PROFETAS E REIS, cap. 1

Capítulo 1 — Salomão

No reinado de Davi e Salomão, Israel tornara-se forte entre as nações, e tivera muitas oportunidades de exercer poderosa influência em favor da verdade e do direito. O nome de Jeová era exaltado e tido em honra, e o propósito para o qual os israelitas haviam sido estabelecidos na terra da promessa dir-se-ia estar a alcançar seu cumprimento. Barreiras haviam sido derribadas, e os pesquisadores da verdade vindos de terras pagãs não retornavam insatisfeitos. Produziram-se conversões, e a igreja de Deus na Terra se ampliava e prosperava.

Salomão foi ungido e proclamado rei nos anos finais de seu pai Davi, o qual abdicara em seu favor. Os primeiros tempos de sua vida foram promissores, e era propósito de Deus que ele fosse de força em força, de glória em glória, aproximando-se cada vez mais da semelhança do caráter de Deus, inspirando assim Seu povo a cumprir sua sagrada incumbência, como depositários da verdade divina.

Davi sabia que o elevado propósito de Deus para com Israel só se realizaria se dirigentes e povo procurassem com incessante vigilância atingir a norma estabelecida para eles. Ele sabia que para que seu filho Salomão correspondesse à confiança com que Deus Se agradara em honrá-lo, o jovem governante não devia ser meramente um guerreiro, um estadista, um soberano, mas um homem forte, bom, um ensinador de justiça, um exemplo de fidelidade.

Com terno fervor Davi exortou Salomão a ser varonil e nobre, a mostrar misericórdia e magnanimidade a seus súditos, e em todo o seu trato com as nações da Terra honrar e glorificar o nome de Deus e tornar manifesta a beleza da santidade. As inúmeras experiências difíceis e notáveis pelas quais Davi passara durante o curso de sua vida haviam-lhe ensinado o valor das mais nobres virtudes, e levaram-no a declarar a Salomão, em suas instruções no leito de morte: “Haverá um justo que domine sobre os homens, que domine no temor de Deus. E será como a luz da manhã, quando sai o Sol, da manhã sem nuvens, quando pelo seu resplendor, e pela chuva, a erva brota da terra”. 2 Samuel 23:3, 4.

Oh! que oportunidade a de Salomão Tivesse ele seguido a instrução divinamente inspirada de seu pai e seu reino teria sido um reino de justiça, tal como o descrito no Salmos 72:

“Ó Deus, dá ao rei os Teus juízos, e a Tua justiça ao filho do rei.

Ele julgará ao Teu povo com justiça, e aos Teus pobres com juízo. […]

Ele descerá como a chuva sobre a erva ceifada, como chuveiros que umedecem a terra.

Nos seus dias florescerá o justo, e abundância de paz haverá enquanto durar a Lua.

Dominará de mar a mar, e desde o rio até às extremidades da Terra. […]

Os reis de Seba e de Sabá oferecerão dons. Os reis de Társis e das ilhas trarão presentes;
e todos os reis se prostrarão perante ele; Todas as nações o servirão.

Porque ele livrará ao necessitado quando clamar, como também ao aflito e ao que não tem quem o ajude. […]

E continuamente se fará por ele oração; e todos os dias o bendirão. […]

O seu nome permanecerá eternamente;
o seu nome se irá propagando de pais a filhos enquanto o Sol durar;
e os homens serão abençoados nele: Todas as nações lhe chamarão bem-aventurado.

Bendito seja o Senhor Deus, o Deus de Israel, que só Ele faz maravilhas.

E bendito seja para sempre o Seu nome glorioso: E encha-se toda a Terra da Sua glória. Amém e amém”.

Salmos 72:1-19.

Na juventude, Salomão fez sua a escolha que fizera Davi, e por muitos anos andou em retidão, sua vida marcada com estrita obediência aos mandamentos de Deus. Logo no início do seu reinado, foi ele com seus conselheiros de Estado a Gibeom, onde ainda estava o tabernáculo que havia sido construído no deserto, e ali uniu-se aos seus conselheiros escolhidos, “aos capitães dos milhares e das centenas”, “e aos juízes, e a todos os príncipes em todo o Israel, chefes dos pais”, em oferecer sacrifícios a Deus e em consagrar-se plenamente ao serviço do Senhor. 2 Crônicas 1:2. Compreendendo alguma coisa da magnitude dos deveres relacionados com o ofício real, Salomão sabia que os que levam pesados fardos precisam buscar a Fonte de sabedoria para orientação, se desejam desempenhar suas responsabilidades de maneira aceitável. Isto levou-o a encorajar seus conselheiros a se unirem com ele em sinceridade, a fim de estarem seguros da aceitação de Deus.

Acima de todo o bem terrestre, o rei desejava sabedoria e entendimento para a realização da obra que Deus lhe havia dado a fazer. Ele ansiava por acuidade mental, largueza de coração, brandura de espírito. Naquela noite, o Senhor apareceu em sonho a Salomão, e disse: “Pede o que quiseres que te dê.” Em sua resposta o jovem e inexperiente príncipe deu expansão a seu sentimento de desamparo e seu desejo de auxílio: “De grande beneficência usaste Tu com Teu servo Davi meu pai”, disse ele, “como também ele andou contigo em verdade, e em justiça, e em retidão de coração, perante a Tua face; e guardaste-lhe esta grande beneficência, e lhe deste um filho que se assentasse no seu trono, como se vê neste dia.

“Agora, pois, ó Senhor meu Deus, Tu fizeste reinar a Teu servo em lugar de Davi meu pai. E sou ainda menino pequeno; nem sei como sair, nem como entrar. E Teu servo está no meio do Teu povo que elegeste; povo grande, que nem se pode contar, nem numerar, pela sua multidão. A Teu servo, pois, dá um coração entendido para julgar a Teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal; porque, quem poderia julgar a este Teu tão grande povo?

“E esta palavra pareceu boa aos olhos do Senhor, que Salomão pedisse esta coisa” “Porquanto pediste esta coisa”, disse Deus a Salomão, “e não pediste para ti riquezas, nem pediste a vida de teus inimigos, mas pediste para ti entendimento para ouvir causas de juízo, eis que fiz segundo as tuas palavras. Eis que te dei um coração tão sábio e entendido, que antes de ti teu igual não houve, e depois de ti teu igual se não levantará. E também até o que não pediste te dei, assim riquezas como glória; que não haja teu igual entre os reis, por todos os teus dias. E, se andares nos Meus caminhos, guardando os Meus estatutos, e os Meus mandamentos, como andou Davi teu pai, também prolongarei os teus dias”. 1 Reis 3:5-14.

Deus prometeu que assim como fora com Davi, seria com Salomão. Se o rei andasse perante o Senhor em retidão, se fizesse o que Deus lhe havia ordenado, seu trono seria estabelecido, e seu reino seria o meio de exaltar Israel como “gente sábia e entendida” (Deuteronômio 4:6), a luz das nações ao redor.

A linguagem usada por Salomão quando em oração a Deus diante do antigo altar de Gibeom, revela sua humildade e forte desejo de honrar a Deus. Ele sentia que sem o divino auxílio para desincumbir-se das responsabilidades impendentes sobre si, estaria tão ao desamparo como uma criancinha. Sabia que lhe faltava discernimento, e foi o senso de sua grande necessidade que o levou a buscar de Deus sabedoria. Em seu coração não havia aspiração egoísta de conhecimento para que se pudesse exaltar sobre outros. Ele desejava desempenhar fielmente os deveres que lhe foram impostos, e escolheu o dom que seria o meio de levar seu reino a glorificar a Deus. Salomão nunca foi tão rico ou tão sábio ou tão verdadeiramente grande como quando confessou: “Não passo de uma criança, não sei como conduzir-me”. 1 Reis 3:7.

Os que ocupam hoje posições de responsabilidade devem procurar aprender a lição ensinada pela oração de Salomão. Quanto mais alta a posição que um homem ocupa, quanto maior a responsabilidade que tem de levar, mais ampla será a influência que exerce e maior sua necessidade de dependência de Deus. Deve lembrar-se sempre que com o chamado para o trabalho, vem o chamado para andar circunspectamente perante seus companheiros. Deve ele permanecer ante Deus na atitude de um discípulo. A posição não dá santidade de caráter. É por honrar a Deus e obedecer a Seus mandamentos que o homem se torna verdadeiramente grande.

O Deus que servimos não faz acepção de pessoas. Aquele que deu a Salomão o espírito de sábio discernimento, está desejoso de repartir as mesmas bênçãos a Seus filhos hoje. “Se algum de vós tem falta de sabedoria”, declara Sua Palavra, “peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e não o lança em rosto, e ser-lhe-á dada”. Tiago 1:5. Quando o que leva um fardo opressivo deseja sabedoria mais que riquezas, poder, ou fama, não ficará desapontado. Tal pessoa aprenderá do grande Mestre não somente o que fazer, mas como fazê-lo de maneira a alcançar a divina aprovação.

Por todo o tempo em que permanecer consagrado, o homem a quem Deus dotou com discernimento e habilidade não manifestará anseios por alta posição, nem procurará dirigir ou governar. Necessariamente os homens precisam assumir responsabilidades; mas em vez de disputar a supremacia, aquele que é verdadeiro líder orará por um coração entendido, a fim de poder discernir entre o bem e o mal.

A situação dos homens que estão colocados como líderes não é fácil. Mas devem eles ver em cada dificuldade um chamado à oração. Jamais devem deixar de consultar a grande Fonte de toda a sabedoria. Fortalecidos e iluminados pelo Obreiro-Mestre, serão capacitados a permanecer firmes contra pecaminosas influências, e a discernir entre o certo e o errado, o bem e o mal. Aprovarão o que Deus aprova, e empenhar-se-ão com todo o fervor contra a introdução de princípios errôneos em Sua causa.

A sabedoria que Salomão desejou acima de riquezas, honra, ou vida prolongada, Deus lhe deu. Sua petição por acuidade mental, largueza de coração e brandura de espírito foi satisfeita. “E deu Deus a Salomão sabedoria, e muitíssimo entendimento, e largueza de coração, como a areia que está na praia do mar. E era a sabedoria de Salomão maior do que a sabedoria de todos os do Oriente, e do que toda a sabedoria dos egípcios. E era ele ainda mais sábio do que todos os homens, […] e correu o seu nome por todas as nações em redor”. 1 Reis 4:29-31.

“E todo o Israel […] temeu o rei, por que viram que havia nele a sabedoria de Deus, para fazer justiça”. 1 Reis 3:28. O coração de todo o povo tornou para Salomão, como se havia tornado para Davi, e lhe obedeceram em todas as coisas. “E Salomão […] se esforçou no seu reino, e o Senhor seu Deus era com ele, e o magnificou grandemente”. 2 Crônicas 1:1.

Durante muitos anos, a vida de Salomão foi marcada com devoção a Deus, com retidão e firme princípio, e com estrita obediência aos mandamentos de Deus. Ele promoveu todo empreendimento importante, e manejou sabiamente as questões de negócio relacionadas com o reino. Sua riqueza e sabedoria; as luxuosas construções e obras públicas que ele construiu durante os primeiros anos de seu reinado; a energia, piedade, justiça e magnanimidade que revelou em palavras e obras resultaram na lealdade de seus súditos e a admiração e homenagem dos governantes de muitas terras.

O nome de Jeová foi grandemente honrado durante a primeira parte do reinado de Salomão. A sabedoria e justiça reveladas pelo rei deram testemunho a todas as nações da excelência dos atributos do Deus que ele servia. Por algum tempo, Israel foi a luz do mundo, revelando a grandeza de Jeová. Não era na sua preeminente sabedoria, fabulosas riquezas, ou no vasto alcance do seu poder e fama que repousava a verdadeira glória do início do reinado de Salomão; mas na honra que ele levava ao nome do Deus de Israel, mediante sábio uso dos dons do Céu.

Ao passarem os anos, e aumentando a fama de Salomão, buscou ele honrar a Deus acrescentando sua força mental e espiritual e constantemente repartindo com outros as bênçãos recebidas. Ninguém compreendia melhor que ele, haver sido pelo favor de Jeová que entrara na posse do poder, sabedoria e entendimento, e que esses dons foram-lhe concedidos para que ele pudesse dar ao mundo o conhecimento do Rei dos reis. Salomão tomou especial interesse pela História Natural, mas suas pesquisas não estavam limitadas a um determinado ramo do saber. Mediante diligente estudo de todas as coisas criadas, tanto animadas como inanimadas, adquiriu clara concepção do Criador. Nas forças da natureza, no mundo mineral e animal, e em toda árvore, arbusto e flor, ele via a revelação da sabedoria de Deus; e ao procurar aprender mais e mais, seu conhecimento de Deus e seu amor por Ele constantemente aumentavam.

A divinamente inspirada sabedoria de Salomão encontrou expressão em cânticos de louvor e em muitos provérbios. “E disse três mil provérbios, e foram os seus cânticos mil e cinco. Também falou das árvores, desde o cedro que está no Líbano, até ao hissopo que nasce na parede; também falou dos animais e das aves, e dos répteis e dos peixes”. 1 Reis 4:32, 33.

Nos provérbios de Salomão estão esboçados princípios de santo viver e elevados intentos; princípios oriundos do Céu e que conduzem à piedade; princípios que devem reger cada ato da vida. Foi a ampla disseminação desses princípios, e o reconhecimento de Deus como Aquele a quem pertence todo louvor e honra, que fez dos primeiros tempos do reinado de Salomão uma ocasião de reerguimento moral bem como de prosperidade material.

“Bem-aventurado o homem que acha sabedoria”, escreveu ele, “e o homem que adquire conhecimento. Porque melhor é a sua mercadoria do que a mercadoria de prata, e a sua renda do que o ouro mais fino. Mais preciosa é do que os rubis, e tudo o que podes desejar não se pode comparar a ela. Aumento de dias há na sua mão direita; na sua esquerda riquezas e honra. Os seus caminhos são caminhos de delícias, e todas as suas veredas paz. É árvore da vida para os que a seguram, e bem-aventurados são todos os que a retêm”. Provérbios 3:13-18.

“A sabedoria é a coisa principal, adquire, pois, a sabedoria; sim, com tudo o que possuis adquire o conhecimento”. Provérbios 4:7. “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”. Salmos 111:10. “O temor do Senhor é aborrecer o mal; a soberba, e a arrogância, e o mau caminho, e a boca perversa, aborreço”. Provérbios 8:13.

Oxalá tivesse Salomão em seus últimos anos atentado para estas maravilhosas palavras de sabedoria! Quem dera aquele que declarou: “Os lábios dos sábios derramarão o conhecimento” (Provérbios 15:7) e que ensinara, ele próprio, os reis da Terra a render ao Rei dos reis o louvor que haviam intentado dar a um governador terreno, não tivesse jamais tomado para si com “boca perversa”, em “soberba” e “arrogância” a glória devida a Deus somente!

Um ótimo novo ano

Chegamos ao final da leitura de mais um abençoado livro da Série Grande Conflito exatamente ao final deste ano de 2016.

Que os exemplos dos Patriarcas, seus acertos e erros, as admoestações dos Profetas demonstrando o grande amor de Deus nos iluminem em mais este novo ano.

Que o SENHOR amado nos abençoe a todos.

BLOG DA SEMANA 25/12/2016, sobre Patriarcas e Profetas, cap. 73

David tinha tudo – boa aparência, mente perspicaz e muitos talentos. O menino pastor que se tornou rei era um poeta e músico, habilidoso atirador, guerreiro, general de campo de batalha, estadista e administrador executivo. No entanto, talvez a característica mais brilhante deste incrível caráter bíblico seja o elogio de Deus: “Encontrei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração …” (Atos 13:22).

Mas Davi também pecou com Bate-Seba. Ele causou a morte do verdadeiro marido dela. Mais tarde, contra os comandos explícitos de Deus, insistiu em um censo nacional, em um projeto militar. E, francamente, ele não foi um grande pai – não quis disciplinar seus filhos.

Como é então que um homem de tal caráter enfraquecido pode ainda ser referido como um homem segundo o coração de Deus? Embora os pecados de Davi fossem épicos, seu arrependimento completo e profundo foram maiores. De fato, a partir da vergonha de Davi podemos ver a profundidade que o amor e a misericórdia de Deus podem alcançar. Isso nos mostra que, independentemente do pecado, o arrependimento verdadeiro e profundo do coração é sempre aceito por Deus.

Que encorajador para os peregrinos de fé de hoje! Embora sejamos cheios de iniquidade, cheios do nojento pecado desde o nascimento, Deus pode nos purificar. “Purifica-me com hissopo, e ficarei limpo. Lava-me, e ficarei mais branco que a neve” (Sl 51:7).

Benjamin Orian
Pastor, Tacoma, Washington, EUA

 

Texto original: http://www.revivalandreformation.org/bhp/en/sop/pp…

Também disponível em: http://www.revivalandreformation.org/bhp/pt/sop/pp…

Tradução: Jeferson Quimelli

PATRIARCAS E PROFETAS, CAP. 73

Capítulo 73 — Os últimos anos de Davi

Este capítulo é baseado em 2 Samuel 241 Reis 11 Crônicas 2128-29.
A subversão de Absalão não trouxe de pronto a paz ao reino.
Havia-se unido à revolta uma parte tão grande da nação, que Davi não queria voltar à sua capital e reassumir sua autoridade sem um convite das tribos. Na confusão que se seguiu à derrota de Absalão, não houve ação pronta e decidida para chamar-se novamente o rei; e, quando finalmente Judá empreendeu fazer voltar a Davi, despertara-se a inveja de outras tribos, e seguiu-se uma contra-revolução. Esta, entretanto, foi rapidamente sufocada, e a paz voltou a Israel.A história de Davi proporciona um dos mais impressionantes testemunhos que já foram dados quanto aos perigos que ameaçam a alma, provenientes do poderio, das riquezas e da honra do mundo — coisas estas que são as mais avidamente desejadas entre os homens. Poucos já têm passado por uma experiência mais bem adaptada a prepará-los para suportarem tal prova. A primeira parte da vida de Davi, como pastor, com suas lições de humildade, trabalho paciente e terno cuidado pelos seus rebanhos; a comunhão com a natureza na solidão das colinas, desenvolvendo o seu gênio para a música e poesia, e dirigindo seus pensamentos ao Criador; a longa disciplina de sua vida no deserto, pondo em exercício a coragem, constância, paciência e fé em Deus, foi designada pelo Senhor como preparo para o trono de Israel. Davi desfrutara experiências preciosas do amor de Deus, e fora ricamente dotado do Seu Espírito; na história de Saul vira a completa inutilidade da mera sabedoria humana. E, todavia, o êxito e a honra mundanos de tal maneira enfraqueceram o caráter de Davi que ele foi repetidas vezes vencido pelo tentador.Relações com os povos pagãos determinaram o desejo de seguir seus costumes nacionais, e despertaram a ambição das grandezas mundanas. Como o povo de Jeová deveria Israel ser honrado; mas, aumentando o orgulho e a confiança em si mesmos, os israelitas não estavam satisfeitos com esta distinção. Preocupavam-se de preferência com sua posição entre as outras nações. Tal espírito não poderia deixar de convidar à tentação. Com o objetivo de estender suas conquistas entre as nações estrangeiras, resolveu Davi aumentar seu exército, exigindo trabalho militar de todos os que estivessem em idade conveniente. Para levar isto a efeito, tornou-se necessário fazer o censo da população. Foram o orgulho e a ambição que motivaram este ato do rei. A contagem do povo mostraria o contraste entre a fraqueza do reino quando Davi subiu ao trono, e sua força e prosperidade sob seu governo. Isto teria a tendência de fomentar ainda mais a confiança em si mesmo, que já era grande, tanto do rei como do povo. Dizem as Escrituras: “Então Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar Israel”. 1 Crônicas 21. A prosperidade de Israel sob o governo de Davi fora devida à bênção de Deus, em vez de atribuível à habilidade do rei ou à força de seus exércitos. Mas o aumento dos recursos militares do reino daria às nações circunvizinhas a impressão de que a confiança de Israel estava em seus exércitos, e não no poder de Jeová.

Embora o povo de Israel tivesse orgulho de sua grandeza nacional, não olhavam com aprovação o plano de Davi, de estender tão grandemente o serviço militar. O alistamento proposto causou muito descontentamento; consequentemente, julgou-se necessário empregarem-se os oficiais militares em lugar dos sacerdotes e magistrados, que haviam anteriormente levantado o censo. O objetivo deste empreendimento era diretamente contrário aos princípios de uma teocracia. Mesmo Joabe objetou, embora sem escrúpulos como até ali se havia mostrado. Ele disse: “O Senhor acrescente ao Seu povo cem vezes tanto como é; porventura, ó rei meu senhor, não são todos servos do meu senhor? Por que procura isto o meu senhor? Por que seria isso causa de delito para com Israel? Porém a palavra do rei prevaleceu contra Joabe; pelo que saiu Joabe, e passou por todo o Israel; então voltou para Jerusalém.” A contagem não estava terminada, quando Davi se convenceu de seu pecado. Condenando-se a si mesmo, “disse Davi a Deus: Gravemente pequei em fazer tal coisa; porém agora sê servido tirar a iniqüidade de Teu servo, porque obrei mui loucamente”. 1 Crônicas 21:1-8. Na manhã seguinte foi levada uma mensagem a Davi, pelo profeta Gade: “Assim diz o Senhor: Escolhe para ti, ou três anos de fome, ou que três meses te consumas diante de teus adversários, e a espada de teus inimigos te alcance, ou que três dias a espada do Senhor, isto é, a peste na terra, e o anjo do Senhor destruam todos os termos de Israel: vê, pois, agora”, disse o profeta, “que resposta hei de levar a quem me enviou”. 1 Crônicas 21:10-12.

A resposta do rei foi: “Estou em grande angústia; porém caiamos nas mãos do Senhor, porque muitas são as Suas misericórdias; mas nas mãos dos homens não caia eu”. 2 Samuel 24:14.
A terra foi ferida com pestilência, que destruiu setenta mil em Israel. O açoite ainda não havia entrado na Capital, quando “levantando Davi os seus olhos, viu o anjo do Senhor, que estava entre a terra e o céu, com a espada desembainhada na sua mão estendida contra Jerusalém. Então Davi e os anciãos, cobertos de sacos, se prostraram sobre os seus rostos”. O rei pleiteou com Deus a favor de Israel: “Não sou eu o que disse que se contasse o povo? E eu mesmo sou o que pequei, e fiz muito mal; mas estas ovelhas que fizeram? Ah! Senhor, meu Deus, seja a Tua mão contra mim, e contra a casa de meu pai, e não para castigo de Teu povo.”

O levantamento do censo causara descontentamento entre o povo; todavia eles próprios tinham acariciado os mesmos pecados que determinaram a ação de Davi. Assim como o Senhor pelo pecado de Absalão trouxe juízos sobre Davi, assim pelo erro de Davi Ele puniu os pecados de Israel.

O anjo destruidor detivera-se em seu caminho fora de Jerusalém. Ele ficou sobre o Monte Moriá, “na eira de Ornã, jebuseu”. Por indicação do profeta, Davi foi ao monte, e ali construiu um altar ao Senhor, “e ofereceu nele holocaustos e sacrifícios pacíficos; e invocou o Senhor, o qual lhe respondeu com fogo do céu sobre o altar do holocausto”. 1 Crônicas 21:16-26. “Assim o Senhor Se aplacou para com a terra, cessou aquele castigo de sobre Israel”. 2 Samuel 24:25.

O local em que o altar foi construído, e que dali em diante seria para sempre considerado terra santa, foi oferecido ao rei por Ornã, como presente. Mas o rei recusou-se a recebê-lo deste modo. “Pelo seu valor a quero comprar”, disse ele; “porque não tomarei o que é teu, para o Senhor; para que não ofereça holocausto sem custo. E Davi deu a Ornã por aquele lugar o peso de seiscentos siclos de ouro.” Esse local, memorável como o sítio em que Abraão construíra o altar para oferecer seu filho, e agora consagrado por este grande livramento, foi depois escolhido como o local do templo construído por Salomão.

Ainda outra sombra deveria formar-se sobre o últimos anos de Davi. Ele atingira a idade de setenta anos. As dificuldades e situações perigosas por que passara em suas primitivas vagueações, suas muitas guerras, cuidados e aflições de seus últimos anos, haviam-lhe solapado a fonte da vida. Embora a mente retivesse sua clareza e força, a fraqueza e a idade, com seu desejo de recolhimento, impediam uma apreensão rápida do que se estava a passar no reino, e de novo surgiu a rebelião à própria sombra do trono. Outra vez se manifestou o fruto da condescendência paternal de Davi. Aquele que agora aspirava ao trono era Adonias, “mui formoso de parecer”, em seu aspecto pessoal e em seu porte, mas sem escrúpulos e descuidado. Em sua juventude não estivera sujeito senão a poucas restrições; pois “nunca seu pai o tinha contrariado, dizendo: Por que fizeste assim?” 1 Reis 1:6. Agora ele se rebelou contra a autoridade de Deus, que havia designado Salomão ao trono. Tanto pelos dotes naturais como pelo caráter religioso, Salomão estava mais bem qualificado do que seu irmão mais velho, para tornar-se governador de Israel; contudo, se bem que a escolha de Deus tivesse sido claramente indicada, não deixou Adonias de encontrar quem o apoiasse. Joabe, embora culpado de muitos crimes, fora até ali fiel ao trono; mas agora aderiu à conspiração contra Salomão, como também o fizera o sacerdote Abiatar.
A rebelião estava madura; os conspiradores tinham-se reunido em uma grande festa junto à cidade para proclamar Adonias como rei, quando seus planos foram transtornados pela ação pronta de pessoas fiéis, estado entre as principais o sacerdote Zadoque, o profeta Natã, e Bate-Seba, mãe de Salomão.

Representaram ao rei o estado em que se achavam as coisas, lembrando-o da determinação divina de que Salomão o sucedesse no trono. Davi de pronto abdicou em favor de Salomão, que imediatamente foi ungido e proclamado rei. Estava abafada a conspiração. Seus principais atores incorreram na pena de morte. A vida de Abiatar foi poupada, em atenção ao seu ofício e anterior fidelidade para com Davi; mas foi rebaixado da função de sumo sacerdote, que passou à linhagem de Zadoque. Joabe e Adonias foram poupados por algum tempo, mas depois da morte de Davi sofreram a pena de seu crime. A execução da sentença sobre o filho de Davi completou o quádruplo juízo que testificou da aversão de Deus ao pecado do pai.

Desde o início mesmo do reinado de Davi, um dos seus mais acariciados planos fora construir um templo ao Senhor. Embora não lhe tivesse sido permitido executar este desígnio, não manifestou menos zelo e fervor em prol do mesmo. Provera abundância do mais valioso material: ouro, prata, pedra de ônix e pedras de diversas cores; mármore e as mais preciosas madeiras. E agora esses valiosos tesouros que juntara, deveriam ser confiados a outros; pois que outras mãos deveriam construir a casa para a arca — símbolo da presença de Deus.

Vendo que seu fim estava próximo, o rei convocou os príncipes de Israel, juntamente com homens de representação de todas as partes do reino, para receberem a incumbência deste legado. Desejava confiar-lhes sua última recomendação, e conseguir seu concurso e apoio na grande obra a ser realizada. Por causa de sua fraqueza física, não se esperava que ele assistisse pessoalmente àquela transferência de poderes; mas a inspiração de Deus veio sobre ele, e, com um fervor e poder maior do que lhe era usual, pôde, pela última vez, falar a seu povo. Falou-lhes de seu desejo de construir o templo, e da ordem do Senhor para que essa obra fosse entregue a Salomão, seu filho. A segurança divina era: “Teu filho Salomão, ele edificará a Minha casa e os Meus átrios, porque o escolhi para filho, e Eu lhe serei por pai. E estabelecerei o Meu reino para sempre, se perseverar em cumprir os Meus Mandamentos e os Meus juízos, como até ao dia de hoje.” “Agora, pois”, disse Davi, “perante os olhos de todo o Israel, a congregação do Senhor, e perante os ouvidos do nosso Deus, guardai e buscai todos os mandamentos do Senhor vosso Deus, para que possuais esta boa terra, e a façais herdar a vossos filhos depois de vós, para sempre”. 1 Crônicas 28:6-8.
Davi aprendera por sua própria experiência quão duro é o caminho daquele que se afasta de Deus. Sentira a condenação da lei violada, e ceifara os frutos da transgressão; e toda a sua alma se agitava pela solicitude por que os dirigentes de Israel fossem fiéis a Deus, e Salomão obedecesse à lei de Deus, excluindo os pecados que enfraqueceram a autoridade de seu pai, amarguraram-lhe a vida, e desonraram a Deus. Davi sabia que seria necessário humildade de coração, confiança constante em Deus e incessante vigilância, para resistir às tentações que certamente assediariam Salomão em seu elevado cargo; pois que tais caracteres preeminentes são o alvo especial dos dardos de Satanás. Voltando-se a seu filho já reconhecido como seu sucessor no trono, disse Davi: “E tu, meu filho Salomão, conhece o Deus de teu pai, e serve-O com um coração perfeito e com uma alma voluntária; porque esquadrinha o Senhor todos os corações, e entende todas as imaginações dos pensamentos. Se O buscares, será achado de ti; porém, se O deixares, rejeitar-te-á para sempre. Olha pois agora, porque o Senhor te escolheu para edificares uma casa para o santuário; esforça-te, e faze a obra”. 1 Crônicas 28:9, 10.

Davi deu a Salomão instruções minuciosas para a construção do templo, juntamente com desenhos de todas as partes, e de todos os instrumentos empregados em seu serviço, conforme lhe fora revelado por inspiração divina. Salomão ainda era moço, e recuava ante o peso das responsabilidades que lhe recairiam com a construção do templo e governo do povo de Deus. Disse Davi a seu filho: “Esforça-te e tem bom ânimo, e obra; não temas, nem te apavores; porque o Senhor Deus, meu Deus, há de ser contigo; não te deixará, nem te desamparará”. 1 Crônicas 28:20.

De novo Davi apelou para congregação: “Salomão, meu filho, a quem só Deus escolheu, é ainda moço e tenro, e esta obra é grande; porque não é palácio para homem, senão para o Senhor Deus.” Disse: “Com todas as minhas forças já tenho preparado para a casa de meu Deus”; e prosseguiu enumerando os materiais que juntara. E, mais ainda, disse: “E ainda, de minha própria vontade para a casa de meu Deus, o ouro e a prata particular que tenho de mais eu dou para a casa do meu Deus, afora tudo quanto tenho preparado para a casa do santuário; três mil talentos de ouro, do ouro de Ofir; e sete mil talentos de prata purificada, para cobrir as paredes das casas.” “Quem, pois, está disposto”, perguntou à multidão reunida, que trouxera suas dádivas liberais, “quem, pois, está disposto a encher a sua mão, para oferecer hoje voluntariamente ao Senhor?” 1 Crônicas 29:1-5.

Houve uma pronta resposta da assembleia. “Os chefes dos pais, e os príncipes das tribos de Israel, e os capitães dos milhares e das centenas, até os capitães da obra do rei, voluntariamente contribuíram; e deram para o serviço da casa de Deus cinco mil talentos de ouro, e dez mil dracmas, e dez mil talentos de prata, e dezoito mil talentos de cobre, e cem mil talentos de ferro. E os que se acharam com pedras preciosas, as deram para o tesouro da casa do Senhor. […] O povo se alegrou do que deram voluntariamente; porque com coração perfeito voluntariamente deram ao Senhor; e também o rei Davi se alegrou com grande alegria.

“Pelo que Davi louvou ao Senhor perante os olhos de toda a congregação; e disse Davi: Bendito és Tu, Senhor, Deus de nosso pai Israel, de eternidade em eternidade. Tua é, Senhor, a magnificência, e o poder, e a honra, e a vitória, e a majestade; porque Teu é tudo quanto há nos céus e na Terra; Teu é, Senhor, o reino, e Tu Te exaltaste sobre todos como chefe. E riquezas e glória vêm de diante de Ti, e Tu dominas sobre tudo, e na Tua mão há força e poder; e na Tua mão está o engrandecer e dar força a tudo. Agora, pois, ó Deus nosso, graças Te damos, e louvamos o nome da Tua glória. Por que quem sou eu, e quem é o meu povo, que tivéssemos poder para tão voluntariamente dar semelhantes coisas? Porque tudo vem de Ti, e da Tua mão To damos. Porque somos estranhos diante de Ti, e peregrinos como todos os nossos pais; como a sombra são os nossos dias sobre a Terra, e não há outra esperança. Senhor, Deus nosso, toda esta abundância, que preparamos, para Te edificar uma casa ao Teu santo nome, vem da Tua mão, e toda é Tua. E bem sei eu, Deus meu, que Tu provas os corações, e que da sinceridade Te agradas.

“Eu também na sinceridade de meu coração voluntariamente dei todas estas coisas; e agora vi com alegria que o Teu povo, que se acha aqui, voluntariamente Te deu. Senhor, Deus de nossos pais Abraão, Isaque, e Israel, conserva isto para sempre no intento dos pensamentos do coração de Teu povo; e encaminha o seu coração para Ti. E a Salomão, meu filho, dá um coração perfeito, para guardar os Teus mandamentos, os Teus testemunhos, e os Teus estatutos; e para fazer tudo, e para edificar este palácio que tenho preparado. Então disse Davi a toda a congregação: Agora louvai ao Senhor vosso Deus. Então toda a congregação louvou ao Senhor Deus de seus pais, e inclinaram-se, e prostraram-se perante o Senhor”. 1 Crônicas 29:6-20.

Com o mais profundo interesse o rei havia reunido o precioso material para a construção e embelezamento do templo. Tinha composto as gloriosas antífonas que nos anos posteriores ecoariam através de seus pátios. Agora seu coração se alegrava em Deus, ao corresponderem tão nobremente ao seu apelo os chefes dentre os pais e os príncipes de Israel, e oferecendo-se eles para a importante obra que tinham diante de si. E, dando eles o seu serviço, ficaram dispostos a fazer mais. Avolumaram as ofertas, dando de suas próprias posses à tesouraria. Davi sentira profundamente sua indignidade para reunir o material para a casa de Deus; e a expressão de lealdade na resposta pronta dos nobres de seu reino, ao dedicarem eles com coração voluntário os seus tesouros a Jeová, e devotarem-se ao Seu serviço, encheu-o de alegria. Mas foi unicamente Deus que comunicara esta disposição a Seu povo. Ele, e não o homem, devia ser glorificado. Fora Ele que provera o povo com as riquezas da terra, e Seu Espírito tornara-os dispostos a trazerem suas coisas preciosas para o templo. Tudo era do Senhor; se Seu amor não tivesse movido o coração do povo, os esforços do rei teriam sido em vão, e o templo nunca se teria construído.

Tudo que o homem recebe da generosidade de Deus, pertence ainda a Deus. O que quer que Deus tenha outorgado dentre as coisas valiosas e belas da Terra, é colocado nas mãos dos homens para os provar — a fim de sondar a profundidade de seu amor para com Ele e sua apreciação de Seus favores. Quer sejam tesouros de riqueza ou de intelecto, devem ser postos como sacrifício voluntário aos pés de Jesus, dizendo ao mesmo tempo o doador, como Davi: “Tudo vem de Ti, e da Tua mão To damos”. 1 Crônicas 29:14.

Ao pressentir Davi que a morte se aproximava, o peso sobre o seu coração ainda era por Salomão e pelo reino de Israel, cuja prosperidade deveria em tão grande parte depender da fidelidade de seu rei. “E deu ele ordem a Salomão, seu filho, dizendo: Eu vou pelo caminho de toda a terra; esforça-te, pois, e sê homem. E guarda a observância do Senhor teu Deus, para andares nos Seus caminhos, e para guardares os Seus estatutos, e os Seus mandamentos, e os Seus juízos, e os Seus testemunhos, […] para que prosperes em tudo quanto fizeres, para onde quer que te voltares. Para que o Senhor confirme a palavra, que falou de mim, dizendo: Se teus filhos guardarem o seu caminho, para andarem perante a Minha face fielmente, com todo o seu coração e com toda a sua alma, nunca, disse, te faltará sucessor ao trono de Israel”. 1 Reis 2:1-4.

As “últimas palavras” de Davi, conforme foram registradas, são um cântico — um cântico de confiança, do mais sublime princípio, e fé imortal:
“Diz Davi, filho de Jessé, e diz o homem que foi levantado em altura,
o ungido do Deus de Jacó, e o suave em salmos de Israel: O Espírito do Senhor falou por mim, […]
Haverá um justo que domine sobre os homens,
que domine no temor de Deus e será como a luz da manhã, quando sai o Sol,
da manhã sem nuvens, quando pelo seu resplendor e pela chuva a erva brota da terra.
Ainda que a minha casa não seja tal para com Deus,
contudo estabeleceu comigo um concerto eterno, que em tudo será bem ordenado e guardado,
pois toda a minha salvação e todo o meu prazer está nEle”.
2 Samuel 23:1-5.

Grande foi a queda de Davi, mas profundo foi o seu arrependimento, ardoroso o seu amor, e forte a sua fé. A ele muito fora perdoado, e portanto muito amava. Lucas 7:48.
Os salmos de Davi passam por uma série completa de experiências, desde as profundezas da culpabilidade consciente e condenação própria, até a fé mais sublime e mais exaltada comunhão com Deus. O registro de sua vida declara que o pecado apenas pode trazer ignomínia e desgraças, mas que o amor e a misericórdia de Deus podem alcançar as maiores profundidades, que a fé erguerá a alma arrependida para que participe da adoção de filhos de Deus. De todas as declarações que se contêm em Sua Palavra, é isto um dos mais fortes testemunhos da fidelidade, da justiça e da misericórdia de Deus em Seu concerto.

O homem “foge também como a sombra, e não permanece” (Jó 14:2), “mas a Palavra de nosso Deus subsiste eternamente”. Isaías 40:8. “A misericórdia do Senhor é de eternidade a eternidade sobre aqueles que O temem, e a Sua justiça sobre os filhos dos filhos; sobre aqueles que guardam o Seu concerto, e sobre os que se lembram dos Seus mandamentos para os cumprirem”. Salmos 103:17, 18.

“Tudo quanto Deus faz durará eternamente”. Eclesiastes 3:14.

Gloriosas são as promessas feitas a Davi e sua casa, promessas essas que visam às eras eternas, e que encontram seu cumprimento total em Cristo. Declarou o Senhor:
“Jurei ao Meu servo Davi: […] Com ele a Minha mão ficará firme, e o Meu braço o fortalecerá. […] A Minha fidelidade e a Minha benignidade estarão com ele; e em Meu nome será exaltado o seu poder. E porei a sua mão no mar, e a sua direita nos rios. Ele Me invocará, dizendo: Tu és meu Pai, meu Deus, e a Rocha da minha salvação. Também por isso lhe darei o lugar de primogênito; fá-lo-ei mais elevado do que os reis da Terra. A Minha benignidade lhe guardarei para sempre, e o Meu concerto lhe será firme”. Salmos 89:3-28.

“E conservarei para sempre a sua descendência,
e o seu trono como os dias do céu”.
Salmos 89:29.

“Julgará os aflitos do povo, salvará os filhos do necessitado, e quebrantará o opressor.
Temer-Te-ão enquanto durar o Sol e a Lua, de geração em geração. […]
Nos seus dias florescerá o justo, e abundância de paz haverá enquanto durar a Lua.
Dominará de mar a mar, e desde o rio até às extremidades da Terra.”
“O seu nome permanecerá eternamente;
o seu nome se irá propagando de pais a filhos,
enquanto o Sol durar, e os homens serão abençoados nele;
todas as nações lhe chamarão bem-aventurado”.
Salmos 72:4-8, 17.

“Porque um Menino nos nasceu, um Filho se nos deu;
e o principado está sobre os Seus ombros;
e o Seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus forte, Pai da eternidade, Príncipe da paz”.
Isaías 9:6.

“Este será grande, e será chamado Filho do Altíssimo;
e o Senhor Deus Lhe dará o trono de Davi, Seu pai;
e reinará eternamente na casa de Jacó, e o Seu reino não terá fim”.
Lucas 1:32, 33.

BLOG DA SEMANA 18/12/2016, sobre Patriarcas e Profetas, cap. 72

Davi proclamou sua própria sentença quando declarou uma condenação de quatro vezes à história do profeta Natã. Ele perdeu seu primogênito com Bate-Seba, e então seu próprio filho Amnon cometeu o hediondo pecado antinatural com sua irmã, a filha de Davi. “Por dois anos, Amnon teve oportunidade de arrependimento; Mas ele continuou em pecado”.

Davi tentou punir Absalão por suas ações, o que talvez nunca tivesse sido necessário se Davi tivesse devidamente disciplinado ou conduzido sua família da maneira que Deus ordenou que um chefe de família deveria fazer. Davi então sofreu as ações traidoras deste filho, quando Absalão tentou assumir o trono e assassinar seu próprio pai. Davi também foi traído por Aitofel, um de seus principais conselheiros, considerado o mais capaz e mais astuto dos líderes políticos. Aitofel, afinal, era o avô de Bate-Seba e, portanto, sentiu que precisava se vingar da conduta vergonhosa de Davi. Sabendo que não havia volta para suas ações, Aitofel tirou sua própria vida quando ele percebeu que Davi triunfaria sobre Absalão.

MAS, Deus ainda amava este Rei, e o chamou de homem favorecido, listado na sala de fé em Hebreus 11. O que manteve este homem nas boas graças de Deus? Ele se arrependeu de todos os seus pecados, genuinamente, abertamente e com todo o seu coração e alma. Ele deu crédito a Deus por Sua justiça e, como Jó, nunca amaldiçoou ou se queixou dos resultados naturais de suas ações pecaminosas.

O céu ama o pecador que assume seu pecado e humildemente vai a Deus por graça e perdão.

Cathy Zuver

Texto original: http://www.revivalandreformation.org/bhp/en/sop/pp/72

Tradução: Jeferson/Gisele Quimelli

PATRIARCAS E PROFETAS, cap. 72

Capítulo 72 — A rebelião de Absalão

Este capítulo é baseado em 2 Samuel 13-19.

Tornará a dar o quadruplicado” (2 Samuel 12:6) foi a sentença dada por Davi a si mesmo sem o saber, ouvindo a parábola do profeta Natã; e de conformidade com sua própria sentença deveria ele ser julgado. Quatro de seus filhos deveriam cair, e a perda de cada um deles seria o resultado do pecado do pai.

O vergonhoso crime de Amnom, o primogênito, permitiu Davi que passasse sem ser punido nem repreendido. A lei pronunciava a pena de morte ao adúltero, e o crime desnatural de Amnom tornou-o duplamente culpado. Mas Davi, condenado por si mesmo pelo seu próprio pecado, deixou de fazer justiça ao transgressor. Durante dois anos completos, Absalão, o protetor natural da irmã tão ignominiosamente prejudicada, escondeu seu propósito de vingança, mas apenas para dar finalmente o golpe com mais segurança. Em uma festa dos filhos do rei, o bêbado e incestuoso Amnom foi morto por ordem de seu irmão.

Duplo juízo recebera Davi. Foi levada a ele esta terrível mensagem: “Absalão feriu a todos os filhos do rei, e nenhum deles ficou. Então o rei se levantou, e rasgou os seus vestidos, e se lançou por terra; da mesma maneira todos os seus servos estavam com vestidos rotos.” Os filhos do rei, voltando alarmados para Jerusalém, revelaram a seu pai a verdade; somente Amnom havia sido morto; e eles “levantaram sua voz, e choraram; e também o rei e todos os seus servos choraram com mui grande choro”. 2 Samuel 13:30, 31, 36. Mas Absalão fugiu a Talmai, rei de Gesur, pai de sua mãe.

Como os outros filhos de Davi, Amnom tinha sido deixado por conta das satisfações egoístas. Ele procurava satisfazer todo pensamento de seu coração, sem tomar em consideração os requisitos de Deus. Apesar de seu grande pecado, Deus tivera muita paciência com ele. Durante dois anos, lhe foi concedida oportunidade para arrependimento; mas ele continuou em pecado, e, com sua culpa sobre si, foi eliminado pela morte, para esperar o terrível tribunal do Juízo.

Davi tinha negligenciado o dever de punir o crime de Amnom, e, por causa da infidelidade do rei e pai, e da impenitência do filho, o Senhor permitiu que os acontecimentos tomassem seu curso natural, e não restringiu Absalão. Quando pais ou governadores negligenciam o dever de punir a iniqüidade, Deus mesmo tomará o caso em mãos. Seu poder repressor será até certo ponto removido, das forças do mal, de modo que surgirá um séquito de circunstâncias que castigará o pecado com o pecado.

Os maus resultados da injusta condescendência de Davi para com Amnom não estavam terminados; pois agora é que começou o afastamento de Absalão, de seu pai. Depois que ele fugiu a Gesur, Davi, compreendendo que o crime de seu filho exigia algum castigo, recusou-lhe permissão para voltar. E isto teve como resultado aumentar em vez de diminuir o emaranhado de males em que o rei viera a ficar envolto. Absalão, enérgico, ambicioso e sem escrúpulos, excluído pelo seu exílio da participação nos negócios do reino, logo se deu a formular planos perigosos.

No fim de dois anos, Joabe resolveu efetuar a reconciliação entre o pai e o filho. E com este objetivo em vista conseguiu os serviços de uma mulher de Tecoa, afamada pela sua sabedoria. Instruída por Joabe, a mulher se fez passar a Davi por uma viúva, cujos dois filhos tinham sido sua única consolação e apoio. Em uma rixa, um destes matou o outro, e agora todos os parentes da família exigiam que o sobrevivente fosse entregue ao vingador do sangue. “Assim”, disse a mãe, “apagarão a brasa que me ficou, de sorte que não deixam a meu marido nome, nem resto sobre a Terra”. 2 Samuel 14:7. Os sentimentos do rei foram tocados com esse apelo, e ele assegurou à mulher a proteção real para seu filho.

Depois de arrancar dele repetidas promessas pela segurança do jovem, impetrou a clemência do rei, declarando que ele falara como alguém em falta, por não ter mandado buscar de volta para casa o seu exilado. “Porque”, disse ela, “certamente morreremos, e seremos como águas derramadas na terra, que não se ajuntam mais: Deus, pois, lhe não tirará a vida, mas ideará pensamentos, para que se não desterre dEle o Seu desterrado”. 2 Samuel 14:14. Este quadro terno e tocante do amor de Deus para com o pecador, vindo, como veio, de Joabe, o rude soldado, é uma prova notável da familiaridade dos israelitas com as grandes verdades da redenção. O rei, sentindo sua própria necessidade da misericórdia de Deus, não pôde resistir a este apelo. A Joabe foi dada a ordem: “Vai, pois, e torna a trazer o mancebo Absalão.”

A Absalão foi permitido voltar a Jerusalém, mas não para comparecer à corte, ou encontrar seu pai. Davi tinha começado a ver os maus efeitos de sua condescendência para com os filhos; e embora amasse com ternura esse belo e prendado filho, achou necessário que, como uma lição tanto a Absalão como ao povo, fosse manifesta aversão por esse crime. Absalão viveu dois anos em sua própria casa, mas banido da corte. Sua irmã morava com ele, e sua presença conservava viva a lembrança do mal irreparável que sofrera. Na apreciação popular, o príncipe era um herói, em vez de um transgressor. E, tendo esta vantagem, pôs-se a conquistar o coração do povo. Sua aparência pessoal era de tal maneira que captava a admiração de todos os que o viam. “Não havia, porém, em todo o Israel homem tão belo e tão aprazível como Absalão; desde a planta do pé até à cabeça não havia nele defeito algum”. 2 Samuel 14:21, 25. Não era prudente, da parte do rei, deixar um homem do caráter de Absalão — ambicioso, impulsivo e apaixonado — a acalentar durante dois anos supostas ofensas. E o ato de Davi, permitindo-lhe voltar a Jerusalém e contudo recusando-se a admiti-lo em sua presença, alistou as simpatias do povo a seu favor.

Tendo sempre diante de si a lembrança de sua própria transgressão à lei de Deus, Davi parecia moralmente paralisado; era fraco e irresoluto, quando antes de seu pecado era corajoso e decidido. Sua influência junto ao povo se havia enfraquecido. E tudo isto favorecia os planos de seu filho desnaturado.

Mediante a influência de Joabe, Absalão foi de novo admitido à presença de seu pai; mas, embora houvesse uma reconciliação externa, continuou ele com seus projetos ambiciosos. Assumiu agora uma condição quase régia, tendo carros e cavalos, e cinqüenta homens para correrem diante dele. E, enquanto o rei mais e mais se inclinava a desejar o retiro e a solidão, Absalão cortejava assiduamente o favor popular.

A influência da indiferença e irresolução de Davi estendeu-se a seus subordinados; a negligência e a demora caracterizavam a administração da justiça. Absalão ardilosamente mudava cada causa de descontentamento em proveito próprio. Dia após dia este homem de semblante nobre podia ser visto à porta da cidade, onde uma multidão de suplicantes esperava a fim de apresentar suas queixas e receber justiça. Absalão misturava-se com eles, e escutava seus agravos, exprimindo simpatia pelos seus sofrimentos, e pesar pela ineficiência do governo. Tendo assim ouvido a história de um homem de Israel, o príncipe replicava: “Os teus negócios são bons e retos, porém não tens quem te ouça da parte do rei”; e acrescentava: “Ah, quem me dera ser juiz na Terra! para que viesse a mim todo homem que tivesse demanda ou questão, para que lhe fizesse justiça. Sucedia também que, quando alguém se achegava a ele para se inclinar diante dele, ele estendia a sua mão, e pegava dele, e o beijava.”

Fomentado pelas artificiosas insinuações do príncipe, o descontentamento com o governo estava-se espalhando rapidamente. O elogio a Absalão estava nos lábios de todos. Era geralmente considerado como herdeiro do reino; o povo olhava para ele com orgulho, como sendo digno deste elevado cargo, e acendeu-se o desejo de que ele ocupasse o trono.

“Assim furtava Absalão o coração dos homens de Israel”. 2 Samuel 15:4-6. No entanto, o rei, cego pelo afeto para com seu filho, de nada suspeitava. A condição principesca que Absalão havia assumido, era considerada por Davi como tendo em vista honrar a sua corte, ou seja, como uma expressão de alegria pela reconciliação.

Estando preparada a mente do povo para o que havia de seguir-se, Absalão secretamente enviou homens escolhidos por todas as tribos, a fim de combinar as necessárias providências para uma revolta. E agora o manto da devoção religiosa foi tomado para esconder seus intuitos traidores. Um voto feito muito tempo antes, quando ele estava no desterro, devia ser cumprido em Hebrom. Absalão disse ao rei: “Deixa-me ir pagar em Hebrom o meu voto que votei ao Senhor. Porque, morando eu em Gesur, em Síria, votou o teu servo um voto, dizendo: Se o Senhor outra vez me fizer tornar a Jerusalém, servirei ao Senhor.” Então o extremoso pai, reconfortado com esta prova de piedade em seu filho, despediu-o com sua bênção. A conspiração estava agora completamente amadurecida. O ato final de Absalão, inspirado na hipocrisia, destinava-se não somente a cegar o rei, mas estabelecer a confiança do povo, e assim levar este à rebelião contra o rei que Deus escolhera.

Absalão partiu para Hebrom, e foram com ele de Jerusalém “duzentos homens convidados, porém iam na sua simplicidade, porque nada sabiam daquele negócio”. 2 Samuel 14:7-11. Estes homens iam com Absalão, mal imaginando que seu amor pelo filho os estava levando à rebelião contra o pai. Chegando em Hebrom, Absalão imediatamente chamou Aitofel, um dos principais conselheiros de Davi, homem de grande fama por sua sabedoria, cuja opinião se julgava ser tão segura e prudente como a de um oráculo. Aitofel aderiu aos conspiradores, e seu apoio fez com que parecesse certo o êxito à causa de Absalão, atraindo sob sua bandeira muitos homens de influência de todas as partes do país. Soando a trombeta de revolta, os espias do príncipe por todo o país espalharam a notícia de que Absalão era rei, e muitos do povo a ele se uniram.

Entrementes foi levado o alarme a Jerusalém, ao rei. Davi despertou-se de súbito, para ver a rebelião irrompendo junto a seu trono. Seu próprio filho, aquele filho que ele amara e em quem confiara, estivera a conspirar para lhe tomar a coroa, e sem dúvida para lhe tirar a vida. Em seu grande perigo, Davi sacudiu a depressão que durante tanto tempo sobre ele repousava, e com o espírito de seus primeiros anos preparou-se para enfrentar esta terrível emergência. Absalão estava arregimentando suas forças, em Hebrom, afastada apenas trinta quilômetros. Os rebeldes logo estariam às portas de Jerusalém.

De seu palácio, Davi olhava para a sua capital — formosa de sítio, e “alegria de toda a Terra, […] a cidade do grande Rei”. Salmos 48:2. Estremecia ao pensamento de expô-la à carnificina e devastação. Deveria chamar em seu auxílio os súditos ainda fiéis ao seu trono, e assumir posição para manter sua capital? Deveria permitir que Jerusalém fosse inundada de sangue? Sua decisão estava tomada. Os horrores da guerra não deveriam recair sobre a cidade escolhida. Ele sairia de Jerusalém, e então provaria a fidelidade de seu povo, dando-lhes oportunidade para se arregimentarem em seu apoio. Nesta grande crise, era seu dever a Deus e a seu povo manter a autoridade de que o Céu o investira. O desenlace do conflito ele confiaria a Deus.

Com humildade e tristeza, Davi saiu pela porta de Jerusalém, repelido de seu trono, de seu palácio, da arca de Deus, pela insurreição de seu querido filho. O povo acompanhou-o em um séquito longo e triste, semelhante a um cortejo fúnebre. A guarda pessoal de Davi, constituída pelos quereteus, peleteus, e por seiscentos geteus de Gate, sob o comando de Itai, acompanhou o rei. Mas Davi, com sua abnegação característica, não pôde consentir que esses estrangeiros que tinham procurado sua proteção se envolvessem em sua calamidade. Exprimiu surpresa de que estivessem dispostos a fazer tal sacrifício por ele. Então disse o rei a Itai, o geteu: “Por que irias tu também conosco? Volta, e fica-te com o rei, porque estranho és, e também te tornarás a teu lugar. Ontem vieste, e te levaria eu hoje conosco a caminhar? Pois força me é ir aonde quer que puder ir; volta, pois, e torna a levar teus irmãos contigo, com beneficência e fidelidade.”

Itai respondeu: “Vive o Senhor, e vive o rei meu senhor, que no lugar em que estiver o rei meu senhor, seja para morte seja para vida, aí certamente estará também o teu servidor.” Estes homens tinham-se convertido do paganismo ao culto de Jeová, e nobremente provaram agora sua fidelidade a seu Deus e a seu rei. Davi, com coração grato, aceitou a dedicação deles à sua causa, que aparentemente ia abaixo, e todos passaram o ribeiro de Cedrom, a caminho do deserto.

De novo o cortejo parou. Um grupo trajado de vestes santas vinha se aproximando. “Eis que também Zadoque ali estava, e com ele todos os levitas que levavam a arca do concerto de Deus”. 2 Samuel 15:19-21, 24. Os seguidores de Davi olharam para isto como um feliz sinal. A presença daquele símbolo sagrado era para eles um penhor de seu livramento e vitória final. Infundiria coragem ao povo para que se arregimentasse junto ao rei. A ausência da mesma em Jerusalém acarretaria terror aos partidários de Absalão.

À vista da arca, a alegria e a esperança por um breve momento fizeram fremir o coração de Davi. Mas logo outros pensamentos lhe vieram. Como aquele que fora designado para governar a herança de Deus, encontrava-se ele sob uma responsabilidade solene. Não o interesse pessoal, mas sim a glória de Deus e o bem de Seu povo deveriam ser objetivos preeminentes no espírito do rei de Israel. Deus, que habita entre os querubins, disse acerca de Jerusalém: “Este é o Meu repouso” (Salmos 132:14); e, sem autoridade divina, nem sacerdote nem rei tinha o direito de remover dali o símbolo de Sua presença. E Davi compreendeu que seu coração e sua vida deveriam estar em harmonia com os preceitos divinos, aliás a arca seria o meio para ocorrer desastre em vez de êxito. Seu grande pecado estava sempre diante dele. Reconhecia nesta conspiração o justo juízo de Deus. A espada que não deveria afastar-se de sua casa, fora desembainhada. Ele não sabia qual poderia ser o resultado da luta. Não lhe competia remover da capital da nação os estatutos sagrados que incorporavam a vontade de seu divino Soberano, os quais eram a constituição do reino e o fundamento de sua prosperidade.

Ele ordenou a Zadoque: “Torna a levar a arca de Deus à cidade; que, se achar graça nos olhos do Senhor, Ele me tornará a trazer para lá, e me deixará ver a ela e a sua habitação. Se, porém, disser assim: Não tenho prazer em ti; eis-me aqui, faça de mim como parecer bem aos Seus olhos.”

Davi acrescentou: “Não és tu porventura o vidente?” — homem designado por Deus para instruir o povo. “Torna, pois, em paz para a cidade, e convosco também vossos dois filhos, Aimaás, teu filho, e Jônatas, filho de Abiatar. Olhai que me demorarei nas campinas do deserto até que tenha novas vossas”. 2 Samuel 15:25-28. Na cidade os sacerdotes poderiam prestar-lhe bom serviço, sabendo dos movimentos e intuitos dos rebeldes, e comunicando-os secretamente ao rei por seus filhos Aimaás e Jônatas.

Voltando os sacerdotes a Jerusalém, uma sombra mais negra recaiu sobre a multidão que partia. Sendo seu rei fugitivo, sendo eles próprios rejeitados, abandonados mesmo pela arca de Deus, estava o futuro obscurecido de terror e maus prenúncios. “E subiu Davi pela subida das Oliveiras, subindo e chorando, e com a cabeça coberta, e caminhava com os pés descalços; e todo o povo que ia com ele cobria cada um a sua cabeça, e subiam chorando sem cessar. Então fizeram saber a Davi, dizendo: Também Aitofel está entre os que se conjuraram com Absalão.” Novamente foi Davi obrigado a reconhecer em suas calamidades os resultados de seu próprio pecado. A deserção de Aitofel, o mais hábil e astuto dos dirigentes políticos, foi motivada pela vingança à desonra que sobreveio à família em virtude do dano feito a Bate-Seba, que era sua neta.

“Pelo que disse Davi: Ó Senhor, transtorna o conselho de Aitofel”. 2 Samuel 15:30, 31. Chegando ao cume do monte, o rei curvou-se em oração, lançando sobre Deus o fardo de sua alma, e suplicando humildemente a misericórdia divina. Sua oração pareceu ser de pronto respondida. Husai, o arquita, conselheiro sábio e hábil, que se mostrara amigo fiel de Davi, veio então a ele com as vestes rotas, e com terra sobre sua cabeça, para lançar sua sorte com o rei destronado e fugitivo. Davi viu, como por iluminação divina, que este homem, fiel e de coração veraz, era aquele de quem se necessitava para servir aos interesses do rei nos conselhos, na capital. Ao pedido de Davi, Husai voltou a Jerusalém para oferecer seus serviços a Absalão, e dissipar o astucioso conselho de Aitofel.

Com esse raio de luz nas trevas, o rei e seus seguidores prosseguiram em seu caminho descendo a encosta oriental do Monte das Oliveiras, através de uma região inculta, rochosa e desolada, por entre quebradas bravias, e ao longo de caminhos pedregosos e íngremes, em direção ao Jordão. “E, chegando o rei Davi a Baurim, eis que dali saiu um homem da linhagem da casa de Saul, cujo nome era Simei, filho de Gera, e, saindo, ia amaldiçoando. E apedrejava com pedras a Davi, e a todos os servos do rei Davi, ainda que todo o povo e todos os valentes iam à sua direita e à sua esquerda. E, amaldiçoando-o Simei, assim dizia: Sai, sai, homem de sangue, e homem de Belial. O Senhor te deu agora a paga de todo o sangue da casa de Saul, em cujo lugar tens reinado; já deu o Senhor o reino na mão de Absalão teu filho; e eis-te agora na tua desgraça, porque és um homem de sangue”. 2 Samuel 16:5-8.

Na prosperidade de Davi, Simei não mostrara, quer por palavras quer por atos, que não era um súdito leal. Mas, na aflição do rei, este benjamita revelou seu verdadeiro caráter. Honrara a Davi em seu trono, mas amaldiçoara-o em sua humilhação. Vil e egoísta, olhava aos outros como sendo do mesmo caráter que ele, e, inspirado por Satanás, saciava seu ódio naquele a quem Deus castigara. O espírito que leva o homem a triunfar sobre alguém que está em aflição, a ultrajá-lo e angustiá-lo, é o espírito de Satanás.

As acusações de Simei contra Davi eram inteiramente falsas — uma calúnia vil e perversa. Davi não fora culpado de mal a Saul ou à sua casa. Quando Saul estava inteiramente em seu poder, e o poderia ter matado, simplesmente cortou a franja de sua veste, e censurou a si próprio por mostrar mesmo este desrespeito pelo ungido do Senhor.

Do respeito sagrado de Davi pela vida humana, prova notável fora dada, mesmo quando ele próprio era perseguido como animal feroz. Um dia, quando se achava escondido na caverna de Adulão, volvendo-se seus pensamentos à imperturbável liberdade de sua vida de rapaz, exclamou o fugitivo: “Quem me dera beber da água da cisterna de Belém, que está junto à porta!” Belém estava naquele tempo nas mãos dos filisteus; mas três homens valorosos do grupo de Davi romperam através da guarda, e trouxeram da água de Belém a seu senhor. Davi não a pôde beber. “Guarda-me, ó Senhor”, exclamou ele, “de que tal faça; beberia eu o sangue dos homens que foram a risco da sua vida?” 2 Samuel 23:13-17. E ele reverentemente derramou a água como oferta a Deus. Davi tinha sido um homem de guerra, e grande parte de sua vida fora despendida entre cenas de violência; mas, de todos os que passaram por essa prova, não muitos, em verdade, foram tão pouco afetados pela sua influência insensibilizadora e desmoralizadora, como o foi Davi.

Abisai, sobrinho de Davi, um dos mais valentes dos seus capitães, não pôde escutar com paciência as palavras insultantes de Simei. “Por que amaldiçoaria este cão morto ao rei meu senhor?” exclamou ele. “Deixa-me passar, e lhe tirarei a cabeça.” Mas o rei proibiu-lho. “Eis que meu filho”, disse ele, “procura a minha morte; quanto mais ainda este benjamita? Deixai-o, que amaldiçoe; porque o Senhor lho disse. Porventura o Senhor olhará para a minha miséria, e o Senhor me pagará com bem a sua maldição deste dia”. 2 Samuel 16:9-12.

A consciência estava a proferir verdades amargas e humilhantes a Davi. Enquanto seus súditos fiéis se admiravam com a sua súbita mudança de sorte, não era isto mistério para o rei. Ele muitas vezes tivera pressentimentos de uma hora como aquela. Admirara-se de que Deus tivesse tanto tempo suportado seus pecados, e retardado o castigo merecido. E agora, em sua fuga precipitada e triste, com os pés descalços, com as vestes reais mudadas em saco, com as lamentações dos que o acompanhavam a despertar os ecos das colinas, pensava ele em sua amada capital — o lugar que fora o cenário de seu pecado; e, lembrando-se da bondade e longanimidade de Deus, não estava inteiramente sem esperança. Sentia que o Senhor ainda o trataria com misericórdia.

Muito malfeitor tem desculpado seu pecado, apontando para a queda de Davi; mas, quão poucos há que manifestam o arrependimento e a humildade de Davi! Quão poucos suportam a reprovação e o castigo, com a paciência e coragem que ele manifestou! Confessara seu pecado, e durante anos procurara cumprir seu dever como fiel servo de Deus; trabalhara para o reerguimento de seu reinado, e sob seu governo este atingira a uma força e prosperidade jamais alcançadas antes. Reunira grandes suprimentos de materiais para a edificação da casa de Deus; e agora deveria todo o trabalho de sua vida ser dissipado? Deveriam os resultados de anos de uma labuta consagrada, de trabalho criativo, dedicação, aptidão de estadista, passar para as mãos de seu filho descuidado e traidor, que não tinha consideração pela honra de Deus nem pela prosperidade de Israel? Quão natural teria parecido murmurar Davi contra Deus nesta grande aflição!

Mas ele viu a causa de sua inquietação em seu próprio pecado. Das palavras do profeta Miquéias transpira o espírito que animava o coração de Davi. “Se morar nas trevas, o Senhor será a minha luz. Sofrerei a ira do Senhor, porque pequei contra Ele, até que julgue a minha causa, e execute o meu direito”. Miquéias 7:8, 9. E o Senhor não abandonou Davi. Este capítulo de sua experiência, em que sob o mais cruel dano e insulto, ele se mostra humilde, abnegado, generoso e submisso, é um dos mais nobres em toda a sua experiência. Nunca foi o governador de Israel com mais verdade grande à vista do Céu do que nesta hora de sua mais profunda humilhação exterior.

Tivesse Deus permitido que Davi continuasse em pecado sem ser condenado, e permanecesse em paz e prosperidade em seu trono enquanto transgredia os preceitos divinos, e os céticos e incrédulos teriam motivo para citar a história de Davi como mácula à religião da Bíblia. Mas, na experiência por que Ele fez Davi passar, o Senhor mostra que não pode tolerar nem desculpar o pecado. E a história de Davi nos habilita a ver também o grande objetivo que Deus tem em vista com Seu trato com o pecado; habilita-nos a divisar, mesmo através dos mais tenebrosos juízos, a realização de Seus intuitos de misericórdia e beneficência. Ele fez Davi passar pela vara, mas não o destruiu; a fornalha é para purificar, mas não para consumir. Diz o Senhor: “Se profanarem os Meus preceitos, e não guardarem os Meus mandamentos, então visitarei com vara a sua transgressão, e a sua iniqüidade com açoites. Mas não retirarei totalmente dele a Minha benignidade, nem faltarei à Minha fidelidade”. Salmos 89:31-33.

Logo depois que Davi saiu de Jerusalém, Absalão e seu exército entraram, e sem qualquer luta tomaram posse da fortaleza de Israel. Husai achou-se entre os primeiros a saudar o novo rei; e o príncipe ficou surpreso e satisfeito com a aquisição do velho amigo e conselheiro de seu pai. Absalão estava confiante no êxito. Até ali seus planos tinham sido bem-sucedidos, e, ansioso por fortalecer o trono e conseguir a confiança da nação, recebeu com alegria a Husai em sua corte.

Absalão estava agora cercado de uma grande força; mas esta era pela maior parte constituída de homens inexperientes na guerra. Ainda não tinham sido levados em conflito. Aitofel bem sabia que a situação de Davi estava longe de ser desesperadora. Uma grande parte da nação ainda estava fiel a ele; estava rodeado de guerreiros experimentados, que eram fiéis ao seu rei, e seu exército era comandado por generais hábeis e experientes. Aitofel sabia que, depois da primeira explosão de entusiasmo em favor do novo rei, viria uma reação. Caso falhasse a revolta, Absalão poderia ser capaz de conseguir reconciliação com seu pai; então Aitofel, como seu principal conselheiro, seria tido na conta do mais culpado pela rebelião; sobre ele recairia o mais severo castigo. Para impedir que Absalão retrocedesse, Aitofel o aconselhou a um ato que, aos olhos da nação inteira, tornaria impossível a reconciliação. Com engano infernal, este estadista, astuto e sem escrúpulos, insistiu com Absalão para acrescentar o crime de incesto ao de rebelião. À vista de todo o Israel deveria tomar para si as concubinas de seu pai, segundo o costume das nações orientais, declarando assim que sucedia a seu pai no trono. E Absalão levou a efeito a vil sugestão. Assim, cumpriu-se a palavra de Deus a Davi, pelo profeta: “Eis que suscitarei da tua mesma casa o mal sobre ti, e tomarei tuas mulheres perante os teus olhos, e as darei a teu próximo. […] Porque tu o fizeste em oculto, mas Eu farei este negócio perante todo o Israel e perante o Sol”. 2 Samuel 12:11, 12. Não que Deus instigasse tais atos de impiedade; mas, por causa do pecado de Davi, Ele não exerceu Seu poder para os impedir.

Aitofel fora tido em grande estima pela sua sabedoria, mas era destituído do esclarecimento que vem de Deus. “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Provérbios 9:10); e este, Aitofel não possuía, aliás dificilmente poderia ter baseado o êxito da traição no crime de incesto. Homens de coração corrupto tramam a impiedade, como se não houvesse Providência a dirigir superiormente as coisas, a fim de obstar seus desígnios; mas “Aquele que habita nos Céus se rirá; o Senhor zombará deles”. Salmos 2:4. O Senhor declara: “Não quiseram o Meu conselho e desprezaram toda a Minha repreensão. Portanto comerão do fruto do seu caminho, e fartar-se-ão dos seus próprios conselhos. Porque o desvio dos simples os matará, e a prosperidade dos loucos os destruirá”. Provérbios 1:30-32.

Tendo tido êxito na trama destinada a conseguir sua segurança, Aitofel insistiu com Absalão sobre a necessidade de ação imediata contra Davi. “Deixa-me escolher doze mil homens”, disse ele, “e me levantarei, e seguirei após Davi esta noite. E irei sobre ele, pois está cansado e fraco das mãos; e o espantarei, e fugirá todo o povo que está com ele; e então ferirei o rei só. E farei tornar a ti todo o povo.” Este plano foi aprovado pelos conselheiros do rei. Caso houvesse sido seguido, certamente Davi teria sido morto, a menos que o Senhor interviesse diretamente para o salvar. Uma sabedoria mais elevada, porém, do que a do afamado Aitofel, estava a dirigir os acontecimentos. “O Senhor o ordenara, para aniquilar o bom conselho de Aitofel, para que o Senhor trouxesse o mal sobre Absalão”. 2 Samuel 17:1-3, 14.

Husai não fora chamado ao conselho, e não se intrometeria sem que isto lhe fosse pedido, receoso de vir sobre si a suspeita de ser espião; mas, depois que se dispersou a assembléia, Absalão, que tinha grande consideração pelo juízo do conselheiro de seu pai, submeteu à sua apreciação o plano de Aitofel. Husai viu, que, se o plano proposto fosse seguido, Davi estaria perdido. E disse: “O conselho que Aitofel esta vez aconselhou não é bom. Disse mais Husai: Bem conheces a teu pai, e a seus homens, que são valorosos, e que estão com o espírito amargurado, como a ursa no campo, roubada dos cachorros; também teu pai é homem de guerra, e não passará a noite com o povo. Eis que agora está escondido nalguma cova, ou em qualquer outro lugar”; ele argumentava que, se as forças de Absalão perseguissem a Davi, não fariam prisioneiro ao rei; e, se sofressem um revés, isto tenderia a desanimá-las, e faria grande mal à causa de Absalão. “Porque”, disse ele, “todo o Israel sabe que teu pai é valoroso, e homens valentes os que estão com ele.” E sugeriu um plano atraente pela sua natureza vaidosa e egoísta, propenso à exibição de poder: “Eu, porém, aconselho que com toda a pressa se ajunte a ti todo o Israel desde Dã até Berseba, e multidão como areia do mar; e que tu em pessoa vás à peleja. Então iremos a ele, em qualquer lugar que se achar, e facilmente viremos sobre ele, como o orvalho cai sobre a terra; e não ficará dele e de todos os homens que estão com ele nem ainda um só. E, se ele se retirar para alguma cidade, todo o Israel trará cordas àquela cidade, e arrastá-la-emos até ao ribeiro, até que não se ache ali nem uma só pedrinha.

“Então disse Absalão a todos os homens de Israel: Melhor é o conselho de Husai, o arquita, do que o conselho de Aitofel”. 2 Samuel 17:10-14. Mas houve um que não foi enganado — um que previu claramente o resultado deste erro fatal de Absalão. Aitofel compreendeu que a causa dos rebeldes estava perdida. E viu que, qualquer que pudesse ser a sorte do príncipe, não havia esperança para o conselheiro que instigara os seus maiores crimes. Aitofel havia animado Absalão na rebelião; aconselhara-o à mais abominável impiedade, à desonra de seu pai; sugerira a morte de Davi, e fizera os planos para a sua realização; suprimira a última possibilidade de reconciliação com o rei; e agora outro era preferido a ele, mesmo por Absalão. Cheio de inveja, irado, e desesperado, Aitofel “foi para sua casa e para a sua cidade, e pôs em ordem a sua casa, e se enforcou, e morreu”. 2 Samuel 17:23. Tal foi o resultado da sabedoria de quem, com todos os seus elevados dotes, não fez de Deus o seu conselheiro. Satanás engoda os homens com promessas lisonjeiras; mas no fim será descoberto por toda alma que “o salário do pecado é a morte”. Romanos 6:23.

Husai, não tendo certeza de que seu conselho seria seguido pelo versátil rei, não perdeu tempo em avisar Davi para que escapasse para além do Jordão, sem demora. Husai enviou esta mensagem aos sacerdotes, os quais deveriam transmiti-la por seus filhos: “Assim e assim aconselhou Aitofel a Absalão e aos anciãos de Israel; porém assim e assim aconselhei eu. Agora, pois […] não passes esta noite nas campinas do deserto, mas passa depressa à outra banda, para que o rei e todo o povo que com ele está não seja devorado”. 2 Samuel 17:15, 16.

Houve suspeitas contra os moços, e foram perseguidos; todavia conseguiram levar a efeito sua perigosa missão. Davi, fatigado pelas labutas e mágoas depois daquele primeiro dia de fuga, recebeu a mensagem de que deveria atravessar o Jordão naquela noite, pois que seu filho procurava sua vida.

Quais seriam os sentimentos daquele pai e rei, tão cruelmente ultrajado, neste perigo terrível? Como homem valoroso, homem de guerra, e rei, cuja palavra era lei, traído por seu filho, a quem amara, com quem fora condescendente, e em quem imprudentemente confiara; ofendido e abandonado pelos súditos que a ele estavam ligados pelos mais fortes laços de honra e lealdade — com que palavras derramou Davi os sentimentos de sua alma? Na hora de sua mais negra prova, o coração de Davi estava firme em Deus, e ele cantou:

“Senhor, como se têm multiplicado os meus adversários!
São muitos os que se levantam contra mim.

Muitos dizem da minha alma: Não há salvação para ele em Deus.

Mas Tu, Senhor, és um escudo para mim, a minha glória, e o que exalta a minha cabeça.

Com a minha voz clamei ao Senhor, Ele ouviu-me desde o Seu santo monte.

Eu me deitei e dormi; acordei, porque o Senhor me sustentou.

Não terei medo de dez milhares de pessoas que se puseram contra mim ao meu redor. […]
A salvação vem do Senhor; sobre o Teu povo seja a Tua bênção”.

Salmos 3:1-8.

Davi e todo o seu grupo — guerreiros e estadistas, velhos e jovens, mulheres e crianças — nas trevas da noite atravessaram o rio profundo e correntoso. “Pela luz da manhã nem ainda faltava um só que não passasse o Jordão”. 2 Samuel 17:22.

Davi e sua força recuaram a Maanaim, que tinha sido a sede real de Isbosete. Esta era uma cidade poderosamente fortificada, rodeada de uma região montanhosa, favorável à retirada em caso de guerra. O território era bem provido, e o povo era amigo da causa de Davi. Ali muitos partidários se uniram a ele, enquanto ricos chefes de tribos vizinhas traziam abundantes presentes de provisões, e outros suprimentos necessários.

O conselho de Husai conseguira seu objetivo, obtendo para Davi oportunidade para escapar; mas o príncipe, precipitado e impetuoso, não pôde por muito tempo ser restringido, e logo se pôs em perseguição de seu pai. “E Absalão passou o Jordão, ele e todo o homem de Israel com ele”. 2 Samuel 17:24. Absalão constituiu comandante-geral de suas forças a Amasa, filho de Abigail, irmã de Davi. Seu exército era grande, mas indisciplinado, e mal preparado para competir com os soldados experimentados de seu pai.

Davi dividiu suas forças em três batalhões sob o comando de Joabe, Abisai, e Itai, o geteu. Tinha sido seu propósito conduzir ele mesmo seu exército ao campo; mas contra isto os oficiais do exército, os conselheiros e o povo veemente protestaram. “Não sairás”, disseram, “porque, se formos obrigados a fugir, não porão o coração em nós; e, ainda que metade de nós morra, não porão o coração em nós, porque ainda, tais como nós somos, ajuntarás dez mil. Melhor será, pois, que da cidade nos sirvas de socorro. Então Davi lhes disse: O que bem parecer aos vossos olhos, farei”. 2 Samuel 18:3, 4.

Dos muros da cidade, as longas fileiras do exército rebelde estavam bem à vista. O usurpador era acompanhado de uma hoste vasta, em comparação com a qual a força de Davi não parecia senão um punhado. Mas, olhando o rei para as forças oponentes, o pensamento máximo em seu espírito não era a coroa e o reino, nem sua própria vida, que dependia da ação da batalha. O coração do pai estava cheio de amor e compaixão para com seu filho rebelde. Saindo em fileiras o exército pelas portas da cidade, Davi animou os seus fiéis soldados, mandando-lhes que saíssem confiantes em que o Deus de Israel lhes daria a vitória. Mas mesmo agora ele não pôde reprimir seu amor para com Absalão. Quando Joabe, o vencedor em cem campos de batalha, conduzindo a primeira coluna, passou pelo seu rei, curvou a altiva cabeça para ouvir sua última mensagem, que dizia com voz trêmula: “Brandamente tratai por amor de mim ao mancebo, a Absalão.” E Abisai e Itai receberam a mesma incumbência: “Brandamente tratai por amor de mim ao mancebo, a Absalão.” Mas a solicitude do rei, parecendo declarar que Absalão lhe era mais caro do que seu reino, e mais caro mesmo do que os súditos fiéis ao seu trono, apenas aumentou a indignação dos soldados contra o filho desnaturado.

O local da batalha foi um bosque próximo do Jordão, em que o grande número do exército de Absalão apenas lhe era uma desvantagem. Por entre os pontos espessos e os pantanais da floresta, aquelas tropas indisciplinadas se tornaram confusas e não mais podiam ser dirigidas. E “foi ferido o povo de Israel, diante dos servos de Davi; e naquele mesmo dia houve ali uma grande derrota de vinte mil”. 2 Samuel 18:5, 7. Absalão, vendo que era perdida a causa, voltara-se para fugir, quando a cabeça lhe foi apanhada entre os ramos de uma árvore larga; e, saindo seu mulo de debaixo dele, foi deixado desamparadamente suspenso, como presa a seus inimigos. Em tal condição foi encontrado por um soldado, que, de medo de desagradar o rei, poupou Absalão, mas referiu a Joabe o que vira. Joabe não se restringiu por quaisquer escrúpulos. Havia favorecido a Absalão, tendo duas vezes conseguido sua reconciliação com Davi; e a confiança assim manifesta para com ele fora vergonhosamente traída. Se não fossem as vantagens alcançadas por Absalão mediante a intercessão de Joabe, esta rebelião, com todos os seus horrores, jamais poderia ter ocorrido. Agora estava nas mãos de Joabe destruir com um golpe o instigador de todo este mal. “E tomou três dardos e traspassou com eles o coração de Absalão. […] E levaram Absalão, e o lançaram no bosque, numa grande cova, e levantaram sobre ele um mui grande montão de pedras”. 2 Samuel 18:14, 17.

Assim pereceram os instigadores da rebelião em Israel. Aitofel morrera pela sua própria mão. O príncipe Absalão, cuja gloriosa beleza fora o orgulho de Israel, foi eliminado no vigor da juventude, sendo seu cadáver arremessado em uma cova, e coberto com um monte de pedras, em sinal de ignomínia eterna. Em vida, construíra Absalão para si um custoso monumento no vale do rei; mas a única lembrança que assinalou a sua sepultura foi o monte de pedras no deserto.

Morto o chefe da rebelião, Joabe chamou novamente seu exército, ao som da trombeta, da perseguição à hoste fugitiva, e logo foram expedidos mensageiros para levarem a notícia ao rei.

A sentinela sobre o muro da cidade, olhando para o campo de batalha, descobriu um homem a correr sozinho. Logo um segundo veio a ser visto. Aproximando-se o primeiro, o atalaia disse ao rei, que estava a esperar junto à porta: “Vejo o correr do primeiro, que parece ser o correr de Aimaás, filho de Zadoque. Então disse o rei: Este é homem de bem, e virá com boas-novas. Gritou pois Aimaás, e disse ao rei: Paz. E inclinou-se ao rei com o rosto em terra, e disse: Bendito seja o Senhor, que entregou os homens que levantaram a mão contra o rei meu senhor.” À ansiosa pergunta do rei: “Vai bem com o mancebo, com Absalão?” Aimaás deu uma resposta evasiva.

O segundo mensageiro chegou, clamando: “Anunciar-se-á ao rei meu senhor que hoje o Senhor te vingou da mão de todos os que se levantaram contra ti.” Novamente veio dos lábios do pai a pergunta que o absorvia: “Vai bem com o mancebo, com Absalão?” Sem poder esconder a triste notícia, o arauto respondeu: “Sejam como aquele mancebo os inimigos do rei meu senhor, e todos os que se levantam contra ti para mal.” Era bastante. Davi não fez mais perguntas, mas com a cabeça baixa “subiu à sala que estava por cima da porta, e chorou; e andando, dizia assim: Meu filho Absalão, meu filho, meu filho, Absalão! quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho!” 2 Samuel 18:14-33.

O exército vitorioso, voltando do campo de batalha, aproximou-se da cidade, despertando suas aclamações de triunfo ecos nas colinas. Mas, ao entrarem pelas portas da cidade, findaram-se as aclamações, arrearam-se as bandeiras, e com o olhar baixo avançaram mais como os que sofreram derrota do que como vencedores; porque o rei não os estava esperando a fim de dar-lhes boas-vindas, mas do quarto em cima da porta ouvia-se o clamor de seu pranto: “Meu filho Absalão, meu filho, meu filho, Absalão! quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho!” 2 Samuel 18:33.

“Então a vitória se tornou naquele mesmo dia em tristeza para todo o povo, porque naquele mesmo dia o povo ouvira dizer: Mui triste está o rei por causa de seu filho. E aquele mesmo dia o povo entrou às furtadelas na cidade, como o povo de vergonha se escoa quando foge da peleja”. 2 Samuel 19:2, 3.

Joabe ficou cheio de indignação. Deus lhes dera motivo de triunfo e alegria; a maior rebelião que já fora conhecida em Israel tinha sido suprimida; e no entanto esta grande vitória se transformara em lamentação por aquele cujo crime custara o sangue de milhares de bravos. O rude e áspero capitão encaminhou-se para a presença do rei, e disse com ousadia: “Hoje envergonhaste as caras de todos os teus servos, que livraram hoje a tua vida, e a vida de teus filhos, e de tuas filhas, […] amando tu aos que te aborrecem, e aborrecendo aos que te amam. Porque hoje dás a entender que nada valem para contigo capitães e servos; porque entendo hoje que se Absalão vivesse, e todos nós hoje fôssemos mortos, então bem te parecera aos teus olhos. Levanta-te, pois, agora; sai, e fala conforme ao coração de teus servos. Porque pelo Senhor te juro que, se não saíres, nem um só homem ficará contigo esta noite; e maior mal te será isto do que todo o mal que tem vindo sobre ti desde a tua mocidade até agora”. 2 Samuel 19:5-7.

Severa e mesmo cruel como foi a censura ao rei, ferido em seu coração, não se ressentiu Davi com a mesma. Vendo que seu general tinha razão, desceu à porta, e com palavras de coragem e aprovação saudou seus bravos soldados enquanto passavam diante dele.

BLOG DA SEMANA 11/12/2016 – sobre Patriarcas e Profetas, cap. 71

“Um homem segundo o coração de Deus” (Atos 13:22) é a honra dada a Davi, a única pessoa na Bíblia a quem Deus trata dessa maneira. Depois do adultério de Davi, o assassinato de Urias para encobri-lo e seus pecados escondidos por um período de tempo, poderíamos dizer que Davi era realmente um homem segundo o coração de Deus?

Para aqueles que apenas se concentram no pecado de Davi, Deus deve ter um caráter estranho. Mas não foi o pecado que definiu Davi, foi o coração arrependido que aliou Davi tão intimamente ao coração de Deus. Em Davi havia ternura e desejo de seguir a Deus. Davi cometeu o mesmo erro que todos nós fazemos quando ficamos seduzidos por nossas tentações e seguimos por uma estrada que nunca esperávamos viajar.

Deus nunca desiste, e é por isso que Ele enviou Natã para confrontar Davi. A resposta de Davi à condenação de Deus foi um coração penitente. Davi estava ansioso para ser reconciliado com Deus após a dor e separação que ele experimentou de suas ações. Ele se arrependeu (Sl 51), sofreu as conseqüências de seu pecado (2Sm 12:11,14) e foi restaurado em seu relacionamento com Deus.

Você também pode ser uma pessoa segundo o coração de Deus. A evidência será um coração sensível que responde ao Espírito Santo e deseja Deus acima de todas as coisas (Sl 27:4). Nenhuma palavra maior poderia ser falada de você do que ser uma pessoa ligada a Deus como Davi.

Dean Waterman
Diretor de Desenvolvimento
Southwestern Adventist University

Texto original: http://www.revivalandreformation.org/bhp/en/sop/pp/71
Tradução: Gisele Quimelli