Comentário sobre O Desejado de Todas as Nações, cap. 61-62

A doce ternura de Jesus toca o meu coração.

Zaqueu, Maria Madalena, Simão e Judas compartilhavam algo em comum: uma vida de pecado e vergonha. No entanto, suas vidas públicas se manifestavam de modo diferente: dois deles eram publicamente justos e respeitados, enquanto dois eram excluídos e rejeitados pela sociedade. Não importa se o pecado é exteriormente visível ou internamente oculto. Não importa se o pecador é publicamente aclamado ou publicamente envergonhado. Tanto o pecado interno como o externo produzem cicatrizes na vida.

Jesus conhecia o coração de cada um destes seguidores. Nem uma vez ele os castigou, o que só teria endurecido seus corações em resistência teimosa. Ele também não envergonha publicamente ninguém hoje em dia. Jesus entende que a vergonha só leva a mais ocultação e negação. Ele sabe que a culpa pode sobrecarregar a alma. Ele sabe que a vergonha da sociedade apenas aprofunda as feridas do coração.

Desde o final de 2015, eu tenho vivido sozinha, a maior parte do tempo confinada a uma cama com lesões neurológicas, completamente dependente do apoio financeiro de amigos e desconhecidos enquanto aguardo a confirmação da deficiência. Pedir ajuda me expôs a muitas situações embaraçosas. Quando as pessoas não entendem minha jornada, elas criticam, sermoneiam, envergonham, fazem comentários cruéis e muitas vezes vão embora, deixando meu coração mais partido do que meu corpo.

Não importa se você foi envergonhado pelos efeitos do pecado ou pela conseqüência não desejada das provações agonizantes da vida, você precisa saber esta verdade: dois mil anos atrás, Jesus não envergonhava nenhum de seus seguidores. Ele não se afastou deles, nem mesmo de Judas.

Confie no coração de Jesus. Ele nunca irá lhe envergonhar ou lhe deixar. Jamais!

Lori Engel
Capelã (atualmente com deficiência)
Eugene, Oregon EUA

O DESEJADO DE TODAS AS NAÇÕES, cap. 61-62

CAPÍTULO 61

Zaqueu

DTN – Pag. 552 

De caminho para Jerusalém, “tendo Jesus entrado em Jericó, ia passando”. Luc. 19:1. A poucos quilômetros do Jordão, da banda ocidental do vale que se estendia daí numa planície, descansava a cidade em meio de verdura tropical e luxuriante beleza. Com as palmeiras e preciosos jardins regados por fontes naturais, brilhava qual esmeralda no engaste das calcáreas colinas e desolados barrancos que se interpunham entre Jerusalém e a cidade da planície.

Muitas caravanas, de caminho para a festa, passavam por Jericó. Sua chegada era sempre um momento de alegria. Agora, porém, mais profundo interesse agitava o povo. Sabia-se achar-Se entre a multidão o Rabi galileu que, não havia muito, ressuscitara Lázaro; e conquanto abundassem os murmúrios quanto às conspirações dos sacerdotes, estavam as multidões ansiosas de Lhe render homenagens.

Jericó era uma das cidades outrora separadas para os sacerdotes, e por essa época grande número deles tinha aí sua residência. Mas a cidade possuía também uma população de caráter inteiramente diverso. Era um grande centro de comércio, e os oficiais romanos e os soldados, com estrangeiros de todos os pontos, aí se achavam, ao passo que a coletoria da alfândega a tornava morada de muitos publicanos.

“Chefe dos publicanos”, Zaqueu era israelita, e detestado de seus patrícios. Sua posição e fortuna eram o prêmio de uma carreira


DTN – Pag. 553 

que aborreciam, e considerada sinônimo de injustiça e extorsão. Todavia, o rico funcionário da alfândega não era de todo endurecido homem do mundo que parecia. Sob a aparência de mundanidade e orgulho, achava-se um coração susceptível às influências divinas. Zaqueu ouvira falar de Jesus. Espalhara-se por toda parte a fama dAquele que Se conduzira bondosa e cortesmente para com as classes proscritas. Despertou-se nesse chefe de publicanos o anelo de uma vida melhor. A poucos quilômetros apenas de Jericó, pregara João Batista no Jordão, e Zaqueu ouvira falar do chamado ao arrependimento. A instrução aos publicanos: “Não peçais mais do que o que vos está ordenado” (Luc. 3:13), conquanto aparentemente desatendida, impressionara-lhe o espírito. Conhecia as Escrituras, e estava convencido de que era injusto seu proceder. Agora, ouvindo as palavras que diziam provir do grande Mestre, se sentiu pecador aos olhos de Deus. Todavia, o que ouvira dizer de Jesus acendeu-lhe a esperança no coração. Arrependimento e reforma da vida eram possíveis mesmo para ele; não fora acaso publicano um dos mais dignos discípulos do Mestre? Zaqueu começou imediatamente a obedecer à convicção que dele tomara posse, e a fazer restituição àqueles a quem prejudicara.

Começara já a volver atrás, quando soaram em Jericó as novas de que Jesus vinha entrando na cidade. Zaqueu decidiu vê-Lo. Principiava a compreender quão amargos são os frutos do pecado, e quão difícil é a senda daquele que busca voltar de uma carreira de erros. Ser mal-compreendido, enfrentar a suspeita e a desconfiança no esforço de corrigir seus erros, dura coisa era de sofrer. O chefe de publicanos anelava contemplar o rosto dAquele cujas palavras lhe infundiram esperança ao coração.

Estavam apinhadas as ruas e Zaqueu, que era de pequena estatura, nada podia ver por sobre as cabeças do povo. Ninguém lhe queria abrir caminho; assim, correndo um pouco adiante da multidão, chegou a uma copada figueira à beira da estrada, e o abastado cobrador de impostos trepou, sentando-se entre os galhos, de modo a poder ver o cortejo ao passar embaixo. A multidão aproxima-se, vai passando, e Zaqueu investiga com ansioso olhar, em busca da figura que almejava ver.

Por sobre o clamor dos sacerdotes e rabis e as aclamações da turba, chegou ao coração de Jesus a expressão do mudo desejo daquele chefe de publicanos. De súbito, mesmo embaixo da figueira, um grupo estaca, os de diante e os de trás detêm-se e Alguém cujo olhar parecia ler a alma, ergue os olhos para a figueira. Quase


DTN – Pag. 554 

duvidando dos próprios sentidos, o homem que ali estava na árvore ouve as palavras: “Zaqueu, desce depressa, porque hoje Me convém pousar em tua casa.” Luc. 19:5.

A multidão abre alas, e Zaqueu, caminhando como quem sonha, serve de guia para sua residência. Mas os rabinos contemplam isto de semblante carregado, murmurando descontentes e zombeteiros, “que entrara para ser hóspede de um homem pecador”. Luc. 19:7.

Zaqueu ficou abismado, num deslumbramento, e silencioso em face do amor e da condescendência de Cristo em rebaixar-Se até ele, tão indigno. Então o amor e a lealdade para com o Mestre que acabava de achar, lhe descerraram os lábios. Resolveu fazer pública sua confissão e arrependimento.


DTN – Pag. 555 

Em presença da multidão, “levantando-se Zaqueu, disse ao Senhor: Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado”. Luc. 19:8.

“E disse-lhe Jesus: Hoje veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão.” Luc. 19:9.

Quando o jovem rico se retirara de Jesus, maravilharam-se os discípulos de ouvir o Mestre dizer: “Quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no reino de Deus!” Exclamaram uns para os outros: “Quem poderá pois salvar-se?” Mar. 10:24 e 26. Agora, tinham uma demonstração das palavras de Cristo: “As coisas que são impossíveis aos homens são possíveis a Deus.” Luc. 18:27. Viram como, por meio da graça divina, um rico podia entrar no reino.

Antes de Zaqueu ter contemplado o rosto de Cristo, começara a fazer aquilo que tornava manifesto ter ele arrependimento sincero. Antes de ser acusado pelos homens, confessara seu pecado. Submetera-se à convicção do Espírito Santo e começara a cumprir o ensino das palavras escritas para o antigo Israel, bem como para nós mesmos. Dissera o Senhor havia muito: “Quando teu irmão empobrecer, e as suas forças decaírem, então sustentá-lo-ás, como estrangeiro e peregrino, para que viva contigo. Não tomarás dele usura, nem ganho; mas do teu Deus terás temor, para que teu irmão viva contigo. Não lhe darás teu dinheiro com usura, nem lhe darás o teu manjar por interesse.” “Ninguém pois oprima ao seu próximo; mas terás temor do teu Deus.” Lev. 25:35-37 e 17. Estas palavras foram proferidas pelo próprio Cristo quando envolto na coluna de nuvem, e a primeira resposta de Zaqueu ao amor de Cristo era manifestar compaixão para com o pobre e o sofredor.

Havia entre os publicanos um convênio, de modo que podiam oprimir o povo e apoiar-se uns aos outros em suas práticas fraudulentas. Em sua extorsão, praticavam o que se tornara costume quase geral. Os próprios sacerdotes e rabinos que os desprezavam, eram culpados de se enriquecer por meios desonestos, sob o manto de seu sagrado ofício. Mas tão depressa se submeteu o publicano à influência do Espírito Santo, lançou de sua vida todo proceder contrário à integridade.

Não é genuíno nenhum arrependimento que não opere a reforma. A justiça de Cristo não é uma capa para encobrir pecados não confessados e não abandonados; é um princípio de vida que transforma o caráter e rege a conduta. Santidade é integridade


DTN – Pag. 556 

para com Deus; é a inteira entrega da alma e da vida para habitação dos princípios do Céu.

O cristão deve representar perante o mundo, nos negócios de sua vida, a maneira por que o Senhor Se conduzira em empreendimentos desse gênero. Em toda transação deve ele patentear que Deus é seu mestre. “Santidade ao Senhor” deve-se achar escrito nos diários e razões, nas escrituras, recibos e letras de câmbio. Os que professam ser seguidores de Cristo, e são injustos nos tratos, estão dando falso testemunho do caráter de um Deus santo, justo e misericordioso. Toda alma convertida, como Zaqueu, marca a entrada de Cristo no coração pelo abandono das práticas injustas que lhe assinalaram a vida. Como o chefe dos publicanos, dará provas de sua sinceridade fazendo restituição. O Senhor diz: “Restituindo esse ímpio o penhor, pagando o furtado, andando nos estatutos da vida, e não praticando iniqüidade, … de todos os seus pecados com que pecou não se fará memória contra ele:… certamente viverá.” Ezeq. 33:15 e 16.

Se prejudicamos outros por qualquer injusta transação, se nos aproveitamos de alguém num negócio, ou defraudamos qualquer pessoa, ainda que sob a proteção da lei, devemos confessar nossa injustiça e fazer restituição tanto quanto esteja ao nosso alcance. Cumpre-nos restituir, não somente o que tiramos, mas tudo quanto se teria acumulado, se posto em justo e sábio emprego durante o tempo que se achou em nosso poder.

A Zaqueu, disse o Salvador: “Hoje veio a salvação a esta casa.” Luc. 19:9. Não somente foi o próprio Zaqueu abençoado, mas toda a casa com ele. Jesus foi ao seu lar, para dar-lhe lições sobre a verdade e instruir sua família nas coisas do reino. Tinham estado excluídos das sinagogas pelo desprezo dos rabis e adoradores; mas agora, como os mais favorecidos dentre as famílias de Jericó, reuniram-se em seu próprio lar, em torno do divino Mestre, e ouviram por si mesmos as palavras da vida.

É quando se recebe Cristo como Salvador pessoal, que sobrevém salvação à alma. Zaqueu recebera a Jesus não somente como a um hóspede de passagem em sua casa, mas como Alguém que vinha habitar no templo da alma. Os escribas e fariseus o acusavam de pecador, murmuraram contra Cristo por Se hospedar sob seu teto, mas o Senhor o reconheceu como filho de Abraão. Pois “os que são da fé são filhos de Abraão”. Gál. 3:7.

 

CAPÍTULO 62

O Banquete em Casa de Simão

DTN – Pag. 557 

Simão de Betânia era considerado discípulo de Jesus. Era um dos poucos fariseus que se unira abertamente aos Seus seguidores. Reconhecia-O como mestre e acalentava esperanças que fosse o Messias, mas não O aceitara como Salvador. Seu caráter não estava transformado; permaneciam sem mudança seus princípios.

Simão fora curado de lepra, e isso é que o atraíra a Jesus. Desejara mostrar sua gratidão e, na última visita de Cristo a Betânia, ofereceu um banquete ao Salvador e a Seus discípulos. Esta festa reuniu muitos dos judeus. Havia por esse tempo grande agitação em Jerusalém. Cristo e Sua missão estavam atraindo mais atenção do que nunca. Os que tinham ido à festa, observavam-Lhe atentamente os movimentos, e alguns com olhos hostis.

O Salvador chegara a Betânia apenas seis dias antes da páscoa, e, como de costume, buscara repouso em casa de Lázaro. As multidões de viajantes que se dirigiam rumo à cidade, divulgaram as novas de que Ele estava a caminho para Jerusalém, e descansaria o sábado em Betânia. Havia entre o povo grande entusiasmo. Muitos afluíam a Betânia, alguns por simpatia para com Jesus, e outros por curiosidade de ver a pessoa que fora ressuscitada dos mortos.

Muitos esperavam ouvir de Lázaro uma história maravilhosa das cenas testemunhadas depois da morte. Surpreendiam-se de que ele não lhes contasse coisa alguma. Não tinha nada para contar


DTN – Pag. 558 

a respeito. Declara a inspiração: “Os mortos não sabem coisa nenhuma. … O seu amor, o seu ódio, e a sua inveja já pereceram.” Ecl. 9:5 e 6. Mas Lázaro tinha um maravilhoso testemunho a dar com respeito à obra de Cristo. Para esse fim fora ressuscitado. Com segurança e poder, declarava que Jesus era o Filho de Deus.

As notícias levadas para Jerusalém pelos que visitavam Betânia aumentavam a agitação. O povo estava ansioso de ver e ouvir a Jesus. Havia uma geral interrogação – se Lázaro O acompanharia a Jerusalém e se o Profeta seria coroado rei durante a Páscoa. Os sacerdotes e príncipes viram que seu domínio sobre o povo continuava a enfraquecer, e mais amargo se tornava seu ódio contra Jesus. Mal podiam esperar a oportunidade de O tirar de seu caminho para sempre. À medida que o tempo passava, começaram a temer que afinal talvez não fosse a Jerusalém. Lembravam-se de quantas vezes lhe frustrara os desígnios assassinos, e temiam que lhes houvesse lido os pensamentos contra Ele e permanecesse ausente. Mal podiam ocultar sua ansiedade, e indagavam entre si: “Que vos parece? Não virá à festa?” João 11:56.

Foi convocado o concílio dos sacerdotes e fariseus. Desde a ressurreição de Lázaro, aumentara tanto a simpatia do povo para com Jesus, que seria perigoso lançar mão dEle abertamente. Assim decidiram as autoridades prendê-Lo em segredo, e efetuar o julgamento o mais silenciosamente possível. Esperavam que ao se tornar isso conhecido, a inconstante onda da opinião pública se voltaria a seu favor.

Assim se propuseram a destruir Jesus. Mas enquanto Lázaro existisse, sabiam os sacerdotes e rabis que não se achavam em segurança. A própria existência de um homem que por quatro dias estivera no sepulcro e fora ressuscitado por uma palavra de Jesus, causaria cedo ou tarde uma reação. O povo se vingaria de seus guias por tirarem a vida Àquele que fora capaz de realizar esse milagre. O Sinédrio decidiu, portanto, que Lázaro também deveria morrer. A tal ponto a inveja e os preconceitos levam seus escravos. O ódio e a incredulidade dos guias judaicos haviam crescido até dispô-los a tirar a vida de uma pessoa a quem o infinito poder salvara do sepulcro.

Enquanto se tramava em Jerusalém essa conspiração, Jesus e Seus amigos eram convidados à festa de Simão. À mesa achava-Se Jesus, tendo a um lado Simão, a quem curara de repugnante moléstia, e do outro Lázaro, a quem ressuscitara. Marta servia à mesa, mas Maria escutava ansiosamente toda palavra que caía dos lábios de Jesus. Em Sua misericórdia perdoara Jesus os seus


DTN – Pag. 559 

pecados, chamara do sepulcro seu bem-amado irmão, e a alma de Maria estava cheia de reconhecimento. Ouvira Jesus falar de Sua morte próxima e, em seu profundo amor e tristeza, almejara honrá-Lo. Com grande sacrifício para si, comprara um vaso de alabastro de “ungüento de nardo puro, de muito preço” (João 12:3) para com ele ungir-Lhe o corpo. Mas agora muitos diziam que Ele estava para ser coroado rei. Seu pesar transformou-se em alegria, e ansiava ser a primeira a honrar a seu Senhor. Quebrando o vaso de ungüento, derramou o conteúdo sobre a cabeça e os pés de Jesus, e depois, enquanto de joelhos chorava umedecendo-os com lágrimas, enxugava-os com os longos cabelos soltos.

Buscara não ser observada, e seus movimentos poderiam passar desapercebidos, mas o ungüento encheu a sala de odor, declarando a todos os presentes a ação dela. Judas contemplou a mesma com grande desagrado. Em vez de esperar o que diria Cristo sobre o assunto, começou a murmurar suas recriminações aos que lhe ficavam mais próximos, censurando-O por tolerar esse desperdício. Fez astutamente insinuações de molde a produzir descontentamento.

Judas era tesoureiro dos discípulos, e de seu pequeno depósito subtraíra às escondidas para o próprio uso, limitando assim a uma insignificância os recursos dos discípulos. Ansiava colocar na bolsa tudo quanto pudesse obter. Dos meios desta bolsa muitas vezes se tirava para socorro dos pobres; e quando se comprava qualquer coisa que Judas não julgava essencial, dizia: Por que esse desperdício? por que o preço disso não se pôs na bolsa que tenho para os pobres? Ora, o ato de Maria achava-se em tão frisante contraste com o seu egoísmo, que o colocava em situação vergonhosa; e, segundo o seu costume, procurou apresentar um motivo digno à objeção que fazia a sua oferenda. Voltando-se para os discípulos, disse: “Por que não se vendeu este ungüento por trezentos dinheiros e não se deu aos pobres? Ora ele disse isto, não pelo cuidado que tivesse dos pobres, mas porque era ladrão, e tinha a bolsa, e tirava o que ali se lançava.” João 12:5 e 6. Judas não tinha coração para os pobres. Houvessem vendido o ungüento de Maria, caísse o lucro em seu poder, e não teriam os pobres recebido benefício.

Judas tinha em alto conceito sua habilidade administrativa. Julgava-se, como financista, muito superior aos condiscípulos e levara-os a considerá-lo da mesma maneira. Conquistara-lhes a confiança, e exercia sobre eles grande influência. Sua professada simpatia pelos pobres os enganou; e a astuta insinuação que fez


DTN – Pag. 560 

os levou a olhar com desconfiança a dedicação de Maria. E em volta da mesa passou a murmuração: “Para que é este desperdício? Pois este ungüento podia vender-se por grande preço, e dar-se o dinheiro aos pobres.” Mat. 26:8 e 9.

Maria ouviu as palavras de crítica. O coração tremeu-lhe no peito. Temeu que a irmã a repreendesse por seu desperdício. Talvez o Mestre também a julgasse imprevidente. Sem se justificar ou apresentar desculpa, estava para se esquivar dali, quando se ouviu a voz de Seu Senhor: “Deixai-a, para que a molestais?” Viu que ela estava embaraçada e aflita. Sabia que nesse ato de serviço exprimira gratidão pelo perdão de seus pecados, e acalmou-lhe o espírito. Erguendo a voz acima dos murmúrios da crítica, disse: “Ela fez-Me boa obra. Porque sempre tendes os pobres convosco, e podeis fazer-lhes bem, quando quiserdes; mas a Mim nem sempre Me tendes. Esta fez o que podia; antecipou-se a ungir o Meu corpo para a sepultura.” Mar. 14:6-8.

A fragrante oferenda que Maria pensara prodigalizar ao corpo inanimado do Salvador, vasou-a ela sobre Ele vivo. No sepultamento, seu aprazível odor não poderia impregnar senão o túmulo; agora, alegrou-Lhe o coração com a certeza de sua fé e amor. José de Arimatéia e Nicodemos não ofereceram suas dádivas de amor a Jesus em vida. Com amargo pranto levaram suas custosas especiarias ao frio e inconsciente corpo. As mulheres que levaram especiarias ao sepulcro, em vão o fizeram, pois verificaram ter Ele ressuscitado. Mas Maria, extravasando o seu amor sobre o Salvador enquanto Ele tinha conhecimento da dedicação dela, estava-O preparando para Seu sepultamento. E, ao baixar à treva de Sua grande prova, levou consigo a lembrança desse ato, penhor do amor que Seus remidos Lhe votariam para sempre.

Muitos há que levam aos mortos preciosos dons. De pé, ao lado da querida figura para sempre silenciosa, proferem abundantes palavras de amor. Ternura, apreço, dedicação, tudo é prodigalizado àquele que já não vê nem ouve. Houvessem essas palavras sido ditas quando o fatigado espírito tanto delas necessitava; quando o ouvido as apreenderia e o coração as podia sentir, quão precioso teria sido o seu perfume!

Maria não sabia toda a significação de seu ato de amor. Não podia responder a seus acusadores. Não saberia explicar por que escolhera aquela ocasião para ungir a Jesus. O Espírito Santo planejara por ela, e ela Lhe obedecera às sugestões. A inspiração não se detém para dar o motivo. Presença invisível, fala ela à mente e à alma, e move o coração para agir. Ela é sua própria justificação.

Cristo explicou a Maria o significado de seu ato, e com isso deu


DTN – Pag. 563 

mais do que recebera. “Ora, derramando este perfume sobre o Meu corpo”, disse Ele, “ela o fez para o Meu sepultamento.” Mat. 26:12. Como o vaso de alabastro foi quebrado, e encheu toda a casa com sua fragrância, assim Cristo havia de morrer e Seu corpo ser quebrantado; mas Ele Se ergueria da tumba, e o perfume de Sua vida havia de encher a Terra. “Cristo nos amou, e Se entregou a Si mesmo por nós, em oferta de sacrifício a Deus, em cheiro suave.” Efés. 5:2.

“Em verdade vos digo”, declarou Cristo, “que, em todas as partes do mundo onde este evangelho for pregado, também o que ela fez será contado para sua memória.” Mar. 14:9. Contemplando o futuro, o Salvador falou com segurança a respeito de Seu evangelho. Ele devia ser pregado por todo o mundo. E onde quer que se estendesse o evangelho, a oferenda de Maria havia de espargir sua fragrância, e por sua ação espontânea seriam abençoados outros corações. Erguer-se-iam e cairiam impérios; seriam esquecidos nomes de reis e conquistadores; mas o feito dessa mulher seria imortalizado nas páginas da História Sagrada. Enquanto o tempo durasse, aquele partido vaso de alabastro contaria a história do abundante amor de Deus a uma raça caída.

O ato de Maria achava-se em assinalado contraste com o que Judas estava para praticar. Que incisiva lição poderia ter Cristo dado àquele que lançara a semente da crítica e do mau juízo na mente dos discípulos! Com quanta justiça poderia o acusador haver sido acusado! Aquele que lê os motivos de cada alma, e entende toda ação, poderia haver aberto, aos olhos dos convivas da festa, sombrios capítulos da vida de Judas. Poderia ter sido patenteada a vã pretensão em que o traidor baseava suas palavras; pois, em vez de compadecer-se dos pobres, roubava-os do dinheiro que se destinava a socorrê-los. Poderia haver sido despertada indignação contra ele por sua opressão à viúva, ao órfão e ao jornaleiro. Houvesse, porém, Jesus desmascarado Judas, isso teria sido apresentado como causa da traição. E, se bem que acusado de ladrão, Judas teria captado simpatia, mesmo entre os discípulos. O Salvador não o repreendeu, e evitou assim dar-lhe desculpa para a traição.

O olhar que Jesus lhe lançou, no entanto, convenceu a Judas de que o Salvador lhe penetrara a hipocrisia, e lera seu baixo, desprezível caráter. E louvando Maria, tão severamente reprovada, Cristo repreendera a Judas. Antes disso, o Salvador nunca lhe fizera uma censura direta. Agora, a reprimenda irritou-lhe o coração. Decidiu vingar-se. Da ceia, saiu diretamente para


DTN – Pag. 564 

o palácio do sumo sacerdote, onde encontrou reunido o conselho, e ofereceu-se para lhes entregar Jesus nas mãos.

Os sacerdotes se regozijaram. A esses guias de Israel fora concedido o privilégio de receber a Jesus como Salvador, sem dinheiro e sem preço. Mas recusaram o precioso dom a eles oferecido no mais terno espírito de constrangedora afeição. Recusaram aceitar aquela salvação que é mais valiosa do que o ouro, e compraram seu Senhor por trinta moedas de prata.

Judas condescendera com a avareza até que ela lhe dominara todos os bons traços de caráter. Invejou a dádiva feita a Jesus. Seu coração queimou de inveja de que o Salvador fosse objeto de uma oferenda digna dos reis da Terra. Por uma quantia muito inferior a do vaso de ungüento, traiu a seu Senhor.

Os discípulos não eram como Judas. Amavam o Salvador. Não Lhe apreciavam, entretanto, o elevado caráter. Houvessem compreendido o que fizera por eles, e teriam sentido que coisa alguma que Lhe fosse oferecida era desperdiçada. Os magos do Oriente, que tão pouco sabiam a respeito de Jesus, haviam mostrado mais verdadeiro apreço da honra que Lhe era devida. Levaram preciosas dádivas ao Salvador, e diante dEle se inclinaram em homenagem, quando era ainda um simples Bebê deitado na manjedoura.

Cristo dá valor aos atos de sincera cortesia. Quando qualquer Lhe prestava um favor, com celestial delicadeza Ele o abençoava. Não recusava a mais singela flor arrancada pela mão de uma criança e a Ele oferecida com amor. Aceitava as ofertas dos pequeninos, e abençoava os doadores inscrevendo-lhes o nome no livro da vida. A unção feita por Maria acha-se nas Escrituras, mencionada como distintivo das outras Marias. Atos de amor e reverência para com Jesus são uma demonstração de fé nEle como Filho de Deus. E o Espírito Santo menciona como testemunho de lealdade para com Cristo: “Se lavou os pés aos santos, se socorreu os aflitos, se praticou toda boa obra.” I Tim. 5:10.

Cristo Se deleitava no sincero desejo de Maria de fazer a vontade de Seu Senhor. Aceitava a riqueza do puro afeto que Seus discípulos não compreendiam, não queriam compreender. O desejo que Maria tinha de prestar esse serviço a seu Senhor era para Ele de mais valor que todos os preciosos ungüentos da Terra, pois exprimia seu apreço pelo Redentor do mundo. Era o amor de Cristo que a constrangia. Enchia-lhe a alma a incomparável excelência do caráter de Cristo. Aquele ungüento era símbolo do coração da doadora. Era demonstração exterior de um amor nutrido por correntes celestiais e que chegara a ponto de extravasamento.


DTN – Pag. 565 

A obra de Maria era exatamente a lição que os discípulos necessitavam, para mostrar-lhes que seriam aprazíveis a Cristo as expressões de amor por parte deles. Jesus fora-lhes tudo e não percebiam que em breve seriam privados de Sua presença, que dentro em pouco não lhes seria dado oferecer-Lhe nenhum sinal de reconhecimento por Seu grande amor. A solidão de Cristo, separado das cortes celestiais, vivendo a vida da humanidade, nunca a compreenderam nem apreciaram devidamente os discípulos. Foi muitas vezes magoado, porque não Lhe dispensavam aquilo que deles deveria ter recebido. Sabia que, estivessem sob a influência dos anjos celestiais que O acompanhavam, também haviam de considerar que nenhuma dádiva era de suficiente valor para exprimir o espiritual afeto do coração.

Seu conhecimento posterior deu-lhes o verdadeiro sentimento quanto às muitas coisas que poderiam ter feito para Jesus, exprimindo o amor e o reconhecimento de seu coração, enquanto Lhe estavam ao lado. Quando não mais Jesus Se achava entre eles, e se sentiam na verdade como ovelhas sem pastor, começavam a ver como poderiam ter manifestado para com Ele atenções que Lhe teriam alegrado o coração. Não mais então censuraram a Maria, mas a si mesmos. Oh! se lhes fosse dado retirar sua crítica, e apresentarem os pobres como mais dignos da oferenda do que Jesus! Sentiram vivamente a reprovação, ao tirarem da cruz o ferido corpo de seu Senhor.

A mesma falta se manifesta hoje, em nosso mundo. Poucos somente apreciam o que Cristo é para eles. Fizessem-no, no entanto, e o grande amor de Maria seria expressado, a unção liberalmente feita. Não seria considerado desperdício o custoso ungüento. Coisa alguma se reputaria demasiado preciosa para Cristo, nenhuma abnegação nem sacrifício grande demais para ser suportado por amor dEle.

As palavras proferidas em indignação: “Por que é este desperdício?” (Mat. 26:8) recordaram vividamente a Cristo o maior sacrifício já feito – o dom de Si mesmo como propiciação por um mundo perdido. O Senhor seria tão generoso para com a família humana, que não se poderia dizer que Lhe era possível fazer mais. No dom de Jesus, Deus deu todo o Céu. Sob o ponto de vista humano, esse sacrifício era um espantoso desperdício. Para o raciocínio humano todo o plano de salvação é um desperdício de misericórdias e recursos. Encontramos por toda parte abnegação e sacrifício feito com toda a alma. Bem podem as hostes celestiais contemplar, com assombro, a família humana que recusa ser erguida e enriquecida com o ilimitado amor expresso em Cristo. Bem podem elas exclamar: por que este grande desperdício?


DTN – Pag. 566 

Mas a expiação por um mundo perdido devia ser plena, abundante, completa. A oferenda de Cristo foi inexcedivelmente abundante para abranger toda alma que Deus criou. Não se podia restringir, de modo a não exceder o número dos que haviam de aceitar o grande Dom. Nem todos os homens são salvos; todavia, o plano da salvação não é um desperdício pelo fato de não realizar tudo que foi provido por sua liberalidade. Há o suficiente, e sobeja ainda.

Simão, o hospedeiro, fora influenciado pela crítica de Judas à dádiva de Maria, e surpreendeu-se do procedimento de Jesus. Seu orgulho farisaico ofendeu-se. Sabia que muitos de seus hóspedes estavam olhando a Jesus com desconfiança e desagrado. Simão disse no seu interior: “Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que Lhe tocou, pois é uma pecadora.” Luc. 7:39.

Curando Simão da lepra, Cristo o salvara de uma morte em vida. Mas agora Simão duvidava se o Salvador era profeta. Por Cristo permitir que essa mulher dEle se aproximasse, por não a desprezar como alguém cujos pecados são demasiado grandes para serem perdoados, por não mostrar que compreendia haver ela caído, Simão foi tentado a pensar que Ele não era profeta. Jesus nada sabe dessa mulher, tão pródiga em demonstrações, pensou ele, ou não lhe permitiria que O tocasse.

Foi, porém, a ignorância de Simão acerca de Deus e de Cristo que o levou a assim pensar. Não compreendeu que o Filho de Deus deve agir à maneira divina, compassiva, terna e misericordiosamente. A maneira de Simão era não fazer caso do penitente serviço de Maria. Seu ato de beijar os pés de Cristo e ungir-Lhos com o ungüento foi exasperante para seu coração endurecido. Pensou que se Cristo fosse profeta, reconheceria os pecadores e os repreenderia.

A esse inexpresso pensamento, respondeu o Salvador: “Simão, uma coisa tenho a dizer-te…. Um certo credor tinha dois devedores; um devia-lhe quinhentos dinheiros, e outro cinqüenta. E, não tendo ele com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Dize pois: qual deles o amará mais? E Simão, respondendo, disse: Tenho para mim que é aquele a quem mais perdoou. E Ele lhe disse: Julgaste bem.” Luc. 7:40-43.

Como fizera Natã com Davi, Cristo ocultou Seu bem atirado golpe sob o véu de uma parábola. Lançou sobre o hospedeiro a responsabilidade de proferir a própria sentença. Simão induzira ao pecado a mulher que ora desprezava. Fora por ele profundamente prejudicada. Pelos dois devedores da parábola, eram representados Simão e a mulher. Jesus não intentava ensinar que diferentes graus de obrigação houvessem de ser sentidos pelas


DTN – Pag. 567 

duas pessoas, pois cada uma tinha um débito de gratidão que nunca se poderia solver. Mas Simão se julgava mais justo que Maria, e Jesus desejava fazer-lhe ver quão grande era na verdade a sua culpa. Queria mostrar-lhe que seu pecado era maior que o dela, tão maior, como um débito de quinhentos dinheiros é superior a uma dívida de cinqüenta.

Simão começou então a ver-se sob um novo aspecto. Observou como Maria era considerada por Alguém que era mais que profeta. Notou que, com o penetrante olhar profético, Cristo lhe lera o amorável e devotado coração. A vergonha apoderou-se dele, e percebeu achar-se em presença de Alguém que lhe era superior.

“Entrei em tua casa”, continuou Cristo, “e não Me deste água para os pés”; mas com lágrimas de arrependimento originadas no amor, Maria lavou-Me os pés e enxugou-os com os próprios cabelos. “Não Me deste ósculo, mas esta mulher” a quem tu desprezas, “desde que entrou, não tem cessado de Me beijar os pés.” Luc. 7:44 e 45. Cristo contava as oportunidades que Simão tivera de manifestar seu amor pelo Senhor, e o apreço pelo que fora feito por ele. Claramente, se bem que com delicada polidez, o Salvador assegurou a Seus discípulos que o coração se Lhe magoa quando Seus filhos se descuidam de manifestar gratidão para com Ele por palavras e atos de amor.

O Perscrutador do coração lera os motivos que deram lugar ao ato de Maria, e viu também o espírito que instigara as palavras de Simão. “Vês tu esta mulher?” disse-lhe. É uma pecadora. Digo-te “que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado pouco ama”. Luc. 7:47.

A frieza de Simão e sua negligência para com o Salvador mostravam quão pouco apreciava a bênção que recebera. Julgava honrar a Jesus, convidando-O à sua casa. Mas viu-se então como na realidade era. Enquanto pensara ler seu Hóspede, Este o estivera lendo a ele. Viu quão justo era o juízo de Cristo a seu respeito. Sua justiça fora um vestido de farisaísmo. Desprezara a compaixão de Jesus. Não O reconhecera como representante de Deus. Ao passo que Maria era uma pecadora perdoada, ele era um não perdoado pecador. A rigorosa regra de justiça que quisera impor contra ela, condenava-o a ele próprio.

Simão foi tocado pela bondade de Jesus em não o repreender abertamente diante dos hóspedes. Não fora tratado como desejara que Maria o fosse. Viu que Jesus não desejava expor sua culpa diante dos outros, mas buscava, por uma exata exposição do fato, convencer-lhe o espírito e por piedosa bondade vencer-lhe o coração. Uma severa acusação haveria endurecido Simão contra o arrependimento, mas a paciente admoestação o convenceu de


DTN – Pag. 568 

seu erro. Viu a magnitude do débito que tinha para com seu Senhor. Seu orgulho humilhou-se, ele se arrependeu, e o altivo fariseu tornou-se um humilde e abnegado discípulo.

Maria fora considerada grande pecadora, mas Cristo sabia as circunstâncias que lhe tinham moldado a vida. Poderia haver-lhe extinguido nalma toda centelha de esperança, mas não o fez. Fora Ele que a erguera do desespero e da ruína. Sete vezes ouvira ela Sua repreensão aos demônios que lhe dominavam o coração e a mente. Ouvira-Lhe o forte clamor ao Pai em benefício dela. Sabia quão ofensivo é o pecado à Sua imaculada pureza, e em Sua força vencera.

Quando, aos olhos humanos, seu caso parecia desesperado, Cristo viu em Maria aptidões para o bem. Viu os melhores traços de seu caráter. O plano da redenção dotou a humanidade de grandes possibilidades, e em Maria se deviam as mesmas realizar. Mediante Sua graça, tornou-se participante da natureza divina. Aquela que caíra e cuja mente fora habitação de demônios, chegara bem perto do Salvador em associação e serviço. Foi Maria que se assentou aos pés de Jesus e dEle aprendeu. Foi ela que Lhe derramou na cabeça o precioso ungüento, e banhou os pés com as próprias lágrimas. Achou-se aos pés da cruz e O seguiu ao sepulcro. Foi a primeira junto ao sepulcro, depois da ressurreição. A primeira a proclamar o Salvador ressuscitado.

Jesus conhece as circunstâncias de toda alma. Podeis dizer: Sou pecador, muito pecador. Talvez o sejais; mas quanto pior fordes, tanto mais necessitais de Jesus. Ele não repele nenhuma criatura que chora, contrita. Não diz a ninguém tudo quanto poderia revelar, mas manda a toda alma tremente que tenha ânimo. Perdoará abundantemente todos quantos a Ele forem em busca de perdão e restauração.

Cristo poderia comissionar os anjos do Céu para derramar as taças de Sua ira sobre nosso mundo, a fim de destruir a todos quantos estão cheios de ódio contra Deus. Poderia apagar essa mancha negra do Seu Universo. Mas assim não faz. Acha-Se hoje ante o altar de incenso, apresentando perante Deus as orações dos que desejam Seu auxílio.

As almas que a Ele se volvem em busca de refúgio, Cristo erguerá acima da acusação e da contenda das línguas. Nenhum homem ou anjo mau pode incriminar a essas almas. Cristo as liga a Sua própria natureza humano-divina. Acham-se ao lado dAquele que tomou sobre Si os pecados, na luz que procede do trono divino. “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? Pois é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre os mortos, a qual está à direita de Deus, e também intercede por nós.” Rom. 8:33 e 34.

Comentário sobre O Desejado de Todas as Nações, cap. 58

O que você faz quando está convencido de que Deus errou? Como você lida com a frustração quando as promessas divinas parecem falhar? O que você faz quando Deus permite decepções? O que acontece quando você acha que Jesus poderia ter dirigido os acontecimentos de maneira diferente?

Maria e Marta mandaram uma mensagem a Jesus dizendo que Lázaro estava doente. Embora não tenham ficado satisfeitas por ele não ter ido ao encontro delas imediatamente, elas devem ter ficado consoladas com Sua resposta: “Esta enfermidade não é para a morte” (João 11:4). Entretanto, dias depois, quando Lázaro morreu, devem ter ficado devastadas. Será que Jesus errou?

Conforta-me saber que Jesus afirmou que a morte não vencerá; não na presença daquele que é a ressurreição e a vida. Isso tem me sustentado desde que recebi o telefonema, “a sua igreja está em chamas”. Imediatamente erguemos nossas orações, reivindicamos promessas, certos de que a igreja não iria queimar completamente. Poucas horas depois, recebemos a mensagem, “a igreja foi totalmente consumida pelo fogo”.

Visitando o local, creio que Jesus chorou conosco em nossa tristeza e incredulidade. Então Ele fez o que Ele é especialista. Jesus nos chamou para sairmos da tumba e sermos uma luz na comunidade para glorificá-lo.

Um prédio pode ter se queimado, mas a igreja ainda está viva. Eu oro para que usemos esta oportunidade a fim de atrair outras pessoas para ele.

Você também está precisando de uma ressurreição?

Karen Lifshay
Corista
Igreja Adventista do Sétimo Dia de Hermiston, Oregon

Texto original: https://www.revivalandreformation.org/bhp/en/sop/da/58
Tradução: Jobson Santos, Jeferson Quimelli e Gisele Quimelli

 

O DESEJADO DE TODAS AS NAÇÕES, cap. 58

CAPÍTULO 58

Lázaro, Sai Para Fora

DTN – Pag. 524 

Entre os mais firmes discípulos de Cristo, achava-se Lázaro de Betânia. Desde o primeiro encontro que tiveram, havia sido forte sua fé em Cristo; profundo era o amor que Lhe dedicava, e muito o amava o Salvador. Foi em benefício de Lázaro que se realizou o maior dos milagres de Cristo. O Salvador beneficiava a todos quantos Lhe buscavam o auxílio. Ama toda a família humana; mas liga-Se a alguns por laços especialmente ternos. Seu coração estava unido por forte vínculo de afeição à família de Betânia, e por um membro dela foi realizada a mais maravilhosa de Suas obras.

No lar de Lázaro encontrara Jesus muitas vezes repouso. O Salvador não tinha lar próprio; dependia da hospitalidade de amigos e discípulos; e freqüentemente, quando cansado, sequioso de companhia humana, alegrara-Se de poder escapar para esse pacífico ambiente de família, longe das suspeitas e invejas dos raivosos fariseus. Ali recebia sincero acolhimento, pura e santa amizade. Ali podia falar com simplicidade e liberdade perfeitas, sabendo que Suas palavras seriam compreendidas e entesouradas.

Nosso Salvador apreciava um lar tranqüilo e ouvintes interessados. Anelava a ternura, a cortesia e o afeto humanos. Os que recebiam a celestial instrução que sempre estava pronto a comunicar, eram grandemente abençoados. Ao seguirem-nO as multidões através dos campos, desvendava-lhes as belezas do mundo


DTN – Pag. 525 

natural. Procurava abrir-lhes os olhos do entendimento, a fim de verem como a mão divina sustém os mundos. A fim de despertar apreço pela bondade e benevolência divinas, chamava a atenção dos ouvintes para o orvalho a cair de manso, a branda chuva e o resplendente Sol, dados igualmente aos bons e aos maus. Desejava que os homens compreendessem mais perfeitamente o cuidado que Deus dispensa aos instrumentos humanos por Ele criados. A multidão, porém, era tardia em ouvir, e no lar de Betânia Cristo encontrava repouso do fatigante conflito da vida pública. Descerrava ali, perante um auditório apto a apreciar, o volume da Providência. Nessas palestras íntimas, desdobrava a Seus ouvintes o que não tentava dizer à multidão mista. A Seus amigos, não necessitava falar por parábolas.

Ao dar Cristo Suas admiráveis lições, Maria sentava-se-Lhe aos pés, ouvinte atenta e reverente. Certa vez, Marta, perplexa com o cuidado de preparar a refeição, foi ter com Cristo, dizendo: “Senhor, não se Te dá de que minha irmã me deixe servir só? Dize-lhe pois que me ajude.” Isto foi por ocasião da primeira visita de Cristo a Betânia. O Salvador e os discípulos haviam feito a pé a fatigante viagem de Jericó até lá. Marta anelava proporcionar-lhes conforto e, em sua ansiedade, esqueceu a gentileza devida ao Hóspede. Jesus lhe respondeu branda e pacientemente: “Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada.” Luc. 10:41 e 42. Maria estava enriquecendo o espírito com as preciosas palavras caídas dos lábios do Salvador, palavras mais valiosas para ela do que as mais magníficas jóias da Terra.

A “uma só” coisa que Marta necessitava, era espírito calmo, devoto, mais profundo anseio de conhecimento da vida futura, imortal, e as graças necessárias ao progresso espiritual. Precisava de menos ansiedade em torno das coisas que passam, e mais pelas que permanecem para sempre. Jesus quer ensinar Seus filhos a se apoderarem de toda oportunidade de adquirir o conhecimento que os tornará sábios para a salvação. A causa de Cristo requer obreiros cuidadosos e enérgicos. Existe vasto campo para as Martas, com seu zelo no culto ativo. Sentem-se elas primeiro, porém, com Maria aos pés de Jesus. Sejam a diligência, prontidão e energia santificadas pela graça de Cristo; então a vida será uma invencível força para o bem.

A dor penetrou no pacífico lar em que Jesus descansara. Lázaro foi acometido de repentina moléstia, e as irmãs mandaram em busca do Salvador, dizendo: “Senhor, eis que está enfermo


DTN – Pag. 526 

aquele que Tu amas.” João 11:3. Viram a violência do mal que atacara o irmão, mas sabiam que Jesus Se demonstrara capaz de curar toda espécie de doenças. Acreditavam que delas Se compadeceria em sua aflição; não puseram, pois, maior empenho em que viesse imediatamente, mas enviaram apenas a confiante mensagem: “Eis que está enfermo aquele que Tu amas.” Julgavam que atenderia imediatamente a esse apelo e Se acharia com elas assim que Lhe fosse possível. Ansiosas, aguardavam uma palavra de Jesus. Enquanto restou em seu irmão uma centelha de vida, oraram, e esperaram pelo Mestre. Mas o mensageiro voltou sem Ele. Trouxe, todavia, o recado: “Esta enfermidade não é para morte” (João 11:4), e elas se apegaram à esperança de que Lázaro viveria. Buscavam com ternura dirigir palavras de esperança e animação ao quase inconsciente enfermo. Quando Lázaro morreu, ficaram cruelmente decepcionadas; sentiam-se, porém, sustidas pela graça de Cristo, e isso as guardou de lançar qualquer censura ao Salvador.

Quando Cristo ouviu a notícia, os discípulos julgaram que a recebera friamente. Não manifestou o pesar que esperavam. Olhando para eles, disse: “Esta enfermidade não é para morte, mas para glória de Deus; para que o Filho de Deus seja glorificado por ela.” Por dois dias Se demorou no lugar em que Se achava. Essa demora era um mistério para os discípulos. Que conforto Sua presença seria para a aflita família! pensavam. Era bem conhecida dos discípulos Sua grande afeição pela família de Betânia, e surpreenderam-se de que Ele não atendesse à triste mensagem: “Eis que está enfermo aquele que Tu amas.”

Durante os dois dias, Cristo parecia haver alijado da mente a notícia; pois não falava em Lázaro. Os discípulos lembraram-se de João Batista, o precursor de Jesus. Haviam-se admirado de que, com o poder de que dispunha para operar milagres maravilhosos, Cristo houvesse permitido que João definhasse no cárcere e morresse de morte violenta. Possuindo tal poder, por que não salvara a vida de João? Essa pergunta fora muitas vezes feita pelos fariseus, que a apresentavam como irrefutável argumento contra a afirmação de Cristo, de ser o Filho de Deus. O Salvador advertira os discípulos de provações, perdas e perseguições. Abandoná-los-ia na provação? Alguns cogitaram se se haviam enganado a respeito de Sua missão. Todos ficaram profundamente perturbados.

Depois de esperar dois dias, disse Jesus aos discípulos: “Vamos outra vez para a Judéia.” João 11:7. Os discípulos reflexionavam por que, se Jesus ia para a Judéia, esperara dois dias? Mas a ansiedade


DTN – Pag. 527 

por Cristo e por eles próprios tomou então o primeiro plano no espírito deles. Não podiam ver senão perigos no passo que Ele ia dar. “Rabi”, disseram, “ainda agora os judeus procuravam apedrejar-Te, e tornas para lá? Jesus respondeu: Não há doze horas no dia?” Acho-Me sob a direção de Meu Pai; enquanto fizer Sua vontade, Minha vida está segura. As doze horas do Meu dia ainda não findaram. Entrei em suas últimas horas; mas enquanto restar algumas delas, acho-Me a salvo.

“Se alguém andar de dia”, continuou, “não tropeça, porque vê a luz deste mundo.” Aquele que faz a vontade de Deus, que anda na vereda por ele indicada, não pode tropeçar nem cair. A luz do Espírito de Deus, a guiá-lo, dá-lhe clara percepção de seu dever, conduzindo-o direito até ao fim de sua obra. “Mas, se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz.” Aquele que anda em caminho de sua própria escolha, ao qual Deus não o chamou, tropeçará. Para esse o dia se torna em noite, e onde quer que esteja, não se acha seguro.

“Assim falou; e depois disse-lhes: Lázaro, o nosso amigo dorme, mas vou despertá-lo do sono.” “Lázaro, o nosso amigo, dorme.” João 11:9-11. Que tocantes essas palavras! quão repassadas de simpatia! Ao pensamento do perigo que seu Mestre ia correr indo a Jerusalém, os discípulos quase esqueceram a enlutada família de Betânia. Tal, porém, não se dera com Cristo. Os discípulos sentiram-se repreendidos. Tinham ficado decepcionados por Cristo não atender mais prontamente à mensagem. Foram tentados a pensar que não possuía por Lázaro e suas irmãs a terna afeição que Lhe atribuíam, do contrário Se teria apressado a ir com o mensageiro. Mas as palavras: “Lázaro, o nosso amigo, dorme”, despertaram-lhes os devidos sentimentos. Convenceram-se de que Jesus não esquecera os amigos em aflição.

“Disseram pois os Seus discípulos: Senhor, se dorme, estará salvo. Mas Jesus dizia isto da sua morte; eles, porém, cuidavam que falava do repouso do sono.” João 11:12 e 13. Cristo apresenta a morte, para Seus filhos crentes, como um sono. Sua vida está escondida com Cristo em Deus, e até que soe a derradeira trombeta, os que morrem dormirão nEle.

Então Jesus lhes disse claramente: “Lázaro está morto; e folgo, por amor de vós de que Eu lá não estivesse, para que acrediteis; mas vamos ter com ele.” João 11:14 e 15. Tomé não podia ver senão morte reservada a seu Mestre, caso fosse para a Judéia; mas encheu-se de ânimo, e disse aos outros discípulos: “Vamos nós também, para morrermos com Ele.” João 11:16. Ele conhecia o ódio dos judeus para com


DTN – Pag. 528 

Cristo. Era desígnio deles tramar-Lhe a morte, mas não alcançaram esse objetivo, porque Lhe restava ainda algum do tempo que Lhe estava determinado. Durante esse tempo, Jesus tinha a guarda dos anjos celestiais, e mesmo nas regiões da Judéia, onde os rabis estavam tramando a maneira de se apoderar dEle e entregá-Lo à morte, mal algum Lhe poderia sobrevir.

Os discípulos maravilharam-se às palavras de Cristo, quando disse: “Lázaro está morto; e folgo… que Eu lá não estivesse.” João 11:14 e 15. Esquivar-Se-ia o Salvador, por Sua própria vontade, do lar de Seus amigos em sofrimento? Aparentemente. Maria, Marta e o moribundo Lázaro foram deixados sós. Mas não estavam sós. Cristo testemunhou toda a cena e, depois da morte de Lázaro, Sua graça susteve as desoladas irmãs. Jesus testemunhou a dor de seus despedaçados corações, ao lutar o irmão contra o poderoso inimigo – a morte. Sentiu todo o transe da agonia, quando disse aos discípulos: “Lázaro o nosso amigo, dorme.” Mas Cristo não tinha somente os amados de Betânia em quem pensar; o preparo de Seus discípulos exigia-Lhe a consideração. Deviam ser Seus representantes perante o mundo, para que a bênção do Pai a todos pudesse abranger. Por amor deles permitiu que Lázaro morresse. Houvesse-o Ele restabelecido à saúde, e não se teria realizado o milagre que é a mais positiva prova de Seu caráter divino.

Se Cristo Se achara no quarto do doente, este não teria morrido; pois Satanás nenhum poder sobre ele exerceria. A morte não alvejaria a Lázaro com seu dardo, em presença do Doador da vida. Portanto, Cristo Se conservou distante. Consentiu que o maligno exercesse seu poder, a fim de o fazer recuar como um inimigo vencido. Permitiu que Lázaro passasse pelo poder da morte; e as consternadas irmãs viram seu amado ser deposto no sepulcro. Cristo sabia que ao contemplarem o rosto inanimado do irmão, severa seria a prova de sua fé no Redentor. Mas sabia que, em virtude da luta por que estavam então passando essa fé resplandeceria com brilho incomparavelmente maior. Sofreu cada transe da dor que padeceram. Não os amava menos, pelo fato de demorar-Se; mas sabia que por elas, por Lázaro, por Ele próprio e os discípulos, deveria ser obtida uma vitória.

“Por amor de vós”, “para que acrediteis.” A todos quantos estão buscando sentir a mão guiadora de Deus, o momento do maior desânimo é justamente aquele em que mais perto está o divino auxílio. Olharão para trás com reconhecimento, à parte mais sombria do caminho que percorreram. “Assim sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos.” II Ped. 2:9. De toda tentação e de toda prova, tirá-los-á Ele com mais firme fé e mais rica experiência.


DTN – Pag. 529 

Retardando Sua ida para junto de Lázaro, tinha Cristo um desígnio de misericórdia para com os que O não receberam. Demorou-Se para que, erguendo Lázaro dos mortos, pudesse dar a Seu incrédulo, obstinado povo, outra prova de que era na verdade “a ressurreição e a vida”. Custava-Lhe renunciar a toda esperança quanto ao povo, as pobres, extraviadas ovelhas da casa de Israel. Partia-se-Lhe o coração por causa da sua impenitência. Determinou, em Sua misericórdia, dar mais uma prova de que era o Restaurador, Aquele que, unicamente, podia trazer à luz a vida e a imortalidade. Havia de ser um testemunho que os sacerdotes não pudessem torcer. Foi essa a causa de Sua demora em ir a Betânia. Esse milagre, a coroa dos milagres do Salvador – a ressurreição de Lázaro – devia pôr o selo de Deus em Sua obra e em Sua reivindicação à divindade.

Na jornada para Betânia, Jesus, segundo o Seu costume, socorreu os enfermos e necessitados. Ao chegar à cidade, mandou às irmãs um mensageiro com as novas de Sua chegada. Cristo não entrou imediatamente em casa, mas ficou num lugar retirado, próximo ao caminho. A grande demonstração que os judeus costumavam fazer por ocasião da morte de parentes e amigos, não se coadunava com o espírito de Cristo. Ouviu os sons das lamentações dos pranteadores assalariados, e não desejava encontrar-Se com as irmãs nessa cena de confusão. Entre os pranteadores amigos, achavam-se parentes da família, alguns dos quais ocupavam posições de responsabilidade em Jerusalém. Encontravam-se entre eles os mais rancorosos inimigos de Cristo. Este lhes conhecia os desígnios, e daí não Se deu imediatamente a conhecer.

A mensagem foi transmitida a Marta tão discretamente, que outros no quarto não a ouviram. Absorta em seu pesar, Maria não escutou as palavras. Erguendo-se de pronto, Marta saiu ao encontro do Senhor, mas, pensando que ela fora ao sepulcro de Lázaro, Maria deixou-se ficar em silêncio com a sua mágoa, sem fazer nenhum rumor.

Marta apressou-se em ir ter com Jesus, o coração agitado por desencontradas emoções. Em Seu expressivo rosto, leu ela a mesma ternura e amor que nEle sempre vira. Sua confiança nEle permaneceu intata, mas lembrou-se de seu bem-amado irmão, a quem também Jesus amara. Num misto de desgosto nascente, por Cristo não ter vindo antes, e de esperança de que ainda agora faria qualquer coisa para as confortar, exclamou: “Senhor, se Tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido!” João 11:21. Repetidas vezes, por entre o tumulto dos pranteadores, haviam as irmãs feito essa exclamação.


DTN – Pag. 530 

Com humana e divina piedade, contemplou Jesus seu dolorido e fatigado rosto. Marta não mostrava desejos de narrar o acontecido; tudo se exprimiu nas patéticas palavras: “Senhor, se Tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido!” Fitando o amorável semblante, acrescentou: “Mas também agora sei que tudo quanto pedires a Deus, Deus To concederá.” João 11:21 e 22.

Jesus lhe animou a fé, dizendo: “Teu irmão há de ressuscitar.” João 11:23. Sua resposta não visava a inspirar a expectativa de uma mudança imediata. Conduziu os pensamentos de Marta para além da restauração presente de seu irmão, fixando-os na ressurreição dos justos. Assim fez para que visse, na ressurreição de Lázaro, o penhor da de todos os justos mortos e a certeza de que se realizaria pelo poder do Salvador.

Marta respondeu: “Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia.” João 11:24.

Ainda procurando dar a verdadeira direção à sua fé, Jesus declarou: “Eu sou a ressurreição e a vida.” Em Cristo há vida original, não emprestada, não derivada. “Quem tem o Filho tem a vida.” I João 5:12. A divindade de Cristo é a certeza de vida eterna para o crente. “Quem crê em Mim”, disse Jesus, “ainda que esteja morto viverá; e todo aquele que vive, e crê em Mim, nunca morrerá. Crês tu isto?” João 11:25 e 26. Cristo olha aqui ao tempo de Sua segunda vinda. Então os justos mortos ressuscitarão incorruptíveis, e os vivos serão trasladados para o Céu, sem ver a morte. O milagre que Cristo estava prestes a realizar, em ressuscitar a Lázaro dos mortos, representaria a ressurreição de todos os justos mortos. Por Suas palavras e obras, declarou-Se o Autor da ressurreição. Aquele que estava, Ele próprio, prestes a morrer na cruz, retinha as chaves da morte, vencedor do sepulcro, e afirmou Seu direito e poder de dar vida eterna.

Às palavras do Salvador: “Crês tu?” Marta respondeu: “Sim, Senhor, creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo.” João 11:27. Ela não compreendia em toda a sua significação as palavras proferidas por Cristo, mas confessou sua fé na divindade dEle, e sua confiança em que Ele era capaz de efetuar qualquer coisa que Lhe aprouvesse.

“E, dito isto, partiu e chamou em segredo a Maria, sua irmã, dizendo: O Mestre está cá, e chama-te.” João 11:28. Ela comunicou sua mensagem o mais reservadamente possível; pois os sacerdotes e principais estavam preparados para prender Jesus quando se oferecesse oportunidade. O clamor dos pranteadores impediu que suas palavras fossem ouvidas.


DTN – Pag. 533 

Ao receber a comunicação, Maria ergueu-se apressadamente, e com expressão ansiosa, deixou a sala. Julgando que ela fora à sepultura para chorar, os pranteadores seguiram-na. Ao chegar ao local em que Jesus a esperava, ajoelhou-se-Lhe aos pés, e disse com lábios trêmulos: “Senhor, se Tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.” João 11:21. Eram-lhe penosos os gritos dos pranteadores; pois ela desejava trocar algumas tranqüilas palavras só com Jesus. Mas conhecia a inveja e o ciúme que alguns dos presentes contra Ele nutriam no coração, e absteve-se de exprimir-Lhe plenamente a sua mágoa.

“Jesus pois, quando a viu chorar, e também chorando os judeus que com ela vinham, moveu-Se muito em espírito, e perturbou-Se.” João 11:33. Lia o coração de todos os que ali estavam reunidos. Viu que da parte de muitos, não passava de simulação o que apresentavam como demonstração de pesar. Sabia que alguns no grupo, manifestando agora hipócrita tristeza, estariam sem muita demora, planejando a morte, não somente do poderoso Operador de Milagres, mas daquele que estava para ser ressuscitado. Cristo lhes poderia haver arrancado o manto de fingido pesar. Conteve, porém, Sua justa indignação. As palavras que poderia, com toda verdade, haver proferido, calou-as por amor do querido ser a Seus pés ajoelhado em dor, e que realmente nEle acreditava.

“Onde o pusestes?” perguntou. “Disseram-Lhe: Senhor, vem e vê.” João 11:34. Juntos, dirigiram-se para o sepulcro. Foi uma cena dolorosa. Lázaro fora muito amado, e as irmãs por ele choravam, despedaçado o coração, ao passo que os que haviam sido amigos seus, misturavam as lágrimas com as das desoladas irmãs. Em face dessa aflição humana e de que os amigos consternados pranteavam o morto, enquanto o Salvador do mundo ali Se achava – “Jesus chorou”. João 11:35. Se bem que fosse o Filho de Deus, revestira-Se, no entanto, da natureza humana e comoveu-Se com a humana dor. Seu terno, compassivo coração está sempre pronto a compadecer-se perante o sofrimento. Chora com os que choram, e alegra-Se com os que se alegram.

Não foi, porém, simplesmente pela simpatia humana para com Maria e Marta, que Jesus chorou. Havia em Suas lágrimas uma dor tão acima da simples mágoa humana, como o Céu se acha acima da Terra. Cristo não chorou por Lázaro; pois estava para o chamar do sepulcro. Chorou porque muitos dos que ora pranteavam a Lázaro haviam de em breve tramar a morte dAquele que era a ressurreição e a vida. Quão incapazes se achavam, no entanto, os incrédulos judeus de interpretar devidamente Suas


DTN – Pag. 534 

lágrimas! Alguns, que não conseguiam enxergar senão as circunstâncias exteriores da cena que perante Ele estava, como causa de Sua tristeza, disseram baixinho: “Vede como o amava!” Outros, procurando lançar a semente da incredulidade no coração dos presentes, disseram, irônicos: “Não podia Ele, que abriu os olhos ao cego, fazer também com que este não morresse?” João 11:36 e 37. Se estava no poder de Cristo salvar a Lázaro, por que, então, o deixou morrer?

Com profética visão, percebeu Cristo a inimizade dos fariseus e dos saduceus. Sabia que Lhe estavam premeditando a morte. Não ignorava que alguns dos que tão cheios de aparente simpatia se mostravam, em breve fechariam contra si mesmos a porta da esperança e os portais da cidade de Deus. Em Sua humilhação e crucifixão estava para verificar-se uma cena que daria em resultado a destruição de Jerusalém, e então ninguém lamentaria os mortos. O juízo que estava para cair sobre Jerusalém foi perante Ele claramente delineado. Contemplou Jerusalém cercada pelas legiões romanas. Viu que muitos dos que agora choravam por Lázaro morreriam no cerco da cidade, e não haveria esperança em sua morte.

Não foi somente pela cena que se desenrolava a Seus olhos, que Cristo chorou. Pesava sobre Ele a dor dos séculos. Viu os terríveis efeitos da transgressão da lei divina. Viu que, na história do mundo, a começar com a morte de Abel, fora incessante o conflito entre o bem e o mal. Lançando o olhar através dos séculos por vir, viu o sofrimento e a dor, as lágrimas e a morte que caberiam em sorte aos homens. Seu coração pungiu-se pelas penas da família humana de todos os tempos e em todas as terras. Pesavam-Lhe fortemente sobre a alma as misérias da pecadora raça, e rompeu-se-Lhe a fonte das lágrimas no anelo de lhes aliviar todas as aflições.

“Jesus pois, movendo-Se outra vez muito em Si mesmo, veio ao sepulcro.” Lázaro fora depositado numa cova na rocha, sendo colocado na porta um bloco de pedra. “Tirai a pedra” (João 11:38 e 39), disse Cristo. Julgando que desejasse apenas ver o morto, Maria objetou, dizendo que o corpo fora enterrado havia quatro dias, tendo já começado o processo de decomposição. Esta afirmativa, feita antes de Lázaro ressuscitar, não deixou margem a que os inimigos de Cristo dissessem que houvera fraude. Anteriormente, haviam os fariseus espalhado falsas afirmações em torno das mais maravilhosas manifestações do poder de Deus. Ao ressuscitar Cristo a filha de Jairo, dissera: “A menina não está morta, mas dorme.” Mar. 5:39. Como houvesse estado doente apenas pouco tempo, e fora


DTN – Pag. 535 

ressuscitada imediatamente depois da morte, os fariseus afirmaram que a criança não estava morta; que o próprio Cristo dissera que ela dormia. Procuraram fazer crer que Jesus não podia curar moléstias, que Seus milagres não passavam de mistificação. Nesse caso, porém, ninguém podia negar que Lázaro estivesse morto.

Quando o Senhor está para realizar uma obra, Satanás instiga alguém a fazer objeções. “Tirai a pedra”, disse Cristo. Tanto quanto possível, preparai o caminho para Minha obra. Manifestou-se, porém, a natureza positiva e pretensiosa de Marta. Não desejava que o corpo em decomposição fosse apresentado aos olhares dos outros. O coração humano é tardio em compreender as palavras de Cristo, e a fé de Marta não apreendera o verdadeiro sentido de Sua promessa.

Cristo reprovou a Marta, mas Suas palavras foram proferidas com a máxima brandura. “Não te hei dito que, se creres verás a glória de Deus?” João 11:40. Por que duvidas de Meu poder? Por que arrazoas em contradição às Minhas ordens? Tens a Minha palavra. Se creres, verás a glória de Deus. Impossibilidades naturais não podem impedir a obra do Onipotente. Ceticismo e incredulidade não são humildade. A crença implícita na palavra de Cristo, eis a verdadeira humildade, a verdadeira entrega de si mesmo.

“Tirai [vós] a pedra.” João 11:39. Cristo podia ter ordenado à pedra que se deslocasse por si mesma, e ela Lhe teria obedecido à voz. Poderia ter mandado aos anjos que se Lhe achavam ao lado, que fizessem isso. Ao Seu mando, mãos invisíveis teriam removido a pedra. Mas ela devia ser retirada por mãos humanas. Assim queria Cristo mostrar que a humanidade tem de cooperar com a divindade. O que o poder humano pode fazer, o divino não é solicitado a realizar. Deus não dispensa o auxílio humano. Fortalece-o, cooperando com ele, ao servir-se das faculdades e aptidões que lhe foram dadas.

A ordem é obedecida. Retiram a pedra. Faz-se tudo pública e propositadamente. Dá-se a todos a oportunidade de ver que nenhuma fraude é praticada. Ali jaz o corpo de Lázaro no sepulcro da rocha, no frio e na mudez da morte. Silenciam os lamentos dos pranteadores. Surpreso, em expectação, reúne-se o grupo em torno do sepulcro, esperando o que se vai seguir.

Cristo, sereno, Se acha de pé ante a tumba. Paira sobre todos os presentes uma santa solenidade. Cristo Se aproxima do sepulcro. Erguendo os olhos ao Céu, diz: “Pai, graças Te dou por Me haveres ouvido.” João 11:41. Não muito tempo antes disso, os inimigos de Jesus O haviam acusado de blasfêmia, pegando em pedras para Lhe atirar por afirmar Ele ser o Filho de Deus. Acusavam-nO


DTN – Pag. 536 

de operar milagres pelo poder de Satanás. Mas aqui Cristo chama a Deus Seu Pai, e com perfeita confiança, declara ser o Filho de Deus.

Em tudo quanto fazia, Cristo cooperava com o Pai. Tinha sempre o cuidado de tornar claro que não agia independentemente; era pela fé e a oração que Ele realizava Seus milagres. Cristo desejava que todos soubessem Suas relações para com o Pai. “Pai”, disse, “graças Te dou, por Me haveres ouvido. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas Eu disse isto por causa da multidão que está em redor, para que creiam que Tu Me enviaste.” João 11:41 e 42. Ali aos discípulos e ao povo devia ser proporcionada a mais convincente prova com respeito à relação existente entre Cristo e Deus. Devia-lhes ser mostrado que a afirmação de Cristo não era um engano.

“E tendo dito isto, clamou com grande voz: Lázaro, sai para fora.” João 11:43. Sua voz, clara e penetrante, soa aos ouvidos do morto. Ao falar, a divindade irrompe através da humanidade. Em Seu rosto, iluminado pela glória de Deus, vê o povo a certeza de Seu poder. Todos os olhos se acham fixos na entrada do sepulcro. Todos os ouvidos, atentos ao mais leve som. Com intenso e doloroso interesse, aguardam todos a prova da divindade de Cristo, o testemunho que há de comprovar Sua declaração de ser o Filho de Deus, ou para sempre extinguir a esperança.

Há um ruído na silenciosa tumba, e o que estivera morto aparece à entrada da mesma. Seus movimentos são impedidos pela mortalha em que está envolto, e Cristo diz à estupefata assistência: “Desatai-o, e deixai-o ir.” Mais uma vez lhes é mostrado que o obreiro humano deve cooperar com Deus. A humanidade deve trabalhar pela humanidade. Lázaro é desligado e aparece ao grupo, não como uma pessoa emagrecida pela doença, membros débeis e vacilantes, mas como um homem na primavera da vida, no vigor de nobre varonilidade. Brilham-lhe os olhos de inteligência e de amor para com o Salvador. Lança-se em adoração aos pés de Jesus.

Os espectadores ficam, a princípio, mudos de espanto. Segue-se depois uma inexprimível cena de regozijo e louvor. As irmãs recebem como um dom de Deus o irmão que lhes é devolvido, e, com lágrimas de júbilo, exprimem entrecortadamente sua gratidão ao Salvador. Mas, enquanto o irmão, as irmãs e os amigos se regozijam nessa reunião, Jesus Se retira da cena. Ao procurarem o Doador da vida, já não O encontram.

Comentário sobre O Desejado de Todas as Nações, cap. 54-55

“Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” João 8:36

A liberdade é contra intuitiva. O mundo ensina que a liberdade pertence em grande parte aos ricos e privilegiados. Os pobres têm poucos direitos e aparentemente não são tão livres. Jesus ensina que a liberdade é um estado mental disponível a todos por meio da fé Nele, independentemente das circunstâncias externas.

Um advogado pergunta sobre seu dever para com a humanidade e Jesus responde com uma parábola destinada a fazer o advogado decidir por si mesmo. Na parábola do bom samaritano, o orgulho impediu o sacerdote e o levita de ajudar o viajante ferido. Temendo a contaminação religiosa ou o comprometimento da reputação, passaram de largo por um filho de Deus ferido. Eles foram aprisionados pelo orgulho.

O samaritano não tinha tais pretensões nem uma reputação a proteger. Ele estava livre para ajudar qualquer pessoa necessitada sem se preocupar com sua própria contaminação. A ajuda prestada por ele não envergonhou o viajante ferido nem deixou o pobre homem sobrecarregado com a obrigação de retribuir a generosidade de seu resgatador. O samaritano foi o único que viu uma alma em necessidade como seu vizinho e fez o que pôde.

Eu acredito que é por isso que Jesus veio como o servo de todos. Filipenses 2:7 diz: “Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens;”. Jesus veio livremente para arriscar tudo a fim de nos resgatar do pecado. Ele faz isso sem nos envergonhar, conhecendo nossa completa indignidade e nossa total incapacidade de retribuir a Deus.

Karen Lifshay
Corista
Igreja Adventista do Sétimo Dia de Hermiston, Oregon

Texto original: https://www.revivalandreformation.org/bhp/en/sop/da/54-55
Tradução: Jobson Santos, Jeferson Quimelli e Gisele Quimelli

 

O DESEJADO DE TODAS AS NAÇÕES, cap. 54-55

CAPÍTULO 54
O Bom Samaritano

DTN – Pag. 497 Na história do bom samaritano, ilustra Cristo a natureza da verdadeira religião. Mostra que consiste, não em sistemas, credos ou ritos, mas no cumprimento de atos de amor, no proporcionar aos outros o maior bem, na genuína bondade.
Enquanto Cristo ensinava o povo, “eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-O, e dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” Luc. 10:25. Respiração suspensa, esperou o vasto auditório a resposta. Os sacerdotes e rabis haviam pensado enredar Jesus com essa pergunta do doutor da lei. O Salvador, porém, não entrou em discussão. Fez com que o próprio doutor respondesse a si mesmo. “Que está escrito na lei?” disse Ele. “Como lês?” Luc. 10:26. Os judeus ainda acusavam Jesus de menosprezo para com a lei dada no Sinai; mas Ele fez sentir que a salvação depende da observância dos mandamentos divinos.
Disse o doutor: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.” Disse Jesus: “Respondeste bem; faze isso, e viverás.” Luc. 10:27 e 28.
O doutor da lei não estava satisfeito com a atitude e as obras dos fariseus. Estivera estudando as Escrituras com o desejo de apreender-lhes a verdadeira significação. Tinha interesse vital no assunto, e, em sinceridade, indagara: “Que farei?” Em sua resposta quanto às reivindicações da lei, passara por sobre toda
DTN – Pag. 498 a massa de preceitos cerimoniais e rituais. Não lhes atribuiu valor, mas apresentou os dois grandes princípios de que dependem toda a lei e os profetas. O merecer essa resposta o louvor de Cristo, colocou o Salvador em terreno vantajoso para com os rabis. Não O podiam condenar por sancionar o que fora afirmado por um expositor da lei.
“Faze isso, e viverás”, disse Jesus. Apresentou a lei como uma unidade divina, e ensinou nessa lição não ser possível guardar um preceito e transgredir outro; pois o mesmo princípio os liga a todos. O destino do homem será determinado por sua obediência a toda a lei. Amor supremo para com Deus e imparcial amor para com os homens, eis os princípios a serem desenvolvidos na vida.
O doutor achou-se um transgressor da lei. Sentiu-se convicto, em face das penetrantes palavras de Cristo. A justiça da lei, que pretendia compreender, não a praticara. Não manifestara amor para com seus semelhantes. Era necessário haver arrependimento; em lugar disso, porém, procurou justificar-se. Em vez de reconhecer a verdade, procurou demonstrar quão difícil de ser cumprido é o mandamento. Esperava assim pôr-se em guarda contra a convicção e justificar-se perante o povo. As palavras do Salvador haviam mostrado a inutilidade de sua pergunta, visto ser ele capaz de a ela responder por si mesmo. Todavia, formulou ainda outra: “Quem é o meu próximo?” Luc. 10:29.
Entre os judeus, essa questão dava lugar a infindáveis disputas. Não tinham dúvidas quanto aos gentios e samaritanos; esses eram estranhos e inimigos. Mas como fazer a distinção entre os de seu próprio povo e as várias classes sociais? A quem deveriam os sacerdotes, os rabis, os anciãos, considerar como seu próximo? Passavam a vida numa série de cerimônias para se purificarem a si mesmos. O contato com a multidão ignorante e descuidada, ensinavam eles, ocasionava contaminação. E o remover esta, exigiria esforço enfadonho. Deveriam considerar os “imundos” seu próximo?
Uma vez mais Se eximiu Jesus à discussão. Não denunciou a hipocrisia dos que O estavam espreitando para O condenar. Mas, mediante uma singela história, apresentou aos ouvintes tal quadro do transbordamento do amor de origem celestial, que tocou os corações e arrancou do doutor da lei a confissão da verdade.
O meio de dissipar as trevas, é admitir a luz. O melhor meio de tratar com o erro, é apresentar a verdade. É a manifestação do amor de Deus, que torna evidente a deformidade e o pecado do coração concentrado em si mesmo.
DTN – Pag. 499 “Descia um homem de Jerusalém para Jericó”, disse Jesus, “e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e, espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. E ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e vendo-o, passou de largo.” Luc. 10:30-32. Isso não era uma cena imaginária, mas uma ocorrência verídica, que se sabia ser tal qual era apresentada. O sacerdote e o levita que tinham passado de largo, encontravam-se entre o grupo que escutava as palavras de Cristo.
Jornadeando de Jerusalém para Jericó, o viajante tinha de passar por um trecho deserto da Judéia. O caminho descia por entre abruptos e pedregosos barrancos, e era infestado de ladrões, sendo freqüentemente cena de violências. Aí foi o viajante atacado, despojado de tudo quanto levava de valor, ferido e machucado, sendo deixado meio-morto à beira do caminho. Enquanto assim jazia, passou o sacerdote por aquele caminho; mas apenas deitou um rápido olhar ao pobre ferido. Apareceu em seguida o levita. Curioso de saber o que acontecera, deteve-se e contemplou a vítima. Sentiu a convicção do que devia fazer; não era, porém, um dever agradável. Desejaria não haver passado por aquele caminho, de modo a não ter visto o ferido. Persuadiu-se a si mesmo de que nada tinha com o caso.
Ambos esses homens ocupavam postos sagrados, e professavam expor as Escrituras. Pertenciam à classe especialmente escolhida para servir de representantes de Deus perante o povo. Deviam “compadecer-se ternamente dos ignorantes e errados” (Heb. 5:2),
DTN – Pag. 500 para que pudessem levar os homens a compreender o grande amor de Deus para com a humanidade. A obra que haviam sido chamados a fazer, era a mesma que Jesus descrevera como Sua, quando dissera: “O Espírito do Senhor é sobre Mim, pois que Me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-Me a curar os quebrantados de coração e apregoar liberdade aos cativos, a dar vista aos cegos; a pôr em liberdade os oprimidos.” Luc. 4:18.
Os anjos de Deus contemplam a aflição de Sua família na Terra, estão preparados para cooperar com os homens em aliviar a opressão e o sofrimento. Em Sua providência, Deus levara o sacerdote e o levita a passarem pelo caminho onde jazia a vítima dos ladrões, a fim de verem a necessidade que tinha de misericórdia e auxílio. Todo o Céu observava, para ver se o coração desses homens seria tocado de piedade pela desgraça humana. O Salvador era Aquele que instruíra os hebreus no deserto; da coluna de nuvem e de fogo, ensinara uma lição bem diversa daquela que o povo ora recebia de seus sacerdotes e mestres. As misericordiosas providências da lei estendiam-se até aos animais inferiores, que não são capazes de exprimir em palavras suas necessidades e sofrimentos. Por intermédio de Moisés foram dadas aos filhos de Israel instruções nesse sentido: “Se encontrares o boi de teu inimigo, ou o seu jumento, desgarrado, sem falta lho reconduzirás. Se vires o asno daquele que te aborrece deitado debaixo da sua carga, deixarás pois de ajudá-lo? Certamente o ajudarás juntamente com ele.” Êxo. 23:4 e 5. Mas no homem ferido pelos ladrões apresentou Jesus o caso de um irmão em sofrimento. Quanto mais deveria o coração deles ter-se possuído de piedade por aquele do que por um animal de carga! Fora-lhes dada por meio de Moisés a mensagem de que o Senhor seu Deus, “o Deus grande, poderoso e terrível”, “faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro”. Portanto, ordenou: “Pelo que amareis o estrangeiro.” Deut. 10:17-19. “Amá-lo-ás como a ti mesmo.” Lev. 19:34.
Jó dissera: “O estrangeiro não passava a noite na rua; as minhas portas abria ao viandante.” Jó 31:32. E quando os dois anjos, em aparência de homens, foram a Sodoma, Ló inclinou-se por terra e disse: “Eis agora, meus senhores, entrai, peço-vos, em casa de vosso servo, e passai nela a noite.” Gên. 19:2. Com todas essas lições estavam os sacerdotes e levitas familiarizados, mas não as introduziram na vida prática. Educados na escola do fanatismo social, haviam-se tornado egoístas, estreitos e exclusivistas. Ao olharem para o homem ferido, não podiam dizer se pertencia a sua nação. Pensaram que talvez fosse samaritano e desviaram-se.
DTN – Pag. 503 Em sua ação, segundo descrita por Cristo, não viu o doutor da lei coisa alguma contrária ao que lhe fora ensinado quanto às reivindicações da lei. Outra cena, porém, foi então apresentada:
Certo samaritano, indo de viagem, chegou onde se achava a vítima e, ao vê-la, moveu-se de compaixão por ela. Não indagou se o estranho era judeu ou gentio. Fosse ele judeu, bem sabia o samaritano que, invertidas as posições, o homem lhe cuspiria no rosto e passaria desdenhosamente. Mas nem por isso hesitou. Não considerou que ele próprio se achava em perigo de assalto, se se demorasse naquele local. Bastou-lhe o fato de estar ali uma criatura humana em necessidade e sofrimento. Tirou o próprio vestuário, para cobri-lo. O óleo e o vinho, provisão para sua viagem, empregou-os para curar e refrigerar o ferido. Colocou-o em sua cavalgadura, e pôs-se a caminho devagar, a passo brando, de modo que o estranho não fosse sacudido, aumentando-se-lhe assim os sofrimentos. Conduziu-o a uma hospedaria, cuidou dele durante a noite, velando-o carinhosamente. Pela manhã, como o doente houvesse melhorado, o samaritano ousou seguir viagem. Antes de fazê-lo, porém, pô-lo sob os cuidados do hospedeiro, pagou as despesas e deixou um depósito em seu favor; não satisfeito com isso ainda, tomou providências para qualquer necessidade eventual, dizendo ao hospedeiro: “Cuida dele, e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar.” Luc. 10:35.
Concluída a história, Jesus fixou o doutor da lei com um olhar que lhe parecia ler a alma, e disse: “Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?” Luc. 10:36.
O doutor nem ainda então quis tomar nos lábios o nome samaritano, e respondeu: “O que usou de misericórdia para com ele.” Jesus disse: “Vai, e faze da mesma maneira.” Luc. 10:37.
Assim a pergunta: “Quem é o meu próximo?” ficou para sempre respondida. Cristo mostrou que nosso próximo não quer dizer simplesmente alguém de nossa igreja ou da mesma fé. Não tem que ver com distinção de raça, cor, ou classe. Nosso próximo é todo aquele que necessita de nosso auxílio. Nosso próximo é toda alma que se acha ferida e quebrantada pelo adversário. Nosso próximo é todo aquele que é propriedade de Deus.
Na história do bom samaritano, Jesus ofereceu uma descrição de Si mesmo e de Sua missão. O homem fora enganado, ferido, despojado e arruinado por Satanás, sendo deixado a perecer; o Salvador, porém, teve compaixão de nosso estado de desamparo.
DTN – Pag. 504 Deixou Sua glória, para vir em nosso socorro. Achou-nos quase a morrer, e tomou-nos ao Seu cuidado. Curou-nos as feridas. Cobriu-nos com Sua veste de justiça. Proveu-nos um seguro abrigo, e tomou, a Sua própria custa, plenas providências em nosso favor. Morreu para nos resgatar. Mostrando Seu próprio exemplo, diz a Seus seguidores: “Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros.” João 15:17. “Como Eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis.” João 13:34.
A pergunta do doutor da lei a Jesus, fora: “Que farei?” E Jesus, reconhecendo o amor para com Deus e os homens como a súmula da justiça, respondera: “Faze isso, e viverás.” O samaritano obedecera aos ditames de um coração bondoso e amorável, demonstrando-se assim um observador da lei. Cristo recomendou ao doutor: “Vai, e faze da mesma maneira.” Fazer, e não meramente dizer, eis o que se espera dos filhos de Deus. “Aquele que diz que está nEle, também deve andar como Ele andou.” I João 2:6.
Essa lição não é menos necessária hoje no mundo, do que ao ser proferida pelos lábios de Jesus. Egoísmo e fria formalidade têm quase extinguido o fogo do amor, dissipando as graças que seriam por assim dizer a fragrância do caráter. Muitos dos que professam Seu nome, deixaram de considerar o fato de que os cristãos têm de representar a Cristo. A menos que haja sacrifício prático em bem de outros, no círculo da família, na vizinhança, na igreja e onde quer que estejamos, não seremos cristãos, seja qual for a nossa profissão.
Cristo ligou Seus interesses aos da humanidade, e pede-nos que nos identifiquemos com Ele em prol da salvação dela. “De graça recebestes”, diz Ele, “de graça dai.” Mat. 10:8. O pecado é o maior de todos os males, e cumpre-nos apiedar-nos do pecador e ajudá-lo. Muitos há que erram, e sentem sua vergonha e loucura. Estão sedentos de palavras de animação. Pensam em suas faltas e erros a ponto de serem quase arrastados ao desespero. Não devemos negligenciar essas almas. Se somos cristãos, não passaremos de largo, mantendo-nos o mais distante possível daqueles mesmos que mais necessidade têm de nosso auxílio. Ao vermos criaturas humanas em aflição, seja devido a infortúnio, seja por causa de pecado, não digamos nunca: Não tenho nada com isso.
“Vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão.” Gál. 6:1. Fazei, pela fé e pela oração, recuar o poder do inimigo. Proferi palavras de fé e de ânimo, que serão como bálsamo eficaz para os quebrantados e feridos. Muitos, muitos têm desfalecido e perdido o ânimo na luta da vida, quando uma bondosa
DTN – Pag. 505 palavra de estímulo os haveria revigorado. Nunca devemos passar por uma alma sofredora, sem buscar comunicar-lhe do conforto com que nós mesmos somos por Deus confortados.

Tudo isso não é senão um cumprimento do princípio da lei – o princípio ilustrado na história do bom samaritano, e manifesto na vida de Jesus. Seu caráter revela a verdadeira significação da lei, e mostra o que quer dizer amar a nosso semelhante como a nós mesmos. E quando os filhos de Deus manifestam misericórdia, bondade e amor para com todos os homens, também eles estão dando testemunho do caráter dos estatutos do Céu. Estão testificando que “A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma”. Sal. 19:7. E quem quer que deixar de manifestar esse amor está transgredindo a lei que professa reverenciar. Pois o espírito que manifestamos para com nossos irmãos, declara qual nosso espírito para com Deus. O amor de Deus no coração é a única fonte de amor para com o nosso semelhante. “Se alguém diz: Eu amo a Deus, e aborrece a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?” Amados, “se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é perfeita a Sua caridade”. I João 4:20 e 12.​

CAPÍTULO 55
Não com Aparência Exterior

DTN – Pag. 506 Alguns dos fariseus se chegaram a Jesus, perguntando quando “havia de vir o reino de Deus”. Mais de três anos se tinham passado, desde que João Batista dera a mensagem que, qual toque de clarim, soara através da Terra: “É chegado o reino dos Céus.” Mat. 3:2. E até então esses fariseus não tinham visto indicação alguma do estabelecimento do reino. Muitos dos que haviam rejeitado a João, e a cada passo se opunham a Jesus, insinuavam que Sua missão fracassara.
Jesus respondeu: “O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está dentro de vós.” Luc. 17:20 e 21. O reino de Deus começa no coração. Não busqueis, aqui e ali, manifestações de poder terrestre para assinalar-lhe a vinda.
“Dias virão”, disse Ele, voltando-Se para os discípulos, “em que desejareis ver um dos dias do Filho do homem, e não o vereis.” Luc. 17:22. Por não ser acompanhada de esplendor mundano, correis o risco de não discernir a glória de Minha missão. Não compreendeis quão grande é vosso privilégio atual em ter entre vós, se bem que velado pela humanidade, Aquele que é a vida e a luz dos homens. Dias virão em que volvereis atrás o olhar, saudosos das oportunidades que ora fruís de andar e falar com o Filho de Deus.
Por causa de seu espírito egoísta e terreno, os próprios discípulos de Jesus não podiam compreender a glória espiritual que
DTN – Pag. 507 lhes buscava revelar. Não foi senão depois da ascensão de Cristo para Seu Pai, e do derramamento do Espírito Santo sobre os crentes, que os discípulos apreciaram plenamente o caráter e a missão do Salvador. Depois de receberem o batismo do Espírito, começaram a compreender haver estado na presença do próprio Senhor da glória. À medida que as declarações de Cristo lhes eram trazidas à memória, seu espírito abria-se para compreender as profecias e entender os milagres que operara. As maravilhas de Sua vida passavam por diante deles, e eram como que despertados de um sonho. Percebiam que “o Verbo Se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a Sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”. João 1:14. Cristo viera realmente de Deus a um mundo pecaminoso para salvar os caídos filhos e filhas de Adão. Os discípulos eram então, aos seus próprios olhos, de muito menos importância do que antes de haverem reconhecido isso. Nunca se cansavam de repetir Suas palavras e obras. Suas lições, as quais não haviam compreendido senão imperfeitamente, acudiam-lhes agora como nova revelação. As Escrituras afiguravam-se-lhes um novo livro.
Ao examinarem os discípulos as profecias que testificavam de Cristo, eram postos em comunhão com a Divindade, e aprendiam dAquele que ascendera ao Céu para completar a obra que iniciara na Terra. Reconheciam que nEle habitava sabedoria que nenhuma criatura humana, a não ser ajudada por meios divinos, poderia compreender. Necessitavam o auxílio dAquele que reis, profetas e justos haviam predito. Liam e reliam, surpreendidos os proféticos esboços de Seu caráter e obra. Quão imperfeitamente haviam compreendido as passagens proféticas! Quão tardios tinham sido em assimilar as grandes verdades que testificavam de Cristo! Contemplando-O em Sua humilhação, quando andava entre os homens, não penetraram o mistério de Sua encarnação, a dualidade de Sua natureza. Seus olhos estavam empanados, de maneira que não reconheciam plenamente a divindade na humanidade. Depois de serem iluminados pelo Espírito Santo, porém, como O desejavam tornar a ver e ficar-Lhe aos pés! Como almejavam poder chegar-se a Ele, e pedir-Lhe a explicação das passagens escriturísticas que não compreendiam! Quão atentos Lhe haveriam de escutar as palavras! Que quereria Cristo dizer com a frase: “Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora”? João 16:12. Quão ansiosos se sentiam de conhecer tudo!
DTN – Pag. 508 Doía-lhes que sua fé tivesse sido tão fraca, que suas idéias houvessem estado tão distantes do alvo, que houvessem faltado tanto em compreender a realidade.
Fora por Deus enviado um mensageiro para proclamar a vinda de Cristo, e chamar a atenção do povo judeu e do mundo para Sua missão, a fim de que os homens se preparassem para recebê-Lo. O maravilhoso Personagem anunciado por João estivera entre eles por mais de trinta anos, e não O tinham na verdade conhecido como Aquele que era enviado por Deus. O remorso apoderou-se dos discípulos por haverem permitido que a incredulidade dominante lhes levedasse as opiniões e obscurecesse o entendimento. A Luz deste tenebroso mundo brilhara por entre a escuridão, e eles deixaram de perceber de onde lhe provinham os raios. Perguntavam a si mesmos porque havia seguido uma direção que tornara necessário a Cristo reprová-los. Repetiam freqüentemente Suas conversas e diziam: Por que permitimos que considerações terrestres e a oposição dos sacerdotes e rabis nos confundissem os sentidos, de modo a não compreendermos que Alguém maior que Moisés Se achava entre nós, que nos estava instruindo Alguém mais sábio que Salomão? Quão pesados os nossos ouvidos! Quão pobre nosso entendimento!
Tomé não quis acreditar, enquanto não pusesse o dedo na ferida feita pelos soldados romanos. Pedro O negara em Sua humilhação e rejeição. Essas penosas lembranças apresentavam-se diante deles em nítidos traços. Tinham estado com Ele, mas não O conheceram nem apreciaram. Como, no entanto, tudo isso lhes comovia agora o coração, ao reconhecerem a própria incredulidade!
Quando sacerdotes e principais se combinavam contra eles, quando eram levados perante conselhos e lançados em prisões, os seguidores de Cristo regozijavam-se “de terem sido julgados dignos de padecer afronta pelo nome de Jesus”. Atos 5:41. Alegravam-se de provar, perante homens e anjos, que reconheciam a glória de Cristo e preferiam segui-Lo, perdessem embora tudo o mais.
Tão verdadeiro é agora como nos dias dos apóstolos, que sem a iluminação do Espírito divino, a humanidade não pode discernir a glória de Cristo. A verdade e a obra de Deus não são apreciadas por cristãos amantes do mundo e transigentes. Não por caminhos fáceis, de honras terrenas ou de conformidade com o mundo, encontram-se os seguidores do Mestre. Estão muito além, nas veredas da labuta, da humilhação e da injúria, nas primeiras linhas da batalha “contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes
DTN – Pag. 509 espirituais da maldade, nos lugares celestiais”. Efés. 6:12. E agora, como nos dias de Cristo, são incompreendidos, vituperados e oprimidos pelos sacerdotes e fariseus de seu tempo.
O reino de Deus não vem com aparência exterior. O evangelho da graça de Deus, com seu espírito de abnegação, não se pode nunca harmonizar com o do mundo. Os dois princípios são antagônicos. “O homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.” I Cor. 2:14.
Mas hoje, no mundo religioso, existem multidões que, segundo crêem, trabalham pelo estabelecimento do reino de Cristo como um domínio terrestre e temporal. Desejam tornar nosso Senhor o governador dos reinos deste mundo, o governador em seus tribunais e acampamentos, em suas câmaras legislativas, seus palácios e centros de negócios. Esperam que Ele governe por meio de decretos, reforçados por autoridade humana. Uma vez que Cristo não Se encontra aqui pessoalmente, eles próprios empreenderão agir em Seu lugar, para executar as leis de Seu reino. O estabelecimento de tal reino era o que desejavam os judeus ao tempo de Cristo. Teriam recebido Jesus, houvesse Ele estado disposto a estabelecer um domínio temporal, impor o que consideravam como sendo leis de Deus, e fazê-los os expositores de Sua vontade e os instrumentos de Sua autoridade. Mas Ele disse: “O Meu reino não é deste mundo.” João 18:36. Não quis aceitar o trono terrestre.
O governo sob que Jesus viveu era corrupto e opressivo; clamavam de todo lado os abusos – extorsões, intolerância e abusiva crueldade. Não obstante, o Salvador não tentou nenhuma reforma civil. Não atacou nenhum abuso nacional, nem condenou os inimigos da nação. Não interferiu com a autoridade nem com a administração dos que se achavam no poder. Aquele que foi o nosso exemplo, conservou-Se afastado dos governos terrestres. Não porque fosse indiferente às misérias do homem, mas porque o remédio não residia em medidas meramente humanas e externas. Para ser eficiente, a cura deve atingir o próprio homem, individualmente, e regenerar o coração.
Não pelas decisões dos tribunais e conselhos, nem pelas assembléias legislativas, nem pelo patrocínio dos grandes do mundo, há de estabelecer-se o reino de Cristo, mas pela implantação de Sua natureza na humanidade, mediante o operar do Espírito Santo. “A todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; aos que crêem no Seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade do varão, mas de
DTN – Pag. 510 Deus.” João 1:12 e 13. Aí está o único poder capaz de erguer a humanidade. E o instrumento humano para a realização dessa obra é o ensino e a observância da Palavra de Deus.
Quando o apóstolo Paulo começou seu ministério em Corinto, populosa, rica e ímpia cidade, poluída pelos revoltantes vícios do paganismo, disse: “Nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e Este crucificado.” I Cor. 2:2. Escrevendo posteriormente a alguns que foram corrompidos pelos mais vis pecados, pôde dizer: “Mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito de nosso Deus.” I Cor. 6:11. “Sempre dou graças ao meu Deus por vós pela graça de Deus que vos foi dada em Jesus Cristo.” I Cor. 1:4.
Hoje, como no tempo de Cristo, a obra do reino de Deus não se acha a cargo dos que reclamam o reconhecimento e apoio dos dominadores terrestres e das leis humanas, mas dos que estão declarando ao povo, em Seu nome, as verdades espirituais que operarão, nos que as recebem, a experiência de Paulo: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim.” Gál. 2:20. Então eles trabalharão, como Paulo, em benefício dos homens. Disse ele: “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos pois da parte de Cristo que vos reconcilieis com Deus.” II Cor. 5:20.

O DESEJADO DE TODAS AS NAÇÕES, cap. 51

Capítulo 51 — “A luz da vida”
Este capítulo é baseado em João 8:12-59; 9.

Falou-lhes pois Jesus outra vez, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem Me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida”. João 8:12. Ao falar essas palavras, estava Jesus no pátio do templo, especialmente relacionado com as cerimônias religiosas da festa dos tabernáculos. No centro desse pátio erguiam-se dois altos pilares sustentando suportes de lâmpadas, de grandes dimensões. Depois do sacrifício da tarde, acendiam-se todas as lâmpadas, que derramavam luz sobre Jerusalém. Essa cerimônia comemorava a coluna luminosa que guiara Israel no deserto, e era também considerada como apontando para a vinda do Messias. À noitinha, quando se acendiam as lâmpadas, o pátio apresentava uma cena de grande regozijo. Homens de cabelos brancos, os sacerdotes do templo e os príncipes do povo, uniam-se em festivas danças ao som dos instrumentos e dos cantos dos levitas. {DTN 326.1}
Na iluminação de Jerusalém, o povo exprimia sua esperança da vinda do Messias, para espalhar Sua luz sobre Israel. Para Jesus, porém, tinha a cena mais ampla significação. Como as irradiantes lâmpadas do templo iluminavam tudo em derredor, assim Cristo, a fonte da luz espiritual, ilumina as trevas do mundo. Todavia, o símbolo era imperfeito. Aquela grande luz que Sua própria mão pusera no céu era uma representação mais fiel da glória de Sua missão. {DTN 326.2}
Era de manhã; o Sol acabava de erguer-se sobre o Monte das Oliveiras, e seus raios incidiam com ofuscante claridade no mármore dos palácios, fazendo rebrilhar o ouro das paredes do templo, quando Jesus, apontando-o, disse: “Eu sou a luz do mundo”. João 8:12. {DTN 326.3}
Muito posteriormente, foram essas palavras repetidas, por alguém que as ouvira, nesta sublime passagem: “NEle estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.” “Ali estava a luz verdadeira, que alumia a todo o homem que vem ao mundo”. João 1:4, 5, 9. E muito depois de Cristo haver ascendido ao Céu, Pedro também, escrevendo sob a iluminação do Espírito divino, evocou o símbolo empregado por Cristo: “E temos mui firme a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia esclareça, e a estrela da alva apareça em vossos corações”. 2 Pedro 1:19. {DTN 326.4}
Na manifestação de Deus a Seu povo, a luz fora sempre um símbolo de Sua presença. À ordem da palavra criadora, no princípio, a luz brilhara das trevas. Estivera velada na coluna de nuvens de dia, e na de fogo à noite, conduzindo os vastos exércitos de Israel. Resplandecera com terrível majestade em volta do Senhor, no Monte Sinai. Repousava sobre o propiciatório no tabernáculo. Enchera o templo de Salomão, ao ser dedicado. Nas colinas de Belém, quando os anjos trouxeram a mensagem de redenção aos pastores de vigia, brilhara a luz. {DTN 326.5}
Deus é luz; e nas palavras: “Eu sou a luz do mundo”, Cristo declarou Sua unidade com Deus e Sua relação para com toda a família humana. Fora Ele que, no princípio, fizera com que “das trevas resplandecesse a luz”. 2 Coríntios 4:6. Ele é a luz do Sol, e da Lua, e das estrelas. Era Ele a luz espiritual que, em símbolo e tipo e profecia, brilhara sobre Israel. Mas não somente para a nação judaica fora dada essa luz. Como os raios solares penetram até aos mais afastados recantos da Terra, assim a luz do Sol da Justiça resplandece sobre todos. {DTN 327.1}
“Ali estava a luz verdadeira, que alumia a todo o homem que vem ao mundo.” O mundo tem tido seus grandes ensinadores, homens de cérebro gigantesco e dotados de admirável capacidade de investigação, homens cujas declarações têm estimulado o pensamento e aberto à visão vastos campos de conhecimento; e esses homens têm sido honrados como guias e benfeitores de sua raça. Alguém existe, porém, que os supera a todos. “A todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus.” “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, Esse O fez conhecer”. João 1:12, 18. Podemos seguir os passos dos grandes homens do mundo até aonde se estende o registro da história humana; a Luz, porém, existia antes deles. Como a Lua e as estrelas de nosso sistema solar brilham pelo reflexo da luz do Sol, assim, no que há de verdadeiro em seus ensinos, refletem os grandes pensadores do mundo os raios do Sol da Justiça. Toda jóia de pensamento, todo lampejo de intelecto, provém da luz do mundo. Ouvimos muito, hoje em dia, acerca da “educação superior”. A verdadeira “educação superior” é a comunicada por Aquele “em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência”. Colossences 2:3. “NEle estava a vida, e a vida era a luz dos homens”. João 1:4. “Quem Me segue não andará em trevas”, disse Jesus, “mas terá a luz da vida.” {DTN 327.2}
Com as palavras “Eu sou a luz do mundo” (João 8:12), Jesus Se declarou o Messias. O velho Simeão, no templo em que Jesus ora ensinava, falara dEle como “Luz para alumiar as nações, e para glória de Teu povo Israel”. Lucas 2:32. Por essas palavras, aplicava a Ele uma profecia familiar a todo o Israel. Por intermédio do profeta Isaías, o Espírito Santo declarara: “Pouco é que sejas o Meu servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os guardados de Israel; também Te dei para luz dos gentios, para seres a Minha salvação até à extremidade da Terra”. Isaías 49:6. Esta profecia era geralmente compreendida como se referindo ao Messias, e quando Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo”, o povo não podia deixar de reconhecer que Ele Se declarava o Prometido. {DTN 327.3}
Para os fariseus e principais, essa afirmação afigurava-se arrogante presunção. Que um homem como eles próprios tivesse essas pretensões, não podiam eles tolerar. Aparentando passar por alto Suas palavras, perguntaram: “Quem és Tu?” Intentavam forçá-Lo a declarar-Se o Cristo. Sua aparência e obra estavam em tanto desacordo com a expectativa do povo que, segundo criam Seus astutos inimigos, uma declaração positiva de Sua parte como Messias, daria lugar a que Ele fosse rejeitado como impostor. {DTN 328.1}
Mas à pergunta deles: “Quem és Tu”, Jesus replicou: “Isso mesmo que já desde o princípio vos disse”. João 8:25, 26. O que revelara em Suas palavras, manifestava-se também em Seu caráter. Ele era a personificação das verdades que ensinava. “Nada faço por Mim mesmo; mas falo como o Pai Me ensinou. E Aquele que Me enviou está comigo; o Pai não Me tem deixado só, porque Eu faço sempre o que Lhe agrada”. João 8:28, 29. Ele não tentou provar Sua messianidade, mas mostrou Sua unidade com Deus. Se o espírito deles houvesse estado aberto ao amor divino, teriam recebido a Jesus. {DTN 328.2}
Entre os ouvintes, muitos foram para Ele atraídos com fé, e a estes Jesus disse: “Se vós permanecerdes na Minha palavra, verdadeiramente sereis Meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. João 8:31, 32. {DTN 328.3}
Essas palavras ofenderam os fariseus. Passaram por alto a longa sujeição de seu povo a um jugo estrangeiro, e exclamaram, zangados: “Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes Tu: Sereis livres?” João 8:33. Jesus olhou a esses homens, escravos da malignidade, cujos pensamentos iam após vinganças, e respondeu com tristeza: “Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado”. João 8:34. Eles se achavam na pior espécie de servidão — governados pelo espírito do mal. {DTN 328.4}
Toda pessoa que recusa entregar-se a Deus, acha-se sob o domínio de outro poder. Não pertence a si mesma. Pode falar de liberdade, mas está na mais vil servidão. Não lhe é permitido ver a beleza da verdade, pois sua mente se encontra sob o poder de Satanás. Enquanto se lisonjeia de seguir os ditames de seu próprio discernimento, obedece à vontade do príncipe das trevas. Cristo veio quebrar as algemas da escravidão do pecado para a alma. “Se pois o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” “A lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus” nos liberta “da lei do pecado e da morte”. Romanos 8:2. {DTN 328.5}
Não há constrangimento na obra da redenção. Não se exerce nenhuma força externa. Sob a influência do Espírito de Deus, o homem é deixado livre para escolher a quem há de servir. Na mudança que se opera quando a alma se entrega a Cristo, há o mais alto senso de liberdade. A expulsão do pecado é ato da própria alma. Na verdade, não possuímos capacidade para livrar-nos do poder de Satanás; mas quando desejamos ser libertos do pecado e, em nossa grande necessidade, clamamos por um poder fora de nós e a nós superior, as faculdades da alma são revestidas da divina energia do Espírito Santo, e obedecem aos ditames da vontade no cumprir o querer de Deus. {DTN 328.6}
A única condição em que é possível o libertamento do homem, é tornar-se ele um com Cristo. “A verdade vos libertará” (João 8:32); e Cristo é a verdade. O pecado só pode triunfar, enfraquecendo a mente e destruindo a liberdade da alma. A sujeição a Deus é restauração do próprio ser — da verdadeira glória e dignidade do homem. A lei divina, à qual somos postos em sujeição, é a “lei da liberdade”. Tiago 2:12. {DTN 329.1}
Os fariseus haviam declarado ser filhos de Abraão. Jesus lhes disse que essa pretensão só podia ser assegurada mediante a prática das obras de Abraão. Os verdadeiros filhos de Abraão viveram, como ele próprio vivera, uma vida de obediência a Deus. Não buscariam matar Aquele que estava falando a verdade que Lhe fora dada por Deus. Conspirando contra Cristo, os rabis não estavam fazendo as obras de Abraão. Não tinha nenhum valor a simples descendência natural de Abraão. Sem ter com ele ligação espiritual, a qual se manifestaria em possuir o mesmo espírito, e fazer as mesmas obras, não eram seus filhos. {DTN 329.2}
Este princípio se relaciona com igual peso a uma questão longamente agitada no mundo cristão — a da sucessão apostólica. A descendência de Abraão demonstrava-se não por nome e linhagem, mas pela semelhança de caráter. Assim a sucessão apostólica não se baseia na transmissão de autoridade eclesiástica, mas nas relações espirituais. Uma vida influenciada pelo espírito dos apóstolos, a crença e ensino da verdade por eles ensinada, eis a verdadeira prova da sucessão apostólica. Isto é que constitui os homens sucessores dos primeiros mestres do evangelho. {DTN 329.3}
Jesus negou que os judeus fossem filhos de Abraão. Disse: “Vós fazeis as obras de vosso pai.” Em zombaria, responderam: “Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus”. João 8:41. Estas palavras, em alusão às circunstâncias de Seu nascimento, foram atiradas como uma estocada contra Cristo, em presença dos que começavam a nEle crer. Jesus não deu ouvidos à baixa insinuação, mas disse: “Se Deus fosse o vosso Pai, certamente Me amaríeis, pois que Eu saí, e vim de Deus”. João 8:42. {DTN 329.4}
As obras deles testificavam de suas relações com aquele que era mentiroso e assassino. “Vós tendes por pai ao diabo”, disse Jesus, “e quereis satisfazer os desejos de vosso pai: ele foi homicida desde o princípio, não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. […] Mas porque Eu vos digo a verdade, não Me credes”. João 8:44-46. O fato de Jesus falar a verdade, e isso com convicção, era motivo de não ser recebido pelos chefes judeus. Era a verdade que escandalizava esses homens cheios de justiça própria. A verdade expunha a falácia do erro; condenava-lhes o ensino e a prática, e era mal-recebida. Preferiam fechar os olhos à verdade a humilhar-se e confessar que tinham estado em erro. Não amavam a verdade. Não a desejavam, embora fosse a verdade. {DTN 329.5}
“Quem dentre vós Me convence de pecado? E se vos digo a verdade, por que não credes?” João 8:46. Dia a dia, durante três anos, os inimigos de Cristo O haviam seguido, procurando encontrar uma mancha em Seu caráter. Satanás e toda a confederação do mal O tinham procurado vencer; mas coisa alguma nEle acharam de que se pudessem aproveitar. Os próprios demônios eram forçados a confessar: “Bem sei quem és: o Santo de Deus”. Marcos 1:24. Jesus vivia a lei aos olhos do Céu, dos mundos não caídos e dos homens pecadores. Diante dos anjos, dos homens e dos demônios, havia Ele proferido, sem ser contestado, palavras que, partidas de quaisquer outros lábios, teriam sido uma blasfêmia: “Eu faço sempre o que Lhe agrada.” {DTN 330.1}
O fato de, embora não podendo encontrar pecado em Cristo, os judeus O rejeitarem, provava que eles próprios não tinham nenhuma ligação com Deus. Não reconheciam Sua voz na mensagem de Seu Filho. Pensavam estar julgando a Jesus; rejeitando-O, porém, estavam-se condenando. “Quem é de Deus”, disse Jesus, “escuta as palavras de Deus; por isso vós não escutais, porque não sois de Deus”. João 8:47. {DTN 330.2}
A lição é verdadeira em todos os tempos. Muito homem que se deleita em usar de evasivas, em criticar, em buscar qualquer coisa questionável na Palavra de Deus, julga estar assim dando provas de independência de espírito e argúcia. Supõe estar julgando a Bíblia, quando, na verdade, está julgando a si mesmo. Torna notória sua incapacidade para apreciar verdades de origem celestial, que abrangem a eternidade. Em face da grande montanha da justiça de Deus, seu espírito não se sente possuído de respeito. Ocupa-se em procurar gravetos e palhinhas, traindo assim uma natureza acanhada e terrena, um coração que está perdendo rapidamente sua capacidade de apreciar a Deus. Aquele cujo coração correspondeu ao divino toque, andará em busca daquilo que lhe aumentará o conhecimento de Deus, e há de apurar e enobrecer o caráter. Como a flor se volve para o Sol, a fim de que os brilhantes raios lhe imprimam seu matiz em belos coloridos, assim se voltará a alma para o Sol da Justiça, para que a luz celestial lhes embeleze o caráter com as graças do caráter de Cristo. {DTN 330.3}
Jesus continuou, traçando um flagrante contraste entre a posição dos judeus e a de Abraão: “Abraão, vosso pai, exultou por ver o Meu dia, e viu-o, e alegrou-se”. João 8:56. {DTN 330.4}
Abraão desejara grandemente ver o prometido Salvador. Fazia as mais fervorosas orações para que lhe fosse dado contemplar o Messias antes de Sua morte. E viu a Cristo. Foi-lhe concedida uma luz sobrenatural, e ele reconheceu o divino caráter de Cristo. Viu o Seu dia e alegrou-se. Foi-lhe dada uma visão do divino sacrifício pelo pecado. Desse sacrifício tinha ele uma ilustração no que se passara consigo mesmo. Fora-lhe dada a ordem: “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e oferece-o […] em holocausto”. Gênesis 22:2. Sobre o altar do sacrifício, depôs ele o filho da promessa, o filho em quem se concentravam suas esperanças. Então, enquanto estava ao pé do altar com o cutelo erguido para obedecer a Deus, ouviu uma voz do Céu, que dizia: “Não estendas a tua mão sobre o moço, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, e não Me negaste o teu filho, o teu único”. Gênesis 22:12. Essa terrível prova foi imposta a Abraão, a fim de poder ver o dia de Cristo e compreender o grande amor de Deus para com o mundo, tão grande que, para erguê-lo da degradação, entregou Seu único Filho a tão vergonhosa morte. {DTN 330.5}
Abraão aprendeu de Deus a maior lição que já foi dada a um mortal. Foi atendida sua oração para ver a Cristo antes de morrer. Contemplou-O; viu tudo quanto um mortal pode ver, e ao mesmo tempo subsistir. Fazendo uma inteira entrega, habilitou-se a compreender a visão de Cristo, que lhe fora concedida. Foi-lhe mostrado que, ao dar Seu Filho unigênito para salvar os pecadores da ruína eterna, Deus estava fazendo um sacrifício maior e mais admirável do que o homem jamais poderia fazer. {DTN 331.1}
A experiência de Abraão respondia à pergunta: “Com que me apresentarei ao Senhor, e me inclinarei ante o Deus altíssimo? Virei perante Ele com holocaustos? com bezerros de um ano? Agradar-Se-á o Senhor de milhares de carneiros? de dez mil ribeiros de azeite? darei o meu primogênito pela minha transgressão? o fruto do meu ventre pelo pecado da minha alma?” Miquéias 6:6, 7. Nas palavras de Abraão: “Deus proverá para Si o cordeiro para o holocausto, meu filho” (Gênesis 22:8), e na provisão feita por Deus de um sacrifício em lugar de Isaque, declarou-se que homem algum poderia fazer expiação por si mesmo. O sistema pagão de sacrifício era inteiramente inaceitável a Deus. Pai nenhum devia oferecer o filho ou a filha por oferta do pecado. Unicamente o Filho de Deus pode tomar sobre Si a culpa do mundo. {DTN 331.2}
Por meio de seu próprio sofrimento, Abraão foi habilitado a contemplar a missão de sacrifício do Salvador. Mas Israel não quis compreender aquilo que lhes era tão desagradável ao coração orgulhoso. As palavras de Cristo com referência a Abraão não tiveram para Seus ouvintes nenhum significado profundo. Os fariseus não viram nelas senão novo pretexto para seus ardis. Retorquiram zombeteiramente, como se quisessem provar que Jesus era um desequilibrado: “Ainda não tens cinqüenta anos, e viste a Abraão?” {DTN 331.3}
Com solene dignidade, respondeu Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse Eu Sou”. João 8:58. {DTN 331.4}
Fez-se silêncio na vasta assembléia. O nome de Deus, dado a Moisés para exprimir a idéia da presença eterna, fora reclamado como Seu pelo Rabi da Galiléia. Declarara-Se Aquele que tem existência própria, Aquele que fora prometido a Israel, “cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”. Miquéias 5:2. {DTN 332.1}
Novamente os sacerdotes e rabinos clamaram contra Jesus como blasfemo. O afirmar Ele ser um com Deus, incitara-os antes a tirar-Lhe a vida e, poucos meses mais tarde, declararam abertamente: “Não Te apedrejamos por alguma obra boa, mas pela blasfêmia; porque, sendo Tu homem, Te fazes Deus a Ti mesmo”. João 10:33. Porque Ele era e confessava ser o Filho de Deus, intentavam matá-Lo. Então, muitos dentre o povo, pondo-se do lado dos sacerdotes e rabinos, apanharam pedras para Lhe atirarem. “Jesus ocultou-Se, e saiu do templo, passando pelo meio deles, e assim Se retirou”. João 8:59. {DTN 332.2}
A Luz estava brilhando nas trevas; mas “as trevas não a compreenderam”. João 1:5. “E, passando Jesus, viu um homem cego de nascença. E os Seus discípulos Lhe perguntaram, dizendo: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestasse nele as obras de Deus. […] Tendo dito isto, cuspiu na terra, e com a saliva fez lodo, e untou com o lodo os olhos do cego. E disse-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé (que significa o Enviado). Foi pois, e lavou-se, e voltou vendo”. João 9:1, 2, 6, 7. {DTN 332.3}
Geralmente, acreditavam os judeus que o pecado é punido nesta vida. Toda enfermidade era considerada como o castigo de qualquer mau procedimento, fosse da própria pessoa, fosse de seus pais. É verdade que todo sofrimento é resultado da transgressão da lei divina, mas esta verdade fora pervertida. Satanás, o autor do pecado e de todas as suas conseqüências, levara os homens a considerarem a doença e a morte como procedentes de Deus — como castigos arbitrariamente infligidos por causa do pecado. Daí, aquele sobre quem caíra grande aflição ou calamidade, sofria além disso o ser olhado como grande pecador. {DTN 332.4}
Assim estava preparado o caminho para os judeus rejeitarem a Jesus. Aquele que “tomou sobre Si as nossas enfermidades, e as nossas dores”, era considerado pelos judeus como “aflito, ferido de Deus, e oprimido”; e dEle escondiam o rosto. Isaías 53:4, 3. {DTN 332.5}
Deus dera uma lição destinada a evitar isso. A história de Jó mostrara que o sofrimento é infligido por Satanás, mas Deus predomina sobre ele para fins misericordiosos. Mas Israel não entendera a lição. O mesmo erro pelo qual Deus reprovara os amigos de Jó, repetiu-se nos judeus em sua rejeição de Cristo. {DTN 332.6}
A crença dos judeus a respeito da relação existente entre o pecado e o sofrimento, partilhavam-na os discípulos de Cristo. Procurando corrigir-lhes o erro, não explicou a causa da aflição do homem, mas disse-lhes qual seria o resultado. Em virtude da mesma, manifestar-se-iam as obras de Deus. “Enquanto estou no mundo”, disse Ele, “sou a luz do mundo”. João 9:5. Havendo então untado os olhos do cego, mandou-o lavar-se no tanque de Siloé e foi restaurada a vista do homem. Assim respondeu Jesus, de maneira prática, a pergunta dos discípulos, como costumava fazer com as que Lhe eram dirigidas por curiosidade. Os discípulos não eram chamados a discutir o fato de quem tinha ou não tinha pecado, mas a entender o poder e a misericórdia de Deus em dar vista ao cego. Era claro que não havia poder de curar no lodo, ou no tanque em que o cego foi mandado lavar-se, mas que a virtude residia em Cristo. {DTN 332.7}
Os fariseus não podiam deixar de espantar-se com a cura. Todavia, mais do que nunca, encheram-se de ódio; pois o milagre se realizara no sábado. {DTN 333.1}
Os vizinhos do jovem, e os que o conheciam antes, quando cego, diziam: “Não é este aquele que estava assentado e mendigava?” João 9:8. Olhavam-no duvidosos, porque, depois que os olhos lhe foram abertos, se lhe mudara a fisionomia, e animara-se, e parecia outro homem. A pergunta corria de uns para outros. Alguns diziam: “É este”; outros: “Parece-se com ele.” Mas o que recebera a grande bênção pôs termo à questão dizendo: “Sou eu”. João 9:9. Falou-lhes então de Jesus, contando-lhes como o curara, e eles perguntaram: “Onde está Ele?” Respondeu: “Não sei”. João 9:12. {DTN 333.2}
Levaram-no então perante o conselho dos fariseus. Novamente foi interrogado o homem acerca da maneira por que recebera a vista. “Pôs-me lodo sobre os olhos, lavei-me, e vejo. Então alguns dos fariseus diziam: Este homem não é de Deus; pois não guarda o sábado”. João 9:15, 16. Os fariseus esperavam fazer Jesus parecer um pecador, não sendo assim o Messias. Não sabiam que fora Aquele que fizera o sábado e conhecia todas as obrigações para com o mesmo, quem curara o cego. Aparentavam admirável zelo pela observância do sábado e, no entanto, estavam planejando matar nesse mesmo dia. Muitos, porém, foram grandemente agitados ao ouvir esse milagre, e ficaram convencidos de que Aquele que abrira os olhos do cego não era um homem comum. Em resposta à acusação de ser Jesus um pecador por não guardar o sábado, disseram: “Como pode um homem pecador fazer tais sinais?” {DTN 333.3}
Outra vez apelaram os rabinos para o cego: “Tu que dizes dAquele que te abriu os olhos? E ele respondeu: Que é profeta”. João 9:16, 17. Os fariseus declararam então que ele não nascera cego nem recebera a vista. Chamaram seus pais e perguntaram-lhes: “É este o vosso filho que vós dizeis ter nascido cego?” João 9:17. {DTN 333.4}
Ali estava o próprio homem, afirmando que nascera cego e que a vista lhe fora restaurada; mas os fariseus preferiam negar a prova de seus próprios sentidos, a admitir que se achavam em erro. Tão poderoso é o preconceito, tão tortuosa a justiça farisaica! {DTN 333.5}
Restava ainda uma esperança aos fariseus — intimidar os pais do homem. Com aparente sinceridade, disseram: “Como pois vê agora?” Os pais temiam comprometer-se; pois se declarara que quem quer que reconhecesse Jesus como o Cristo, seria “expulso da sinagoga” (João 9:19, 22); isto é, excluído da sinagoga por trinta dias. Durante esse período, nenhuma criança poderia ser circuncidada, nem morto pranteado, na casa do ofensor. A sentença era considerada grande calamidade; e, se deixasse de produzir arrependimento, seguir-se-ia uma pena muito mais rigorosa. A grande obra, em favor de seu filho, levara a convicção aos pais, todavia responderam: “Sabemos que este é nosso filho, e que nasceu cego; mas como agora vê, não sabemos; ou quem lhe tenha aberto os olhos, não sabemos; tem idade, perguntai-lho a ele mesmo; e ele falará por si mesmo”. João 9:20, 21. Esquivaram-se assim a toda responsabilidade, passando-a ao filho; pois não ousavam confessar a Cristo. {DTN 334.1}
O dilema em que se achavam os fariseus, suas perguntas e preconceitos, sua incredulidade em face dos fatos desse caso, estavam abrindo os olhos da multidão, especialmente do povo comum. Jesus operara freqüentemente Seus milagres em plena rua, e Sua obra era sempre de molde a aliviar sofrimentos. A pergunta em muitos espíritos, era: Faria Deus tão poderosas obras por meio de um impostor, como afirmavam os fariseus ser Jesus? O conflito estava-se tornando muito acalorado de parte a parte. {DTN 334.2}
Os fariseus viram que estavam dando publicidade à obra realizada por Jesus. Não podiam negar o milagre. O cego estava cheio de alegria e reconhecimento; contemplava as maravilhosas obras da natureza e deleitava-se ante a beleza da Terra e do firmamento. Contava francamente o caso, e de novo o procuraram fazer calar, dizendo: “Dá glória a Deus; nós sabemos que esse homem é pecador.” Isto é: Não tornes a dizer que este homem te deu a vista; foi Deus que o fez. {DTN 334.3}
O cego respondeu: “Se é pecador, não sei; uma coisa sei, e é que, havendo eu sido cego, agora vejo”. João 9:24, 25. {DTN 334.4}
Então tornaram a interrogá-lo: “Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?” João 9:26. Com muitas palavras o procuraram confundir, a fim de que se julgasse iludido. Satanás e seus maus anjos estavam do lado dos fariseus, e uniram suas energias e sutilezas ao raciocínio dos homens, para neutralizar a influência de Cristo. Enfraqueceram as convicções que já se aprofundavam em muitos espíritos. Anjos de Deus estavam também a campo, a fim de fortalecer o homem cuja vista fora restaurada. {DTN 334.5}
Os fariseus não compreendiam que tinham de tratar com algum outro além do ignorante homem que nascera cego; não conheciam Aquele com quem se achavam em conflito. Luz divina brilhou nos recessos da alma do cego. Enquanto esses hipócritas procuravam fazê-lo descrer, Deus o ajudou a mostrar, pelo vigor e precisão das respostas, que não seria enlaçado. Respondeu: “Já vo-lo disse, e não ouvistes; para que o quereis tornar a ouvir? Quereis vós porventura fazer-vos também Seus discípulos? Então o injuriaram, e disseram: Discípulo dEle sejas tu; nós, porém, somos discípulos de Moisés. Nós bem sabemos que Deus falou a Moisés, mas Este não sabemos de onde é”. João 9:27-29. {DTN 334.6}
O Senhor Jesus sabia a provação por que o homem estava passando, e deu-lhe graça e expressão de modo que se tornou uma testemunha em Seu favor. Respondeu ele aos fariseus, em palavras que constituíam incisiva censura a seus interrogadores. Pretendiam ser os expositores das Escrituras, os guias religiosos da nação; e, todavia, ali estava Alguém realizando milagres, e eles confessavam ignorar tanto a fonte do poder que Ele tinha, como Seu caráter e títulos. “Nisto pois está a maravilha”, disse o homem, “que vós não sabeis de onde Ele é, e me abrisse os olhos; ora nós sabemos que Deus não ouve a pecadores; mas, se alguém é temente a Deus, e faz a Sua vontade, a esse ouve. Desde o princípio do mundo nunca se ouviu que alguém abrisse os olhos a um cego de nascença. Se Este não fosse de Deus, nada poderia fazer”. João 9:30-33. {DTN 335.1}
O homem havia enfrentado seus inquiridores com as próprias armas por eles manejadas. Seu raciocínio era irrefutável. Os fariseus estavam pasmados e calaram-se — estupefatos diante de suas precisas e decididas palavras. Por alguns momentos houve silêncio. Depois, os sacerdotes e rabinos, de sobrecenho carregado, apanharam e aconchegaram a si as vestes, como a temer contaminação do contato com ele; sacudindo o pó dos pés, atiraram-lhe as acusadoras palavras: “Tu és nascido todo em pecados, e nos ensinas a nós?” João 9:34. E excomungaram-no. Jesus ouviu o que acontecera; e, encontrando-o pouco depois, disse: “Crês tu no Filho de Deus?” João 9:35. {DTN 335.2}
Pela primeira vez contemplou o cego o rosto de seu Restaurador. Ante o conselho vira seus pais turbados e perplexos; olhara a severa fisionomia dos rabinos; agora seus olhos descansavam sobre o amorável e sereno semblante de Jesus. Com grande dificuldade, já O reconhecera como Delegado do poder divino; agora lhe foi concedida maior revelação. {DTN 335.3}
Ante à pergunta do Salvador: “Crês tu no Filho de Deus?” o cego replicou, perguntando: “Quem é Ele, Senhor, para que nEle creia?” E Jesus disse: “Tu já O tens visto, e é Aquele que fala contigo”. João 9:35, 37. O homem lançou-se aos pés do Salvador, em adoração. Não somente lhe fora restaurada a visão natural, mas haviam-lhe sido abertos os olhos do entendimento. Cristo lhe fora revelado à alma, e ele O recebeu como o Enviado de Deus. {DTN 335.4}
Próximo, reunira-se um grupo de fariseus, e a vista deles trouxe à mente de Jesus o contraste sempre manifesto no efeito de Suas palavras e obras. Disse Ele: “Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vêem vejam, e os que vêem sejam cegos”. João 9:39. Cristo veio abrir os olhos cegos, dar luz aos que se assentam nas trevas. Declarara ser a luz do mundo, e o milagre operado confirmava Sua missão. O povo que contemplou o Salvador em Seu primeiro advento, foi favorecido com mais ampla manifestação da divina presença do que o mundo nunca antes fruíra. O conhecimento de Deus foi mais perfeitamente revelado. Mas por essa mesma revelação estavam sendo julgados os homens. Seu caráter era provado, decidido o seu destino. {DTN 335.5}
A manifestação de poder divino que dera ao cego tanto a vista natural como a do espírito, deixara os fariseus em trevas ainda mais densas. Alguns de Seus ouvintes, sentindo que as palavras de Cristo se aplicavam a eles, indagaram: “Também nós somos cegos?” Jesus respondeu: “Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece”. João 9:40, 41. Se Deus vos tivesse tornado impossível ver a verdade, vossa ignorância não envolveria nenhuma culpa. “Mas […] agora dizeis: Vemos.” Julgais-vos capazes de ver, e rejeitais os meios mediante os quais, unicamente, poderíeis receber a vista. A todos quantos compreendiam sua necessidade, Cristo viera com ilimitado auxílio. Mas os fariseus não confessavam necessidade alguma; recusavam-se a ir a Cristo, e por isso foram deixados em cegueira — uma cegueira de que eles próprios eram culpados. Jesus disse: “Vosso pecado permanece.” {DTN 336.1}