sítio, e alegria de toda a Terra”. Salmos 48:2. Aí se achava o registro de mais de mil anos do protetor cuidado e terno amor de Cristo, como de um pai tratando com um filho único. Naquele templo emitiram os profetas suas solenes advertências. Ali foram agitados os ardentes incensários, enquanto o incenso, de mistura com as orações dos adoradores, ascendera para Deus. Ali fluíra o sangue dos animais, tipo do sangue de Cristo. Ali manifestara Jeová sua glória sobre o propiciatório. Ali oficiaram os sacerdotes, e a pompa do símbolo e da cerimônia havia continuado por séculos. Tudo isso, porém, devia ter um fim. Jesus ergueu a mão — aquela mão que tantas vezes beneficiara os enfermos e sofredores — e movendo-a na direção da condenada cidade, em entrecortadas frases de dor, exclamou: “Ah! se tu soubesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence!” Lucas 19:42. Aí Se deteve o Salvador e deixou por dizer qual seria a condição de Jerusalém, houvesse ela aceito o auxílio que Deus lhe desejava dar — o dom de Seu bem-amado Filho. Se Jerusalém houvesse sabido o que era seu privilégio saber, e dado ouvidos à luz que o Céu lhe enviara, teria permanecido de pé no orgulho de sua prosperidade, rainha de reinos, livre na força do poder dado por seu Deus. Não teria havido soldados armados às suas portas, nem bandeiras romanas tremulando de seus muros. O glorioso destino que felicitaria Jerusalém, houvesse ela aceito o Redentor, surgiu aos olhos do Filho de Deus. Viu que, por meio dEle, seria ela curada de sua grave enfermidade, libertada da escravidão e estabelecida como a poderosa metrópole da Terra. De suas muralhas partiria a pomba da paz, em direção de todas as nações. Seria ela o diadema de glória do mundo. Mas a brilhante visão do que poderia haver sido Jerusalém se desvanece aos olhos do Salvador. Compreende o que ela é então, sob o jugo romano, sob o desagrado de Deus, condenada ao Seu juízo retribuidor. Reata o fio de Sua lamentação: “Mas agora isto está encoberto aos teus olhos. Porque dias virão sobre ti, em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todas as bandas, e te derribarão, a ti e aos teus filhos que dentro de ti estiverem; e não deixarão em ti pedra sobre pedra, pois que não conheceste o tempo da tua visitação”. Lucas 19:42-44. Cristo veio para salvar Jerusalém com seus filhos; mas o orgulho farisaico, a hipocrisia, a inveja e a maldade O impediram de realizar Seu desígnio. Jesus sabia a terrível retribuição com que seria visitada a condenada cidade. Viu Jerusalém cercada de exércitos, os sitiados habitantes levados à fome e à morte, mães alimentando-se do corpo morto dos próprios filhos, e tanto pais como filhos arrebatando um ao outro o último pedaço de pão, destruída a afeição natural pelas corrosivas angústias da fome. Viu que a obstinação dos judeus, segundo se evidenciava no rejeitar da salvação por Ele oferecida, os levaria também a recusar submissão aos exércitos invasores. Contemplou o Calvário, no qual havia de ser erguido, tão densamente coalhado de cruzes como de árvores uma floresta. Viu os infelizes habitantes sofrendo em instrumentos de tortura e mediante crucifixão, destruídos os belos palácios, o templo em ruínas, e de seus maciços muros nem uma pedra deixada sobre outra, enquanto a cidade era arada como um campo. Bem podia o Salvador chorar em face de tão terrível cena! Jerusalém fora a filha de Seus cuidados, e como um terno pai pranteia um filho extraviado, assim chorava Jesus sobre a bem-amada cidade. Como posso renunciar a ti? Como te posso ver votada à destruição? Deverei deixar-te encher o cálice de tua iniqüidade? Uma alma é de tanto valor que, em comparação com ela, os mundos desmerecem até à insignificância; mas ali estava toda uma nação para se perder! Quando o Sol, em declínio rápido se ocultasse no céu ocidental, terminaria o dia de graça de Jerusalém. Quando a comitiva se detinha no cimo do Olivete, não era ainda demasiado tarde para Jerusalém se arrepender. O anjo da misericórdia dobrava então as asas para descer do áureo trono, a fim de dar lugar à justiça e ao juízo prestes a vir. Mas o grande coração amorável de Cristo intercedia ainda por Jerusalém, que Lhe escarnecera as misericórdias, desprezando as advertências, e estava a ponto de mergulhar as mãos em Seu sangue. Se tão-somente Jerusalém se arrependesse, não seria ainda demasiado tarde. Enquanto os últimos raios do Sol poente pairavam sobre o templo, as torres e cúpulas, não a levaria algum anjo bom ao amor do Salvador, desviando-lhe a condenação? Formosa e ímpia cidade, que apedrejara os profetas, que rejeitara o Filho de Deus, que por sua impenitência se prendia em cadeias de servidão — seu dia de graça estava quase passado! Todavia, novamente o Espírito de Deus fala a Jerusalém. Antes do fim do dia é dado outro testemunho em favor de Cristo. Ergue-se a voz desse testemunho, em correspondência com o chamado de um passado profético. Se Jerusalém atender ao chamado, se receber o Salvador que lhe está entrando pelas portas, poderá ainda ser salva. Aos ouvidos dos guias, em Jerusalém, chegam as notícias de que Jesus Se aproxima da cidade, com grande ajuntamento de povo. Mas eles não têm bom acolhimento para oferecer ao Filho de Deus. Saem-Lhe ao encontro com temor, esperando dispersar a turba. Quando o cortejo está para descer o Monte das Oliveiras, é interceptado pelos principais. Indagam a causa do tumultuoso regozijo. Ao perguntarem: “Quem é Este?” os discípulos possuídos de inspiração, respondem. Em eloqüentes acentos, repetem as profecias concernentes a Cristo: Adão vos dirá: É a semente da mulher que há de esmagar a cabeça da serpente. Perguntai a Abraão, ele vos afirmará: “É Melquisedeque, Rei de Salém” (Gênesis 14:18), Rei de Paz. Dir-vos-á Jacó: É Siló, da tribo de Judá. Isaías vos declarará: “Emanuel” (Isaías 7:14), “Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”. Isaías 9:6. Jeremias vos há de afirmar: O Renovo de Davi, “o Senhor, Justiça Nossa”. Jeremias 23:6. Afirmar-vos-á Daniel: É o Messias. Oséias vos dirá: É “o Senhor, o Deus dos Exércitos; o Senhor é o Seu memorial”. Oséias 12:5. Exclamará João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. João 1:29. O grande Jeová proclamou de Seu trono: “Este é o Meu Filho amado”. Mateus 3:17. Nós, Seus discípulos, declaramos: Este é Jesus, o Messias, o Príncipe da vida, o Redentor do mundo. E o príncipe das potestades da trevas O reconhece, dizendo: “Bem sei quem és: o Santo de Deus”. Marcos 1:24.

Capítulo 64 — Um povo condenado

Este capítulo é baseado em Marcos 11:11-14; Mateus 21:17-19.

A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém foi um imperfeito símbolo da Sua vinda nas nuvens do céu com poder e glória, por entre as aclamações dos anjos e o regozijo dos santos. Então, cumprir-se-ão as palavras de Cristo aos fariseus: “Desde agora Me não vereis mais, até que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor”. Mateus 23:39. Em visão profética, foi mostrado a Zacarias aquele dia de triunfo final; e ele viu também a condenação dos que, no primeiro advento, rejeitaram a Cristo: “E olharão para Mim, a quem traspassaram; e O prantearão como quem pranteia por um unigênito; e chorarão amargamente por Ele, como se chora amargamente pelo primogênito”. Zacarias 12:10. Esta cena anteviu Cristo quando contemplou a cidade e chorou sobre ela. Na ruína temporal de Jerusalém viu Ele a final destruição daquele povo que era culpado do sangue do Filho de Deus.

Os discípulos notavam o ódio dos judeus para com Cristo, mas não viam ainda até aonde ele os levaria. Não compreendiam ainda a verdadeira condição de Israel, nem entendiam a retribuição que estava impendente sobre Jerusalém. Isto lhes revelou Cristo mediante significativa lição prática. O último apelo a Jerusalém fora em vão. Os sacerdotes e principais tinham ouvido a voz profética do passado ecoando através da multidão, em resposta à pergunta: “Quem é Este?” mas não a aceitaram como sendo a voz da inspiração. Irados, confundidos, procuraram fazer silenciar o povo. Havia oficiais romanos entre a turba, e os inimigos de Jesus O denunciaram aos mesmos como chefe de uma rebelião. Apresentaram-nO como estando para Se apoderar do templo, e dominar como rei de Jerusalém. Mas a voz calma de Jesus fez por momentos silenciar a multidão clamorosa, enquanto declarava não ter vindo estabelecer um reino temporal; havia de subir em breve a Seu Pai, e Seus acusadores não mais O veriam, até que volvesse em glória. Então, demasiado tarde para sua salvação, O reconheceriam. Estas palavras, proferiu-as Jesus com tristeza e vigor singulares. Os funcionários romanos foram reduzidos ao silêncio. Ainda que estranhos à divina influência, comoveu-se-lhes o coração como nunca antes. No calmo e solene rosto de Jesus, leram amor, benevolência e serena dignidade. Foram possuídos de uma simpatia que não podiam compreender. Ao invés de prender a Jesus, sentiram-se mais inclinados a render-Lhe homenagem. Voltando-se para os sacerdotes e principais, acusaram-nos de criar o distúrbio. Esses chefes, envergonhados e derrotados, viraram-se para o povo com suas queixas e questionaram, zangados, uns com os outros. Entretanto, passou Jesus despercebidamente para o templo. Tudo ali estava tranqüilo, pois a cena sobre o Olivete para lá atraíra o povo. Por breve espaço demorou-Se Jesus no templo, olhando-o dolorosamente. Depois, retirou-Se com os discípulos e voltou para Betânia. Quando o povo O procurou para colocá-Lo no trono, não O pôde achar. Toda a noite passou Jesus em oração, e pela manhã, tornou a ir ao templo. No caminho encontrou um figueiral. Tinha fome, “e vendo de longe uma figueira que tinha folhas, foi ver se nela acharia alguma coisa; e, chegando a ela, não achou senão folhas, porque não era tempo de figos”. Marcos 11:13. Não era estação de figos maduros, senão em certas localidades; e nas montanhas das cercanias de Jerusalém podia-se na verdade dizer: “Não era tempo de figos”. Marcos 11:13. No pomar a que Jesus chegou, porém, uma árvore parecia adiantada a todas as demais. Estava já coberta de folhas. A natureza da figueira é que, antes de se abrirem as folhas, apareça o fruto. Portanto, essa árvore cheia de folhagem era uma promessa de bem desenvolvidos frutos. Sua aparência, porém, era enganosa. Depois de procurar entre os ramos, dos mais baixos aos mais altos, Jesus “não achou senão folhas”. Era uma massa de pretensiosa folhagem, nada mais. Cristo proferiu contra ela uma maldição, para que secasse. “Nunca mais coma alguém fruto de ti”, disse Ele. Na manhã seguinte, quando Ele e os discípulos se achavam outra vez a caminho para a cidade, os ressequidos ramos e as folhas caídas atraíram-lhes a atenção. “Mestre”, disse Pedro, “eis que a figueira que Tu amaldiçoaste, se secou”. Marcos 11:21. O ato de Cristo em amaldiçoar a figueira, surpreendera os discípulos. Parecia-lhes diverso de Suas maneiras e obras. Muitas vezes O tinham ouvido dizer que viera, não para condenar o mundo, mas para que por meio dEle o mundo se pudesse salvar. Lembravam-se de Suas palavras: “O Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las”. Lucas 9:56. Suas maravilhosas obras foram realizadas para restaurar, nunca para destruir. Os discípulos O haviam conhecido unicamente como o Restaurador, o Médico. Esse ato era único. Qual seria seu desígnio? indagaram. Deus “tem prazer na benignidade”. Miquéias 7:18. “Vivo Eu, diz o Senhor Jeová, que não tomo prazer na morte do ímpio”. Ezequiel 33:11. Para Ele a obra de destruição e acusação é uma “estranha obra” (Isaías 28:21), Trad. Figueiredo. Mas é em misericórdia e amor que ergue o véu do futuro, e revela aos homens os resultados de um caminho de pecado. A maldição da figueira foi uma parábola viva. Aquela árvore estéril, ostentando sua pretensiosa folhagem ao próprio rosto de Cristo, era um símbolo da nação judaica. O Salvador desejava tornar claras aos Seus discípulos a causa e a certeza da condenação de Israel. Para esse fim como que investiu a árvore de qualidades morais, e tornou-a expositora da verdade divina. Os judeus distinguiam-se de todas as outras nações, professando fidelidade para com Deus. Haviam sido especialmente favorecidos por Ele, e pretendiam ser mais justos que todos os outros povos. Mas estavam corrompidos pelo amor do mundo e a avareza. Jactanciavam-se de seu conhecimento, mas eram ignorantes das reivindicações divinas, e cheios de hipocrisia. Como a árvore estéril, estendiam os pretensiosos ramos para o alto, luxuriantes na aparência, belos à vista, mas não dando “senão folhas”. A religião judaica, com o magnificente templo, os altares sagrados, os sacerdotes mitrados e cerimônias impressionantes, era na verdade bela na aparência exterior; faltavam-lhe, porém, humildade, amor e beneficência. Todas as árvores do figueiral se achavam destituídas de fruto; as que não ostentavam folhas, no entanto, não suscitavam esperanças, não causando assim decepção. Essas árvores representavam os gentios. Eram tão destituídos de piedade como os judeus; mas não tinham professado servir a Deus. Não mostravam vangloriosas pretensões de bondade. Eram cegos às obras e caminhos divinos. Para eles não chegara ainda o tempo dos figos. Esperavam um dia que lhes trouxesse luz e esperança. Os judeus, que haviam recebido maiores bênçãos de Deus, eram responsáveis por seus abusos dos mesmos dons. Os privilégios de que se jactanciavam, só lhes acrescentavam a culpa. Jesus Se aproximara da figueira com fome, em busca de alimento. Assim chegou Ele a Israel, ansioso de neles encontrar os frutos da justiça. Prodigalizara-lhes Seus dons, a fim de que dessem frutos para benefício do mundo. Toda oportunidade, todo privilégio lhes fora assegurado, e em troca buscara a simpatia e a cooperação deles em Sua obra de graça. Anelava achar neles espírito de sacrifício e compaixão, zelo de Deus e profunda ansiedade de alma pela salvação de seus semelhantes. Houvessem eles guardado a lei divina, e teriam realizado a mesma obra abnegada feita por Cristo. Mas o amor para com Deus e os homens foi eclipsado pelo orgulho e a presunção. Trouxeram ruína sobre si mesmos, por se recusarem a servir aos outros. Os tesouros da verdade que lhes foram confiados, não os deram eles ao mundo. Na figueira estéril poderiam ler tanto o seu pecado como o seu castigo. Seca à maldição do Salvador, apresentando-se queimada, ressequida desde as raízes, a figueira mostrava o que seria o povo de Israel quando dele fosse retirada a graça divina. Recusando-se a comunicar bênção, não mais a receberiam. “A tua perdição, ó Israel”, diz o Senhor, “toda vem de ti”. Oséias 13:9. A advertência é para todos os tempos. O ato de Cristo em amaldiçoar a árvore que Seu próprio poder criara, fica como aviso para todas as igrejas e todos os cristãos. Ninguém pode viver a lei divina sem servir aos outros. Mas há muitos que não vivem segundo a misericordiosa, abnegada vida de Cristo. Alguns que se julgam excelentes cristãos não compreendem o que significa o serviço para Deus. Seus planos e cogitações têm por fim agradar a si mesmos. Agem sempre com referência a si próprios. O tempo só é de valor para eles quando podem ajuntar para si mesmos. Em todos os negócios da vida, é esse o seu objetivo. Trabalham não para os outros, mas para si mesmos. Deus os criou para viverem num mundo onde deve ser executado serviço altruísta. Era Seu desígnio que ajudassem a seus semelhantes por todos os modos possíveis. Mas é tão grande o eu que não podem ver nenhuma outra coisa. Não se põem em contato com a humanidade. Os que assim vivem para si, são como a figueira, toda presunção, mas sem frutos. Observam as formas de culto, mas sem arrependimento nem fé. Em profissão, honram a lei divina, mas faltam na obediência. Dizem, mas não fazem. Na sentença proferida contra a figueira, demonstra Cristo quão aborrecível é a Seus olhos essa vã pretensão. Diz Ele que o pecador declarado é menos culpado do que o que professa servir a Deus, mas não produz fruto para Sua glória. A parábola da figueira, dita antes da visita de Cristo a Jerusalém, ligava-se diretamente à lição por Ele ensinada no amaldiçoar a árvore sem fruto. O jardineiro intercedeu pela árvore estéril da parábola: “Deixa-a este ano, até que eu a escave e esterque; e, se der fruto, ficará, e, se não, depois a mandarás cortar.” Maior cuidado seria concedido à árvore estéril. Teria todas as vantagens. Mas se permanecesse infrutífera, coisa alguma a salvaria da destruição. Na parábola não foi predito o resultado da obra do jardineiro. Dependia do povo a quem eram dirigidas as palavras de Cristo. Os judeus eram representados pela árvore estéril, e com eles ficava a decisão de seu destino eterno. Foram-lhes concedidas as vantagens que o Céu lhes podia dar, mas não aproveitaram as crescentes bênçãos. Pelo ato de Cristo em amaldiçoar a figueira estéril, mostrou-se o resultado. Determinaram eles sua própria destruição. Por mais de um milênio abusara a nação judaica da misericórdia de Deus e atraíra Seus juízos. Rejeitaram-Lhe as advertências e mataram-Lhe os profetas. Por esses pecados tornou-se responsável o povo do tempo de Cristo, seguindo o mesmo caminho. Na rejeição de suas presentes misericórdias e advertências, residia a culpa daquela geração. Com as cadeias que a nação estivera por séculos a forjar, o povo do tempo de Cristo prendera a si mesmo. Em todos os séculos se concede aos homens seu período de luz e privilégios, um tempo de prova, em que se podem reconciliar com Deus. Há, porém, um limite a essa graça. A misericórdia pode interceder por anos e ser negligenciada e rejeitada; vem, porém, o tempo em que essa misericórdia faz sua última súplica. O coração torna-se tão endurecido que cessa de atender ao Espírito Santo de Deus. Então a suave, atraente voz não mais suplica ao pecador, e cessam as reprovações e advertências. Chegara aquele dia para Jerusalém. Jesus chorou em agonia sobre a condenada cidade, mas não a podia livrar. Esgotaria todos os recursos. Rejeitando o Espírito de Deus, Israel rejeitara o único meio de auxílio. Nenhum outro poder havia pelo qual pudesse ser libertado. A nação judaica era um símbolo do povo de todos os séculos, que desdenha os rogos do Infinito Amor. As lágrimas de Cristo, ao chorar sobre Jerusalém, foram derramadas pelos pecados de todos os tempos. Nos juízos proferidos contra Israel, os que rejeitam as reprovações e advertências do Santo Espírito de Deus podem ler sua própria condenação. Há nesta geração muitos que estão trilhando o mesmo caminho dos incrédulos judeus. Testemunharam as manifestações do poder de Deus; o Espírito Santo lhes falou ao coração; apegam-se, porém, a sua incredulidade e resistência. Deus lhes envia advertências e repreensões, mas não querem confessar seus erros, e rejeitam-Lhe a mensagem e o mensageiro. Os próprios meios que Ele emprega para sua restauração, tornam-se para eles em pedra de tropeço. Os profetas de Deus eram aborrecidos pelo apóstata Israel, porque por intermédio deles se revelavam seus pecados ocultos. Acabe considerava Elias inimigo, porque o profeta era fiel em repreender as secretas iniqüidades do rei. Assim hoje o servo de Cristo, o reprovador do pecado, encontra desdém e repulsas. A verdade bíblica, a religião de Cristo, luta contra uma forte corrente de impureza moral. O preconceito é mesmo mais forte no coração dos homens agora do que nos dias de Jesus. Ele, Cristo, não realizou as expectações dos homens; sua vida foi uma repreensão aos pecados deles, e O rejeitaram. Assim hoje a verdade da Palavra de Deus não se harmoniza com as práticas dos homens, com sua inclinação natural, e milhares lhe rejeitam a luz. Os homens, instigados por Satanás, lançam dúvidas sobre a Palavra de Deus e procuram exercer seu independente juízo. Preferem as trevas à luz, mas fazem-no com perigo para a própria alma. Os que sofismavam às palavras de Cristo, encontravam cada vez mais motivo para sofismar, até que se desviaram da Verdade e da Vida. Assim é agora. Deus não Se propõe a remover toda objeção que o coração carnal possa trazer contra Sua verdade. Aos que recusam os preciosos raios da luz que haviam de iluminar as trevas, os mistérios da Palavra de Deus permanecerão para sempre mistérios. Deles é oculta a verdade. Caminham cegamente, e ignoram a ruína que se acha perante eles. Do alto do Olivete, Cristo contemplou o mundo em todos os séculos, e Suas palavras são aplicáveis a toda a alma que desdenha as súplicas da divina misericórdia. Desdenhador de Seu amor, Ele hoje Se dirige a ti. És tu, tu mesmo que deves conhecer as coisas que pertencem à tua paz. Cristo está vertendo amargas lágrimas por ti, que não tens lágrimas para verter por ti mesmo. Já se manifesta em ti aquela fatal dureza de coração que destruiu os fariseus. E toda prova da graça divina, todo raio de divina luz, ou está abrandando e subjugando a alma, ou confirmando-a em sua desesperada impenitência. Cristo previu que Jerusalém permaneceria endurecida e impenitente; entretanto, toda a culpa, todas as consequências da rejeitada misericórdia, jaziam-lhe à própria porta. Assim se dará com toda alma que segue a mesma orientação. O Senhor declara: “A tua perdição, ó Israel, toda vem de ti”. Oséias 13:9. “Ouve tu, ó Terra! Eis que Eu trarei mal sobre este povo, o próprio fruto dos seus pensamentos; porque não estão atentos às Minhas palavras, e rejeitam a Minha lei”. Jeremias 6:10.

Capítulo 65 — O templo novamente purificado

Este capítulo é baseado em Mateus 21:12-16, 23-46; Marcos 11:15-19, 27-33; 12:1-12; Lucas 19:45-48; 20:1-19.

No princípio de Seu ministério, Cristo expulsara do templo os que o manchavam por seu profano tráfico; e Sua atitude severa e divina enchera de terror o coração dos astutos comerciantes. Ao fim de Sua missão, foi Ele outra vez ao templo e encontrou-o de novo profanado como antes. As condições eram ainda piores. O pátio do templo estava como um vasto curral de gado. Com os berros dos animais e o agudo tinir das moedas, misturava-se o som de iradas altercações entre os traficantes, e ouviam-se entre eles vozes de homens no sagrado ofício. Os dignitários do templo empenhavam-se, eles próprios, em comprar e vender, e trocar dinheiro. Tão completamente se achavam dominados pela cobiça de lucro que, aos olhos de Deus, não eram melhores que ladrões.

Pouco percebiam os sacerdotes e principais a solenidade da obra que lhes cumpria realizar. Em toda páscoa e festa dos tabernáculos, milhares de animais eram mortos, e seu sangue recolhido pelos sacerdotes e derramado sobre o altar. Os judeus familiarizaram-se com a oferta de sangue e quase perderam de vista o fato de ser o pecado o que tornava necessário todo esse derramamento de sangue de animais. Não discerniam que isso prefigurava o sangue do querido Filho de Deus, que seria derramado pela vida do mundo, e que pela oferta de sacrifícios deviam os homens ser levados ao crucificado Redentor. Jesus olhava as inocentes vítimas do sacrifício, e via como os judeus haviam tornado essas grandes convocações cenas de derramamento de sangue e de crueldade. Em lugar de humilde arrependimento pelo pecado, multiplicaram o sacrifício de animais, como se Deus pudesse ser honrado por um serviço destituído de coração. Os sacerdotes e principais endureceram a alma pelo egoísmo e a avareza. Os próprios símbolos que indicavam o Cordeiro de Deus, haviam eles transformado num meio de ganho. Assim, aos olhos do povo fora destruída, em grande parte, a santidade do serviço sacrifical. Despertou-se a indignação de Jesus; sabia que Seu sangue, tão próximo a ser vertido pelos pecados do mundo, seria tão pouco apreciado pelos sacerdotes e anciãos, como o dos animais, que derramavam incessantemente. Contra tais práticas falara Cristo por meio dos profetas. Dissera Samuel: “Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à Palavra do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender melhor é do que a gordura de carneiros”. 1 Samuel 15:22. E Isaías, vendo em visão profética a apostasia dos judeus, a eles se dirigiu como príncipes de Sodoma e Gomorra: “Ouvi a Palavra do Senhor, príncipes de Sodoma; prestai ouvidos à lei do nosso Deus, vós, ó povo de Gomorra. De que Me serve a Mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o Senhor? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e de gordura de animais nédios; e não folgo com o sangue dos bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecerdes diante de Mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis pisar os Meus átrios?” “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos Meus olhos; cessai de fazer mal; aprendei a fazer bem; praticai o que é reto; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão, tratai da causa das viúvas”. Isaías 1:10-12, 16, 17. Aquele mesmo que dera essas profecias, repetia agora, pela última vez, a advertência. Em cumprimento da profecia, o povo proclamara Jesus rei de Israel. Ele lhes recebera as homenagens, e aceitara a posição de rei. Nesse caráter devia agir. Sabia que seriam nulos Seus esforços para reformar um sacerdócio corrompido; não obstante, essa obra precisava ser feita; tinha de ser dada a um povo incrédulo a prova de Sua divina missão. Novamente o penetrante olhar de Jesus percorreu o profanado pátio do templo. Todos os olhares estavam voltados para Ele. Sacerdotes e principais, fariseus e gentios, olhavam com surpresa e respeito para Aquele que Se achava diante deles com a majestade do Rei do Céu. A divindade irrompeu da humanidade, revestindo Cristo de uma dignidade e glória que jamais manifestara. Os que se achavam mais próximos dEle afastaram-se o mais que lhes permitia a multidão. Não fosse a presença de alguns de Seus discípulos, e o Salvador Se encontraria como isolado. Todos os sons cessaram. Parecia insuportável o profundo silêncio. Cristo falou com um poder que dominou o povo como uma forte tempestade: “Está escrito: A Minha casa é casa de oração; mas vós fizestes dela covil de salteadores”. Lucas 19:46. Sua voz soou como trombeta através do templo. O desagrado de Sua fisionomia assemelhava-se a um fogo consumidor. Com autoridade, ordenou: “Tirai daqui estes.” Três anos antes, os dirigentes do templo haviam-se envergonhado de sua fuga à ordem de Jesus. Sempre se admiraram depois, de seus temores e de sua obediência sem réplica a um simples, humilde homem. Julgaram ser impossível repetir-se a humilhante submissão. Ficaram, todavia, ainda mais aterrados agora que antes e mais apressados em obedecer-Lhe à ordem. Não houve ninguém que ousasse questionar-Lhe a autoridade. Sacerdotes e comerciantes fugiram-Lhe da presença, tangendo adiante o gado. Ao saírem do templo, encontraram no caminho uma multidão que trazia os enfermos, indagando pelo grande Médico. As notícias dadas pelos que fugiam, fizeram com que alguns desses voltassem atrás. Temiam encontrar Alguém tão poderoso, cujo simples olhar afugentara de Sua presença os sacerdotes e principais. O maior número, porém, avançou por entre a multidão apressada, ansiosos de encontrar Aquele que era sua única esperança. Ao fugir do templo a multidão, muitos ficaram atrás. A esses se reuniram então os recém-vindos. Novamente o pátio do templo se encheu de doentes e moribundos, e mais uma vez, Jesus os socorreu. Depois de algum tempo, os sacerdotes e líderes se aventuraram a voltar ao templo. Acalmado o pânico, sentiram-se presa de ansiedade quanto ao que iria Jesus fazer em seguida. Esperavam que tomasse o trono de Davi. Voltando silenciosamente ao templo, ouviram vozes de homens e mulheres e crianças louvando a Deus. Ao entrar, ficaram paralisados diante da maravilhosa cena. Viram os enfermos curados, os cegos restaurados à vista, os surdos ouvindo, e os coxos saltando de prazer. As crianças superavam os demais no regozijo. Jesus lhes curara as moléstias; enlaçara-as nos braços, recebera-lhes os beijos de reconhecido afeto, e algumas delas haviam adormecido em Seu peito, ao ensinar Ele a multidão. Agora, com alegres vozes, os pequenos Lhe entoavam o louvor. Repetiam os hosanas da véspera, e triunfalmente agitavam palmas diante do Salvador. O templo ecoava e reecoava às suas aclamações: “Bendito o que vem em nome do Senhor”! Salmos 118:26. “Eis que o teu Rei virá a ti, justo e Salvador!” Zacarias 9:9. “Hosana ao Filho de Davi!” O som dessas felizes, irreprimidas vozes foi uma ofensa para os dirigentes do templo. Decidiram-se a fazer calar essas demonstrações. Disseram ao povo que a casa de Deus era profanada pelos pés das crianças e suas aclamações de júbilo. Verificando que suas palavras não causavam impressão no povo, voltaram-se os sacerdotes para Cristo: “Ouves o que estes dizem? E Jesus lhes disse: Sim; nunca lestes: pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor?” Mateus 21:16. Predissera a profecia que Cristo seria proclamado rei, e essa palavra se devia cumprir. Os sacerdotes e principais de Israel recusaram anunciar Sua glória, e Deus moveu as crianças para Lhe servirem de testemunhas. Silenciassem as vozes infantis, e os próprios pilares do templo entoariam o louvor do Salvador. Os fariseus ficaram inteiramente perplexos e desconcertados. Alguém que não podiam intimidar, achava-Se com a direção. Jesus tomara Sua posição de guarda do templo. Nunca antes assumira essa régia autoridade. Nunca antes haviam Suas palavras e ações possuído tão grande poder. Fizera maravilhosas obras por toda Jerusalém, mas nunca antes por maneira tão solene e impressiva. Em presença do povo que Lhe testemunhara as maravilhosas obras, os sacerdotes e principais não ousavam hostilizá-Lo abertamente. Conquanto zangados e confundidos por Sua resposta, não foram capazes de fazer qualquer coisa mais naquele dia. Na manhã seguinte, o Sinédrio considerou novamente a atitude que devia tomar para com Jesus. Três anos antes, tinham pedido um sinal de Sua messianidade. Desde então realizara Ele poderosas obras por toda a Terra. Curara os enfermos, alimentara miraculosamente milhares de pessoas, caminhara sobre as ondas, e Sua palavra impusera calma ao revoltado mar. Repetidamente lera o coração dos homens como um livro aberto; expulsara demônios e ressuscitara mortos. Os principais tinham diante de si as provas de Sua messianidade. Decidiram então não pedir nenhum sinal de Sua autoridade, mas tirar dEle qualquer confissão ou declaração que O pudessem condenar. Dirigindo-se ao templo, onde Ele estava ensinando, puseram-se a interrogá-Lo: “Com que autoridade fazes isto? e quem Te deu tal autoridade?” Mateus 21:23. Esperavam que Ele declarasse proceder de Deus Sua autoridade. Essa afirmação intentavam negar. Mas Jesus os enfrentou com outra interrogação, aparentemente ligada a assunto diverso, e tornou Sua resposta dependente da que eles dessem a essa pergunta. “O batismo de João”, disse Ele, “de onde era? Do Céu, ou dos homens?” Mateus 21:25. Viram os sacerdotes encontrar-se diante de um dilema do qual nenhum sofisma os podia livrar. Se dissessem que o batismo de João era do Céu, tornar-se-ia patente sua incoerência. Cristo diria: Então por que não o crestes? João testificara de Cristo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. João 1:29. Se os sacerdotes acreditassem no testemunho de João, como poderiam negar a messianidade de Cristo? Se declarassem sua crença real, de que o ministério de João era dos homens, trariam sobre si mesmos uma tempestade de indignação; pois o povo acreditava que João era profeta. Com vivo interesse aguardava o povo a decisão. Sabia que os sacerdotes haviam professado aceitar o ministério de João, e esperavam que reconhecessem indiscutivelmente que fora enviado por Deus. Mas depois de conferenciarem em segredo entre si, decidiram não se comprometer. Professando hipocritamente ignorância, disseram: “Não sabemos.” “Nem Eu vos digo com que autoridade faço isto” (Mateus 21:27), disse Jesus. Escribas, sacerdotes e principais ficaram todos em silêncio. Confundidos e decepcionados, quedaram cabisbaixos, não ousando insistir em interrogar a Cristo. Por sua covardia e indecisão haviam, em grande medida, perdido o respeito do povo, que se achava então ao lado, divertido de ver derrotados esses orgulhosos homens, cheios de justiça própria. Todas essas palavras e atos de Cristo eram importantes, e sua influência devia ser experimentada em grau sempre crescente depois de Sua crucifixão e ascensão. Muitos dos que tinham esperado ansiosamente o resultado da pergunta de Jesus, afinal se tornariam discípulos Seus, havendo sido pela primeira vez atraídos a Ele naquele dia cheio de acontecimentos. A cena do pátio do templo nunca mais se apagaria da memória deles. Era assinalado o contraste entre Jesus e o sumo sacerdote, quando juntos falavam. O orgulhoso dignitário do templo estava trajado de ricas e custosas vestimentas. Tinha na cabeça uma brilhante tiara. Seu porte era majestoso, os cabelos e a longa barba prateados pela idade. Sua aparência enchia de respeito os que o viam. Perante essa augusta personagem, achava-Se a Majestade do Céu, sem adorno ou ostentação. Tinha nas vestes os vestígios das jornadas; Seu rosto era pálido e exprimia paciente tristeza; todavia, nEle se estampavam dignidade e benevolência em estranho contraste com o ar orgulhoso, presunçoso e irado do sumo sacerdote. Muitos dos que testemunhavam as palavras e atos de Jesus no templo, entronizaram-nO daí em diante no coração como profeta de Deus. À medida, porém, que o sentimento popular se voltava em favor de Jesus, o ódio dos sacerdotes crescia para com Ele. A sabedoria com que Se esquivava aos laços que Lhe armavam aos pés, sendo uma nova evidência de Sua divindade, acrescentava combustível a sua ira. Em Sua discussão com os rabis, não era propósito de Cristo humilhar os oponentes. Não Se alegrava em vê-los em situação difícil. Tinha importante lição a ensinar. Mortificara os inimigos, permitindo que se vissem emaranhados na própria rede que para Ele haviam preparado. Sua confessada ignorância com respeito ao caráter do batismo de João, proporcionou-Lhe oportunidade de falar e aproveitou-a, apresentando-lhes sua verdadeira situação e ajuntando uma advertência às muitas que já fizera. “Mas que vos parece?” disse Ele. “Um homem tinha dois filhos, e, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha. Ele, porém, respondendo, disse: Não quero. Mas depois, arrependendo-se, foi. E, dirigindo-se ao segundo, falou-lhe de igual modo; e, respondendo ele, disse: Eu vou, senhor; e não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?” Mateus 21:28-31. Essa súbita pergunta tirou Seus ouvintes de sua habitual posição de guarda. Haviam acompanhado atentamente a parábola, e então responderam imediatamente: “O primeiro.” Fixando neles o firme olhar, respondeu Jesus em tom severo e solene: “Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram diante de vós no reino de Deus. Porque João veio a vós no caminho da justiça, e não o crestes, mas os publicanos e as meretrizes o creram; vós, porém, vendo isto, nem depois vos arrependestes para o crer”. Mateus 21:31, 32. Os sacerdotes e principais não podiam deixar de dar resposta correta à pergunta de Cristo, e assim obteve Ele sua opinião em favor do primeiro filho. Este filho representava os publicanos, os que eram desprezados e odiados pelos fariseus. Os publicanos haviam sido inteiramente imorais. Tinham sido na verdade transgressores da lei de Deus, mostrando em sua vida absoluta resistência às Suas reivindicações. Eram ingratos e profanos; ao ser-lhes dito que fossem trabalhar na vinha do Senhor, recusaram desdenhosamente. Mas ao vir João, pregando o arrependimento e o batismo, os publicanos receberam a mensagem e foram batizados. O segundo filho representava os dirigentes da nação judaica. Alguns fariseus se tinham arrependido, recebendo o batismo de João; mas os dirigentes não quiseram reconhecer que ele viera de Deus. Suas advertências e acusações não os levaram a uma reforma. “Rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido batizados por ele.” Trataram desdenhosamente sua mensagem. Como o segundo filho que, quando chamado, disse: “Eu vou, senhor”, mas não foi, os sacerdotes e principais professaram obediência, mas agiram em sentido contrário. Faziam grandes profissões de piedade, pretendiam estar obedecendo à lei divina, mas prestavam apenas uma falsa obediência. Os publicanos eram acusados e amaldiçoados pelos fariseus como incrédulos; mas mostraram por sua fé e obras que iam para o reino do Céu antes daqueles homens cheios de justiça própria, aos quais fora dada grande luz, mas cujas obras não correspondiam a sua profissão de piedade. Os sacerdotes e principais não tinham vontade de suportar essas penetrantes verdades; ficaram calados, entretanto, na esperança de que Jesus dissesse qualquer coisa que pudessem voltar contra Ele; mas tinham de suportar ainda mais. “Ouvi ainda outra parábola”, disse Cristo. “Houve um homem, pai de família, que plantou uma vinha, circundou-a de um valado, e construiu nela um lagar, e edificou uma torre, e arrendou-a a uns lavradores, e ausentou-se para longe. E, chegando o tempo dos frutos, enviou os seus servos aos lavradores, para receber os seus frutos. E os lavradores, apoderando-se dos servos, feriram um, mataram outro, e apedrejaram outro. Depois enviou outros servos, em maior número do que os primeiros; e eles fizeram-lhes o mesmo; e, por último, enviou-lhes seu filho, dizendo: Terão respeito ao meu filho. Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo, e apoderemo-nos da sua herança. E, lançando mão dele, o arrastaram para fora da vinha, e o mataram. Quando pois vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores?” Mateus 21:33-40. Jesus Se dirigiu a todo o povo presente; mas os sacerdotes e principais responderam. “Dará afrontosa morte aos maus”, disseram, “e arrendará a vinha a outros lavradores, que a seu tempo lhe dêem os frutos”. Mateus 21:41. Os que assim falavam não perceberam, a princípio, a aplicação da parábola, mas viram depois haver proferido a própria condenação. Na parábola, o pai de família representava Deus, a vinha a nação judaica, e o valado a lei divina que lhes servia de proteção. A torre era um símbolo do templo. O dono da vinha fizera tudo que era para prosperidade da mesma. “Que mais se podia fazer à Minha vinha”, diz Ele, “que lhe não tenha feito?” Isaías 5:4. Assim foi representado o incessante cuidado de Deus para com Israel. E como os lavradores deviam devolver ao pai de família a devida proporção de frutos da vinha, assim o povo de Deus O devia honrar por uma vida em correspondência com os sagrados privilégios que tinham. Mas, como os lavradores mataram os servos que o senhor lhes enviara em busca de frutos, assim os judeus fizeram morrer os profetas que Deus mandara para os chamar ao arrependimento. Mensageiro após mensageiro fora morto. Até aí a aplicação da parábola não podia ser posta em dúvida, e no que se seguiu não foi menos clara. No amado filho a quem o senhor da vinha afinal mandara a seus desobedientes servos, e de quem se apoderaram para matar, viram os sacerdotes e principais uma distinta figura de Jesus e a sorte que sobre Ele impendia. Já estavam planejando tirar a vida Àquele a quem o Pai lhes enviara em um último apelo. Na retribuição infligida aos ingratos lavradores, estava descrita a sorte dos que haviam de condenar Cristo à morte. Olhando-os com piedade, continuou o Salvador: “Nunca lestes nas Escrituras: A pedra, que os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do ângulo; pelo Senhor foi feito isto, e é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto Eu vos digo que o reino de Deus vos será tirado, e será dado a uma nação que dê os seus frutos. E quem cair sobre esta pedra despedaçar-se-á; e aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó”. Mateus 21:42-44. Essa profecia repetiram os judeus muitas vezes nas sinagogas, aplicando-a ao Messias que havia de vir. Cristo era a pedra de esquina da dispensação judaica, e de todo o plano da salvação. Essa pedra fundamental os edificadores judaicos, os sacerdotes e príncipes de Israel, estavam agora rejeitando. O Salvador chamou-lhes a atenção para as profecias que lhes mostrariam seu perigo. Buscou, por todos os meios possíveis, mostrar-lhes claramente a natureza do ato que estavam para praticar. E Suas palavras tinham outro desígnio. Ao fazer a pergunta: “Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores?” (Mateus 21:40) era intuito de Cristo que os fariseus respondessem como fizeram. Tinha em vista que eles mesmos se condenassem. Suas advertências, deixando de despertá-los para o arrependimento, selar-lhes-iam a condenação, e Ele queria que vissem que eles próprios haviam trazido sobre si a ruína. Intentava mostrar-lhes a justiça de Deus em retirar-lhes os privilégios nacionais, o que já começara e terminaria, não somente na destruição do templo e da cidade, mas na dispersão da nação. Os ouvintes reconheceram a advertência. Não obstante, porém, a sentença que eles mesmos haviam proferido, os sacerdotes e príncipes estavam prontos a completar o quadro, dizendo: “Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo.” “E, pretendendo prendê-Lo, recearam o povo” (Mateus 21:46), porque o sentimento público era a favor de Cristo. Citando a profecia da pedra rejeitada, referia-Se Cristo a uma ocorrência verdadeira da história de Israel. O incidente relacionava-se com a edificação do primeiro templo. Conquanto tivesse especial aplicação ao tempo do primeiro advento de Cristo, devendo ter tocado com poder especial aos judeus, encerra também uma lição para nós. Ao ser erigido o templo de Salomão, as imensas pedras para as paredes e os fundamentos foram inteiramente preparadas na pedreira; depois de serem levadas para o local da construção, nenhum instrumento devia ser nelas empregado; os obreiros só tinham que as colocar em posição. Fora trazida para ser empregada nos fundamentos uma pedra de dimensões extraordinárias, e de singular feitio; mas os construtores não conseguiam achar lugar para ela e não a queriam aceitar. Era-lhes um estorvo, jazendo para ali, sem utilidade. Por muito tempo assim ficou como pedra rejeitada. Mas, ao chegarem os edificadores à ocasião de colocar a pedra angular, procuraram por muito tempo uma de tamanho e resistência suficientes e do devido formato, para ocupar aquele lugar e suportar o grande peso que sobre ela repousaria. Fizessem uma imprudente escolha para esse importante lugar, e estaria em risco a segurança de todo o edifício. Deveriam encontrar uma pedra capaz de resistir à influência do Sol, da geada e da tempestade. Várias pedras foram escolhidas, diversas vezes, mas, sob a pressão de imensos pesos, haviam-se despedaçado. Outras não puderam suportar a prova das súbitas mudanças atmosféricas. Afinal, a atenção dos construtores foi atraída para a pedra por tanto tempo rejeitada. Ficara exposta ao ar, ao Sol e à tempestade, sem apresentar a mais leve fenda. Os edificadores examinaram essa pedra. Suportara todas as provas, menos uma. Se pudesse resistir à prova de vigorosa pressão, decidir-se-iam a aceitá-la para pedra angular. Foi feita a prova. A pedra foi aceita, levada para o lugar que lhe era designado, verificando-se a ele ajustar-se perfeitamente. Em profética visão, foi mostrado a Isaías que essa pedra era um símbolo de Cristo. Diz ele: “Ao Senhor dos Exércitos, a Ele santificai; e seja Ele o vosso temor, e seja Ele o vosso assombro. Então Ele vos será santuário; mas servirá de pedra de tropeço, e de rocha de escândalo, às duas casas de Israel; de laço e rede aos moradores de Jerusalém. E muitos dentre eles tropeçarão, e cairão, e serão quebrantados, e enlaçados e presos”. Isaías 8:13-15. Levado em visão adiante, ao primeiro advento, é mostrado ao profeta que Cristo devia sofrer provas e experiências das quais era um símbolo o que se fizera à pedra de esquina do templo de Salomão. “Portanto assim diz o Senhor Jeová: Eis que ponho em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crê não se apresse”. Isaías 28:16. Com infinita sabedoria, escolheu Deus a pedra fundamental, e a colocou Ele mesmo. Chamou-a “firme”. O mundo inteiro pode depor sobre ela seus fardos e pesares; pode suportá-los a todos. Com perfeita segurança podem edificar sobre ela. Cristo é uma “pedra já provada”. Aqueles que nEle confiam, Ele nunca decepcionará. Suportou todas as provas. Resistiu à pressão da culpa de Adão e da de sua posteridade, e saiu mais que vencedor dos poderes do mal. Tem suportado os fardos sobre Ele lançados por todo pecador arrependido. Em Cristo tem encontrado alívio o coração culpado. Ele é o firme fundamento. Todos quantos fazem dEle sua confiança, descansam em segurança perfeita. Na profecia de Isaías, declara-se que Cristo é tanto o firme fundamento como uma pedra de tropeço. O apóstolo Pedro, escrevendo sob inspiração do Espírito Santo, mostra claramente para quem Cristo é uma pedra de esquina, e para quem é rocha de escândalo: “Se é que já provastes que o Senhor é benigno: e, chegando-vos para Ele — pedra viva, reprovada, na verdade pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, vós, também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo. Pelo que também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido. E assim para vós, os que crerdes, é preciosa, mas para os rebeldes, a pedra que os edificadores reprovaram essa foi a principal da esquina; e uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na Palavra, sendo desobedientes”. 1 Pedro 2:3-8. Para os que crêem, Cristo é o firme fundamento. São eles que caem sobre a Rocha e se despedaçam. A submissão a Cristo e a fé nEle são aqui representadas. Cair sobre a Rocha e despedaçar-se, é renunciar a nossa própria justiça e ir a Cristo com a humildade de uma criança, arrependidos de nossas transgressões e crendo em Seu amor perdoador. E assim também é pela fé e a obediência que edificamos sobre Cristo como nosso fundamento. Sobre essa pedra viva podem edificar semelhantemente judeus e gentios. Este é o único fundamento sobre que podemos com segurança edificar. É suficientemente largo para todos, e forte bastante para sustentar o peso e o fardo do mundo inteiro. E pela ligação com Cristo, a pedra viva, todos quantos edificam sobre esse fundamento se tornam pedras vivas. Muitas pessoas são lavradas, polidas e embelezadas por seus próprios esforços; não podem, no entanto, tornar-se “pedras vivas”, porque não estão ligadas a Cristo. Sem essa ligação, homem algum se pode salvar. Sem a vida de Cristo em nós, não podemos resistir às tempestades das tentações. Nossa segurança eterna depende de edificarmos sobre o firme fundamento. Multidões se encontram hoje em dia edificando sobre fundamento não provado. Ao cair a chuva, e soprarem os ventos, e as enchentes sobrevirem, sua casa cairá, porque não está fundada sobre a Rocha eterna, a principal pedra de esquina — Cristo Jesus. “Para aqueles que tropeçam na Palavra, sendo desobedientes”, Cristo é uma rocha de escândalo. Mas “a pedra que os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do ângulo”. Como a pedra rejeitada, Cristo, em Sua missão terrestre suportara desdém e maus-tratos. Foi “desprezado, e o mais indigno dentre os homens; homem de dores, e experimentado nos trabalhos: […] era desprezado, e não fizemos dEle caso algum”. Isaías 53:3. Mas aproximava-se o tempo em que Ele seria glorificado. Pela ressurreição dentre os mortos, seria “declarado Filho de Deus em poder”. Romanos 1:4. Em Sua segunda vinda, seria revelado como Senhor do Céu e da Terra. Os que se achavam então prestes a crucificá-Lo, reconheceriam Sua grandeza. Perante o Universo, a pedra rejeitada Se tornaria a principal pedra de esquina. “E aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó.” O povo que rejeitou a Cristo, teria de ver em breve destruídas sua cidade e nação. Sua glória seria despedaçada, espalhada como o pó diante do vento. E que foi que destruiu os judeus? Foi a rocha que, houvessem eles edificado sobre ela, teria sido sua segurança. Foi a bondade divina desprezada, a justiça maltratada, e menosprezada Sua misericórdia. Os homens deliberaram opor-se a Deus, e tudo quanto teria servido para sua salvação foi voltado para sua destruição. Tudo quanto Deus ordenara para vida, acharam ser para morte. Na crucifixão de Cristo pelos judeus, estava envolvida a destruição de Jerusalém. O sangue derramado sobre o Calvário, foi o peso que os fez abismar na ruína para este mundo e o mundo por vir. Assim será no grande dia final, quando o juízo cair sobre os que rejeitam a graça divina. Cristo, para eles a pedra de escândalo, aparecer-lhes-á então como vingadora montanha. A glória de Seu rosto, que para os justos é vida, será para os ímpios um fogo consumidor. Por causa do amor rejeitado, da graça desprezada, será destruído o pecador. Mediante muitas ilustrações e repetidas advertências, Jesus mostrou qual seria o resultado, para os israelitas, de rejeitar o Filho de Deus. Nessas palavras, dirigia-Se a todos, em todos os séculos, que se recusam a recebê-Lo como Redentor. Todas as advertências são para eles. O templo profanado, o filho desobediente, os falsos lavradores, os edificadores desdenhosos, têm seu paralelo na experiência de todo pecador. A menos que este se arrependa, sobrevir-lhe-á a condenação prefigurada por aqueles.

 

Fonte: https://m.egwwritings.org/pt/book/1813.2593#2593, https://m.egwwritings.org/pt/book/1813.2558#2558 e https://m.egwwritings.org/pt/book/1813.2593#2593

Comentário sobre O Desejado de Todas as Nações, cap. 59 – 60

O vício em poder e controle permanece vivo e bem hoje, exatamente como há dois mil anos. Desesperados para proteger posições de autoridade, os líderes judeus rejeitaram a Cristo, escolhendo endurecer seus corações. O Príncipe do Céu não forçaria a mudança de seus corações cegos pelo ódio ou curaria arbitrariamente suas almas devastadas pelo pecado. Capaz de ressuscitar os mortos, Ele ainda era incapaz de reviver os corações dos líderes espirituais impulsionados pela necessidade de poder.

Que conforto isso é para nós quando sofremos pelos corações endurecidos daqueles que não conseguimos alcançar! Saber que o Filho de Deus não conseguiu alcançar certas pessoas nos ajuda a aceitar a realidade comovente que nunca seremos capazes de alcançar a todos. Devemos abandonar a ilusão de que podemos salvar a todos.

Hoje, os corações humanos ainda são motivados pelo desejo de controle. A necessidade de poder muitas vezes leva Cristo para fora dos corações, deixando igrejas e lares vulneráveis ao comportamento tirânico. O medo de perder o respeito e a autoridade ainda leva muitos cristãos a crucificar vidas e corações. Infelizmente, o vício implacável ao poder destruiu muitas casas e vidas.

Todos os dias, perguntemos aos nossos corações: Em que extensão minha vida é governada pela necessidade de controle e poder? O que temo perder caso permita uma maior liberdade dos outros? Quando me sinto seguro no amor de Deus e aprendo a me sentir seguro não sendo controlador, deixarei de tentar ser Deus na vida dos outros.

Lori Engel, Capelã aposentada
Eugene, Oregon, USA

Fonte:https://www.revivalandreformation.org/bhp/en/sop/da/59-60
Equipe de tradução: Jobson Santos, Jeferson Quimelli e Gisele Quimelli

O DESEJADO DE TODAS AS NAÇÕES, cap. 59-60

Capítulo 59 — Os sacerdotes tramam

Este capítulo é baseado em João 11:47-54.

Betânia ficava tão perto de Jerusalém, que as notícias da ressurreição de Lázaro foram dentro em pouco levadas à cidade. Por intermédio de espias que tinham testemunhado o milagre, os príncipes judaicos para logo ficaram de posse dos fatos. Convocou-se imediatamente uma reunião no Sinédrio para decidir o que se deveria fazer. Cristo tornara agora plenamente manifesto Seu domínio sobre a morte e a sepultura. Aquele poderoso milagre era a suprema prova dada por Deus aos homens, de que Ele enviara Seu Filho ao mundo para sua salvação. Era uma demonstração de poder divino suficiente para convencer todo espírito que se achasse sob o controle da razão e de uma consciência esclarecida. Muitos dos que assistiram à ressurreição de Lázaro, foram levados a crer em Jesus. O ódio dos sacerdotes por Ele, no entanto, intensificou-se com isso. Haviam rejeitado todos os sinais menores de Sua divindade, e não ficaram senão enfurecidos ante esse novo milagre. O morto fora ressuscitado em pleno dia, e perante multidão de testemunhas. Nenhum artifício poderia explicar essa demonstração. E exatamente por isso se tornou mais implacável ainda a inimizade dos sacerdotes. Mais que nunca estavam decididos a pôr termo à obra de Cristo. DTN 377.1

Os saduceus, conquanto não fossem favoráveis a Cristo, não se mostravam tão malignos para com Ele como os fariseus. Seu ódio não era tão feroz. Agora, porém, ficaram inteiramente alarmados. Não criam na ressurreição dos mortos. Engendrando a falsamente chamada ciência, haviam raciocinado que seria impossível vivificar um morto. Mas, por algumas palavras de Cristo, fora deitada por terra a sua teoria. Revelava-se assim sua ignorância, tanto das Escrituras como do poder de Deus. Não viam possibilidade de remover a impressão causada no povo pelo milagre. Como poderiam ser os homens desviados dAquele que prevalecera em arrebatar ao sepulcro o morto? Puseram-se em circulação mentirosas versões, mas não se podia negar o milagre, e como lhe contrabalançar o efeito, não o sabiam eles. Até então, não haviam os saduceus animado o plano de condenar Cristo à morte. Mas depois da ressurreição de Lázaro assentaram que só por Sua morte poderiam deter Suas destemidas acusações contra eles. DTN 377.2

Os fariseus acreditavam na ressurreição, e não podiam deixar de ver que esse milagre era uma prova de que Se achava entre eles o Messias. Mas tinham-se sempre oposto à obra de Jesus. Desde o princípio O aborreceram por lhes expor as pretensões hipócritas. Removera a capa de rigorosos ritos sob que se ocultava sua deformidade moral. A religião pura, por Ele ensinada, condenara-lhes a vazia profissão de piedade. Tinham sede de se vingar dEle por Suas incisivas repreensões. Haviam tentado provocá-Lo a dizer ou fazer qualquer coisa que lhes proporcionasse ocasião de O condenar. Várias vezes quiseram apedrejá-Lo mas, Ele Se retirara calmamente, e haviam-nO perdido de vista. DTN 377.3

Os milagres por Ele operados no sábado, foram todos para alívio dos aflitos, mas os fariseus procuraram condená-Lo como transgressor do sábado. Buscaram incitar contra Ele os herodianos. Apresentavam Jesus como querendo estabelecer um reino rival, e consultavam com eles como O haviam de matar. Para incitar os romanos contra Jesus, faziam parecer que tentasse subverter-lhes a autoridade. Tentaram todos os pretextos para cercear-Lhe a influência sobre o povo. Mas até então suas tentativas haviam sido derrotadas. As multidões que testemunhavam Suas obras de misericórdia e Lhe ouviam os puros e santos ensinos, sabiam que estes não eram atos e palavras de um violador do sábado ou de um blasfemo. Os próprios oficiais enviados pelos fariseus foram tão influenciados por Suas palavras que não puderam deitar nEle as mãos. Em desespero, os judeus afinal decretaram que todo aquele que professasse fé em Jesus, fosse expulso da sinagoga. DTN 378.1

Assim, quando os sacerdotes, os príncipes e anciãos se reuniram em consulta, era seu deliberado propósito fazer silenciar Aquele que realizava obras tão maravilhosas que causavam a admiração de todos. Os fariseus e saduceus uniram-se mais que nunca. Separados até ali, unificaram-se em sua oposição a Cristo. Em concílios anteriores, Nicodemos e José impediram a condenação de Jesus, e por isso não foram então convidados. Achavam-se presentes nesse concílio outros homens influentes que criam em Jesus, mas sua influência não prevaleceu absolutamente contra os malignos fariseus. DTN 378.2

Todavia, os membros do conselho não estavam todos de acordo. O Sinédrio não era, por esse tempo, uma assembléia legal. Existia apenas por tolerância. Alguns dentre eles punham em dúvida a conveniência da condenação de Cristo à morte. Temiam que isso despertasse uma insurreição entre o povo, fazendo com que os romanos negassem posteriormente certos favores ao sacerdócio e lhes retirassem o poder que ainda mantinham. Os saduceus uniam-se no ódio contra Jesus; todavia, inclinavam-se à prudência nos passos a dar, temendo que os romanos os privassem de sua elevada posição. DTN 378.3

Nesse conselho, reunido para planejar a morte de Cristo, achava-Se presente a Testemunha que ouvira as jactanciosas palavras de Nabucodonosor, que testemunhara o idólatra festim de Belsazar, que presenciara, em Nazaré, a declaração de Cristo, de ser o Ungido. Essa Testemunha impressionava então os príncipes quanto à obra que estavam realizando. Acontecimentos da vida de Cristo ergueram-se diante deles com uma nitidez que os alarmou. Lembraram-se da cena do templo, quando Jesus, então criança de doze anos, Se achava perante os instruídos doutores da lei, fazendo-lhes perguntas à vista das quais ficavam admirados. O milagre ora realizado dava testemunho de que Jesus, não era senão o Filho de Deus. Qual relâmpago, surgiram-lhes no espírito, em seu verdadeiro significado, as Escrituras do Antigo Testamento com relação a Cristo. Perplexos e turbados, indagaram os príncipes: “Que faremos?” Houve divisão no concílio. Sob a impressão do Espírito Santo, os sacerdotes e príncipes não puderam banir a convicção de estar combatendo contra Deus. DTN 378.4

Ao achar-se o concílio no auge da perplexidade, ergueu-se Caifás, o sumo sacerdote. Caifás era homem orgulhoso e cruel, dominador e intolerante. Havia entre suas ligações de famílias, saduceus orgulhosos, ousados, resolutos, cheios de ambição e crueldade, o que ocultavam sob o manto de pretendida justiça. Caifás estudara as profecias, e conquanto ignorante de sua real significação, declarou com grande segurança e autoridade: “Vós nada sabeis, nem considerais que nos convém que um homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação”. João 11:49, 50. Ainda que Jesus fosse inocente, insistia o sumo sacerdote, devia ser afastado do caminho. Ele era perturbador, arrastando o povo após Si e diminuindo a autoridade dos principais. Era apenas um; melhor seria morrer Ele que enfraquecer-se a autoridade dos príncipes. Se o povo perdesse a confiança em seus chefes, estaria destruído o poder nacional. Caifás argumentava que, depois desse milagre, os seguidores de Cristo seriam capazes de revoltar-se. Virão então os romanos, disse ele, e fecharão nosso templo e abolirão nossas leis, destruindo-nos como nação. Que vale a vida desse galileu, quando comparada com a do povo? Se Ele é um obstáculo ao bem-estar de Israel, não é prestar a Deus um serviço, removê-Lo daí? É melhor que um homem pereça, do que ser destruída toda a nação. DTN 379.1

Declarando que um homem devia morrer pelo povo, mostrava Caifás certo conhecimento das profecias, se bem que muito limitado. João, porém, ao narrar esta cena, toma a profecia, apresentando seu vasto e profundo significado. Diz: “E não somente pela nação, mas também para reunir em um corpo os filhos de Deus, que andavam dispersos”. João 11:52. Quão cegamente reconhecia o soberbo Caifás a missão do Salvador! DTN 379.2

Nos lábios de Caifás, tornava-se mentira essa preciosíssima verdade. A política por ele defendida baseava-se num princípio tomado emprestado ao paganismo. Entre os gentios, a vaga consciência de que alguém devia morrer pela humanidade, levara à oferta de sacrifícios humanos. Assim propunha Caifás, pelo sacrifício de Cristo, salvar o povo culpado, não da transgressão, mas na transgressão, a fim de que pudessem continuar em pecado. E por seu raciocínio pensava reduzir ao silêncio os que ousavam dizer que até então coisa alguma digna de morte se achara em Jesus. DTN 379.3

Nesse conselho experimentaram os inimigos de Cristo profunda convicção. O Espírito Santo lhes impressionara a mente. Mas Satanás esforçou-se por conquistar o domínio sobre ela. Insistiu em lhes pôr diante as ofensas que haviam sofrido por causa de Cristo. Quão pouco honrara Ele sua justiça! Apresentava uma justiça incomparavelmente superior, a qual deviam possuir todos quantos quisessem ser filhos de Deus. Sem dar nenhuma atenção a suas formalidades e cerimônias, animara o pecador a dirigir-se diretamente a Deus como a um misericordioso Pai, e a falar-Lhe de suas necessidades. Assim, na opinião deles, Jesus pusera à margem o sacerdócio. Recusara-Se a reconhecer a teologia das escolas dos rabis. Expusera as más práticas dos sacerdotes, e danificara de maneira irreparável sua influência. Prejudicara o efeito de suas máximas e tradições, declarando que, a despeito de tornarem estritamente obrigatória a lei ritual, faziam vã a lei divina. Tudo isso Satanás lhes apresentou então ao espírito. DTN 380.1

O diabo disse-lhes que, a fim de manterem sua autoridade, precisavam matar a Jesus. Seguiram esse conselho. O fato de que pudessem perder então o poder que exerciam era, julgavam, motivo suficiente para chegar a uma decisão. Com exceção de alguns que não ousaram manifestar suas idéias, o Sinédrio recebeu as palavras de Caifás como palavras de Deus. O concílio sentiu-se aliviado; cessou a contenda. Resolveram condenar Cristo à morte na primeira oportunidade favorável. Rejeitando a prova da divindade de Jesus, encerraram-se esses sacerdotes e príncipes em trevas impenetráveis. Ficaram inteiramente sob o domínio de Satanás, para ser por ele precipitados no abismo da eterna ruína. Todavia, tal era o engano deles, que se sentiam bem satisfeitos consigo mesmos. Consideravam-se patriotas em busca da salvação nacional. DTN 380.2

Não obstante, temia o Sinédrio tomar medidas enérgicas contra Jesus, não se exaltasse o povo, e a violência contra Ele premeditada viesse a cair sobre eles próprios. Por isso retardou o conselho a execução da sentença que proferira. O Salvador compreendeu a trama dos sacerdotes. Sabia que ansiavam removê-Lo e em breve se realizaria seu propósito. Não Lhe competia, no entanto, precipitar a crise, e retirou-Se daquela região, levando consigo os discípulos. Assim, por Seu próprio exemplo reforçava Jesus as instruções que a eles dera: “Quando pois vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra”. Mateus 10:23. Havia um vasto campo em que trabalhar pela salvação de almas, e, a menos que o exigisse a lealdade para com Ele, não deveriam os servos do Senhor arriscar a vida. DTN 380.3

Jesus dera então ao mundo três anos de público labor. Achava-se diante deles Seu exemplo de abnegação e desinteressada beneficência. Era de todos conhecido Sua vida de pureza, sofrimento e devoção. Todavia, esse breve período de três anos era o máximo que o mundo podia suportar a presença do Redentor. DTN 380.4

Sua vida fora de perseguição e insulto. Expulso de Belém por um rei invejoso, rejeitado por Seu próprio povo em Nazaré, condenado sem causa à morte em Jerusalém, Jesus, com Seus poucos seguidores fiéis, encontrou temporário asilo numa cidade estranha. Aquele que sempre era tocado pela miséria humana, que curava os enfermos, restituía a vista aos cegos, o ouvido aos surdos e a fala aos mudos; que alimentava os famintos e confortava os contristados, foi expulso dentre o povo por cuja salvação trabalhara. Aquele que caminhara sobre ondas revoltas, e com uma palavra impusera silêncio ao seu furioso bramido, que expulsara demônios que, ao saírem, O reconheciam como o Filho de Deus; que interrompera o sono dos mortos, que prendia milhares por Suas palavras de sabedoria, não pôde alcançar o coração dos que estavam cegos pelos preconceitos e o ódio e obstinadamente rejeitavam a luz.

Capítulo 60 — A lei do novo reino

Este capítulo é baseado em Mateus 20:20-28Marcos 10:32-45Lucas 18:31-34.

Aproximava-se o tempo da Páscoa, e novamente Se dirigiu Jesus para Jerusalém. Reinava em Seu coração a paz de uma perfeita unidade com a vontade do Pai, e com passo decidido avançava para o lugar do sacrifício. Dos discípulos, porém, apoderava-se um sentimento de mistério, de dúvida e temor. O Salvador “ia adiante deles. E eles maravilhavam-se, e seguiam-nO atemorizados”. Marcos 10:32. DTN 382.1

Novamente chamou Cristo os doze para junto de Si e, mais positivamente que nunca, revelou-lhes Sua entrega e Seus sofrimentos. “Eis”, disse Ele, “que subimos a Jerusalém, e se cumprirá no Filho do homem tudo o que pelos profetas foi escrito; pois há de ser entregue às gentes, e escarnecido, injuriado e cuspido; e, havendo-O açoitado, O matarão; e ao terceiro dia ressuscitará. E eles nada disto entendiam, e esta palavra lhes era encoberta, não percebendo o que se lhes dizia”. Lucas 18:31-34.DTN 382.2

Não haviam eles exatamente antes disso proclamado por toda parte: “O reino de Deus está às portas”? Não afirmara o próprio Cristo que muitos se assentariam com Abraão e Isaque e Jacó no reino de Deus? Não prometera a todo aquele que houvesse abandonado tudo por amor dEle, cem vezes mais nesta vida, e parte no Seu reino? E não dera aos doze a promessa especial de posições de alta honra em Seu reino — sentarem-se em tronos, julgando as doze tribos de Israel? Ainda agora dissera que haveriam de cumprir-se todas as coisas escritas nos profetas a Seu respeito. E não tinham eles predito a glória do reino do Messias? Em face desses pensamentos, pareciam vagas e obscuras Suas palavras acerca da traição, perseguição e morte. Fossem quais fossem as dificuldades que sobreviessem, acreditavam que o reino se haveria de estabelecer em breve. DTN 382.3

João, o filho de Zebedeu, fora um dos dois primeiros discípulos que haviam seguido a Jesus. Ele e seu irmão Tiago tinham feito parte do primeiro grupo que tudo deixara por Seu serviço. Com prazer abandonaram o lar e os amigos para estar com Ele; com Ele andaram e conversaram, estiveram com Ele na intimidade da casa e nas assembléias públicas. Ele lhes aquietara os temores, libertara-os dos perigos, aliviara-lhes os sofrimentos, confortara-os nos dissabores, e com paciência e bondade os instruíra, até que seu coração parecia ligado ao dEle e, no ardor de seu afeto, desejavam estar mais achegados a Ele em Seu reino. Em todas as oportunidades João procurava lugar junto do Salvador, e Tiago desejava ser honrado com uma ligação igualmente íntima com Ele. DTN 382.4

Sua mãe era seguidora de Cristo e servira-O liberalmente com seus meios. Em seu amor e ambição maternos, cobiçava para eles o mais honroso lugar no novo reino. Animou-os, assim, a fazer o pedido. DTN 383.1

Mãe e filhos dirigiram-se juntos a Jesus, solicitando uma graça que seu coração decididamente anelava. “Que quereis que vos faça?” perguntou Ele. A mãe respondeu: “Dize que estes meus dois filhos se assentem, um à Tua direita e outro à Tua esquerda, no Teu reino”. Mateus 20:21. DTN 383.2

Jesus Se mostra bondoso para com eles, não repreendendo seu egoísmo em procurar preferências sobre os outros irmãos. Ele lhes lê o coração, sabe a profundeza de sua afeição por Ele. Seu amor não é um afeto meramente humano; conquanto manchado pela influência do humano instrumento, é o transbordar da fonte de Seu próprio amor redentor. Ele não repreenderá, mas aprofundará e purificará. Disse: “Podeis vós beber o cálice que Eu hei de beber, e ser batizado com o batismo com que Eu sou batizado?” Mateus 20:22. Lembram-se de Suas misteriosas palavras indicando provação e sofrimento, todavia respondem confiantemente: “Podemos.” Reputariam a mais elevada honra, o demonstrar sua lealdade em compartilhar tudo quanto houvesse de sobrevir a seu Senhor. DTN 383.3

“Em verdade, vós bebereis o cálice que Eu hei de beber, e sereis batizados com o batismo com que Eu sou batizado”, disse; diante dEle achava-se uma cruz em lugar de um trono, e dois malfeitores como companheiros, um à direita e outro à esquerda. João e Tiago haviam de partilhar dos sofrimentos de seu Mestre; um, o primeiro dos irmãos a perecer à espada; o outro, o que mais longamente havia de suportar a fadiga, o opróbrio e a perseguição. DTN 383.4

“Mas o assentar-se à Minha direita ou à Minha esquerda”, continuou, “não Me pertence dá-lo, mas é para aqueles para quem Meu Pai o tem preparado”. Mateus 20:23. No reino de Deus, não se obtêm posições por favoritismo. Não são alcançadas nem recebidas por uma concessão arbitrária. São o resultado do caráter. O trono e a coroa são os penhores de uma condição atingida; são os testemunhos da vitória sobre o próprio eu, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. DTN 383.5

Muito posteriormente, quando o discípulo chegara à identificação com Cristo, através da participação dos Seus sofrimentos, o Senhor revelou a João as condições de mais proximidade no Seu reino. “Ao que vencer”, disse Cristo, “lhe concederei que se assente comigo no Meu trono; assim como Eu venci, e Me assentei com Meu Pai no Seu trono.” “A quem vencer, Eu o farei coluna no templo do Meu Deus, […] e escreverei sobre ele o Meu nome”. Apocalipse 3:21, 12. Assim escreveu o apóstolo Paulo: “Já estou sendo oferecido por aspersão de sacrifício, e o tempo de minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia”. 2 Timóteo 4:6-8. DTN 383.6

Mais perto de Cristo estará aquele que, na Terra, mais profundamente sorveu do espírito de Seu abnegado amor — amor que “não se ensoberbece, […] não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal” (1 Coríntios 13:4, 5) — amor que move o discípulo, como fazia ao Senhor, a dar tudo, a viver, trabalhar e sacrificar-se, até à própria morte, pela salvação da humanidade. Este espírito foi manifestado na vida de Paulo. Disse ele: “Para mim o viver é Cristo”; pois sua vida revelava Cristo aos homens; “e o morrer é ganho” — ganho para Cristo; a própria morte tornaria patente o poder de Sua graça, e atrairia almas para Ele. “Cristo será […] engrandecido no meu corpo”, disse ele, “seja pela vida, seja pela morte”. Filipenses 1:21, 20. DTN 384.1

Quando os dez ouviram do pedido de Tiago e João, ficaram muito desgostosos. O mais elevado lugar no reino era exatamente o que cada um deles buscava para si mesmo, e zangaram-se porque os dois discípulos lhes houvessem obtido aparente vantagem. DTN 384.2

Novamente o conflito acerca de quem deveria ser o maior estava a ponto de se renovar, quando Jesus, chamando-os a Si, disse aos indignados discípulos: “Sabeis que os que julgam ser príncipes das gentes delas se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre elas; mas entre vós não será assim.” DTN 384.3

Nos reinos do mundo, a posição implicava em engrandecimento próprio. Supunha-se que o povo existia para benefício das classes dominantes. Influência, fortuna, educação eram outros tantos meios de empolgar as massas para proveito dos dirigentes. As classes mais altas deviam pensar, decidir, gozar e dominar; às mais humildes cumpria obedecer e servir. A religião, como tudo mais, era uma questão de autoridade. Do povo esperava-se que acreditasse e procedesse segundo a direção de seus superiores. O direito do homem como homem — pensar e agir por si mesmo — era inteiramente postergado. DTN 384.4

Cristo estava estabelecendo um reino sobre princípios diversos. Chamava os homens, não à autoridade, mas ao serviço, os fortes a sofrer as fraquezas dos fracos. Poder, posição, talento, educação colocavam seus possuidores sob maior dever de servir aos semelhantes. Ainda ao mais humilde dos discípulos de Cristo, é dito: “Tudo isso é por amor de vós”. 2 Coríntios 4:15. DTN 384.5

“O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a Sua vida em resgate de muitos”. Mateus 20:28. Entre Seus discípulos, Cristo era em todos os sentidos Aquele sobre quem repousavam os cuidados e responsabilidades. Partilhava da pobreza deles, exercia abnegação em seu benefício, ia adiante deles para lhes aplainar os mais ásperos caminhos e deveria consumar em breve Sua obra terrestre, entregando a própria vida. O princípio sobre que Ele agia deve atuar nos membros da igreja, que é Seu corpo. O plano e a base da salvação são amor. No reino de Cristo, são maiores os que seguem o exemplo por Ele dado e procedem como pastores de Seu rebanho. DTN 384.6

As palavras de Paulo revelam a verdadeira dignidade e honra da vida cristã: “Sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos” (1 Coríntios 9:19), “não buscando o meu próprio proveito, mas o de muitos, para que assim se possam salvar”. 1 Coríntios 10:33. DTN 385.1

Em questões de consciência, a alma deve ser deixada livre. Ninguém deve controlar o espírito de outro, julgar por outro, ou prescrever-lhe o dever. Deus dá a toda alma liberdade de pensar, e seguir suas próprias convicções. “Cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus”. Romanos 14:12. Ninguém tem direito de imergir sua individualidade na de outro. Em tudo quanto envolve princípios, “cada um esteja inteiramente seguro em seu próprio ânimo”. Romanos 14:5. No reino de Cristo não há nenhuma orgulhosa opressão, nenhuma obrigatoriedade de costumes. Os anjos do Céu não vêm à Terra para mandar, e exigir homenagens, mas como mensageiros da misericórdia, a fim de cooperar com os homens em erguer a humanidade. DTN 385.2

Os princípios e as próprias palavras do ensino do Salvador permaneceram, em sua divina beleza, na memória do discípulo amado. Até seus últimos dias, a preocupação do testemunho do apóstolo às igrejas, era: “Esta é a mensagem que ouvistes desde o princípio: que nos amemos uns aos outros.” “Conhecemos a caridade nisto: que Ele deu a Sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos”. 1 João 3:11, 16. DTN 385.3

Era esse o espírito que dominava a igreja primitiva. Depois do derramamento do Espírito Santo, “era um o coração e a alma dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria”. “Nem havia entre eles necessitado algum.” “E os apóstolos davam, com grande poder, testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça”. Atos dos Apóstolos 4:32, 34, 33.

Fonte: https://m.egwwritings.org/pt/book/1813.2370#2370 e https://m.egwwritings.org/pt/book/1813.2395#2395

COMENTÁRIO SOBRE O DESEJADO DE TODAS AS NAÇÕES, cap. 56-57

Graças a Deus pelas mães! As mães assumem muitos papéis (usam muitos chapéus): cozinheira, enfermeira, faxineira, professora, motorista, comprador, conselheira, etc. Você sabia que as mães também estavam entre os primeiros evangelistas? Aqui está o método que elas usaram:
“Uma mãe com seu filho deixou a sua casa para ir ao encontro de Jesus. No caminho, ela contou a uma vizinha o seu objetivo e o vizinha quis que Jesus abençoasse seus filhos. Assim, várias mães se dirigiram a Jesus com seus pequeninos.” DTN 511.3

Esta é a essência do evangelismo da amizade e do evangelismo infantil. Evangelismo é exatamente isso, uma pessoa compartilhando as boas novas para que outras pessoas possam ser abençoadas com a mesma bênção que esperam receber. Os discípulos deveriam ter ficado felizes em ver pequeninos trazidos a Jesus para uma bênção. Era costume dos judeus trazerem seus filhos para serem abençoados por um rabino. Isso também era algo que eles praticavam em suas próprias casas. Era costume um pai judeu colocar a mão sobre o filho para pronunciar uma bênção patriarcal toda sexta-feira à noite, quando o sábado começava.

Você tem um filho que quer levar a Jesus? Você tem um amigo que quer convidar para se juntar a você na busca de Jesus? Jesus não vai repelir vocês. Mesmo que você seja amigo de um amigo de um amigo de um amigo que se juntou à jornada, Jesus o convida a vir e receber a Sua bênção. Essa é uma boa notícia!

Karen Lifshay
Hermiston, Oregon, EUA

Fonte: https://www.revivalandreformation.org/bhp/en/sop/da/56-57

Equipe de tradução: Jeferson Quimelli/Gisele Quimelli/Pr Jobson Santos